Como toda cidadezinha do interior, Marilândia era simpática, com moradores simples e estilo de vida pacato. Seus habitantes conversavam por horas na porta de suas residências e nos bancos da praça. Apesar de ter veículos transitando, as bicicletas eram o meio de locomoção mais usado ali. Para ser bem exato, Marilândia ficava à 300 quilômetros ao sul da capital. Entra daqui, entra dali, vira acolá e, por fim, depois de muitos mata-burros, buracos, morros e estradas de terra, você chegava ao seu destino. A entrada da cidade tem um grande arco, com a pintura desbotada, um azul meio fosco que não resistiu ao tempo. Bem-vindo a “Marlâdia”, dizia o arco, pois as letras I e N já tinham sucumbido às décadas da inauguração. O arco ficava bem no meio da principal rua, ainda de pedra, empoeirada, mas com um charme de cidade do interior. Junto ao nome, uma mensagem bíblica dava as boas-vindas aos visitantes. Duas árvores ao lado do arco faziam sombra e serviam de dormitório para alguns cães vadios que a cidade acolheu. Como de costume, a igreja matriz sempre era a maior referência. As casas ainda eram em estilo antigo, casebre mesmo, muros baixos e algumas com janelas bem próximas a calçada. Porém, algumas construções grandes ainda restavam, herança das ricas famílias que já comandaram este lugar.

Historicamente, Marilândia era rota da cana-de-açúcar e vivia da renda que as plantações de banana geravam. Toda a mão de obra e riqueza produzida na cidade era oriunda das plantações e das empresas agrícolas de cana-de-açúcar. Os grandes empresários da época vinham de longe comprar os produtos daqui da cidade. Atualmente, apenas pequenos produtores ainda permanecem vivendo disso, principalmente das bananas. A globalização atingiu em cheio Marilândia. O bom é que a cidade soube se reinventar. Atualmente, conta com uma fábrica de calçados, roupas infantis e até uma empresa de lâmpadas fluorescentes.

Durante todo o ano, a cidade transbordava tranquilidade, sombra e água fresca. Em busca de sossego, virou destino de turistas do país inteiro. Não tinha muitos parques ou sítios, mas o rio Piracicaba era um atrativo para quem gostava de programas assim, como acampamentos, caminhadas ecológicas e pescarias. Eco turismo, em uma linguagem moderna. Há alguns anos, Marilândia começou a receber muitos turistas no período carnavalesco, gerando uma aglomeração de pessoas jamais vista. Porém, os moradores não gostaram da ideia, que logo foi suprimida. Gostavam da ideia de ser uma rota do sossego e assim decidiram continuar.

Quando acontecia um casamento, a cidade parava para celebrar. Sabe aquele papo onde todo mundo conhece todo mundo? Não era bem ao pé da letra, mas próximo. Certa vez, um homem da capital se apaixonou por uma moça daqui e resolveu casar. Maria Rita da Conceição Amaral, mais conhecida como Ritinha, era filha do senhor Marcone, auxiliar de serviços gerais do padre Sérgio. Qualquer manutenção necessária na igreja matriz era Marcone o encarregado. E o homem ficou feliz demais com o casamento da filha. Claro, abençoada pelo Padre Sérgio. O amor era tanto que o noivo fez a maior festa que a cidade já celebrou. O moço era endinheirado e a lista de convidados foi enorme. A igreja ficou irreconhecível, toda decorada com adereços vindos diretamente da capital. Ninguém sabia ao certo o que o noivo fazia, apenas que exalava dinheiro. Muitos carros de luxo vieram da capital até Marilândia para a cerimônia. Até mesmo os bêbados notórios da cidade conseguiram uma “boquinha” e experimentaram bebidas de qualidade, bem diferente das pingas diárias que eles bebiam. Do padre à professorinha da escola primária, todos participaram da festança. A moça se casou e foi embora com o homem do dinheiro, deixando para atrás seus parentes e os caipiras admiradores.

