O Conto do Cão Negro

2 Capítulo 02: O Prêmio de Sirius


O final de seu primeiro ano letivo em Hogwarts ia chegando ao fim e com ele a conclusão de que, para Sirius, aquele era o melhor e mais emocionante lugar do mundo. Tiago havia se tornado seu melhor amigo e juntos ambos já haviam descoberto vários segredos do Castelo, como passagens secretas e lugares que a maioria dos alunos, mesmo os estudantes mais velhos, não pareciam conhecer.

Seu momento favorito havia sido quando, por conta de uma aposta com dois terceiranistas, ele e Tiago haviam entrado na Floresta Proibida no entardecer de um sábado à procura de uma prova de que existissem lobisomens vivendo ali. Apesar de duvidarem, por razões óbvias, levaram consigo um relutante Remo, já que ele seria o único que poderia ajudá-los nessa missão. Pedro também resolvera segui-los nessa empreitada já que, aparentemente, não tinha nada melhor para fazer naquele dia.

Havia se tornado comum os quatro saírem juntos ou acabarem em algum tipo de problema, por isso logo tornaram-se inseparáveis. A expedição à Floresta não havia dado em nada e resultou em quatro noites de detenção quando a professora Minerva os pegou saindo lampeiros e imundos dentre as árvores após o toque de recolher.

Por falar nisso, as detenções também o acompanharam durante aquele ano. Era impressionante, na opinião de Sirius, o tanto de regras que uma escola daquelas poderia ter. Logo mais iriam querer detê-lo somente pelo simples fato de andar pelo Castelo e não achava que estivesse exagerando, pois um dia, andando sozinho pelos corredores, atrasado para uma aula de Herbologia, seu caminho foi interrompido pelo desagradável zelador Argo Filch, que teimou que o garoto estava aprontando alguma coisa, porque estava sem seus habituais “cúmplices” e possuía um olhar maroto na face. Na altura em que conseguiu se livrar das garras e reclamações de Filch, já estava muito mais do que atrasado e, consequentemente, acabou levando mais uma detenção por, nas palavras da professora Sprout: “Sua óbvia falta de vontade para com a minha aula, Sr. Black”.

Os castigos não eram tão horríveis, porém, costumavam ser muito entediantes quando se estava desacompanhado. Talvez por isso seus amigos não se importassem em segui-lo em suas brincadeiras impulsivas, já que sabiam que ao menos poderiam se divertir juntos xingando Filch e os demais professores durante esses momentos.

Agora, com poucas semanas até as férias escolares, encontrava-se ele, sentado melancólico em sua carteira. Sempre lhe parecera que não se encaixava com sua família; eles eram rudes e preconceituosos, e achavam-se superiores por virem de uma longa linhagem de bruxos Puro Sangue, no entanto, aprendera a aguentar aquilo para o seu próprio bem ao longo dos anos. Entretanto, agora que conhecia aquela nova vida no Castelo e entre tantas pessoas que, felizmente, não pareciam compartilhar daqueles pensamentos e ideias retrógradas, viu-se lamentando profundamente o fato de ter de voltar para casa. Em sua cabeça, era quase como se estivessem lhe enviando para a forca quando anunciaram que as férias estavam próximas. Nem mesmo durante o Natal ele se atrevera a voltar e ficou extremamente feliz – embora não admitisse em voz alta – que seus novos amigos também tivessem optado por ficar e lhe fazer companhia.

Ele suspirou e brincou com a pena. Não adiantava se aborrecer agora; ainda havia algumas semanas para aproveitar antes de ter de retornar, e lamentar seria somente uma grande perda de tempo.

Sirius inclinou a cadeira para trás e ficou se balançando somente sob as pernas traseiras. Estava se coçando para colocar os pés sobre o tampo da mesa, porém da última vez que fizera isso, Mcgonagall lhe descontara dez pontos por se comportar como um primata. Olhou de relance para o relógio em seu pulso e mais um suspiro entediado lhe escapou quando concluiu que havia ainda mais uma hora até estarem liberados.

Já havia terminado o seu exame de Transfiguração há quase vinte minutos e não parava de olhar aborrecido para os colegas. “Quanto tempo mais esses panacas vão demorar para terminar um teste fácil desses?”, revoltou-se. Sempre ouvira dizer que os exames de fim de ano em Hogwarts eram brutais, mas aparentemente eram apenas as pessoas que costumavam ser obtusas. Sorriu com orgulho ao notar que seus amigos também já pareciam ter terminado. A algumas carteiras de distância, à sua direita, Remo parecia revisar o que escrevera até ali, e três mesas atrás Tiago tentava azarar um besouro para fazê-lo voar ao seu redor. Seu sorriso diminuiu um tantinho ao perceber que Pedro, sentado logo ao seu lado, continuava escrevendo com uma expressão de pânico no rosto e mordendo a língua, como se pudesse extrair dela todas as suas respostas. Talvez nem todos os seus amigos, corrigiu-se mentalmente.

