O Corvo Negro
15 Capítulo 14 - Três menos Um
Notas iniciais
“Sempre sobra para mim” pensou aborrecido Johnson.
Ele se dirigia sozinho para a casa de Clarisse Dompson. Todos os demais partiam em duplas, mas ele sobrara. No fim, como a coisa toda fora sorteada, ele não teve muito do que reclamar.
Ele pegou o pedaço de papel amassado no qual Paul tinha escrito o endereço e deu uma olhada, estava perto. Mesmo depois de tanto tempo trabalhando juntos, Johnson ainda ficava admirado com a capacidade de Paul de mexer em computadores e outros aparelhos eletrônicos. Ele conseguira o endereço dos três sobreviventes em pouco menos de cinco minutos, coisa que teria levado bons vinte minutos se tivesse sido feita por qualquer um dos outros membros da investigação.
Quando finalmente chegou, Johnson estacionou o carro na esquina e deu uma olhada na casa. Era baixa, um único andar, mas era larga, com um bom terreno em volta, parcialmente recoberto por plantas. O carro ainda estava na garagem, embora o detetive só pudesse ver as rodas por baixo da pesada porta de ferro. As luzes estavam apagadas, o que era natural para àquela hora do dia.
Ele respirou fundo e repetiu mentalmente o discurso que havia criado. Apertou a campainha.
Ele ouviu um grito de “Já vou” vindo de algum lugar da casa e se remexeu inquieto. Era difícil dizer a uma pessoa que ela precisava deixar o conforto de sua casa para ir para um laboratório Florence improvisado. Ele remexeu no distintivo preso ao pescoço por um laço. Hernesto conseguira os distintivos de volta, mesmo que por pouco tempo, para o caso das vítimas/suspeitos se recusarem a ouvi-los.
Finalmente, a porta se abriu. Instintivamente, Johnson ergueu o papel com a ficha de Clarisse sobre os olhos, fingindo ler alguma coisa importante.
– A senhora Clarisse Dompson, por favor – disse, ainda olhando o papel.
– Senhorita – corrigiu uma voz aguda e gentil vinda de debaixo do papel – E está falando com ela. O que deseja, detetive?
A mulher devia ser pelo menos uma cabeça mais baixa que Johnson, pois ele não conseguia vê-la por detrás do papel. Relutante, ele abaixou o papel para encarar a mulher.
Sua respiração congelou. Seus olhos piscaram e sua boca abriu involuntariamente.
Era ela. Ou melhor, não era ela. Mas parecia com ela. Era, de um jeito muito atraente, parecida com ela. Na sua frente, parada, vestida com roupas de ginástica, estava uma linda garota muito parecida com a finada noiva de Johnson Smith.
Obtendo como resposta aquela estranha reação do detetive, Clarisse começou a se mexer inquieta, ainda agarrada à porta.
– Ahn... Me desculpe pelas roupas, eu bem, estava me exercitando um pouco...
– Não, tudo bem. É que... Você me lembra alguém – sua voz era melancólica e um tanto triste
Ela era baixa, com cabelos castanho-claros volumosos que caíam até o quadril. Os olhos eram duas bolas verdes, enormes, com um olhar penetrante, mas gentil. Sua boca era fina e exibia um sorriso fácil, enquanto suas bochechas estavam vermelhas, provavelmente como resultado do exercício. Gotas de suor escoriam de sua testa e braços. Sua roupa de ginástica, uma blusa preta e um short rosa, estavam parcialmente aderidos à pele da mulher. “Não que eu esteja reclamando” pensou Johnson, quase deixando um sorriso formar-se nos lábios, mas lembrou-se que estava ali a trabalho. Ajeitou a gravata e forçou-se a manter os olhos no papel.
– Senhorita Dompson, eu poderia entrar? Precisamos conversar.
O interior da casa era espaçoso. Havia muitas plantas e enfeites, as paredes eram pintadas em cores vivas, mas não exageradas e corria uma brisa agradável pela sala de estar. Clarisse o levou até um sofá baixo, um tanto velho, mas confortável. Johnson não reparara muito nos detalhes, pois estava obstinado com sua ideia de olhar para o papel.