Anos depois, Ritinha voltou a Marilândia, mas para sepultar o papai Marcone, que faleceu fazendo o que mais gostava: cuidado da igreja, junto com o Padre Sérgio. Um ataque do coração fulminante acabou com a história do Marcone. Ritinha trouxe consigo os dois filhos, mas o noivo não veio. Estava mais bonita que antes, com seus colares, joias e um carro luxuoso, que tinha até um motorista particular. Apesar da tristeza, cumprimentou a todos de forma efusiva, relembrando sua época de caipira. Ritinha foi um exemplo de pessoa que não deixou o dinheiro subir a cabeça.

Daquele dia, consigo me lembrar apenas do tombo que tomei ao tentar montar o Furacão, um cavalo bravo que tínhamos em casa. Grande, imponente e negro, um cavalo de dar inveja. Tinha postura de campeão, marchava como um soldado e dificilmente exibia problemas de saúde. Com manchas brancas nas patas e próximo à boca, que lhe parecia um bigode, só meu pai, o saudoso Haroldo, era capaz da proeza de montar o bicho. Furacão e meu pai tinham uma ligação além da vida, sempre tive certeza disso. A conexão entre os dois era nítida. O equino era um doce com o velho Haroldo e um legítimo furacão com outros. Ninguém era capaz de dominar o cavalo, além do meu pai. Nem dar banho era possível. Quando meu pai morreu, o bicho sentiu bastante a falta do dono. Comia pouco, passou a ficar isolado no fundo do celeiro, sem deixar ninguém chegar perto. E foi sucumbindo até um dia eu encontrá-lo sem vida no fundo da baia. E mesmo morto, Furacão deu trabalho. Eu era o único que estava em casa na época e me sobrou a tarefa de enterrar o bicho. Saudades do meu pai e também da braveza do Furacão.

Fora os casamentos, apenas comemorações da igreja movimentavam a pacata Marilândia. O último censo indicou menos de dez mil habitantes, contando as galinhas e vacas. Por falar nisso, eu tinha uma relação amistosa com as galinhas. Mas não é nada com o que você está pensando. As galinhas eram minhas confidentes. Gostava de conversar com elas. Sempre tive a impressão que elas me entendiam, pois ficavam quietas escutando tudo que eu dizia. As vezes saia um “Có” e eu me empolgava, pois tinha certeza que era uma resposta consciente delas. E quando era um “CóCóCó”? Ah, até vibrava, era a certeza do entendimento da conversa. Falava por mim e respondia por elas. Por mais engraçado que pareça ser, aquilo me trazia paz. Era muito comum que ao me procurar, meus pais me encontrassem próximo do galinheiro. E era cada conversa que eu tinha com elas que parecia uma roda de amigos humanos. Ficava mais resiliente depois de desabafar com as galinhas.

Amigos humanos? Poucos. Nunca fui um sujeito de muitos amigos. Era retraído, tímido, um “Zé Bobo”, na linguagem maldosa dos homens. O que o mundo descobriu hoje como Bullyng, eu já sabia desde a década de 70. “Encantador de galinhas”, “menino sem língua” ou “boca colada” fazia parte da lista dos apelidos da minha infância. Com o tempo, aprendi a me comunicar melhor e encontrei na escrita uma forma de me expressar com mais facilidade. Até porque não poderia viver em galinheiros ao redor do mundo e muito menos levar uma penosa em todo lugar que eu fosse. Hoje não sou um locutor esportivo ou um mestre de cerimônias, mas consigo dialogar de forma tranquila, sem esperar um “CóCó” como resposta.

