O Coração do Espada
6 Doença do Coração
Notas iniciais
A lua era o sol em Hueco Mundo. Sua luz fraca conseguia iluminar parcialmente toda a extensão daquele mundo consumido pelas trevas, esquecido e abandonado pelos raios solares. Hoje, seu brilho estava ligeiramente diferente, mais penetrante. Como se ela soubesse o que estaria prestes a suceder com aquele lugar, despedindo-se do local banhando-o com sua luz.
– Então? Como correu? Huh? Huh?
Ulquiorra inspirou profundamente, permitindo que uma enormíssima quantidade de ar entrasse por suas narinas. Não que ele necessitasse dessa acção simplória para sobreviver. Porém, tinha alguma crença que o oxigénio encarregasse de lhe trazer a paciência que não tinha para aturar determinados comparsas. Nem reparara que estava sendo contaminado pela doença do coração e das emoções, começando a pensar involuntariamente, sobre as convicções que tinham por suporte a fé.
– Nada. Quando eu estava prestes a forçá-la, ela cedeu.
Grimmjow se inclinou contra a parede, aparentemente desanimado. Com a mão esquerda no bolso, a direita foi direcionada até suas madeixas secretas azuladas, bagunçando-as. No entanto, seu sorriso voltou a surgir revelando seus dentes brilhantes afiados.
– Uma pena, não é Ulquiorra?
O quarto espada remeteu-se ao silêncio, enquanto se encostava na mesma parede que a pantera.
Os dois arrancares desfrutavam de seu momento de lazer, podendo descansar tranquilamente. Um momento raro em Las Noches. Aizen era um líder que exigia muito de seus fiéis subordinados.
Praticamente arrastado pelo sexto, para este falar com ele, o azulado começa a suspirar estranhamente. Algo profundamente melancólico para um espada que ambicionava o posto máximo do poder. Um detalhe que não passou despercebido ao servo mais leal de Aizen, mas que não comentou nada.
Uns longos e pesados segundos seguiram a rota do tempo, quando Grimmjow volta a suspirar porém mais dramaticamente. Algo profundamente teatral. Contudo, o espada melancólico prosseguiu com seu silêncio sepulcral, não dando importância aos suspiros do que estava ao seu lado.
– Droga! Pergunta o que há de errado comigo!
Começando a ficar impaciente por ter sido completamente ignorado, este começou a resmungar. De facto, Ulquiorra não era a melhor companhia para conversar. Desta vez, foi o quarto que deixou clandestinamente um suspiro longo sair por seus lábios finos. Era isso que ele temia, e tinha estado a evitar.
– O que há de errado agora, Grimmjow?
Indignado com a resposta-pergunta que recebera, iniciou seus protestos rabugento. Porque será que quando um espada precisava de dialogar e transmitir seus pensamentos, o outro sempre o ignorava? Talvez por isso tivesse prazer em batalhar contra Kurosaki Ichigo, sempre podia provocar e ter revindicações.
– Você fala como se eu tivesse algum problema!
Silêncio. Nem uma única resposta.
Com certeza, o que o sexto espada mais odiava era ser desprezado.
– Ah, vamos lá! É só que estou a ficar farto de receber ordens de Aizen.
– A palavra de Aizen-sama é inegável.
Farto e irritado, com aquela lealdade cega por parte do outro, a pantera começa a bocejar. Afinal os olhos não eram o mais importante para ele? Como ele então não enxergava algo tão óbvio como o facto de eles estares a ser usados e seriam eventualmente descartados?
– Para mim não. Eu quero ser livre, tomar as minhas próprias decisões… Isto se entenderes o que eu quero dizer.
– Você está se referindo ao incidente em que desafiou as ordens e foi ao mundo humano, antes de ser rebaixado?
O tom de Shiffer era indiferente, porém tinha uma porção de desdém muito mal disfarçada.
– Esse foi golpe baixo, Ulquiorra!
Provocando-o, e como uma forma de o chamar a atenção, ele começou a cutucar o ombro do moreno. Hueco Mundo era um local terrivelmente oco. Não havia som. Nada, nem do mais silencioso ao mais barulhento. Só em lutas, exclusivamente, algum ruído perfurava seus ouvidos. Talvez por isso os hollows se entregassem plenamente à luta. Era uma forma de se recordarem que estavam vivos, utilizando seus sentidos para não caírem no esquecimento. Era esse o motivo pela qual o azulado gostava de provocar seus oponentes, de brigar com eles. Esquecia aquele silêncio que o levaria à loucura. Mesmo sabendo que Ulquiorra estava dois postos acima do seu, e corria um risco ao irritá-lo, valeria a pena. Além do mais ele sabia, assim como ele, o espada despertara as mesmas necessidades que ele. Ele precisava de sons, cores… Sentimentos. Foi a mulher de madeixas alaranjadas que despertara esse lado deles. Ela foi a essência da vida que perfurou seus corpos. Apesar, de formas distintas.
