O Coração do Espada
20 Sonhos Cor-de-Rosa
Notas iniciais
Quando ela era ainda uma criança, quis pintar o seu cabelo cor-de-rosa. Era uma cor alegre e de menina, diziam as pessoas compreensivas com o manifesto desejo. Mas, na verdade, não era essa a sua motivação. Orihime sonhava em abstrair-se da realidade de viver com os seus pais. Queria ser apenas uma criança ingénua e não compreender o que acontecia no quarto ao lado, quando a sua mãe trazia para casa um senhor da mesma idade do seu pai. Não queria sentir o cheiro a álcool e perceber por esse dado do olfacto de que o seu pai chegara a casa. Não queria ouvir os gritos altos, as discussões sem fim.
Queria ser uma criança que cria em unicórnios, confiar de que as pessoas eram boas. Não queria aceitar que vivia com monstros. Preferia perder-se a imaginar o seu irmão como um príncipe encantado e ela a sua princesa.
Acreditar em fantasias. Sim, rosa era a cor da fantasia.
Provavelmente seria uma estupidez, algo inconcebível. No entanto, era impossível alguém nascer com o cabelo rosa e se ela o pintasse de rosa então ela faria algo supostamente impossível, certo? O impossível era apenas uma barreira para impossibilitar a imaginação de viajar. Nada era de facto impensável... E quando alguém pensa, imagina e cria... é um processo até tornar-se praticável. O impossível só será impossível até que se torne possível.
Orihime nunca chegou a colorir o cabelo de rosa. Afinal, nem todas as ideias e sonhos infantis se concretizam.
Entretanto algo rosa nascia em seu peito agora, um sentimento genuíno e ingénuo que interligava-se com o amor verdadeiro por alguém considerado impossível amar e ser amado. Um arrancar, ainda por cima, o antigo servo mais leal de Aizen que desprezava todos os humanos. Orihime acreditava que esse rosa em seu peito também existia no oco de Ulquiorra, os entrelaçando.
Talvez fosse uma ilusão, mas esse rosa não era um resultado fantasioso de uma criança, e sim uma emoção que nascera num coração de mulher. E essa mulher não acreditava em impossíveis e tinha o poder de rejeitar acontecimentos. As crianças crescem e deixam de existir, porém, elas são o início das crenças de qualquer adulto. E Orihime nunca desistiu de sorrir e imaginar, acreditando sempre no melhor de cada um. Era um sonho, mas um sonho lindo que ela lutava porque acreditava que poderia ser real. Isso não era uma fantasia.
Contudo, essa fé no melhor das pessoas, consequente nos seus sonhos rosa, não se restringia a Ulquiorra. Assegurando a troca de olhares com Grimmjow, a ruiva sorriu tenuemente, vendo algo de diferente neste espada desde a última vez que o encontrara. Algo imperceptível à visão, mesmo aos olhos mais apurados como os de Ulquiorra, que o analisava ainda desconfiado.
— Seria bom se Grimmjow ajudasse no treinamento, Ulquiorra-kun.
— Não precisamos dele. —Ulquiorra não desviava o olhar de Grimmjow que levava a mão teatralmente ao peito com ar de sofrimento.
— Auch! Essa doeu “Ulquiorra-kun”, logo agora que pensei que éramos amigos. —Orihime conteve a vontade de sorrir, temendo um olhar repreensivo contra si de Ulquiorra. Este arqueava discretamente a sobrancelha, irritado.
— Não quero me repetir. O que pretende Grimmjow?
Desmanchando o sorrido, a pantera encarava Ulquiorra com mais seriedade.
— Quero o mesmo que tu, Ulquiorra. Derrotar o cara que matou Aizen. Está vendo isto —apontou para a cicatriz no seu peito— foi ele o responsável. Pretendo vingar-me.
— Não quero saber da sua estúpida vingança.
— Ulquiorra-kun!
— Nem mesmo se isso afectar a princesinha? —Grimmjow olhou sugestivamente para Orihime, fazendo com que um tremor passasse pelo corpo de Ulquiorra sem que ninguém notasse.
— O que quer dizer? —Ulquiorra lutava para manter a indiferença, possivelmente a humana não notaria o seu comportamento invulgar mas com certeza o espada que o conhecia há muitos anos notaria facilmente uma leve mudança em sua atitude.
— Eles querem a ela. Não sei bem porquê, mas destruíram o palácio à sua procura.
Orihime arrepiou-se pela ideia ao recordar tantas vidas roubadas por sua culpa. Seus olhos lacrimejaram, o peito doendo pelo aperto. O que pretendiam com ela, afinal? Não entendia como lhes poderia ser útil. No entanto, Ulquiorra suspeitava de suas ambições: as mesmas intenções de Aizen. Obter um poder superior a de um kami.
— “Eles”? —Ulquiorra não deixara de notar no plural e esse foi um dado que o alertou. Ele sabia que havia alguém, não que esse alguém estaria acompanhado. Pior: ele nunca sentiu essa segunda presença que Grimmjow mencionou.
— Sim, são dois. Não vi muito bem um deles, só sei que foi quem matou Aizen. O outro parecia um hollow, tinha uma máscara, mas era um…
— Shinigami. —Concluiu Ulquiorra com a hesitação na fala de Grimmjow, fazendo este compreender que não tinha sido o único a lutar com o estranho indivíduo.
Orihime encarava-os aleatoriamente, temerosa pelo perigo que desconheciam. Alguém mais forte ainda do que Aizen?
— Tu sabes muito bem, Ulquiorra: não a podes proteger e lutar duas batalhas. A não ser... que prefiras arriscar a vida da humana? Ela é frágil, em menos de um segundo estaria morta sem que pudesse fazer algo. E eu posso ajudar.
O sorriso reconquistou a face do azulado ao concluir a sua explicação argumentativa. Orihime apertou as mãos encarando ansiosa Ulquiorra que a olhava discretamente. Seu coração palpitou, o olhar esmeralda quente como se transmitisse preocupação por ela. Cerrou as pálpebras e Orihime quase pensou que ele tivesse suspirado antes de confirmar.
— Por agora, pode acompanhar-nos. Um movimento em falso e destruo você, Grimmjow.
Ulquiorra mantinha a sua agressividade nas palavras embora com uma pose extrema calma, enquanto retornava à sua caminhada pelo deserto sem fim. Agora com um alvo em mente: encontrar os dois seres miseráveis que caçavam a onna. Grimmjow gargalhou, acenando com a cabeça e colocando o braço sobre o ombro de Orihime que corou com o gesto inesperado.
— Parece que vamos passar muito tempo juntos, princesinha. —Foi um milésimo de segundo mas Grimmjow percebeu o corpo tenso de Ulquiorra.
“— Isto vai ser divertido… O grande Ulquiorra, servo mais leal de Aizen, com ciúmes?!”
Grimmjow não perderia uma chance de irritar Ulquiorra e este não perderia a oportunidade de o matar se pudesse.
Em contraste emocional dos dois arrancares, Orihime enxergava um róseo bonito. Uma tonalidade rosada que começava a florear com uma bela amizade.
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