Meu nome? Fredderyco Vortis da Silva, prazer. Sim, a grafia do meu nome é bem estranha. Mãe disse que uma vez viu um desses bonitões na TV e ficou com o nome na cabeça. Resolveu batizar o caçula com essa coisa esquisita. Uma vez perguntei minha avó materna, Dona Maria das Dores, conhecida como “Vó das Dores”, se meu pai não achou estranho a escolha, mas a avó respondeu que estranho mesmo foi ver o pai lá no cartório, pois no dia anterior ao nascimento bebeu até espumar em comemoração e dormiu largado no fundo da cozinha, abraçado com os cães. Nem deve ter reparado quando a moça do cartório pediu para assinar. Minha avó diz que a mãe falava apenas “Fred” durante a gravidez e o pai realmente acreditou que seria “Fred”. A avó Das Dores disse que o pai até achava Fredderyco bonito quando a mãe revelou a intenção do batismo, mas no dia do registro não reparou muito bem no exagero das consoantes do nome escrito em um papel, entregue nas mãos da funcionária do cartório. E eu? Ah, sempre achei estranho, mas nunca foi algo que me incomodava.

O que realmente me tirava do sério era ser chamado de amigo das galinhas. E não era para incomodar, já que eu, de fato, gostava das galinhas. Ser conhecido como “Zé das Galinhas” e não como Fredderyco foi algo inevitável. Aquilo sim me incomodava bastante, porém, não sabia como lidar. Era incapaz de revidar… “Zé Bobo”… Apenas ficava calado com as gozações. O silêncio foi se tornando algo bem marcante da minha personalidade. Minha avó Das Dores, nunca reclamou do meu profundo silêncio. Acho que ela até gostava, pois além de quieto, sempre fui obediente.

A avó Das Dores morava conosco há muitos anos, até antes mesmo do meu nascimento. Tinha a expressão facial fechada, séria, mas era bastante brincalhona e adorava contar histórias para os netos. Muito expressiva, fazia caras e bocas na hora de contar versões mirabolantes de fatos que nunca sabíamos se era verdade ou invenção. Ah, conseguia levantar apenas uma única sobrancelha sem fechar os olhos, aquilo me assustava. Eu ficava horas no espelho tentando fazer o mesmo. Maria das Dores Vortis era inteligente e muito religiosa. Estava sempre com um terço nas mãos. Seus setenta e sete anos e cabelos por inteiros brancos tinham história. Só não dava para saber se era verdade ou invenção. A velha era uma nata contadora de casos. Nunca perguntei o motivo da nossa avó morar conosco, mas como foi assim desde sempre, não me incomodava. Entretanto, já tinha ouvido meu pai Haroldo resmungar algumas vezes. A verdade é que pai e sogra se entendiam. Às vezes, algumas faíscas, porém se entendiam e a convivência era pacífica. Minha avó respeitava a autoridade do meu pai e o pai respeitava as opiniões de minha avó.

Por falar em Haroldo, este era meu pai. Não era alto, pouco mais de 1 metro e setenta, porém corpulento, quase pesava em arrobas, dizia minha avó em tom de piada. Serviu a Marinha enquanto jovem e também se especializou em pinturas e restaurações de móveis. Era ele quem Marcone, o encarregado da igreja matriz, pai da Ritinha, convocava quando precisava de ajuda com as tintas nas paredes e arredores da sacristia. Com pouco mais de vinte anos, após casar com minha mãe, Haroldo tomou gosto pelo trabalho da roça, mas nunca deixou de exercer a atividade de pintor, sempre que podia. Encontrou no trabalho da fazenda uma forma de sustentar a família. Era bom no laço e dominava os bovinos e equinos, traços que nunca consegui herdar. Sim, eu não era de cair do cavalo, mas não desenvolvia tão bem as atividades como ele. Mesmo não falando muito, gostava de acompanhar meu pai com as atividades da roça. Acho que meu pai gostava porque eu obedecia e raramente reclamava. Sinto muitas saudades de ajudar meu pai com os afazeres da fazenda. A gente se entendia bem.