– Senhorita... Em meu relatório consta que você trabalha para o Jornal Local. Então, suponho que deve estar ciente da onda de assassinatos que vem assombrando Chicago. Não é?
A moça remexeu-se, inquieta. Passou a mão por uma das mexas do cabelo que caíra sobre o olho esquerdo e a recolocou no lugar.
– Bem, na verdade, não. Estou trabalhando como assistente atualmente, mas logo pretendo, bem, subir na empresa... Quanto à onda de assassinatos, acho que ouvi alguns comentários sobre, mas nada muito forte.
Johnson respirou fundo, não tinha se preparado para aquela resposta. Obrigou-se a olhá-la nos olhos. Era doloroso, mas ao mesmo tempo era prazeroso. Aquele conflito interno o estava deixando furioso, mas o seu senso de dever veio ao resgate, colocando ordem aos pensamentos. Ele explicou de forma simples todo o caso do Corvo Negro, sem entrar em muitos detalhes. Explicou sobre como precisavam recolher e proteger as prováveis próximas vítimas, mas omitiu o fato de elas serem suspeitas. Quando acabou, Clarisse estava sem ar, com os olhos úmidos.
– Então... Apenas eu, Heitor e Albert estamos... vivos? Eu me lembro deles... Um pouco. Albert era muito bom com números. Toda semana trazia um punhado de moedas que ganhava do pai e ficava contando-as e exibindo-as para todos. Heitor era... bem, ele era um pouco estranho...
Estranho? Johnson estivera de frente com o Corvo e uma palavra que poderia defini-lo muito bem era “Estranho”. Será que... Bem, saberia logo, Glalcon e David haviam sido encarregados de irem atrás deste tal de Heitor.
Clarisse tinha feito uma pausa, para colocar os pensamentos em ordem. À medida que o peso daquela esmagadora verdade parecia cair sobre ela, seu corpo se encolhia e seus olhos perdiam o brilho de antes. Johnson quis ajudá-la, acalmá-la, mas sabia que não devia fazer nada, não era o seu dever.
– Estão todos mortos... Até Gabby e Nataly? – Johnson confirmou com a cabeça, lembrando-se dos corpos das duas mulheres, ela sorriu, de uma forma tão triste que chegava a doer mais do que o choro – Elas nunca gostaram de mim... Eu era um pouco fofoqueira na época... Mas, eu nunca quis que elas morressem. Não queria que ninguém morresse – ela irrompeu em lágrimas, encolhendo-se no sofá. Aquele choro era um misto de tristeza e temor.
Johnson entrou em estado de pânico interno, embora ainda exibisse o semblante de agente confiante por fora. O que ele devia fazer? Devia consolar a moça? Ou isso seria errado? Perguntou-se o que os amigos fariam. Imaginou que Glalcon puxaria a garota para o ombro e deixaria que chorasse a vontade, como se fossem velhos amigos. Ele não era bem o tipo que ligava para normas e ética do trabalho. Hernesto e David provavelmente agiriam como o manual indica para agir, de forma calma e profissional. Paul provavelmente seria tão inútil quanto ele. Merlim... Bem, Merlim ofereceria um cigarro para a moça.
O conflito estava preste a se transformar em guerra em sua mente quando a moça parou de chorar. Ela limpou as lágrimas do rosto e pediu para o detetive esperar enquanto ela arrumava as malas.
Johnson ficou sentado no sofá, esperando. O tempo passava tortuosamente devagar. O detetive mexia as pernas, inquieto, tamborilava os dedos sobre o sofá e lançava olhares ansiosos para o corredor no qual a mulher entrara. Era mais velha que ele alguns poucos anos, mas isso não se fazia notar.
Johnson se pegou pensando se já não era hora de deixar aquela história para trás. “Cidade nova, vida nova” pensou, corajosamente. Mas seria mentira dizer que estava totalmente certo sobre isso. Algo dentro dizia que aquilo nunca aconteceria, ele jamais esqueceria.
