O Corvo Negro
16 Capítulo 15 - Uma única Bala
Notas iniciais
– Ótimo, já temos um culpado. É óbvio que foi Albert – Paul deu de ombros
– Ora, aquele cara mal levanta da cadeira sem ajuda! Quanto mais matar 10 pessoas, ou sabem-se lá quantas mais. – respondeu Hernesto, atrás dos óculos escuros, puxando o cabelo negro para trás com as mãos.
– O que sugere? Que foi a garota? Você viu os mortos, Hernesto, esses assassinatos foram brutais! Ela não teria força. – argumentou David, apoiando as costas na almofada do sofá baixo da casa/laboratório particular de Glalcon
– Devo discordar, meu caro David – ponderou Glalcon – é mais do que óbvio que havia motivos pessoas muito intensos em cada um dos crimes. Quando uma pessoa se deixa levar pela emoção, torna-se muito mais forte e imprevisível. Além disso, não estamos lidando com um caso comum, estamos?
Todos foram obrigados a concordar. O comum já havia abandonado aquele caso há muito tempo. Johnson se remexia inquieto no sofá, “Isso está errado. Não foi Albert, muito menos Clarisse... Aquele Heitor... É parecido, mas não... Aquele olho vermelho... é impossível esquecer aquele olho vermelho” pensou sombrio.
– Não foi Clarisse – declarou Johnson, com a voz distante
– Como podemos ter certeza? – perguntou Glalcon
– Clarisse... Ela é... Muito... muito feminina... de uma forma muito agradável... – Johnson escolhia as palavras com cuidado, o que se mostrou um grande fracasso
David fingiu ignorar aquilo, Paul soltou um sorriso malicioso, enquanto Glalcon se limitou a olhar para alguma coisa no teto. Hernesto balançou a cabeça e disse, com a voz levemente irritada:
– Devo lembrá-lo que está sob juramento, senhor Smith?
– Não será necessário, senhor – Johnson abaixou a cabeça e respirou fundo antes de continuar – No entanto, não devemos esquecer de Merlim. Ele deixou bem claro que foi um homem que disparou contra ele.
Hernesto se jogou para trás, contra as almofadas, David se limitou a soltar um sorriso.
– Ora, garoto, nunca tomou um tiro? Última vez que eu levei um tiro eu poderia ter jurado que um homem-lagarto atirou em mim! – a voz de Hernesto era inquieta
– Mas a testemunha...
– Estava escuro – argumentou David – além disso, não podemos ter certeza que foi o Corvo que fez aquilo
– O atirador desapareceu nas sombras! – a voz de Johnson estava mais alta do que gostaria – Ou foi o Corvo, senhor, ou estamos lidando com uma seita assassina de magos sanguinários!
O silêncio se instalou na sala. Não havia argumentos contra aquilo, mas aquela não era uma vitória que Johnson pudesse saborear. Ganhando ou perdendo aquela briga, Merlim estava no hospital, eles tinham duas prováveis vítimas sob custódia e o Corvo estava solto.
– Ainda não podemos descartar o envolvimento de alguém de fora – disse Paul, em tom baixo, mas foi ouvido por todos
– Vou até a sala de interrogatório. Albert já deve estar cansado. – Glalcon se levantou e foi até a antiga sala vazia
Os restantes continuavam na sala, olhando para as paredes, para a decoração, para o nada. Só havia mais dois nomes na lista, aquilo não era nem um pouco bom para a polícia. No entanto, os devaneios dos detetives foram interrompidos por um grito agudo vindo de algum lugar da casa. Momentos depois Glalcon veio correndo com os olhos esbugalhados.
– Albert... Albert está morto!
...
– Vamos, eu sei que você quer fazer isso.
– Não, eu não quero! Eu gosto de viver cara! – berrou Albert
Um revólver estava na mesa a sua frente. Albert não conhecia nada de armas, então não tinha a menor ideia de que arma era aquela. Mas sabia uma coisa, estava carregada com uma única bala. O homem a sua frente era ainda mais ameaçador que a arma. Ele era magro, pálido doentio e se vestia completamente de negro.
Ele sorriu, um sorriso fraco, quase doloroso.
– Eu sei... eu sei que você está quebrado – o homem tossiu enquanto falava, ressaltando sua aparência doentia
– Quem é você? – rugiu Albert
As paredes a prova de som isolavam o som dentro da sala, fazendo a voz de Albert soar abafada. A alteração nas paredes era recente e ainda cheirava a nova. O homem estava recostado na parede, quase descansando. Seus olhos eram estranhos, um deles era vermelho pulsante, como sangue recente, brilhante mesmo sob a claridade da sala, o outro era azul, mas estava apagado, cansado, quase desbotado.