Além de mim, tenho mais dois irmãos, Maria de Fátima e Antônio, com quem sempre me dei muito bem, apesar das brigas normais entre consanguíneos. Maria de Fátima e Antônio resolveram tentar a sorte grande na capital assim que completaram os dezoito anos. Eu tinha medo da cidade grande, medo de arriscar em meio aquela confusão. A vida na roça era confortável para mim. O “Zé Bobo” tinha medo de tudo e preferiu continuar na roça, vivendo os lances e nuances da cidade pequena. Me sentia seguro na presença da avó Maria das Dores e de meus pais. E o que tinha de mal nisso? Era errado gostar de viver ali? Confesso que nunca fui ambicioso como meus irmãos.

É claro que isso tudo mudou depois dos acontecimentos. Antes disso, nunca pensei em sair da cidade que nasci. Marilândia era minha história de vida, fazia parte da minha essência. A igreja matriz, o armazém, a farmácia e até mesmo o bar, de onde saía as melhores histórias, sempre após uma dose amarga da autêntica pinga da roça. Tudo aquilo faz parte de mim. Não conseguia virar as costas para isso. Ficava com receio de deixar minha mãe sozinha, afinal de contas era o caçula, apegado a família, principalmente a mãe, Marina.

Não falei da minha mãezinha, não é? Minha mãe Marina tinha cabelos pretos, não longos, mas até o pescoço. Com sessenta anos, tinha orgulho dos seus poucos fios brancos. Por toda sua vida foi a mãe exemplar. Cuidava da casa como ninguém e educou os filhos com afinco e fios de nylon. É, a gente era roceiro, mas muitas vezes dávamos trabalho para a mãe. E o fio de nylon era sempre a sentença mais cruel. Meu Deus, como era dolorido. O vergão na pele demorava horas para sumir. E sabe o pior? Era saber que quando o pai voltasse da roça aconteceria outra vez. Poxa, duas surras no dia era injusto. Bem, dependia muito da bagunça, não é mesmo? Eu reclamo, porém muitas vezes era a mãe que salvava a gente dos castigos do pai.

Fora as surras com fios de nylon, Marina cuidou da família da melhor forma possível. Magra, gostava de dançar e muitas vezes, ao som de cantores da época, puxava o meu pai da poltrona para rodopiar na sala. Pé de valsa, adorava quando acontecia algum evento da igreja na cidade. Aproveitava para movimentar o esqueleto. E meu pai? Ficava tímido no início, mas depois de uma dose amarga de pinga, se soltava e dançava junto com a mãe. Era engraçado a volta para casa da nossa família. Geralmente, minha mãe e avó rebocando o meu pai, tropicando na própria sombra. Eu e meus irmãos comentando algo engraçado que sempre acontecia nestas festas. Era a oportunidade que o povo de Marilândia tinha de se divertir.

Durante toda a minha vida em Marilândia trabalhei em diversos lugares. Quando criança, entregava as compras do mercado da cidade na residência de quem tinha dificuldade para se locomover. Aquilo pra mim era diversão. Com uma Monark antiga, rodava toda a cidade levando arroz, pão, farinha, mandioca e o que o cliente precisasse. Trazia de volta o dinheiro e o Sr. Elmo, proprietário, me dava uns trocados. O Sr. Elmo era legal, mas gostava das coisas bem certas. Porém, era muito bondoso. Nunca se furtou de vender comidas a nossa família e deixar o pagamento para depois.

Ao completar quatorze anos, já estava com o corpo em formação adulta e minha avó sugeriu trabalhar na roça com meu pai, que começava a fraquejar e sentir o cansaço da idade. Aceitei de imediato. Minha rotina era metódica. Acordava cedo, por volta das quatro e meia da manhã, preparava um café e comia sempre um pão com presunto e queijo. Meu pai, que se levantava um pouco antes, saía primeiro e selava os dois cavalos para as atividades diárias. Após a primeira refeição do dia, seguia até onde as vacas ficavam confinadas para extrair o leite. Depois disso, levava os animais para o pasto. Por fim, o leite armazenado era transportado até a cidade para ser vendido. Antes deixava um pouco em casa, pois a mãe e avó também produziam queijos e doces, complementando nossa renda. De vez em quando o pai ficava na fazenda para consertar algo, como cercas, carroças, telhados, entre outros afazeres. E eu era o encarregado de ir até o centro para fazer as vendas. Essa era minha rotina durante algum tempo, até a terrível morte de meu pai, momento em que assumi mais responsabilidades e me tornei o homem da casa.

