O Conto da Holy Serenity
7 A Resistência - Parte 1
Notas iniciais
Fico feliz que estejam gostando, mas eu vou avisar que vou começar a demorar um pouco mais para postar as atualizações dos capítulos.
Então, eu trago hoje a continuação da fic. x3
Boa leitura!
Cena 1
Parte 1: Chegada
Eu gostaria muito de poder dizer que quando chegamos era de noite... Olhei pesarosamente para o Eclipse. Eu tenho certeza que se passaram dias, no entanto, aquele Eclipse não permitia discernir nada temporalmente... Pouco a frente de mim e da Edna estava Grandark. A asmodiana se provou realmente muito boa, nos ajudando a pegar comida durante a viagem e eu me sentia especialmente tratada por ela. Não que eu ache isso um problema, na realidade, eu gosto muito de sentir um carinho de alguém numa situação como essa...
Grandark e ela vinham trocando a posição de batedores durante a viagem, no momento o turno era dele. Olhei para o corpo do Zero, mesmo não sendo ele quem estivesse ali na maior parte do tempo... Por que era tão difícil aceitar aquilo? Talvez por que eu sentia que meu papel como protetora da justiça falhou ao Grandark tomar conta daquele que jurei que iria ajudar e proteger?
- Ei, Holy. Que tipo de relacionamento você tem com o Grandark?
Fitei Edna surpresa com a pergunta. Quer dizer... Não era como se eu não me importasse com o Grandark, na verdade, eu me importava muito mesmo, já que ele estava usufruindo do corpo do Zero para poder agir... Ok, isso não responderia a pergunta dela... Cocei a nuca.
- Bem... É meio complicado de explicar.
- Nah, tenta ai. – Aquele mesmo sorriso de sempre surgiu nos lábios da Edna enquanto batia de leve nas minhas costas.
- Hahah... Uhm... – Abaixei a mão da minha nuca e olhei para Grandark, falando baixinho para que ele não escutasse. – É que assim... Eu cheguei a conhecê-lo quando Zero ainda estava... Consciente... E ele nunca foi muito amigável comigo, mas agora ele parece estar sendo até gentil...
- Uhm... – Edna coçou o queixo, inclinando-se para me escutar. – Continue.
Espera, como eu continuaria? Pensei rapidamente.
- Bem... Errr... Na realidade eu me lembro das coisas... No entanto, não dessa forma que as coisas estão...
- Como assim? – A asmodiana perguntou, agora com um claro tom de curiosidade.
- Ei, parem com a fofoca ai, mulheres. – Grandark chamou nossa atenção. – Chegamos.
No calamos, trocando olhares. Não sei por que, mas, senti como se a Edna me olhasse desconfiada... Como se parecesse estar pensando em alguma coisa sobre o que eu acabei de dizer. Voltei a olhar para frente e fiquei impressionada com o que vi.
Canaban estava completamente diferente de Serdin, ao mesmo tempo em que também estava muito diferente do reino que eu conhecia. O que restou das muralhas foram aproveitadas como bases para criar um imenso muro com uma vigília em cada lado do portão principal. Estávamos bem perto de uma fossa que rodeava todo o reino e tentei me aproximar para ver o que tinha no seu fundo. O braço do Grandark me conteve e uma voz soou de uma das vigílias.
- Quem vem lá?!
- O vento do novo mundo. – Respondeu Grandark.
Alguns minutos de silêncio se propagaram. Fiquei meio nervosa do que poderia acontecer em seguida, já que ele não abaixou o braço até então. Olhei para Edna e ela também estava absurdamente séria. Engoli seco e então o som de correntes deslizando chamou minha atenção.
O portão principal estava sendo abaixado para se tornar em uma ponte que permitiria nossa passagem pela fossa. Do outro lado, pude ver um rapaz de cabelos alaranjados usando uma armadura completa, apesar de que logo por baixo era visível a quantidade de panos com emblemas xamanicos. Arregalei meus olhos, surpresa.
- Ryan?! – Murmurei, abismada.
Não é como se eu não achasse que ele fosse forte ou algo parecido, mas definitivamente aquela pose autoritária, mas ao mesmo tempo inspirava respeito, fazia uma completa diferença. Nem parecia que era o mesmo elfo folgado que eu conheci. Estava simplesmente boquiaberta enquanto o via se aproximar, com um sorriso nos lábios, apesar dos seus olhos estarem atentos a qualquer tipo de movimento. Junto dele saiu uma pequena escolta.