– Você sabe o que ser servo significa? Se Aizen der uma de jogar de rei, deita-nos todos abaixo como peões e acabou o jogo para nós!
– Você quer dizer xeque-mate.
– Tanto faz.
Ulquiorra contorceu a face numa leve careta ao sentir de novo o azulado lhe cutucar, estava a ficar irritado com esse gesto persistente. Contudo, Grimmjow desta vez depositara mais força no acto deixando seu ombro levemente dorido.
– Toque-me novamente e eu vou fazer você perder seu braço de novo
– Venceste. Hoje estás mais chato do que o costume, isso é por causa da mulher?
A pantera voltou a bocejar, descontraindo levemente seus músculos doridos.
– Esta conversa é ridícula.
Se virando na direcção do palácio, começou-se a escutar os paços ocos penetrarem pelo longo corredor. Não tinha tempo a perder com o subordinado mais idiota do exército de Lorde Sousuke. Este ao perceber a intenção do superior em deixá-lo para trás enrijeceu sua testa, carrancudo. Certo, ele sabia que falar na mulher era assunto proibido no entanto não era preciso virar as costas.
– Ulquiorra! Maldito! Eu estava ocupado falando com você! Tu és mesmo uma mascote do Aizen, eh Ulquiorra? Estás a ouvir-me maldito!? Droga, um dia deixarás de ser o preferido!
Cinzento.
No princípio, ela só enxergava preto e branco. Contudo, agora, só via uma mistura enjoante dessas cores. Seria seus olhos que estavam cansados de ver rotinamente as mesmas tonalidades, que começaram a delirar? Imaginaram uma dança em que preto e branco se entrelaçavam?
Novamente, Orihime passara mal. O seu ritual nauseante estava a desgastar a sua força física, seu corpo estava a ser sugado por sua persistência. Naquele ritmo, não demoraria a desmoronar.
Com pontas afiadas, matutando sua cabeça, ela sentou-se com dificuldade na poltrona alva. Por um momento ia caindo, por sentar-se no sítio errado. A tontura estava a deixar sua visão turva e bagunçada. Uma mão húmida pelo seu suor, foi em direcção da sua bochecha. Quando seus finos dedos tocaram sua bochecha, um tórrido choque a arrepiou. Ela queimava.
Eu me sinto tão doente…
A parte de trás de sua garganta estava seca e áspera de persistir no vómito, e seu estômago parecia que estava sendo queimado por dentro. Doeu... Mas não de uma maneira rápida lancinante, esta foi uma dor agonizante lenta que apenas não diminui.
Que sensação de vazio.
A princesa de Las Noches sentada sob o longo imóvel, colocou a cabeça entre as pernas, tentando vencer as tonturas que não a abandonavam. Elas cada vez eram mais e mais intensas.
Oh não, não... Outra vez.
Orihime abriu a boca e outra onda de náusea tomou conta dela, espirrando no chão a seus pés. Demonstrando o ritual que andara a praticar clandestinamente.
– Ulquiorra não vai gostar de saber…
Não teve forças para acabar seu murmúrio quase inaudível. Assim, suas pálpebras se fecharam instantaneamente, a escuridão ofuscou todo o indício de cor que ainda poderia haver. Mergulhando num longo sono, a ruiva desaba no piso frio, abrindo um ferimento em sua testa, deixando fluir um rasto de sangue.
– Mulher estou entrando com o seu jantar.
Não esperando pela resposta, ele adentra através da porta.
– Não faça uma repetição do que aconteceu mais cedo.
Suas íris jades, rapidamente notaram a falta da cabeleireira alaranjada sob o reflexo luar. Surpreso, ele não a encontrou em nenhum local. De repente, identificou um cheiro estranho no ar. Aproximando-se da poltrona reparou num fio ruivo, adiantado três passos, inédito encontrou o que procurava, mas não da forma como queria e esperava.
Orihime estava deitada de lado, seu cabelo esfolado em todos os lugares. Ela parecia uma mancha branca mortal, uma piscina do líquido nojento a circulando.
Pela primeira vez Ulquiorra sentiu um ardor em seu buraco hollow. Ver a face da mulher rósea agora pálida, as olheiras negrumes pairando debaixo de seus olhos e seus cabelos exóticos agora secos. Ele sentia-se mal, mas estava bem fisicamente será que a mulher o contagiara? Aquilo seria uma doença do coração?
No canto da pequena janela, a borboleta infernal os encarava, fugindo em seguida, ofuscada pelo brilho da Lua, que sendo sua cúmplice, permitiu que o pequeno ser escapasse impune.
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