O Coração do Espada
5 Borboleta Infernal
Notas iniciais
Vagarosamente, uma borboleta infernal esvoaçava pelos longos corredores alvos do palácio de Las Noches. Silenciosamente o ser negro se deslocava, aparentemente sem destino, até à Sala de Reuniões pousando numa sombra resguardada e distante, assistindo ao que lá se encontrava.
– Bom, antes de começar alguém quer um chá?
Houve um longo murmúrio destacando as recusas cordiais por parte dos espadas. Aizen abana os ombros, descontraidamente, não compreendendo como seus fiéis servos não gostavam de uma deliciosa e calorosa chávena de chá. Porém, também não se preocupou muito sobre isso.
– Certo, em primeiro lugar é a questão do substituto de shinigami Kurosaki Ichigo.
– Eu tenho um relatório Aizen-sama!
– Ah! Pode falar Nnoitra.
As pérolas acastanhadas do shinigami cintilaram como um felino prestes a atacar ao luar, perante a estrondosa exclamação do quinto espada. Ignorante a esse gesto de seu superior, o moreno eleva-se, destacando-se entre os restantes, sentindo-se importante, limpando a garganta.
– O shinigami foi gravemente ferido por mim, como você pediu, e não deve ser capaz de lutar algumas semanas pelo menos, Aizen-sama.
– Muito bom trabalho.
Sorrindo, Nnoitra encontrou a permissão em seu chefe para continuar seu discurso galopante.
– E quanto à shinigamizinha… Não atrapalhará por um bom tempo.
– Tudo correu como planeado, Nnoitra?
– Afirmativo.
– Me perdoe pela intromissão, mas do que falam Aizen-sama?
Halibel, ousada, interrompe o diálogo, captando para si a atenção do Rei de Hueco Mundo. Este, com seu cativante e costumeiro sorriso, dirigi-se para o círculo dos espadas, erguendo sua chávena. Observando com especial atenção o espada melancólico.
– Ordenei a Nnoitra que inserisse uma cápsula no substituto de shinigami Kurosaki Ichigo e outra à shinigami Kuchiki Rukia, criadas e desenvolvidas por Aporro.
– Com que finalidade?
– Interferir na missão resgate Inoue Orihime.
O shinigami eleva a elegante xícara até seus lábios, entreabrindo-os, soprando lentamente para arrefecer o líquido antes de o ingerir, fazendo uma longa pausa dramática.
– A cápsula de Kurosaki Ichigo serviria para adormecer sua reiatsu, dificultaria seus ataques e obviamente sua regeneração rápida. No caso de Kuchiki Rukia, foi algo mais especial...
Erguendo seu olhar, as íris negrumes foram alvo do reflexo da Lua que encontrou refúgio por umas pequenas brechas das janelas lineares.
– … Para simular um estupro.
A surpresa naquele momento reinou junto de Sousuke na divisão obscura, no entanto rapidamente a substituição do ar foi efectuada, dando lugar à euforia na supremacia. Os dez espadas louvaram seu chefe por mais um de seus planos extraordinários para enganar e jogar com seus inimigos.
– Kurosaki Ichigo não virá resgatar Inoue Orihime para socorrer sua companheira de guerra. E por falar na nossa hóspede, sua utilidade brevemente será utilizada. Já não está na hora da refeição da mesma, Ulquiorra?
– Sim, Aizen-sama. Agora mesmo irei-a providenciar.
– Não te atrases com o teu animal de estimação, Ulquiorra.
Ulquiorra levantou-se, ignorando as provocações da pantera azulada que sorria largamente, outros espadas se uniram à brincadeira jocosa, o próprio Aizen sorria com as investidas do sexto. Apesar de isso não incomodar em nada o quarto espada.
Devido à sua insignificância em poder e estatura, sem ninguém detectar sua presença, no mesmo momento em que o moreno abandonou a Sala de Reuniões, a pequena borboleta que compareceu a tudo retomou a voar seguindo discretamente o quarto, abandonando seu pôlen brilhante pelo caminho.
Naquele dia em especifico, Orihime acordou desagradavelmente. Um sentimento ruim a enjoara ainda em sonhos que a transportaram para a penosa realidade. Talvez todos aqueles distúrbios fossem a nociva recompensa de seu acto de rebelião. Seu corpo estava amolecido, fraco, pela falta de alimento, e agora este protestava.
Ruidosamente, com o abrir da porta, a princesa de Las Noches depara-se com os dois arrancares que rotineiramente a visitavam. Não sabia se deveria ficar feliz por vê-lo, ou amaldiçoá-lo pela situação em que a obrigou a submeter-se.
– É hora de seu almoço, mulher.
– Eu realmente não gosto ser chamada de “mulher”.
