O Conto Da Casa Do Homem Enforcado
1 A Casa
Notas iniciais
Meu nome é Christiane Visconti, moro em uma cidade pequena no interior do estado de São Paulo, onde nunca acontece nada, ou pelo menos, não acontecia antes daquela família vir morar aqui.
Vou explicar como a cidade é, para que você possam entender melhor tudo o que vou contar.
A cidade tem pouco mais de 1.600 habitantes e às vezes parece que todos se conhecem, coisa de cidade pequena. Na rua em que moro há 20 casas todas iguais, foram construídas há 50 anos, mais ou menos, por uma empresa que pretendia fazer condomínios por aqui, mas faliu antes de poder terminar seu trabalho.
As pessoas aqui são bastante religiosas, algumas beiram o fanatismo, nos finais de semana -principalmente aos domingos-, a igreja central enche de beatas e falsos "crentes".
Quando aparece por aqui alguém de cidades distantes, normalmente está procurando paz e tranquilidade, coisa que facilmente se encontra por aqui.
Próximo à minha residência há uma casa que há anos estava vazia. Esteve vazia por tanto tempo quanto consigo me lembrar. Meus pais me disseram que antes de esvaziar a casa, morava ali uma família de 5 pessoas, eles não eram como os outros habitantes da cidade, quase não saiam, não falavam com os vizinhos e nem ficavam na janela observando o movimento das ruas. Era raro ver algum mebro daquela família fora da casa, mas sempre era possível saber quando estavam ou não. Então, um dia eles simplesmente sumiram da cidade, as más línguas dizem que fugiram no meio da noite. Depois que se foram, quinzenalmente aparecia alguém na casa, para limpar, recolher correspondências, pagar as contas essas coisas necessárias. Mas com o tempo, essas pessoas param de ir até lá. E a casa ficou vazia e abandonada.
Apesar de todo o mato em volta, da pintura desgastada e da aparência de casa assombrada a construção tinha uma certa beleza, e isso atraía muitos possíveis compradores. Os verdadeiros donos -que nunca apareceram por lá-, não colocaram a casa à venda, não legalmente, com placas e informações, mas vez ou outra aparecia alguém querendo comprá-la. Até mesmo meus pais queriam o imóvel, sabe-se lá porquê.
Um dia, um homem -com a típica aparência de vendedor chato-, apareceu por aqui, querendo conversar com meus pais sobre a venda do imóvel, como já era de se esperar, ele convidou meus pais a visitarem a residência, por curiosidade eu fui junto.
Por dentro a casa estava muito melhor conservada do que por fora, como se alguém ainda morasse ali. Enquanto meus pais e o representante da família Hamison -os donos da casa-, conversavam sobre toda aquela burocracia chata de compra e venda eu decidi conhecer o lugar, discretamente me afastei deles e comecei a observar e buscar em todos os cantos coisas interessantes.
As paredes da sala estavam marcadas por molduras de quadros, eram tantas manchas de retângulos que nem pude contar, havia nas mesas e prateleiras porta retratos vazios, achei um pouco assustador.
Subindo as escadas eu sabia que encontraria os quartos, sabia porque a casa era exatamente igual a minha.
Havia 3 dormitórios, o primeiro com duas camas de solteiro, o segundo com apenas uma cama, também de solteiro, o terceiro tinha uma cama de casal bem no centro. Passei por todos rapidamente, apenas para ter a certeza de que estavam abertos, depois de confirmar isso voltei para olhar melhor cada um.
O primeiro quarto, o das duas camas, era bem feminino, tinha um armário cor de creme, com florais decorando a lateral, nas paredes, as prateleiras estavam preenchidas por bonecas de porcelana e bichos de pelúcia. Havia ainda uma penteadeira vazia, com um espelho manchado.
O segundo quarto era um quarto de menino, mais simples que o outro. Uma cama, um armário cor de creme sem adornos e vazio, algumas prateleiras com figuras de ação e muitos carrinhos -alguns itens de colecionador-, e um grande espelho atrás da porta.
Passei tanto tempo bisbilhotando a casa que quase fico presa lá dentro, por sorte ouvi quando o corretor disse que meus pais teriam que sair, pois outros possíveis compradores iriam olhar a casa dentro poucos minutos.
O homem então se despediu e eu e minha família voltamos para nossa casa.
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