O detetive interrompeu a torrente de pensamentos quando eles começaram a se direcionar à Clarisse Dompson. Aquilo era errado. Ela era uma possível vítima e suspeita, ele era um detetive, havia códigos contra isso. “Mesmo assim...quando o caso acabar...” parte de sua mente pensou, esperançosa. “Ela estará morta” respondeu a outra parte, com uma voz fria e aguda, a voz de uma sombra da qual Johnson não queria se lembrar.
– Você está bem?
A voz fina da assistente de repórter acordou Johnson de seu transe. Ele percebeu que estava encolhido sobre as pernas, fitando o chão de forma nervosa. Gaguejando, ele respondeu:
– Estou, estou ótimo. Você foi rápida
– Mantenho uma mala semi-pronta para o caso de emergências e...bem, essa é uma emergência – sorriu a garota
Johnson acenou com a cabeça. Ela vestia agora uma blusa grande sobre a roupa e carregava uma mala cheia em um dos ombros. Ele respirou fundo e a levou até o carro.
...
O dia de Paul e Hernesto estava sendo detestável.
Primeiro, tinham ficado quase duas horas esperando um exército de secretárias repassar mensagens umas para as outras até que uma teve a bondade de atendê-los. Como se isso não fosse o suficiente, o ar condicionado do prédio estava quebrado, o que tornava todo o ambiente recoberto de vidros da sede da “Seguros Legais” um verdadeiro inferno abafado.
Agora, suando como porcos, os dois, detetive e perito em computação, subiam no elevador para o andar mais alto do maldito prédio, o 23º, lá ficava a sala do presidente da empresa.
– Pelo nosso excelente tratamento até agora, não vejo a hora de conhecer o chefe – ironizou Hernesto
– Não pode ser muito pior – deu de ombros Paul, que se arrependera brutalmente de estar usando um jaleco branco que adotara como uniforme
No entanto, podia sim ser muito pior.
O elevador abriu-se para um corredor único, com paredes brancas com detalhes em dourado. Luminárias douradas iluminavam a passagem até uma grande porta dupla de madeira vermelha sólida. Os ornamentos e maçanetas pareciam feitos de ouro, embora Hernesto duvidasse disto. Dois seguranças estavam parados à porta, impassíveis, fitando o nada.
– Identificações, por favor – disse o da esquerda, de forma mecânica
Os dois mostraram os cartões que carregavam no pescoço, cortesia da amável secretária. Os dois seguranças analisaram os pedaços de plástico detalhadamente, atrás de seus óculos escuros, mas por fim deixaram a dupla passar.
As portas se abriram para uma ampla sala envidraçada em forma de semicírculo. Toda a volta de 180º era composta por vidros que davam uma linda vista da cidade. A outra parede, que cortava o semicírculo, era pintada de preto com desenhos abstratos em baixo relevo. Na parede estavam presos inúmeros diplomas, fotos e outros tipos de papeis honrosos, além de alguns quadros simples. Pelas paredes de vidro, dispunham-se estantes trabalhadas em madeira e pintadas de preto e branco, entulhadas de livros e papéis, havia mesas com computadores que operavam praticamente sozinhos, além de alguns monitores que mostravam chuvas de números a cada segundo.
No centro da sala ficava uma ampla mesa de vidro escurecido, com suporte de metal polido. Nela papéis empilhavam-se aos montes, calculadoras perdiam-se em meio ao caos de contas e notas, lápis e canetas aventuravam-se em meio a pastas e arquivos abertos à esmo. Quebrando-se com o caos da mesa, um pequeno espaço estava vago e consideravelmente livre de bagunças, o que permitia que ambos os lados da mesa se comunicassem.
Atrás desse quadrado de paz, havia uma cadeira de couro gasto enorme. Era marrom e estava desbotada pelo uso, mas parecia muito confortável. Ela girava e estava de costas para os detetives, que se acomodavam em cadeiras mais simples.