– Não se lembra de mim, meu bom amigo? Talvez isso ajude – ele retirou do bolso algumas moedas e as colocou na mesa, mexendo nelas – Poderia me ajudar a contá-las, por favor?
Albert olhou espantado para as moedas e para o rosto que o encarava, balbuciando, suando como um porco em frente ao abatedouro.
– Você está morto!
– Pareço morto para você? – perguntou seu antigo colega, Heitor
– Um pouco – os olhos de Albert estavam arregalados – Então... foi você?
Heitor negou com a cabeça, com seu sorriso doentio ainda estampado nos lábios e um outro, um sorriso cruel, estampado nos olhos.
– Foram vocês mesmos que fizeram isso. Sabe, eu sempre soube que você roubava minhas moedas, você era um mentiroso tão ruim quanto um investidor.
– Eu fiz fortuna! – Albert se levantou da cadeira, apoiando-se nos braços – E você, o que fez, além de se tornar um maníaco?
– Eu fiz as coisas sozinho – respondeu Heitor, amargo – Ou o mais perto disso que é possível. Você não fez fortuna nenhuma, maldito canalha. Você herdou tudo do seu pai, só mudou a maldita fachada! Só conseguiu se manter com mentiras e propina, traições e roubo. A única coisa que realmente fez sozinho foi aumentar a própria barriga.
Albert estava vermelho de raiva, ele olhava Heitor com um olhar furioso, e este retribuía com um olhar desdenhoso. Os dois lutaram com os olhos por alguns segundos, mas o Corvo era implacável. Albert caiu na cadeira, com o rosto mergulhado nas mãos rechonchudas.
– Tudo bem, tudo bem! Meu pai... Ele armou tudo isso. Não importava o que eu queria, o que importava era o nome da família. Sabe, não vou mentir, nunca tive nada contra isso tudo realmente. Sou bom em matemática e apaixonado por dinheiro... Mas o mundo dos negócios não é para mim.
Albert terminou com um sorriso torto, olhando para a arma na mesa, sem coragem de encarar Heitor.
– Pegue-a, eu sei que você quer.
Albert não levantou o olhar, mas se o tivesse feitor, teria visto o olho vermelho sangue do Corvo brilhar. O gordo empresário fracassado levou a mão até a arma lenta e tremulamente. Com um grande esforço, ele agarrou a arma e a trouxe até a cabeça. Antes de disparar ele olhou para Heitor, com os olhos cheios de lágrimas.
– Por que eu quero fazer isso?
– Porque eu posso ver as sombras que dominaram você por dentro. Agora, você não é nada mais do que um corvo, procurando por carniça para se alimentar.
Albert abaixou a cabeça e puxou o gatilho.
O lado oposto da sala ficou manchado de respingos vermelhos, que escorriam pelas paredes. Albert caiu sobre a mesa, com os braços por baixo da cabeça. O buraco por onde a bala entrara estava levemente queimado, empapado de sangue. Em pouco tempo, grossas gotas do líquido vermelho começaram a pingar da mesa de vidro, formando poças cada vez maiores.
A bala em si atravessara a cabeça de Albert e se alojara na parede oposta, junto com os respingos. Heitor retirou uma pena de seu casaco e a colocou sobre as moedas que ainda estavam sobre a mesa. Fraco, ele cambaleou para o lado oposto da sala e se jogou nas sombras.
...
– Por que você deu uma arma para ele? — Hernesto andava de um lado para o outro, inquieto
– Eu não dei uma arma para ele! — Glalcon estava sentado no sofá, agarrado a uma almofada
Os detetives estavam inquietos. Aquilo era insuportável. Acontecera tão perto que chegava a ser um insulto.
– Como não ouvimos uma arma disparando? — David estava no canto da sala, encostado na parede
– Nossa mente é muito engraçada — respondeu Glalcon — não ouvimos o que não esperamos ouvir. Estávamos em segurança, ou pensamos que sim, pelo menos, não esperávamos um disparo, não aqui dentro. Tenho certeza que o isolamento sonoro não ajudou muito.
Paul voltou da sala de computação com a cabeça baixa. Quando os olhares de seus companheiros repousaram sobre ele, ele balançou a cabeça, desanimado:
– A câmera desligou
O animo da equipe caiu tão rápido quanto um raio. O que eles poderiam fazer agora? A única sobrevivente era Clarisse e ela não estava tão segura quanto imaginavam.
– Precisamos avisar Clarisse... Espero que ela ainda esteja viva — brincou Hernesto, com um sorriso sombrio no rosto
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