O Coração do Espada
21 Laranja
Notas iniciais
Laranja é uma das cores peculiares, porque a sua existência provém da junção de outras duas. A sua tonalidade alegre abrange o vermelho da paixão e o amarelo associado ao divino, estabelecendo um ponto de equilíbrio entre ambas. Uma cor que transmite vitalidade, simbolizando a busca pela energia.
Uma energia que bem canalizada transformava-se em força.
O poder espiritual de tonalidade alaranjada recuperava um pequeno hollow, assemelhava-se a um animal inofensivo no mundo humano, que fora trespassado pela Murciélago. O animal que se converteu em cinzas agora recuperava o seu corpo como se nada tivesse ocorrido, latindo feliz e completamente ignorante ao que acontecia ao seu redor.
Orihime o encarava terna, enquanto o suor escorria por seu rosto. Apesar do escudo ter-se desfeito logo a seguir e de ter tombado no chão, ela sentia-se orgulhosa. Conseguira salvar o dócil ser em escassos segundos. Não tinha sido a favor daquela ideia de Ulquiorra mas ele praticara-a sem sequer a consultar, provavelmente, prevendo que negaria essa sugestão de treinamento. No entanto, estava-lhe agradecida. Inoue estava consideravelmente mais forte. Mais rápida em executar o seu escudo e desenvolvendo a resistência do mesmo, assim como a rejeição de eventos. O quarto espada também a obrigou a melhorar o seu treinamento físico e recordava com satisfação a sua surpresa ao compreender que ela tinha prática em combate físico. Deveria agradecer a Tatsuki-chan pelos treinos de karaté. Ulquiorra mantivera seu nível ao equivalente de um humano e, nessa luta justa, a supremacia de Orihime fez com que vencesse e rendesse muitas gargalhadas pelo novo acompanhante que assistia, incrivelmente, a todos os treinos, curioso e verdadeiramente interessado.
Nenhum dos três conseguia responder com exactidão quantos dias passaram desde que estavam juntos, a noite eterna era como se parasse o tempo naquele espaço.
Ulquiorra observava Orihime dormindo quando pensava sobre o estranho indivíduo com a máscara hollow.
— Você sabe que eles estão na Floresta dos Menos. Por que ainda não foi lá, Ulquiorra? —Grimmjow questionara baixo, para não despertar Orihime, embora tivesse uma ideia acerca da resposta. Mordeu o lábio irritado ao notar o seu cuidado por ela. Ele próprio não conseguia compreender a crescente afeição por aquela humana-mascote.
— Não é da sua conta, Grimmjow. —A frieza da sua resposta fez com que o sexto espada risse, desviando o olhar para Ulquiorra, com um sorriso travesso.
— Estava pensando se não seria por causa da princesinha. Afinal é por isso que a está treinando, não é? Para ter a certeza que ela não vira refeição de um hollow qualquer enquanto estiveres ocupado com o cara que matou Aizen.
Ulquiorra desviou o olhar, ignorando completamente a provocação lançada pela pantera que sorria por sua vez ao entender que acertou no seu palpite.
A imparcialidade de Ulquiorra era cada vez menos imparcial. Grimmjow já conseguia decifrar minimamente aquele espada que sempre lhe fora tão estranho e irritante. A humana lhe estava dando emoções. Seu sorriso sumiu ao concluir que ele próprio estava consideravelmente diferente por causa dela… Apesar que de um jeito diferente. Ele não sentia aquelas coisas esquisitas que estava vendo acontecer em Ulquiorra. É um sentimento de protecção, afecto talvez. Seu sadismo e sede de vingança também diminuiram tendo agora como passatempo preferido irritar Ulquiorra. Era divertido de uma maneira invulgar que ele não entendia o motivo.
Não querendo prender-se a lamechismos de seu novo "eu" e de sua nova vida, ele encarou Ulquiorra que estava distraído observando a ruiva dormir. Sua mente elaborando um plano maquiavélico fez com que inchasse o peito, se controlando para não gargalhar no momento inoportuno.
Simulou uma tosse consideravelmente alta para acordar Orihime, que ainda piscando os olhos com sono despertou alarmada.
— Grimmjow-kun, está se sentindo bem?
— Sim, sim. Acho que só estou com frio. —Grimmjow esfregava as mãos teatralmente em seus braços fazendo Ulquiorra arquear uma sobrancelha desconfiado. Hollows não tinham frio. Porém, a ingenuidade era um traço impagável em Orihime.— Princesinha, podíamos dormir abraçados. O que acha?
Grimmjow sorria discretamente não desviando o olhar de um Ulquiorra estático, deixando Orihime consideravelmente rubra e gaguejando, sem saber bem o que dizer.