Após algo que Hernesto julgou ser uma pausa dramática, a cadeira virou-se e um sujeito gordo os encarava. Hernesto, que tentava ser diplomático com seus interrogados, não conseguia encontrar palavras para suavizar as medidas daquele homem. A cadeira na qual sentava era grande, mas ele era maior. Esparramava-se na cadeira de forma desleixada, obrigando os apoios para braços a se deslocarem para o lado. O queixo estava afundado em algum lugar de seu pescoço e a cabeça era lisa, salvo alguns fios de cabelo no topo e a coroa de cabelos castanhos que lhe adornava de orelha a orelha.
– O que vocês querem? – berrou o sujeito de detrás da mesa. Sua voz era azeda e irritada, com um leve toque de petulância. Quando falou, gotas admiráveis de saliva voaram sobre Paul.
– Somos da polícia – Hernesto exibiu o distintivo por algum tempo antes de continuar – Estamos aqui investigando uma série de homicídios que vêm assolando Chicago...
– E eu sou suspeito? – berrou incrédulo. Aparentemente, o único tom de voz que conhecia era o grito
– Sim – respondeu Hernesto, após uma pausa – mas também é uma possível vítima. Queremos que nos acompanhe até um local seguro.
O gordo empresário riu com desdém. Abriu um sorriso zombeteiro e franziu o cenho, irritado.
– Que lugar pode ser mais seguro que este? Viu o tamanho daqueles caras lá fora? – cuspiu Albert White
– Não é com a porta que nos preocupamos – brincou Paul, apontando com o queixo para as enormes janelas que ocupavam toda a parte de cima das paredes envidraçadas.
Albert olhou para as janelas e soltou um riso alto. Ele suava muito, apesar de todas as janelas estarem abertas.
– Estamos no 23º andar, garoto – desdenhou
– Isso não é um problema para alguém que pode se transformar em pássaro – um sorriso misterioso se formou nas feições pálidas de Paul
O empresário ficou visivelmente irritado com aquilo. Não era do tipo que gostava de histórias.
– Ora, isso deve ser algo dos seus estúpidos livros para crianças! Por que não vai brincar no parquinho enquanto os adultos conversam? – gritou, apontando com o queixo-pescoço para Hernesto
Paul poderia não ser tão alto e até um pouco magro para a idade, mas recentemente deixara uma pequena barba crescer o que tornava seu rosto um pouco mais velho do que realmente era, mas não muito.
– Paul tem razão, senhor – Hernesto forçou-se a ser gentil – Descobrimos que todas as vítimas até agora estão ligadas por um passado comum e segundo essa pista, você pode ser um dos próximos!
Albert soltou uma sonora risada, ou fungada, era difícil dizer ao certo, e os olhou com olhos frios
– Eu sei quem são vocês... Vocês foram enviados pelo Rickon, não é? Aquele maldito sempre tenta me derrubar e me atrapalhar, mas mandar dois palermas disfarçados de detetives já é demais!
Hernesto respirou fundo e puxou a cópia da lista do bolso
– Aqui. Reconhece? Sua antiga turma de infância. Estão quase todos mortos, com exceção de você, Clarisse e Heitor! Pode conferir nas listas obituárias dos últimos meses. – o tom de sua voz ainda era calma como as águas, mas mostrava a irritação que sentia
Albert pegou a lista e a analisou. Depois de algum tempo de reflexão ele brandiu o papel e puxou um teclado de debaixo da mesa, começando a digitar com extrema velocidade para as mãos que pareciam hambúrguers. Enquanto digitava, ele olhava para um dos monitores que estava próximo, que anteriormente exibia montes de números.
– Eu me lembro dessa época. Foi neste mesmo ano que comecei a ganhar interesse pelas finanças. Enquanto eu trabalhava os outros brincavam nos parques como idiotas. Bem, vejam o que tenho agora – sua voz era desdenhosa e as palavras carregadas de petulância
Hernesto reconheceu na tela as listas obituárias. O sorriso confiante de Albert foi se desfazendo a medida que ele checava cada um dos nomes nas listas. Aquelas eram listas simples, não informavam as causas das mortes, mas se soubesse, Albert provavelmente estaria escondido embaixo da mesa.