Seu olhar recaiu na mesa da frente e seu bom-humor sumiu de vez. Flori estava sentada ali e escrevia furiosamente, passando a pena pelo pergaminho como se sua mão fosse uma máquina de escrever, que ao atingir a ponta, voltava em menos de um segundo para o começo de uma nova linha. Não falava com ela desde o banquete de boas-vindas em que ela dissera com todas as letras que o considerava um idiota. Na verdade, achava que detestava a garota e, sempre que podia, tentava provocá-la de alguma forma, com o intuito de fazê-la desmontar daquele pedestal irritante que criara para si por ser uma das melhores da turma e favorita da maioria dos professores, junto de outra menina insuportável, Lílian Evans. Porém, até o momento, não estava obtendo sucesso e ela sempre rebatia suas implicâncias com alguma resposta ousada e espirituosa que provavelmente vinham de seu convívio com Evans, que odiava a ele e seus amigos – Tiago em especial – com ainda mais fervor.

Ainda observando-a e xingando a garota e seu belo e perfumado cabelo, que costumava sempre lhe causar uma espécie de torpor quando estavam próximos, Sirius notou que havia algo caindo da mochila aberta de Flori. Ele talvez não se importasse com o fato se não tivesse reconhecido o objeto: era uma daquelas penas auto revisoras, ou seja, se a professora descobrisse, não apenas Flori poderia estar em sérios apuros, como toda a Casa; ele não duvidava nem por um momento que Mcgonall fosse capaz de descontar uns cinquenta pontos por aquilo e a Taça das Casas, que já estava praticamente no papo para a Grifinória, iria pelo cano.

Tomando uma súbita decisão, Sirius olhou ao redor e concluiu que a professora parecia estar absorta na correção de uma pilha de deveres. Ergueu-se sorrateiramente de sua carteira e agachou-se ao lado da de Flori. Esticando discretamente o braço esquerdo, pescou a pena e a trouxe para junto de si. Olhando novamente de esguelha para frente, viu que Mcgonagall continuava concentrada em sua tarefa. Ele cutucou discretamente a perna de Flori com a ponta da pena, chamando sua atenção. A garota levou um susto com a súbita materialização dele.

— Acho que isso aqui é seu, não? – Sussurrou Sirius.

— O que está fazendo, seu lunático?! – Sibilou Flori. – Se a professora nos pegar...

Mcgonagall escolheu aquele minuto para erguer os olhos do que fazia e seu rosto congelou numa careta de incredulidade ao pegar ambos com a atenção longe da prova e discutindo. A professora se ergueu num movimento ágil, com as narinas infladas de fúria.

— O que pensa que está fazendo, Sr. Black? – Indagou de maneira áspera.

— Eu só estava...

— Não estou interessada em ouvir suas desculpas! – Exclamou Mcgonagall.

Sirius ficou de pé e encarou a professora de maneira aborrecida.

— Ora, se não queria saber, por que perguntou? – Retrucou o garoto de maneira petulante.

Seus colegas o encararam boquiabertos. Até mesmo Tiago parecia dividido entre soltar uma risada ou olhá-lo com espanto. A professora também o encarou de maneira chocada por meio segundo, parecendo não acreditar que seria possível alguém respondê-la de forma tão arrogante. Todavia, seu assombro não durou muito, pois logo uma expressão rígida tomou conta do rosto de Mcgonagall e ela já parecia ter se recuperado.

— Muito bem, acho que menos vinte pontos para a Grifinória e mais uma noite de detenção serão suficiente pela sua ousadia. – Sentenciou. – Para ambos. – Completou.

Flori arregalou os olhos.

— A senhora não está falando de mim, professora? – Indagou ela, tentando não deixar que o desespero tomasse conta.

— Certamente que estou, Srta. Corbyn. – Respondeu a professora de maneira seca. – Ou a Srta. está sugerindo que não a vi conversando com o Sr. Black?

— Não, mas foi ele que...

— Já chega. Esta é a minha palavra final. Menos vinte pontos para cada e uma noite de detenção.

A turma inteira gemeu; haviam acabado de perder quarenta pontos, o que significava que a Taça das Casas acabava de ir para a Sonserina. Com poucas aulas pela frente e sem mais oportunidades de ganharem pontos com partidas de quadribol, era praticamente certeza que haviam perdido.