– Então lhe chamarei de "nada".
As bochechas de Orihime se inflamaram de cólera, perante o injustificável desprezo do espada. O encarou fulminante e a sua indiferença só atiçava gradualmente sua ira. Como pode por momentos simpatizar com aquele arrancar? Exactamente aquele que a mais despreza...
– Então lhe chamarei de “monstro”, monstro!
Ulquiorra piscou os olhos, muito lentamente. Por um momento a lentidão do gesto irritou a própria ruiva. Poderia ter-se ofendido ou ficado entristecido mas nada aparentemente. Como se não sentisse o peso daquelas palavras. No entanto, só parecia curioso com o comportamento demonstrado pela humana.
– Porque me chamas assim?
– Porque é isso que os arrancares são!
– Disparate. Venha buscar sua refeição.
A comida realmente parecia apetitosa a Orihime sentindo seu estômago se manifestar, resmungando, contudo umas pontadas em sua cabeça ainda estimulavam sua irritação.
– Não estou comendo.
Houve um silêncio pesado depois da declaração ousada. Ulquiorra revelou de imediato sua surpresa com os olhos largamente arregalados, desviando imediatamente sua atenção para a ruiva rebelde. Ela manteve seu olhar fixo no nele, desafiadora, com os braços cruzados de encontro no peito, e por um milésimo de segundo, Ulquiorra pensou ver um sorriso de canto em sua face. Ficou irritado, raramente o ficava. Porém, aquela mulher tinha o dom de despertar diversas emoções estranhas em seu corpo. Só podia ser mais um de seus estranhos poderes.
O quarto espada acalmou-se, não poderia machucá-la. E não podia deixá-la sem comer, Aizen-sama não ficaria nada satisfeito se viesse a descobrir isso.
– Muito bem… Então vou fazer você comer.
O servo, que limitava-se a assistir, rapidamente deixou o carrinho da comida e saiu apressado da sala.
A convidada especial de Aizen encarou provocadora para as piscinas profundas verdes que reflectiam sua imagem. Prosseguindo com sua postura relaxada e tranquila.
– Não importa o que faças… Eu não vou comer.
Mal a mulher acabou de falar, se viu subitamente forçada numa cadeira por um par de mãos firmes.
Ela engasgou quando sentiu o rosto do arrancar demasiado perto do seu. As mãos potentes seguravam seus pulsos por debaixo da cadeira. Visivelmente, ela engoliu em seco, nervosa. Aquela aproximação era tentadora mas perigosa.
A respiração de Ulquiorra incrivelmente era mais sossegada naquelas circunstâncias, do que quando sentira a de Kurosaki-kun repousando na sua despedida, antes de partir para Hueco Mundo. Os narizes deles estavam a polegadas de distância.
Ela odiou-se eternamente pelas múltiplas borboletas fantasiosas a esvoaçarem por seu ventre, o borbulhar em cada poro seu. Se martirizou por desejar que o espada acabasse com aquela distância.
– Isto provavelmente vai doer, mulher.
Não pude salvar Inoue…
Não consegui proteger Rukia…
Eu sou um fracassado!
Ichigo pelejava crucialmente contra sua mente, que era assombrada por múltiplas recordações angustiosas. Encontrava-se à mais de quatorze horas, junto da Kuchiki, aguardando pacientemente o despertar desta. Era imperdoável ele não a ter defendido. Por um erro seu, a pequena shinigami ficaria com sequelas que se prolongariam pela eternidade. Desejou o impossível, ambicionou o incansável... Queria que Rukia esquecesse tudo o que tinha acontecido.
Ele trincou o lábio sedento de sangue de um arrancar em peculiar, jurando, com esse gesto simplório, vingança. Assim como eliminou o maldito hollow que desgraçou a vida de sua mãe e de sua família, ele faria o mesmo com quem machucou Rukia.
De supetão, ele percebe um movimento ao seu lado, reparando que era a mão na morena se remexendo sob as cobertas, que despertava calmamente.
– Rukia!
Ela entreabre os olhos cintilantes violáceos ingenuamente, parecia uma criança que abrira pela primeira vez seus olhos descobrindo o mundo. Rukia observava tudo ao seu redor, assimilando curiosa cada detalhe como se não os conhecesse, e isso por um momento intrigou o Kurosaki. Previa que ela estivesse abatida, com uma penumbra em seu olhar. Mas nada. Ela não tinha absolutamente nada… Parecia que a mente dela encontrava-se num vazio eterno.
– Rukia? Está tudo bem?
– Quem é você?
Naquele instante o mundo de Ichigo desmoronou-se.
Se o substituto de shinigami soubesse que o Destino o escutaria, provavelmente teria cogitado pela segunda vez antes de exigir seu desejo.
Fale com o autor