Quando conferiu a quinta vítima, ele parou. Encarou a mesa por alguns segundos, suando mais do que o normal. Quando voltou ao normal, sua voz era baixa, quase em tom de súplica.
– Quem fez isso?
– Não sabemos – respondeu Hernesto, calmo novamente – Por isso precisamos da sua colaboração. Venha conosco, discutiremos os detalhes em um lugar seguro
...
David e Glalcon seguiam juntos para a casa/central veterinária de Heitor Leussen,
David dirigia o carro, quieto, enquanto Glalcon debatia consigo mesmo a importância de escolher o melhor vinho para a melhor ocasião. Não que David não se interessasse pelo assunto, mas ele não se sentia tão à vontade estando confinado em um carro com Glalcon. Eram parceiros nas investigações e partilhavam um laço amistoso, mas David o achava um tanto esquisito, de uma forma extravagante.
Não que o detetive ruivo fosse inocente. Neste dia em particular, vestia um terno vermelho fluorescente, com calças combinando, além de uma cartola da mesma cor. Usava também óculos minúsculos com aros dourados, embora não precisasse realmente deles. E claro, para fechar o visual com chave de ouro, carregava uma bengala preta ornamentada com a cabeça de um coelho esculpida em madeira.
Quando finalmente chegaram a tal clínica, David ficou feliz por poder aumentar a distância entre si e seu nada discreto companheiro.
O prédio era baixo e cinzento. O andar de baixo não tinha janelas ou qualquer outro tipo de visor, enquanto o andar de cima exibia três grandes janelas circulares e nada mais. Um pequeno cartaz amarelado exibia algumas informações sobre o local, como o telefone e os serviços. David notou que no cartaz dizia “Especialistas em Tratamento de Aves”
Glalcon bateu na porta com a bengala. A porta de madeira, pintada de um cinza esbranquiçado, possuía uma pequena janela própria, mas estava tampada por uma persiana azul desbotada,
Algum tempo depois, um jovem abriu a porta e colocou a cabeça para fora. Ele era baixo e franzino, além de uma aparência adoentada. Tinha a pele pálida que não parecia ver a luz do dia a muito tempo, além de olhos azuis sem vida. Os cabelos negros estavam bagunçados e curtos e ele exibia uma pequena barba por fazer.
Seus olhos azuis saltaram de David para Glalcon e depois para o chão, em busca de algum tipo de animal. Quando notou que os detetives estavam desacompanhados, fixou o olhar no distintivo que David ostentava no cinto da calça.
– Em que posso ajudar, detetives. – seu sorriso tímido havia morrido assim que ele notou que os estranhos não tinham animais
– Estamos investigando uma série de homicídios. Acreditamos que você possa ser uma vítima futura e estamos aqui para te oferecer proteção.
– Homicídios? – os olhos azuis se arregalaram e ele abriu um pouco mais a porta, exibindo um interior empoeirado e mal cuidado — Quem morreu? E por que posso ser uma vítima?
David retirou a lista do bolso e mostrou-a a Heitor.
– Você e estes dois aqui são os únicos vivos, atualmente – ele apontava para os nomes de Albert e Clarisse enquanto falava.
Heitor tomou a lista de suas mãos e a analisou de perto. Glalcon pode perceber que o papel tremia em suas mãos e, observando melhor, parecia que todo o corpo do jovem tremia com ele.
– Vamos escoltar você para um lugar seguro até encontrarmos o responsável – prosseguiu David, pegando a lista de volta após a analise de Heitor
– Eu... eu não posso. Os animais...
– Vamos encontrar alguém para cuidar dos animais, não se preocupe
O rosto do jovem ainda era apreensivo e ele olhava para dentro do estabelecimento, como se cuidasse de algo apenas com o olhar.
– Mas...