- Há quanto tempo, Grandark! – Exclamou Ryan, colocando as mãos na cintura. – Engordou é?
Fiquei surpresa com o modo descontraído do comandante da Resistência, ou talvez decepcionada. Uma vez Ryan, sempre Ryan. Grandark bufou, abaixando o braço que me conteve no lugar finalmente, o que fez o elfo olhar de relance para mim. Recuei instintivamente.
- Com certeza estou mais magro que você, que se esconde que nem um maricas dentro desses muros.
Ryan riu como se fosse uma simples piada, mas notei o nervosismo entre os soldados que o acompanharam.
- Muito boa, Grandark! – O comandante deu de ombros, respirando fundo depois do ataque de risos. – Vamos entrar, traga suas companheiras junto também. É melhor conversar no aconchego do calor do que na ameaça constante.
Não entendi o que ele quis dizer sobre ameaça constante, mas julguei que fosse pela atividade anormal dos monstros. Eu tinha ouvido falar na Terra Sagrada sobre que no Eclipse as trevas ficam mais fortes, e de fato, encontramos diversos monstros no nosso caminho para cá. Olhei para Grandark, mas ele não retribuiu meu olhar.
Ryan se virou de costas e começou a andar de volta para dentro de Canaban, sendo seguido por seus guardas.
Senti então um toque macio e gentil na minha mão e olhei para o lado, vendo Edna que sorria para mim. Eu sabia que ela queria me acalmar e apertei a mão dela em resposta.
Seguimos para dentro do desconhecido. Ou pelo menos para mim.
-x-
Canaban se mostrou mais desenvolvida tecnologicamente do que antes quando entramos, o que era algo realmente surpreendente, levando em conta a aparência externa. Todas as ruas eram iluminadas por uma sequência de postes que emitiam uma luz branca e havia dezenas de robôs fazendo a patrulha junto com os soldados, enquanto outros maquinários estavam ajudando a distribuir comida para as pessoas na rua.
Era impressionante e triste ao mesmo tempo.
- Vejo que a Mari realmente revolucionou esse lugar. – Comentou Grandark.
- De fato, desde que ela despertou como La Geas depois da guerra, ela tem sido muito útil nos ajudando...
Pisquei os olhos, olhando para os dois. O demônio verde parecia estar analisando Canaban, como se buscando detalhes, quando olhei para Edna, percebi que ela parecia mais desconfiada do que a vontade. Talvez fosse por causa dos olhares de temor de algumas pessoas para ela e os desconfiados guardas que murmuravam quando a asmodiana passava.
- Percebo que seu povo ainda não aprendeu a ter educação também. – Rosnou Edna, enfim manifestando seu incomodo.
Ryan riu como se não fosse nada, mas coçou a nuca claramente sem jeito.
- É difícil reatar laços de amizades depois da guerra... – O elfo suspirou, mudando de assunto logo em seguida. – E o Dio? Ele tem conseguido juntar as tribos novamente?
- Não... – Pude notar um claro desapontamento na voz da Edna. – Desde que a guerra provocou tamanho massacre na nossa raça, os asmodianos não estão inclinados a confiar novamente nos habitantes de Ernas.
- Bem, os humanos e os elfos também sofreram uma grande baixa... Tanto que a maior parte da nossa população sobrevivente esta residindo dentro dos muros. – Ryan reclamou, cruzando os braços enquanto olhava ao redor. – Perdemos contato com a maior parte dos habitantes de fora...
Engoli seco, apertando de leve a mão da Edna. Aquilo tudo era assustador... Olhei ao redor, pensando na quantidade de pessoas que Canaban conseguia abrigar.
- Mas, vejo também que conseguiu criar casas para eles... – Grandark pareceu tentar mudar de assunto.
- Sim, sim... Heheh... Se não fosse pela Mari, nossas crianças ainda estariam no sereno chorando de fome... Até construímos um hospital, sabia?
- É um bom desenvolvimento. – Murmurou Grandark, apesar de que pude notar que ele não parecia estar querendo realmente dizer aquilo.
Ryan ficou meio sem jeito naquele momento, limpando a garganta para dispensar os soldados.
- Já estamos chegando. – O elfo sorriu e se virou para mim finalmente. – E quem é você, pequenina?
Senti meu rosto ficar quente de ser chamada de “pequenina”. Eu parecia uma criança por acaso?!
- Ela disse que se chama Holy Serenity... – Respondeu Grandark por mim. – Encontrei-a nos escombros de Serdin.
- Uma sobrevivente de Serdin?! – Ryan ficou verdadeiramente surpreso, soerguendo as sobrancelhas.
