O Corvo Negro
17 Capítulo 16 - Rhagayr
Notas iniciais
Heitor tentava segurar um copo de café, mas suas mãos tremiam. Depois de algum tempo, desistiu e deixou a caneca cair sobre a mesa, derramando o líquido fervente sobre os papéis jogados. Irritado, se afastou da mesa com um empurrão.
Ele se aproximou da grande janela que ocupava grande parte da parede. O vidro estava sujo, mas ainda era possível ver o caminho de terra batida que ligava a grande estrada a fabrica abandonada que agora habitava. Fora a estrada, não havia mais nada a ser visto, além de grama seca e o céu nublado. Já fazia um bom tempo que tomara aquele lugar como lar.
A fábrica em si era consideravelmente grande. Possuía três grandes salões, dois deles antigamente ocupados por máquinas e um como salão de entrada. Os corredores se estendiam como veias ao longo da estrutura de metal e concreto. Ao todo eram 100 pequenas salas, antigamente destinadas ao trabalho manual.
Agora não havia mais máquinas ou trabalhadores. Os corredores eram frios e desertos, as salas eram empoeiradas e os grandes salões infestados de corvos. O salão de entrada tinha uma grande escada que se dividia em duas para dar acesso a dois lances de corredores no segundo piso. Nos tempos antigos, aquela sala era ricamente iluminada e o chão brilhava de tão limpo, havia um grande tapete de veludo vermelho da porta principal até os dois topos da escada.
Hoje o salão de entrada não passava de um imenso salão abandonado, com boas camadas de poeira no chão, algumas poças de água e óleo nos cantos e o antigo tapete vermelho fora substituído por um preto que desbotara até ficar cinza.
Heitor estava em um dos grandes salões, no andar de cima. O barulho dos corvos era ensurdecedor, mas ele já se acostumara com aquilo. Depois de inspecionar o vazio do lado de fora da janela, ele dirigiu o olhar para o salão. O teto era alto e um imenso ventilador industrial girava muito lentamente. Os corvos se empoleiravam sobre qualquer coisa em que pudessem pousar, grasnando e voando quando era conveniente. Grãos e fezes de pássaros estavam espalhados pelo chão, em uma grande mistura amarelo-esbranquiçada. Mas Heitor dirigia o olhar para um corvo em especial, o Grande Corvo.
Ele era maior que os demais, tendo quase o tamanho de um gato. Ele tinha apenas um olho, o esquerdo, e era vermelho sangue, frio e cruel, igual ao de Heitor. A criatura tinha a plumagem negra como a morte e se segurava confiante em uma barra de ferro presa a uma corrente longa que descia do teto. Ele não se movia e não grasnava, apenas observava o homem que o encarava. Ele emanava um poder ancestral, descomunal, fazendo o ar a sua volta tremer, curvando-se sob tamanha força.
– Eu preciso de mais tempo – disse Heitor, com a voz um pouco fraca
Não houve resposta. O corvo sequer se mexeu. Heitor continuou:
– Por favor, Rhagayr. Falta apenas a maldita da Clarisse e então acabou. Só preciso de um pouco mais de poder, só um pouco.
Novamente, não houve resposta, mas Heitor esperou, sempre havia resposta, sempre. E ela não demorou.
“Temos um acordo” a voz soava dentro de sua mente “Eu te dou parte de meu poder e você me paga com sua alma. Metade no fechamento do contrato e a outra metade para combustível do poder. Se sua alma está se esgotando, não há nada que eu possa fazer”
Heitor encolheu-se, com medo. A voz de Rhagayr sempre lhe dava medo. Dizer a voz de Rhagayr não era bem verdade, eram muitas vozes em uma. Eram mil vozes de mulheres em desespero, mil vozes de homens em pura agonia, quinhentas de crianças aterrorizadas. Havia ainda quinhentas vozes de demônios e trezentas de anjos, setecentas vozes de mães que tinham seus filhos arrancados de seus braços e outras trezentas de filhos vendo suas mães sendo esquartejadas. Além destas, havia ainda três vocês de magos e uma voz de herói. Heitor contara cada uma delas, uma a uma, e acreditava haver centenas de milhares ainda misturadas ao coro mortal de Rhagayr. A mistura infernal era monstruosa demais para ser pronunciada, assim, Rhagayr se comunicava apenas através da mente.
Heitor levou a mão até o olho esquerdo, azul, que se tornara quase branco nos últimos tempos. “Os olhos são as portas para a alma” pensou, com um sorriso triste nos lábios. Rhagayr estava certo. Ele aceitara o acordo, sabia dos riscos, sabia que sua alma seria consumida à medida que usasse seus poderes, ele pagara sangue com sangue, e não se arrependia nem um pouco.