***

Já era quase cinco da tarde. Estávamos terminando o pastoreio e nos preparando para trazer de volta o gado para o celeiro em meio à roça. Meu pai pastorava por cima do local onde os bovinos pastavam, quase rente a cerca que dividia a fazenda da estrada de terra, reunindo os bois na direção ao caminho de volta. E eu fazia o mesmo, porém um pouco mais para baixo, evitando que alguns se perdessem e laçando os rebeldes que insistiam em não se juntar aos outros. Geralmente, entre o laço e a organização dos animais não passava de uns trinta minutos, no máximo.

Eu tinha acertado o laço certeiro em um dos bois rebeldes quando ouvi um estrondo. Foi um barulho forte, como uma dessas bombas que os jovens chamam de “garrafão”. Assustado, olhei para a direção em que estava meu pai. Avistei apenas uma forte luz branca, que se transformou em chamas, labaredas altas, com mais algumas pequenas explosões. Não entendi o que tinha acontecido para algo provocar o fogo, não usávamos nada inflamável para reunir o gado, achei aquilo estranho. Em cima do cavalo, fui tentando chegar mais próximo de onde estava meu pai para saber o que era aquilo. Mas um zunido alto me fez colocar as mãos nos ouvidos e me derrubou do cavalo. Por Deus, nunca tinha sentido uma dor daquelas nos ouvidos. Era tão alto que me deixou atordoado. Sem conseguir segurar as rédeas e com o balanço do cavalo, caí por cima do meu ombro direito, além de torcer o tornozelo. A dor irradiou meu corpo. Tive que me arrastar pelo mato, até chegar perto de uma árvore para enxergar melhor, me recompor e conseguir subir novamente no cavalo. Os outros animais, vacas e bois estavam agitados, mas não correram, apenas ficavam de um lado para o outro, como se estivessem em um cercado imaginário.

Próximo dali, vi uma labareda, com faíscas saindo pelos lados. Não consegui enxergar o que era, mas uma silhueta se movimentava entre as chamas. Entrei em desespero, pensei que era meu pai pegando fogo, mas antes mesmo de tentar correr até ele, ouvi sua voz gritando algo indecifrável e correndo para tentar subir no Furacão. De longe, vi algo acertando meu pai e o derrubando ao chão, parecia correntes. Mesmo com muita dor, consegui me arrastar e subir no cavalo. Avistei meu pai caindo ao solo e segundos depois a enorme chama de fogo diminuiu consideravelmente, se tornando apenas uma pequena fogueira. Sem nenhum motivo, o cavalo em que eu estava resolveu se rebelar e não queria de maneira alguma chegar perto do local e acabou me derrubando outra vez. Com sacrifício, consegui me levantar e, mancando muito, chegar próximo onde meu pai estava. Durante o caminho, enxerguei a enorme labareda se apagar de vez. O cheiro de queimado se fazia pelo ar. O local onde vi o fogo estava apenas com fuligem, sem sinais de uma fogueira ou algo assim. O zumbido tinha acabado e os animais estavam calmos novamente, como se nada tivesse acontecido.