- Não... Pelo emblema e o modo de batalha dela, eu diria que está mais para uma sobrevivente da Ordem dos Paladinos.
- Os Paladinos? – O elfo cruzou os braços, intrigado novamente. – Mas, a ilha deles não tinha afundado durante a chuva de meteoros?
Estaquei no lugar, olhando para Ryan. Edna parou logo ao meu lado e soltou um suspiro. Grandark pareceu também passar a mão no rosto e só então o comandante da resistência notou o que disse. Meu coração batia no meu peito, mas parecia soar na minha cabeça. Eu não sabia o que dizer naquela hora... Tudo parecia estar lento e ao mesmo tempo seguia no seu ritmo normal...
- Minha casa... Ela afundou? – Murmurei em puro choque, olhando para frente sem ver nada.
Sei que fazia tempo que eu não ia para casa, ver meus vizinhos, meus amigos... Mas, não era por isso que eu tinha esquecido completamente as memórias felizes que tive lá... Imaginar sequer que eles morreram sem que eu estivesse lá para ajuda-los... Socorre-los... Salva-los...
Eu sou uma decepção para meu povo. Senti algo escorrendo pelas minhas bochechas e só então notei que eram lágrimas. Passei a mão no meu rosto, recolhendo com os meus dedos aquelas gotas salinas e olhei-as em minhas mãos. Por que eu me sentia triste se eu sentia que eu estava fazendo meu dever com as deusas, mesmo que isso significasse o sacrifício de todo meu povo? Era aquilo que significava servir realmente, certo?
Todos os sacrifícios são apenas meios de provar aos deuses sua devoção... Senti meu coração apertar em pensar naquilo. Minha mente pareceu enevoar enquanto tudo parecia ficar instável. A escuridão parecia se aproximar novamente enquanto me sentia tonta. Aquilo iria acontecer de novo?
Uma luz surgiu brevemente na frente dos meus olhos e senti o toque de alguém no meu rosto. Quando fui tentar ver direito o que estava acontecendo, vi que Edna estava abaixada apoiando meu corpo em uma das suas pernas e Grandark estava abaixado logo ao meu lado, me olhando atentamente. Ryan coçou a nuca sem jeito.
- De-Desculpe... Eu não sabia que... – O elfo suspirou, olhando para baixo.
- Tudo bem... – Murmurei com a voz tremendo e limpei o meu rosto molhado com as costas da mão.
- Consegue se levantar? – Edna me perguntou.
Acenei positivamente com a cabeça e me levantei devagar. Ainda me sentia levemente tonta, mas logo passou quando fiquei de pé. Olhei ao redor, notando que algumas pessoas pararam para me olhar e avermelhei logo em seguida, dando um sorriso sem jeito.
- Eu-Eu estou bem!
- Mesmo? – Grandark perguntou, com um estranho tom preocupado. – Não é a primeira vez que cai desse jeito.
Olhei-o meio surpresa de ouvir aquilo, no entanto aquele visor amarelo me impedia de verificar se aquele brilho dourado que vi outrora apareceu. Acenei positivamente com a cabeça e Edna se manteve perto de mim, passando a segurar meu braço.
- Podemos te levar para o hospital. – Ryan emendou logo em seguida, olhando atentamente.
- Não, já disse que estou bem. – Sorri de volta, tentando acalma-los.
Os três se entreolharam, mas deram de ombros.
- Se você cair outra vez, sua tonta, certamente vai levar uma injeção. – Grandark ameaçou, virando de costas e passando a caminhar.
Engoli seco, arregalando os olhos. De onde ele tirou aquilo de tomar injeção?! Não fazia o mínimo sentido tomar injeção por causa de um desmaio!
- E-Espere, eu só precisaria de repouso! – Tentei corrigi-lo, em vão.
-x-
Após alguns minutos, chegamos num estabelecimento que provavelmente outrora foi o castelo de Canaban. Mas, suas belíssimas torres foram reconstruídas como torres de vigia e ainda sim tinham alguns cantos que estavam sendo recuperados pelos robôs da Mari. Adentramos no salão e seguimos até onde seria a sala do trono, este que estava vazio. Frente ao trono se encontrava uma grande mesa de vidro, com diversas cadeiras.
Estava abobada com aquele lugar. Nunca tinha entrado no castelo de Canaban, e mesmo que não fosse realmente o castelo em si, era simplesmente magnifico da mesma forma.
- Comandante Ryan, quem seria essa menina?