Mas precisava de um pouco mais.
Sua alma estava se esgotando, restava pouco agora. Depois de tantos anos planejando, estudando e treinando, ele não podia morrer agora, tão perto, não podia perder. Não para Clarisse. Ele nutria um ódio especial por Clarisse, sempre tão cheia de vida e animada, parecia nunca ter problemas. Se ela era a Vida, ele era a Morte. E a Morte sempre vencia a Vida.
Ele cambaleou em direção do Grande Corvo e, quando começou a sentir o enorme pulso de seu poder golpeando seu frágil corpo, parou. Sabia que não era seguro se aproximar demais de Rhagayr, até mesmo os corvos mantinham distância da criatura. Naquele dia em que o Corvo arrancara e devorara seu olho direito, Heitor sentiu no corpo a pressão do poder descomunal e quase não aguentara tamanha força. Rhagayr, senhor das sombras internas e externas, descente direto do fragmento do olho de Caos, o Primeiro Corvo, não era uma criatura deste mundo, nem mesmo desta dimensão. Ele era muito mais antigo.
– O que acontece se eu fracassar? – perguntou Heitor, embora já soubesse a resposta
“Eu devorarei o que resta de sua alma” o eco soou na mente de Heitor, fazendo-o se encolher “E se tiver sucesso também. Não faz diferença, não para mim”. Ele sabia que logo se tornaria mais uma voz nos ecos de Rhagayr, mas antes ele tinha de cumprir aquilo, era por isso que estava vivo até agora. Ele ainda estava forte o suficiente para um pequeno sorriso:
– Você é uma péssima companhia para conversar, sabia? – brincou, afastando-se em direção à porta – Vou procurar alguém melhor para conversar.
Ele saiu pelas portas duplas e enferrujadas, caminhando pelos corredores que conhecia tão bem. Após algum tempo, finalmente chegou ao seu pequeno quarto, nada mais do que uma cama velha e um guarda roupas desbotado. Mas era o suficiente. Ele deitou-se na cama e pegou o celular, analisando os números.
Não havia muitos. Além de números de empresas e relacionados, havia o número de Dimitry, seu querido amigo. Ele ainda podia ouvir o som de sua voz, implorando ‘mate-me, por favor! Eu não aguento mais!’ depois que se separara da esposa. Heitor o matara com um tiro rápido e o amigo sorria. “Ele morreria mais cedo ou mais tarde” pensou Heitor, mas aquilo ainda deixava-o triste. Procurando mais encontrou o de Nataly, ainda com a foto da garota. Olhou-a por algum tempo e depois continuou a procurar.
Não havia muito mais. Ele encontrou o telefone de uma pizzaria, mas era complicado pedir uma pizza em um lugar como aquele. “E aquele maldito do Johnson se recusou a trazer comida para mim” pensou emburrado. Continuou procurando até achar o de Johnson e discou o número.
...
– Eu não fiz nada! – berrou Clarisse, se afastando dos detetives e se recostando no sofá
– Não sabemos. – disse Hernesto, com a voz calma – Mas precisamos mantê-la em custódia até resolvermos este caso
– Vocês já não me mantêm aqui? Não é o suficiente? – ele agarrara uma almofada e a apertava com força
– Precisamos de uma vigilância um pouco melhor – continuou o detetive, por trás dos óculos escuros
– Ainda não sabemos se foi obra de um terceiro – argumentou Paul
– Todos nós estávamos na sala principal, não há outras entradas, tudo é muito bem vigiado, acho que não pode ser alguém de fora – desdenhou David
– Ora, invadir esse lugar sem ser notado seria coisa boba para esse cara – deu de ombros Paul
– De qualquer forma – cortou Hernesto – Precisamos colocá-la em um lugar seguro, com vigilância dia e noite.
– Isso é só outro nome para prisão – cuspi Clarisse que tinha lágrimas nos olhos
Johnson estava sentado ao lado da garota, ponderando toda a discussão. Era duro admitir, mas não tinha ideia do que fazer.
Até que Hernesto se precipitou para agarrar Clarisse e algemá-la.
Johnson saltou do sofá e se colocou entre o detetive e a garota, com os braços abertos. Hernesto se afastou, olhando aborrecido para o jovem.
– O que pensa que está fazendo, garoto?
– Não foi a Clarisse! – sua voz soava tão firme que surpreendeu até mesmo a garota
– Como pode ter tanta certeza? – David deu um passo a frente para se colocar ao lado de Hernesto
“Droga” pensou Johnson “Falei demais”. Ele olhou para os lados em busca de ajuda, mas todos os olhos estavam fixos nele. Ele começou a sentir o corpo suar, nervoso, mas não havia mais o que fazer. Respirou fundo e encarou os olhares dos companheiros.