Meu pai estava caído ao chão. Não estava morto, respirava com dificuldade. Com os olhos arregalados e tremendo muito, balbuciava, como se estivesse tentando me dizer algo. Sem saber o que fazer, segurei suas mãos, perguntando o que tinha acontecido. Ele tentava falar, mas não conseguia. Sua respiração estava ofegante, procurava puxar o ar, mas parece que nada passava pelas suas narinas. Desesperado, olhei para o meu redor e só vi mato, boi, mato e vaca. Não tinha à quem recorrer. Chorei, chorei como um menino de quatorze anos, vendo meu pai morrer na minha frente, sem que eu pudesse fazer algo. Sem conseguir respirar, o rosto de meu pai foi começando a ficar roxo e seus olhos arregalados quase saltavam para fora. Salivava bastante, em esforçadas tentativas de dizer alguma coisa, que não consegui entender de jeito nenhum. Segundos depois, puxou o ar de forma forte e profunda e logo depois sua respiração parou. Seu corpo amoleceu em meus braços. Meu pai morreu apertando minhas mãos, sem conseguir dizer uma palavra de despedida.

Fiquei ali, sentado no chão, com meu pai no colo por vários minutos, até que não tivesse mais nenhuma lágrima para chorar. Levantei e coloquei suas mãos sobre o peito, em forma cruzada e seu chapéu sobre o rosto. Tentei me recompor, pensar no que fazer. Pensei em colocá-lo em cima do cavalo e levar o corpo até nossa casa. Porém, meu pai era corpulento, não seria surpresa se pesasse mais de 100 quilos. E com meu ombro e tornozelo machucados, não seria tarefa fácil. Também pensei em envolver o corpo com folhas de bananeiras e com uma corda ir puxando. Desisti. Não queria que o corpo do meu pai sofresse mais, como se isso fosse possível. Naquele dia eu confirmei o que eu desconfiava: a ligação extrema e sobrenatural que o pai tinha com Furacão. O cavalo relinchava, às vezes ficava apenas nas patas traseiras, bem próximo ao corpo. Batia com as patas no chão, como se clamasse para meu pai se levantar. Furacão sabia que seu velho amigo tinha ido embora. Chorei ainda mais vendo aquela cena. Nunca mais esqueci.

Andei alguns metros até perto da estrada que dava acesso a outras fazendas. Sentei em uma pedra e torci para que alguém aparecesse para pedir ajuda. Felizmente, alguns minutos depois apareceu. Era Mardoqueu, filho do senhor Isaías, roceiro de uma fazenda próxima da minha casa. Mardoqueu estava em uma carroça, levando algumas ferramentas de volta para a fazenda. Inicialmente, não acreditou em minha história, rindo da minha cara, mesmo comigo aos prantos, mas percebeu que não se tratava de brincadeira quando avistou o corpo de meu pai, deitado, imóvel, apenas com o chapéu cobrindo o rosto. Fez o sinal da cruz várias vezes e respirou fundo ao retirar o chapéu e ver o rosto de meu pai, roxo e com os olhos esbugalhados. Ajoelhei e voltei a chorar sobre o corpo, que já estava ficando frio. Mardoqueu agachou-se próximo de mim e com a mão em meus ombros perguntou:

— O que vamos fazer?

Suspirei fundo, olhei novamente para o mato ao meu redor e respondi:

— Será que conseguimos colocá-lo na carroça? Preciso levar até a minha casa.

— Não é melhor chamar alguém? Posso ir até a fazenda buscar ajuda — Ofereceu Mardoqueu.

— Já vai escurecer. Como ficar aqui no escuro? — Questionei.

Mardoqueu pensou um pouco e concordou. Voltamos até a estrada, onde abrimos uma passagem na cerca de arame para que a carroça pudesse passar. Ele pelo braço e eu segurando as pernas, colocamos o corpo do meu pai na carroça e seguimos caminho até a fazenda. Sempre que o cavalo dava solavancos, Mardoqueu olhava para trás, assustado, preocupado com o corpo. Eu? Apenas observava a situação, ainda incrédulo. Meus pensamentos estavam longes dali. Lembranças, memórias e ainda não acreditando em tudo que estava acontecendo. Em determinado momento lembrei dos bois, vacas e dos cavalos que esquecemos no pasto. Não me preocupei. O máximo que aconteceria era ter que buscá-los amanhã, bem mais longe do que deveriam. Ah, sabe um detalhe curioso? O cavalo que estava comigo e o Furacão não precisaram de condução. Milagrosamente vieram atrás da gente, como se soubessem o que tinha acontecido, seguindo a carroça como uma procissão de igreja do Padre Sérgio. E assim cheguei até minha casa, sem falar uma palavra sequer.