— Ignore as estupideces do sexto e volte a dormir, onna. —Orihime desviou o olhar para Ulquiorra, notando este levemente irritado. Ela ia acenar mas fora interrompida antes de poder concordar.
— O que é isso, Ulquiorra? Estará o grande quarto espada, antigo lacaio mais fiel de “Aizen-sama”, perdido de ciúmes por uma humana? —Grimmjow debochou, rindo do olhar fulminante que recebera.
— Grimmjow-kun, pare com isso, onegai! —Normalmente, Orihime acharia engraçado a discussão entre os dois, contudo, ela também se sentia desconfortável com aquele assunto.
O sexto espada sorriu, levantando as mãos num gesto de rendição.
— Hai, hai. Não iremos deixar o “Ulquiorra-kun” bravo. Vou dar uma volta por aí. E não adianta tentar fugir com a humana, Ulquiorra. Eu iria atrás de vocês! —Orihime sorriu discretamente pelas palavras do sexto espada, considerando muito possível essa ideia ter passado pela cabeça de Ulquiorra.
Ulquiorra não sabia o que pensar. Ira o domava com uma suposta aproximação de Grimmjow da mulher, seu corpo ardia quando sentia que ela o encarava em silêncio. Uma perturbação o incomodava cada vez mais. Ele a desejava de uma maneira perigosa...
Ele nunca acreditou no que seus olhos não captavam mas era inquestionável que a presença da onna era como se ele enxergasse com seus próprios olhos o tal coração. Ela era o coração.
Isso era uma idiotice humana, ele tinha conhecimento disso. Todavia, cada vez menos acreditava na sua própria teoria e deixava-se conduzir pelas emoções humanas. Sentimentos que ele não deveria possuir, que ele nem sequer deveria recordar mais deles… mas de alguma forma Orihime Inoue estava recuperando eles da profundeza da sua alma obscura. Estava negando a sua própria essência hollow e o transformando em algo que ele desconhecia.
— Ulquiorra-kun? —Tremeu quando ela tocou no seu rosto. Estava tão distraído que sequer notou a sua aproximação. Estava ficando realmente louco.— Está tudo bem?
A razão o avisava para confirmar e afastar-se com o sonido para o mais longe possível, no entanto estava preso naquele contacto visual com as íris cinzas. Sentia o hálito quente em sua pele fria, o arrepiando, aumentando o desejo que ele negava com todas as forças. Que o enfraquecia, perdendo poder sobre suas acções e seus pensamentos.
Seus olhos arregalaram-se quando a mão em seu rosto escorregou para seu pescoço, acariciando seus cabelos. Quase rosnou, com o pensamento “imprudente!”. Enfurecia-se como aquela mulher não tinha medo dele, que a sequestrara, e ainda assim tinha atitudes impensadas. Era perigosa aquela aproximação, ela devia afastar-se dele!
Ele sabia que os seus sentimentos eram recíprocos, ele o sentia. A mulher não disfarçava em nada as suas emoções e ele conseguia compreender a semelhança do que ele sentia com o que observava nela.
A ansiedade e o desejo do toque… Era partilhado por ambos.
Esse pensamento que o deveria apavorar só aumentou a vontade que vinha reprimindo. Os seus olhos baixaram para os lábios róseos e a ansiedade picava seu corpo. Ulquiorra precisava dela, mais do que tudo.
Num breve momento de inconsciência, movido pelo impulso, Ulquiorra agachou-se, beijando Orihime. A ruiva tremia quer pela surpresa quer pela felicidade, o seu coração batia com tanta força no peito que até ela o escutava.
Um ténue contacto despoletou o desejo de ambos. Ulquiorra segurou firme em sua cintura a puxando contra o seu peito enquanto ela se abraçava em seu pescoço. Os lábios movendo-se mais rápido permitindo ocasionalmente o encontro entre as línguas. Uma das mãos mantinha-se na cintura enquanto a outra passeava pelas costas e cabelos ruivos quando o quarto espada desceu os lábios para o pescoço.
— Ulquiorra… kun…
O gemido grave despertou o quarto espada. O seu corpo estava quente, a mente nublada pelo desejo. Em menos de um segundo ele se afastou de Orihime. Ele não a encarava, nem disse nada quando foi em direcção oposta à de Grimmjow.
Orihime demorou a compreender a atitude de Ulquiorra, quando enfim entendeu que ele novamente se afastara de si sentiu as lágrimas arderem em seus olhos, tentando controlar os soluços presos em sua garganta. Deitando-se nos grãos de areia, cobriu os olhos com as mãos, chorando.
A paisagem de um deserto que parecia sempre igual escondia uma terceira figura que assistira o casal. Suspirando, bagunçou o cabelo, resmungando baixo para si. Grimmjow olhou com compaixão para a figura de Orihime antes de retornar a encarar o quarto espada afastando-se de onde estavam.
— Problemático.
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