– Não foi a Clarisse... Mas eu sei quem foi – os olhos que o encaravam se arregalaram e algumas bocas se abriram
Ele contou tudo a eles. Desde as ligações do Corvo até a morte dos filhos de Mandregas. Falou sobre sua conversa com Merlim e sobre como tinha certeza de que nem Albert nem Clarisse poderiam ser o Corvo.
Quando acabou, os demais tinham uma expressão de completa surpresa. Ele se deixou cair no sofá, como se aquilo tivesse drenado todas as suas energias. Clarisse se aproximou e o abraçou, dizendo um ‘Obrigada’ em seu ouvido.
– Johnson... Você sabe que eu deveria prendê-lo por ocultar informações de uma investigação, não é mesmo? – Hernesto estava tão surpreso que seus óculos escuros haviam deslizado para baixo, mostrando seus olhos castanhos
Johnson concordou com a cabeça. Quem sabe não seria o melhor a fazer? Um tempo na prisão e poderia se libertar desse fardo que carregava há tanto tempo. ‘Que se dane esse maldito’ pensou Johnson em relação ao Corvo, mas não estava tão seguro se queria deixá-lo impune.
– Certo, mas mesmo assim ainda não sabemos quem é o Corvo Negro. Acho que se tivéssemos visto um homem com um olho vermelho, todos lembrariam, não é? – David coçava o queixo, pensativo
– Esse cara... – a voz de Clarisse era baixa – Ele... ele só pode ser o Heitor
– Heitor está morto, garota – Hernesto já havia arrumado os óculos no lugar
Ela balançou a cabeça teimosamente.
– Esse cara que vocês encontraram morto, posso ver uma foto?
Os detetives se entreolharam, sem saber o que fazer. Por fim, Glalcon se levantou e foi até o armário onde guardavam os arquivos da investigação e trouxe uma sequência de fotos do corpo de Heitor.
Clarisse analisou as fotos com muito cuidado, olhando foto por foto. Enquanto os grandes olhos verdes analisavam as fotos, os outros permaneceram em um silêncio constrangedor, sem saber o que fazer. Por fim, ela pôs a pilha sobre uma das mesas baixas e disse, confiante:
– Esse não é Heitor.
– Como não? – David tinha uma das sobrancelhas erguida – Eu estava lá, ele confirmou que era Heitor Leussen
Ela negou novamente com a cabeça e apontou com o dedo para os olhos esbugalhados do cadáver
– O azul dos olhos de Heitor... São uma coisa única, você nunca se esquece quando olha para eles. Nunca... Eles pareciam mortos, mesmo ele estando vivo – a voz da mulher era triste, mas ao mesmo tempo carregava uma leve dose de medo – Vocês não fizeram os testes de sangue?
– Fizemos, mas estão com problemas no laboratório Florence e os resultados vão demorar um pouco para chegar. – Hernesto também não estava feliz com aquilo
– Vocês têm que acreditar em mim
– Mesmo que isso fosse verdade, isso não muda o fato de Johnson ter ocultado informações importantes. Com essas informações em mãos nós poderíamos... poderíamos...
– Não ter feito nada – completou Glalcon elegantemente vestido completamente de dourado – Se esse sujeito conseguiu forjar a própria morte agora, poderia ter feito isso antes, talvez até melhor. Poderíamos ter dado o caso como encerrado e ficado por isso mesmo. Além do mais, nosso amigo só queria nos proteger, não é mesmo? – Glalcon sorriu para Johnson, compreensivo
– Espera! – Paul se pôs em pé com um salto, aparentemente entendo apenas agora o que estava acontecendo – Johnson! Você disse que o Corvo te ligava? E o número não estava oculto nem nada?
– Sim – confirmou Johnson, sem entender muito bem o que estava acontecendo
Paul se jogou sobre a cadeira com as mãos na cabeça, aparentemente furioso. Mas quando ergueu novamente a cabeça seus olhos mostravam urgência.
– Me dê o seu telefone! Agora!
Johnson colocou a mão no bolso e puxou o aparelho, entregando-o a Paul. O garoto saiu correndo como um louco pela sala e entrou no corredor em direção à sala de computadores. Sem entender direito o que estava acontecendo, os detetives se entreolharam e depois seguiram Paul até a sala.
Lá, o garoto de cabelos escuros digitava freneticamente. Telas apareciam e desapareciam em seu computador em um turbilhão de informações. O celular de Johnson estava conectado a um cabo cinza-amarelado que se conectava a uma das múltiplas entradas do computador.