Sirius sentou-se de volta ao seu lugar, sentindo-se furioso. Sua vontade era de retrucar ainda mais às ordens de Mcgonagall, mas astutamente sabia que só iria prejudicar mais sua Casa. Como se não se sentisse mal o suficiente, para piorar, Flori o olhou com raiva enquanto a professora lhes tirava os exames e parecia já estar lhes dando nota, o que não poderia ser um bom sinal. Sirius ficou agradecido que não estivessem sozinhos, pois pelo olhar que a garota lhe dava, podia jurar de que ela seria capaz de voar em seu pescoço se não houvessem testemunhas.

***

A punição dos dois seria polir a sala de troféus sem o auxílio de magia. Vendo que teriam de suportar a presença um do outro pelas próximas cinco horas, Sirius concluiu que seria melhor deixarem suas desavenças de lado naquele instante, pois sabia por experiência própria que o tempo passaria mais depressa com uma conversa amigável do que com grunhidos e acusações, por isso tentou animar a garota.

— Pelo menos você deve ter prática com esse tipo de coisa. – Disse, ao derramar uma quantidade generosa do líquido para polir em um pedaço de pano.

— Você realmente acha que trouxas normais têm uma penca de prêmios e troféus em sua casa? – Retrucou Flori de maneira desdenhosa.

— Bom... – Sirius parou e olhou-a constrangido, enquanto a garota esfregava um escudo de ouro como se ele tivesse lhe ofendido pessoalmente. – Na verdade, não sei o que os trouxas fazem normalmente. – Admitiu.

— Você é um idiota.

— Como é? – Exclamou o garoto, sentindo-se indignado. Tentara ser legal e ela o atacara gratuitamente.

— Eu frequentei um colégio de trouxas por cinco anos e não recebi uma notificação ou reclamação de um professor sequer, mas agora, graças ao incrível, genial e brilhante Sirius Black, que adora meter o nariz onde não é chamado, recebi minha primeira detenção e agora meu histórico escolar está manchado para sempre. Muito obrigada!

— Quer saber? – Sirius atirou o seu trapo no chão com raiva. – Eu deveria ter deixado a Mcgonagall apanhá-la com aquela pena auto revisora ao invés de tentar ajudar uma garota ingrata e que só sabe reclamar!

— Eu não pedi a sua ajuda! – Retrucou furiosa.

— É, ótimo. Da próxima vez que estiver prestes a quebrar a cara, não conte comigo. – Declarou Sirius, juntando o pano e passando a polir uma Taça de quadribol de dois séculos atrás que havia sido ganha pela Lufa-Lufa.

— Então posso me considerar com sorte! – Sentenciou Flori.

Ainda mordido pelo último comentário, Sirius não conseguiu se controlar:

— Você é apanhada com uma pena daquelas e eu é que sou o idiota.

— Aquilo era problema meu! – Flori se virou para ele. – E você é sim o idiota que nos custou a Taça das Casas.

Os dois viraram de costas um para o outro, injuriados demais para continuarem a briga. No entanto, a curiosidade bateu mais uma vez à porta e, mesmo já tendo consciência de que ela era a principal razão pelos seus castigos e perdas de pontos, Sirius não pôde continuar a ignorá-la por mais tempo.

— Por que você levou aquilo para o exame, afinal? – Perguntou após alguns minutos. – Você é uma garota esperta, não estou zombando. – Assegurou. – Não sabia que é proibido?

Ela pareceu desarmada diante do elogio inesperado.

— É claro que sei. – Afirmou. – Mas não era minha. Pedro me deu de presente à porta da sala, enquanto esperávamos que a professora Minerva nos chamasse para entrar e não tive tempo de me livrar daquilo. – Explicou. – Eu acho que ele não ouviu quando ela disse que era inútil usar uma coisa daquelas ou então se esqueceu.

Sirius pôde imaginar Flori tentando esconder a pena afobadamente em sua bolsa e na pressa, esquecer-se de fechar completamente a mochila. Reconhecia que tal explicação fazia muito mais sentido com a ideia que tinha da garota do que imaginá-la tentando colar. Porém, não respondia a principal das perguntas...

— De qual Pedro você está falando? Não o Pettigrew.

Ela revirou os olhos de maneira arrogante.

— Conhece algum outro Pedro que estuda conosco? – Rebateu.

— Eu não sabia que eram amigos.

— Conversamos às vezes. – Contou. – Nos conhecemos no Beco Diagonal, quando fui comprar meus materiais. – Explicou. – Mas eu não vejo porque isso seria da sua conta. – Acrescentou Flori, parecendo retomar sua atitude defensiva.