– Heitor, não vai poder cuidar de seus animais se estiver morto – disse Glalcon, com um tom frio que surpreendeu até mesmo David
O garoto tremulo de olhos azuis o olhou com medo, mas depois concordou com acenos nervosos
– Certo, irei com vocês, deixem que eu arrume algumas coisas. Volto em alguns minutos.
Ele encostou a porta atrás de si, sem realmente fechá-la. Os detetives encostaram-se à parede externa do estabelecimento, esperando.
– Ele tremia o tempo todo – falou Glalcon, sem nenhuma animação especifica na voz
– Não sei muito sobre ele, mas a atendente da escola mencionou que ele abandonou a escola naquele mesmo ano. Parecia sofrer bastante com os colegas.
– Isso poderia ser um motivo – analisou Glalcon – mas realmente me surpreende que um garoto que abandonou a escola aos cincos anos tenha conseguido se tornar um veterinário. Parece bom rapaz, apesar de tudo. –Glalcon deu de ombros
Os minutos passavam de forma lenta. Os detetives esperaram por cinco, dez, quinze minutos. Quando já estavam parados há vinte minutos, David começou a se mexer inquieto.
– Por que ele está demorando tanto?
Ele foi até a porta e a abriu, inspecionando o lugar. Parecia abandonado à muito tempo.
– Heitor? – David chamou por três vezes, sem obter resposta
Ele voltou para o lado de fora e deu de cara com Glalcon empunhando uma pistola tão vermelha quanto à roupa, sem conseguir se decidir se aquilo era assustador ou ridículo.
– Vamos lá – chamou o ruivo
...
– Você me serviu bem – o olho vermelho do Corvo se destacava na escuridão do estabelecimento abandonado
Ele encarava um cadáver de um jovem moribundo de olhos azuis que estava caído no chão, vestido com um suéter e calças de moletom.
Mas suas palavras não eram dirigidas ao jovem.
Ele era um simples viciado em heroína, quase morto, muito parecido com o que o Corvo deveria ter sido se não fosse o incidente. Enquanto sua cabeça balançava levemente, tentando mostrar algum sinal de vida, um volume remexia-se em seu estômago. Poucos segundos depois, o local foi rasgado de dentro para fora e um corvo saiu de suas entranhas. Assim que rasgou o suéter e se viu livre, voou o melhor que pode para os dedos de seu mestre. Suas asas ainda estavam pesadas com as entranhas do morto.
– Isso foi realmente divertido – riu o verdadeiro Heitor – é a primeira vez que faço uma coisa dessas.
De repente, seu olho azul se tornou ainda mais vazio e sem vida, enquanto seu olho vermelho pulsou, rubro e vibrante, com uma vermelhidão renovada. A súbita descarga fez o assassino cair sobre um dos joelhos, praguejando. Ele levou uma das mãos até o olho azul, que doía intensamente.
– Não, agora não... Faltam apenas dois... Esse truque, esse maldito truque, suga demais de mim – um fino filete de sangue escorreu pelo seu nariz, pingando no chão.
Ele sorriu.
– Mas tudo bem. Ainda tenho forças mais do que suficientes para acabar com isso.
– Heitor? – chamou uma voz atrás de si
– Parece que eles estão vindo – seu sorriso se alargou, mas seu olho doía demais para ele pensar em algo
Ele limitou-se a correr para as sombras e desaparecer.
...
David e Glalcon esgueiravam-se pela parede, com uma pequena lanterna para iluminar o caminho que David teve a sorte de ter esquecido no bolso.
Quando dobraram um dos corredores, encontraram o corpo.
Estava caído chão, com os olhos ainda abertos, exibindo seu brilho azul inerte. Seu corpo estava basicamente intacto, exceto por seu estômago, que estava dilacerado. Seus órgãos internos haviam sido devorados por algo que parecia ser bicadas e seu interior estava recheado de penas negras. Uma pequena poça de sangue se formava perto do ferimento.
– Meu Deus – exclamou Glalcon – Heitor está morto!
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