– O que você está fazendo? – perguntou Johnson, já se arrependendo te ter concordado com aquilo
– Se eu estiver certo, poderei localizar de onde o Corvo está falando – ele respondeu sem tirar os olhos da tela do computador – Agora, pegue seu celular, se afaste o máximo que puder e ligue para o Corvo.
Relutante, Johnson pegou o telefone e começou a se afastar. Quando o cabo estava esticado ao máximo, ele olhou para Paul, que continuava concentrado na sua tarefa. Clarisse estava ao lado de Johnson, apreensiva. Respirando fundo, o detetive desbloqueou o aparelho.
O telefone começou a tocar.
A surpresa foi tanta que Johnson quase deixou cair o aparelho. O que mais o assustou foi o número que indicava no visor.
– É o Corvo – ele disse, olhando para Paul em busca de ajuda
– Atende – respondeu o garoto sem desviar o olhar
Johnson atendeu ao telefone, apreensivo, já fazia um bom tempo desde seu último contato com o Corvo e, aparentemente, apenas Clarisse restava viva.
– O que você quer? — Johnson tentou parecer irritado, mas estava surpreso demais para isso
– Estou triste, quero conversar – a voz do Corvo estava levemente triste e um pouco infantil, como de costume, mas ela parecia fraca e arranhada
– Não tenho nada o que conversar com você! – Johnson já começara a ficar irritado com apenas o som da voz do assassino, mas com um gesto de mãos, Paul lhe pediu tempo
– Não seja grosso, estou sofrendo aqui – choramingo o Corvo, do outro lado – Passe para sua amiga Clarisse, ela deve ser mais gentil
Aquilo atingiu Johnson como um soco. Como ele sabia que estavam com Clarisse? Antes que ele pudesse pensar em qualquer coisa, Clarisse arrancou o celular de suas mãos e gritou:
– Heitor! Seu maldito canalha! Como pode?
– Não sei do que está falando, garotinha, eu matei esse tal de Heitor – brincou, sínico
– Não me faça de boba. Eu vi as fotos, aquele não era você. Você está vivo, Heitor, muito vivo
Houve uma pausa. O volume do celular estava alto o suficiente para que todos pudessem ouvir com clareza a conversa. Clarisse estava vermelha de raiva e seus olhos estavam quase tão apertados quanto suas mãos em volta do telefone. Por fim, uma risada histérica veio do outro lado da linha:
– Certo, certo. Você descobriu! Nunca pensei que conseguisse enganar você, Clarisse. Devia ter cuidado disso no começo. Mas não estou tão vivo quanto pensa – sua voz soava levemente triste — De qualquer forma, me diga, como prefere que eu te mate? Eu pensei em afogamento, sabe, para tentar algo novo.
– Cale a boca, seu miserável! Não vai ser capaz de colocar um único dedo em mim. Estou sendo muito bem protegida. Eles vão pegar você, vai ver!
– Sim, claro, muito bem protegida, assim como Albert. Veja bem, eu sei que Johnson cuida muito bem de você, tenho certeza que é muito carinhoso, mas não vai ser o suficiente.
Clarisse sentiu o rosto corar, embora fosse difícil dizer com precisão. Enquanto ela gaguejava, tentando arrumar uma resposta para aquilo, Paul veio correndo e entregou um papel para Johnson. Clarisse entregou-lhe o telefone e virou o rosto para o lado, sem dizer mais nem uma palavra.
– Sabemos onde você está, Heitor – Johnson leu o endereço que Paul conseguira, com uma enorme foto de uma fábrica abandonada
Houve silêncio do outro lado da linha. Johnson pode ouvir a respiração que vinha do telefone, calma, como se nada tivesse acontecido. Depois, irrompeu em outra gargalhada:
– Ora... Acho que estou ficando descuidado com o tempo. Certo, certo. Vocês merecem o credito por essa. Vamos fazer o seguinte, eu ficarei aqui e vocês podem reunir quantos policiais quiserem. Então, podem vir aqui me prender, se conseguirem, é claro.
– Não vamos jogar os seus joguinhos estúpidos! – cuspiu Johnson
– Fique a vontade. Vocês têm uma semana. Se depois de uma semana ninguém vier fazer uma visita aqui, então eu matarei a sua amiguinha querida. Até mais
Antes que Johnson pudesse contra-argumentar, Heitor desligou o telefone. Ele olhou para os companheiros, que pareciam tão abalados quanto ele.
– Essa história de prisão – começou Hernesto, colocando a mão no ombro de Johnson – podemos deixar tudo para depois. Temos um último trabalho pela frente
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