Ao chegar na porta de casa, chamei minha mãe e minha avó desesperado e contei o fato. Com os olhos arregalados, as duas nem esperaram eu terminar a história e correram para próximo da carroça para conferir. A mãe não acreditava, apenas chorava muito com as mãos sobre o corpo de meu pai. A avó Maria das Dores, com um terço na mão e a outra tapando a boca, apenas observava, sem acreditar naquilo tudo. Por fim, minha avó não segurou o choro. Fui amparar minha mãe.

Enquanto a abraçava, minha avó perguntou mais detalhes do acontecido. Não expliquei em detalhes, mas foi perceptível a mudança em seu semblante quando terminei de contar os fatos, citando o fogo, a explosão. Apesar de estar em choque, percebi que minha avó mudou o olhar. Ela chegou próximo do corpo e afastou alguns centímetros a camisa que meu pai usava. Tinha uma cicatriz do lado direito, não era uma letra, era um símbolo, como uma marca de gado, feito a ferro quente e ainda pingava sangue. Eu não havia reparado nenhuma marca no corpo de meu pai, estava atordoado, assustado e tinha a minha mãe para acudir naquele momento. A avó assustou e deu dois passos atrás, segurando o terço mais forte. Quando percebeu que eu a observava, a avó Das Dores tentou disfarçar, abaixando a cabeça e iniciando uma oração. Porém, perdi a atenção quando minha mãe, desesperada, abraçou meu pai morto. Chorando junto, tentava amparar minha mãe naquele momento de tristeza.

Mardoqueu nos ajudou a retirar o corpo e colocar em sua cama, pois precisava da carroça para chegar até a fazenda e assim avisar os outros do acontecido. Por falar em outros, não tínhamos telefone. Naquela época, era impensável que uma família da roça teria algo assim em casa. Mas havia uma forma de se comunicar com outras pessoas próximas da região: fogos de artifício. Coube a mim a tarefa. Deixei minha mãe no quarto, chorando bastante ao lado do corpo. Fui até o fundo da casa, acendi todos os foguetes que estavam guardados em uma caixa. Não consegui contar, mas foi uma quantidade boa de fogos, um barulho e tanto. Talvez por isso a quantidade de pessoas que apareceram em um curto espaço de tempo foi enorme. Em menos de trinta minutos, nossa casa já estava cheia, com todos os roceiros e amigos das fazendas próximas chegando. Uns em seus cavalos, outros de bicicletas e também carroças. A varanda de minha casa estava sem espaço para tantas pessoas e seus meios de locomoção. No momento em que cada um recebia a notícia, já na porta, o movimento era o mesmo: retirar o chapéu da cabeça, cumprimentar minha mãe e ir até o quarto ver o corpo de meu pai.

Com a casa cheia, fui o responsável por servir alguns quitutes para os convidados que velavam meu pai. Fiz várias garrafas de café e minha avó fritou biscoitos de maisena servidos com pedaços de queijo. E assim foi toda a madrugada. Perdi as contas de quantas vezes contei como tudo aconteceu. Para evitar uma explicação que não tinha, não citei a explosão ou fogos. Apenas disse que vi meu pai cair do cavalo. Eu não sabia o que tinha acontecido, como poderia explicar? Evitei a fadiga e o sofrimento. Foi melhor assim, um ataque do coração, fim.

