Notas iniciais
A princípio, não seria o primeiro capítulo e sim um prólogo. Porém, um prólogo para um conto não é muito usual. Sendo assim, apenas transformei no capítulo 1.

E foi assim que aconteceu. Nunca fui bom em escrita, mas, de um jeito ou de outro, vou tentar descrever a pior noite da minha vida. Já de antemão, peço desculpas a vocês se eu não conseguir contar o que aconteceu de forma amena e tranquila, sem esconder o pavor que senti naquela noite. Tentarei ser fiel aos fatos, mas sem fraquejar ou relutar. É que demorei anos para me livrar do trauma, conseguir colocar para fora todo o acontecimento e escrever sobre o fato que mudou minha vida. Me livrei do medo e da agonia que me causava aquelas lembranças. Antigamente, minha dicção falhava, suor escorria pelos dedos e uma dor aguda tomava conta do meu corpo ao lembrar desta experiência satânica. Fui testemunha ocular do dia em que as portas do inferno se abriram sob meu olhar. Talvez se eu não estivesse ali ninguém saberia dos fatos, uma vez que os outros estão mudos há 30 anos. Todos foram afetados pelo mesmo trauma: perderam a voz e nunca mais voltaram a dizer uma palavra sequer.

Não voltei mais ao local. Mesmo após décadas do acontecido, aqueles que estavam comigo no dia maldito vivem reclusos em suas residências, sempre com uma arma de fogo nas mãos, como se esperassem a repetição da coisa. A história ficou famosa na cidade, mesmo que boa parte não acredite nela. Porém, ninguém mais quis ter contato com o lugar, que foi deixando de ser usado em detrimento de um mais novo, construído alguns anos depois. Sim, toda essa história aconteceu no cemitério municipal.

Anos mais tarde, consegui voltar para a cidade onde aconteceu tudo. Rever as casas, as ruas onde cresci, o armazém onde trabalhei e até mesmo a casa onde nasci. Porém, lá eu não consigo chegar perto. Mesmo que esteja em um total abandono. E sinto que ainda vou demorar bastante para ter coragem.

Sei que parte de vocês duvidarão do que vou contar nas próximas páginas deste relato, contudo, vos digo para que tomem cuidado. Não espero, de forma alguma, enriquecer com isso tudo. Espero apenas que você me veja como um amigo que lhe faz um aviso. Um aviso para aqueles que insistem em provocar o mal. Eu, que sempre fui um incrédulo ao sobrenatural, nunca gostei de frequentar cultos ou orações, hoje faço questão de me proteger com tudo o que for sagrado e abençoado, seja de onde for. A missa aos domingos é pouco. Também frequento os cursos e atividades eclesiásticas. E até o crucifixo tatuei no peito, pois se a criatura resolver me devorar que eu desça em sua garganta de forma ácida, como limão e pimenta. A Bíblia anda sempre comigo e rege meus movimentos diários. Em meus pulsos, uma oferenda que Pai Tomás me deu para blindar do “coiso”. Padre Sérgio não gosta que entre na igreja com os adereços, mas me respeita. Quando visito a cidade, faço questão de tomar um café com o sacerdote e visitar a igreja matriz, fazer minhas orações. Uma das poucas pessoas que acreditou em minhas palavras naquela época foi o Padre Sérgio, que há anos é o nosso representante religioso.

Como não suportei ficar naquela cidade, comecei minhas andanças por diferentes partes do estado e, acredite, ouvi relatos semelhantes em dezenas de locais onde passei. Cada um com seus mistérios, dúvidas e conclusões, mas todos com a mesma característica das trevas sobre a personificação do demônio que vi com meus próprios olhos.

Bem que ao longo destes anos tentei negar os fatos. Coloquei a culpa na bebida ou na perda familiar que tive naquele dia. E sempre que tentava me convencer de que todas essas lembranças são frutos da minha imaginação ou tudo não passou de um sonho, as cicatrizes em meu corpo acaba com as minhas esperanças de uma imaginação fértil. E para aqueles que acreditam no sobrenatural, hoje posso contar, com riqueza de detalhes, a terrível noite do dia 27 de abril de 1983, o dia em que o mensageiro do diabo subiu à Terra, gelando toda minha alma e me fazendo orar para todos os santos possíveis, em busca da salvação das correntes de fogo que o capiroto trazia com ele.

Para aqueles que não creem em minhas palavras, apenas lamento, pois nunca fui um bom aluno e jamais teria tanta imaginação para descrever tamanho terror daquela noite. Seja meu convidado e faça desta leitura um manual de instruções, pois nunca se sabe quando o mensageiro das trevas voltará. Não seja surpreendido por ele.

Ao longo dos anos, fiz muitas leituras e adquiri um aprendizado notável. Acredito que caso aconteça novamente, poderei me defender do “Coiso”. Não que eu queria um reencontro, somente digo que estou preparado. Apenas leia e respeite meus sentimentos, pois tenho certeza que você jamais passou pelo que passei e jamais sentiu o que eu senti. Que Deus tenha misericórdia de tua alma e te proteja. Mas lembre-se: Ele pode aparecer e cobrar todos os seus pecados e desejos insanos, pois foi assim que aconteceu no dia em que testemunhei a aparição da “coisa ruim”, a quem eu batizei de O Coveiro.