O Corte no Vidro

1 Primeira Noite: Tudo Bem


Era uma junção de feriado e final de semana, então aproveitei os dias de folga para relaxar na casa da minha avó, que fica numa espécie de fazenda totalmente dentro de uma quase floresta, natureza e tudo mais. Era disso que eu precisava para me esquecer dos problemas tensos do dia a dia da cidade. A casa dela era grande, de madeira escura e um telhado sombrio. Com o fundo de árvores esguias, era o cenário perfeito para um filme de terror. Mas isso foi a última coisa que passou pela minha mente, afinal eu só queria descansar durante os quatro dias que ficaria ali.

Cheguei lá no meu próprio carro, na quinta pela tarde. Vovó me saudou com beijos no rosto, gritou “minha neta cresceu tanto” e me deu um bombom de chocolate. Devorei-o enquanto entrava na casa com minha mochila e ela me apresentava a casa, a sala, a cozinha, a escada que serpenteava na sala de estar, avisando-me que não subisse, pois estava fraca, e então me mostro o quarto em que ficaria. Era relativamente grande para uma só pessoa, mas era muito bonito, quase medieval. A cama era imensa, tinha um quadro lindo em cima da cabeceira, com o desenho de uma mulher jovem triste e os outros móveis eram marrons com enfeites como vasos antigos com flores, outros pequenos retratos e um estante com livros, além de uma poltrona dourada. Tinha uma janela que me dava a visão da entrada da fazenda. Notei uma rachadura pequena no vidro da janela, que começava rente ao pé da janela, e tinha um preenchimento preto, como se fosse sujo. Apesar daquilo levemente me incomodar, não me importou mais. Desfiz minha mochila e me preparei para o jantar que aconteceria no crepúsculo.

O assunto do jantar, depois dos meus elogios à comida maravilhosa que só minha avó sabia fazer, foi sobre a casa, meu trabalho etc., até que perguntei se ela morava sozinha numa casa tão imensa.

— Ah não... — ela sorriu, dando um tapa no ar — Seu tio Igor mora comigo, ele cuida dessa casa mais do que eu. Ele só saiu porque você viria. Ele foi comprar algumas coisas na cidade.

Tranquilizada, continuei saboreando o melhor bife com batatas de todos os tempos. Depois, ela ainda me trouxe pudim de chocolate. Eu não era garota de dieta, que se importava com peso. Comi e comi mesmo. Meu tio então chegou, o saudei, falamos que não nos víamos há um bom tempo, sobre como estavam as coisas agora, que bom que eu estava lá esses dias, esperava que eu me divertisse e tal... Enfim nos despedimos com um boa noite feliz e finalmente fui para o meu quarto, começar meu longo descanso. Observei então a cor da cortina da janela, um verde tão vivo, animado e moderno, em contraste tão duro com o mórbido, desanimado e antiquário do resto do quarto. O sol ainda deixava uns poucos raios penetrarem pela janela, e pude ver uns pontinhos coloridos se mexendo dentro do quarto. Eram borboletas. Roxas, amarelas, vermelhas. Deveriam ser quase vinte. Eu teria me assustado se não fossem apenas borboletas. Abri as janelas e elas saíram, porque o bater de tantas asas em um silêncio mortal daquele não me deixaria dormir. Tranquei bem o ferrolho da janela, mais uma vez observei o corte escuro no vidro e, antes de me deitar, fixei os olhos por instantes naquele quadro de uma jovem triste. Ela era linda, porém tão triste. Quase senti vontade de chorar.

A noite não fora tão calma como eu esperava. Na verdade, não foi nem um pouco calma. Às três da manhã, acordei com o som de bater de asas, e estava irritada com as borboletas, em como as danadas haviam entrado se eu havia fechado a porta e trancado a janela. Mas quando acendi o a luz, dei um grito surdo ao perceber que eram morcegos e não doces borboletas. Eram uns três, o que pareciam milhares dentro de um quarto. Desesperada de medo, corri para a janela e a destranquei. Rapidamente, voando perto da minha cabeça, os morcegos deixaram meu quarto. Meu coração ia explodir, saltar do meu peito, pular pela boca, qualquer coisa. Com as mãos trêmulas, tranquei as janelas mais uma vez e passei as cortinas. Deitei-me novamente e caí no meu bom sono novamente.