Apesar de ter tomado um pequeno susto, eu sorri ao reconhecer a voz. Entrando no salão pela direita vinha Mari e ela parecia mais bonita do que nunca antes vi. Na realidade, ela parecia bem madura e aquelas roupas eram realmente chamativas... Estranhei aquelas “espadas” as circulando, mas ignorei esse detalhe.
- Mari! – Fui correr para abraça-la.
No entanto, aquelas espadas logo se voltaram contra mim tarde demais que eu pudesse desviar. Para minha sorte, senti ser puxada para trás por Edna, que olhava Mari desconfiada. Ryan riu de modo forçado, se aproximando da La Geas e movimentando a mão para ela abaixar as armas.
- Calminha aí! Ela é nossa convidada, se chama Holy Serenity.
- Uhm... – Ao ouvir aquilo, Mari enfim abaixou suas armas e me olhou atentamente. – Interessante. Não sei como você sabe meu nome, Holy, mas me chamo Mari Ming Onette.
Pisquei os olhos, assustada e surpresa. Edna se colocou na minha frente quase como se quisesse me proteger e fiquei sem reação com aquilo. Ryan logo se apressou entre as duas, dando um riso nervoso.
- Calma gente, calma... – Ryan limpou a garganta. – Mari, poderia chamar Maid-2 para levar Holy para um quarto? Acho que ela iria ficar realmente contente com um banho quente depois de uma viagem tão longa e perigosa...
Olhei para o elfo, até me sentindo ofendida com o jeito que ele estava me tratando. Mas, o olhar desconfiado da Mari me fez entender o porque daquela ação do Ryan, apesar de não entender o por que de estar sendo tratada com tamanha hostilidade.
- ...Certo. – Mari respondeu e então apertou um botão na sua cintura. – M-2, venha levar uma hospede para um quarto.
Depois de dois minutos uma robô que parecia uma replica de uma empregada domestica apareceu. Fiquei surpresa de ver tamanha perfeição na replica das juntas e até mesmo se portou de forma cortês frente a mim, fazendo uma pequena reverencia.
- M-2, leve a Holy para um aposento. – Ryan indicou para mim.
- Sim senhor. – M-2 pegou meu pulso gentilmente, até mesmo sorrindo para mim. – Queira me acompanhar, senhorita.
Olhei para Edna e Grandark, esperando que se manifestassem de alguma forma, mas seu silêncio me fez apenas aceitar o que eles estavam querendo indicar. Suspirei, abaixando os ombros.
- Sim.
-x-
M-2 foi realmente prestativa comigo, trazendo frutas e pães para que eu pudesse comer. Eram grandes e saborosos, apesar de que acho que sinceramente aquele foi um tratamento realmente especial, uma vez que parecia que eles estavam tendo problemas com comida. O banho foi especialmente relaxante e eu realmente tinha sentido falta de um.
Apesar de todo aquele tratamento especial e do cheiro gostoso que meu corpo possuía depois do banho, minha cabeça doía de tanto pensar. Por que a Mari tentou me atacar? Que ameaça constante era aquela? Por que as deusas pareciam estar roubando tudo que me importava? Será que estavam testando minha fé? Apertei a coberta da minha cama e então virei em direção a porta.
O quarto era simples, apesar de ter toda a qualidade de um quarto do castelo. A cama era especialmente macia e grande, assim como seus travesseiros. As cobertas eram grandes e felpudas também e a M-2 tinha me dado um pijama super fofinho, tanto no sentido de ser confortável quanto na aparência. A penteadeira estava vazia assim como o guarda-roupas. E meu martelo estava apoiado logo do lado da minha cama. Suspirei, me perguntando que tipo de pessoa costumava a dormir onde eu estava agora.
Estava completamente sem sono, tanto que eu reparei em cada detalhe desse quarto pelo menos quatro vezes. M-2 havia levado minhas roupas para lavar e disse que logo de manhã as traria secas e limpas. Não que eu tivesse pressa naquilo claro... O pijama que eu estava usando podia muito bem ser meu novo uniforme.
Olhei de volta para a porta, vendo a luz que passava pela fresta no chão e vi então uma sombra parando logo a frente da minha porta. Arregalei os olhos, o tempo que aquela pessoa desconhecida ficou parada ali parecia ter sido uma eternidade, apesar de que provavelmente foram segundos. Passado esse tempo, a pessoa em questão simplesmente saiu andando.
Soltei um suspiro aliviado e me aconcheguei nas cobertas, ainda espiando a luz pela fresta.
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