Um dos momentos mais tristes foi a chegada do caixão logo pela manhã. Eu não quis assistir aquela cena e também não deixei que minha mãe assim fizesse. Colocaram o caixão em dois pedestais no meio da sala e as orações começaram. Padre Sérgio foi o encarregado do ritual. Ah, o caixão foi comprado pelo Sr. Elmo como cortesia, soube disso por Mardoqueu. O pároco da cidade, Padre Sérgio, molhava um ramo de planta na água benta e jogava sobre o corpo do velho, enquanto lia alguns salmos. Minha mãe, coitada, ao lado do caixão apenas ouvia e balançava a cabeça em sinal de concordância com as palavras do padre. Meu pai foi enterrado com a melhor roupa, aquelas usadas somente em ocasiões especiais. Uma calça de linho, cor preta e uma camisa de manga longa azul-escuro. E o seu inseparável chapéu.

Porém, algo me chamou a atenção: Minha avó, Maria das Dores, com o seu infalível terço nas mãos, estava quieta e com um semblante sério. Não a vi chorar em nenhum momento. Ficou o tempo todo olhando para o corpo do meu pai, sem falar uma palavra, apenas rezando. Achei aquilo tudo muito estranho pois a avó nunca teve problemas sérios com meu pai, apesar de algumas discussões de ambos por vários motivos. Contudo, estava muito triste para raciocinar naquele momento. Cheguei próximo a avó e perguntei se ela estava bem. Ela não respondeu de imediato. Mas quando tentei conversar com ela sobre o que tinha visto, minha avó me interrompeu e falou sério, olhando no fundo dos meus olhos:

— Concedei-nos Senhor, serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, coragem para modificar aquelas que podemos e sabedoria para distinguirmos umas das outras.

Resolvi não conversar mais com minha avó naquele momento. Não estava entendendo nada. O momento era apenas de tristeza, e eu não conseguiria pensar em nada naquela hora. E assim terminou a história do velho Haroldo, com seu caixão descendo à sepultura às 16:27 da tarde no cemitério da cidade. Minha tristeza não cabia em meu peito. Abraçado com minha mãe, voltamos para a casa sem conseguir dizer uma palavra sequer.

Após cada um tomar um banho, nos recolhemos para dormir a primeira noite sem meu pai. Minha tia Lucinha, irmã de minha mãe, resolveu passar esta noite conosco para nos ajudar. A tia morava em São João de Charles Liray, uma cidade maior próxima Marilândia. A tia Lucinha estava sempre presente conosco, nos aniversários, comemorações, almoços de domingo. Nunca esqueceu nenhuma data comemorativa e sempre enviava cartas. Era muito parecida com a minha mãe fisicamente. A tia fez um chá de camomila para tranquilizar a mãe e nos reunimos na cozinha para uma oração antes de irmos dormir. Contudo, fomos surpreendidos com a chegada dos meus dois irmãos, Maria de Fátima e Antônio, que não conseguiram vir a tempo do enterro. Moravam na capital e assim que souberam da notícia pegaram a estrada. Chorando muito, me cumprimentaram, abraçaram minha mãe, tia Lucinha e participaram da oração.

Mas o que era apenas uma oração pela alma de meu pai se tornou um bate-papo até mesmo animado, cada um relembrando fatos e casos do velho Haroldo, que agora era apenas uma lembrança. Maria de Fátima e Antônio também contaram um pouco da vida de cada um morando na cidade grande. Fiz novamente a minha parte com um café quente e minha avó com os biscoitos. Já era quase meia-noite quando resolvemos dormir, se é que alguém conseguiria dormir naquela noite. Após ajeitarmos as camas, travesseiros nos quartos, organizar tudo para que todos ficassem confortáveis, minha avó apareceu e me segurou pelos braços, dentro do banheiro, enquanto eu escovava os meus dentes:

— Você tem certeza que viu fogo?

— Sim, Vó — respondi assustado a pergunta. Sem dizer mais nada, ela se virou e foi para o quarto, sem me dar qualquer explicação.