Sirius não fez qualquer comentário a essa última declaração. Ele não sabia o motivo, mas descobrir aquilo lhe pareceu tão injusto e errado, quanto à professora Minerva lhe descontar vinte pontos por tentar ajudar uma colega. Sentiu um frio desagradável no estômago e identificou-o, com certo horror, como uma pontada de ciúmes. O garoto se virou depressa para a Taça que começara a limpar e tentou se livrar daquela sensação estranha e desagradável, perguntando-se o que estava acontecendo consigo naquele dia.

Estavam há quase uma hora sem se falar, Sirius sentindo-se em paz e totalmente no controle de suas próprias emoções novamente, quando Flori soltou um grito de gelar o sangue. Ele virou-se para ela no mesmo instante, esperando encontrar um trasgo, o Barão Sangrento, ou qualquer outro tipo de criatura horripilante que pudesse gerar um grito daquela cadência, porém, tudo o que viu foi a menina encolhida a um canto, entre a parede e um baú velho e empoeirado, cravejado de joias.

— Qual o problema? – Indagou com cautela, temendo receber um novo ataque de fúria.

Flori não respondeu, de modo que Sirius precisou se aproximar para enxergar o que havia lhe causado tanto medo: uma aranha do tamanho de um grão de milho paralisada sobre a tampa do baú, parecendo tão amedrontada quanto à garota. Sentiu uma vontade quase incontrolável de cair na risada, no entanto, podia ver que ela parecia verdadeiramente apavorada, por isso, sufocou o riso e, agindo como o que considerou um verdadeiro cavalheiro, livrou-se da aranha com um movimento de varinha e lançou-a pela janela.

— Ameaça neutralizada, minha Senhora. – Anunciou Sirius, fazendo uma breve reverência.

Flori pareceu sair do choque e avançou pra cima dele. Sirius achou que daquela vez ela o atacaria de verdade e tentou sacar a varinha novamente, contudo, antes que tivesse tempo de tirá-la de dentro das vestes, Flori o abraçou. Dessa vez foi ele que manteve o olhar vago e espantado. Sua surpresa por aquele súbito e espontâneo gesto foi tamanha, que pela primeira vez viu-se sem palavras. Ela o soltou e lançou lhe um olhar constrangido.

— Obrigada. – Murmurou. – Não gosto que ninguém me veja assim, mas... não consigo me controlar perto dessas coisas asquerosas. – Explicou.

Sirius sentiu-se recuperando um pouco da normalidade quando os braços de Flori o largaram, mas ela ainda continuava muito próxima, de modo que para aliviar seu crescente aturdimento, resolveu gracejar:

— Fico me perguntando como você faz nas aulas de Poções então.

— Geralmente Lily me ajuda nessa parte. – Confessou, parecendo ainda mais sem graça do que antes.

Sirius acabou rindo e antes que se desse conta do que estava fazendo, inclinou-se sobre Flori e roubou-lhe um beijo. A garota recuou até a parede, parecendo quase tão assustada quanto com o seu confronto anterior.

— O que foi isso? Ficou maluco?

Sirius sabia que deveria se sentir constrangido; um instinto poderoso e surpreendente, cuja motivação ele não sabia de onde viera, se apoderara dele e o fizera agir sem pensar. A verdade, porém, é que por mais que quisesse, não conseguia se sentir envergonhado. De fato, viu-se desejando que o momento tivesse durado mais do que apenas dois segundos.

— Talvez. Talvez eu tenha mesmo enlouquecido. – Reconheceu. Ele deu um passo adiante, mas parou ao ver que ela não parecia à vontade.

— Não, não. Nunca é um bom sinal quando o lunático toma consciência da sua própria loucura. – Murmurou, o que gerou uma nova risada da parte dele. – Isso é bizarro demais! Nós não temos...

— Quer ser a minha namorada? – Disparou Sirius, interrompendo-a e pegando-a totalmente de surpresa.

Flori endireitou-se.

— Que brincadeira é essa, Black? – Zangou-se.

— Nunca falei tão sério em minha vida. – Garantiu.

— Nós só temos onze anos, não podemos...

— Correção: tenho doze.

— Não importa! – Retrucou Flori. – Continua sendo...

— Você não quer?

— Oi?

— Ser minha namorada. – Completou diante da confusão dela.

Sirius viu suas bochechas corarem violentamente.

— Bem... você... se você prometer que não irá contar pra ninguém... talvez eu aceite. – Disse, parecendo enrubescer mais a cada palavra.

— Tem a minha palavra. – Garantiu o garoto.

— Ééé... tá bem. E o que a gente faz agora? – Perguntou.

Sirius sorriu com expectativa.

— Acho que precisamos selar nosso contrato com um beijo, o que me diz? – Propôs.

— C-certo. – Concordou Flori.

Sirius se aproximou devagar, mal podendo controlar sua euforia, e mais uma vez seus lábios se colaram.