O Continente das Trevas
4 Prelúdio das Sombras
Notas iniciais
A noite estava extremamente chuvosa, e os raios cortavam o céu seguidos do ruído ensurdecedor dos trovões...
Dois dias já haviam se passado, e a Conferência Transcontinental de Magia transcorria conforme o esperado. Sendo que os inúmeros representantes dos Continentes que vieram à Conferência estavam tendo a oportunidade de trocar experiências gratificantes no campo da magia, através do evento.
Contudo, as atenções voltavam-se para um jovem casal de Magos que estavam representando o longínquo Continente de Astrynat, e que estavam destacando-se dentro dos quesitos Poder e Habilidade Mágica. Apesar de mostrarem-se mais fechados, e de limitarem-se a responder sobre o que questionados.
Mas uma estranha energia parecia envolver a tudo e, independentemente de região, todos sentiam a intensidade de sua força sombria, que parecia estar a esgueirar-se oculta na densidade das nuvens que cobriam Serdin.
“Um vento forte soprou, trazendo com ele labaredas que assolavam a tudo sob a forma de serpentes de fogo.... E, no céu, um corcel alado e negro com olhos incandescentes voava, montado por um cavaleiro trajado com uma armadura rubro flamejante.
Para todos os lados, chamas, destruição, caos. Cidades inteiras transformadas em ruínas, e em meio a elas o flagelo da morte e da dor causados pela guerra. Um uivo ecoou nos penhascos ao longe, imersos na escuridão da fumaça.
Uma espada reluziu envolta em uma chama assombreada, e por sua lâmina filetes de sangue escorriam vivamente...”
Sobressaltada, Mari acordou suando frio. Era a sétima noite consecutiva que tinha o mesmo sonho e isso, sabia, era um péssimo presságio. Ainda mais que nunca o havia tido de modo tão nítido.
Com mãos trêmulas, bebeu um pouco da água do copo que estava em seu criado mudo, e viu os clarões que iluminavam o seu quarto. Não pôde deixar de pensar se eles também não eram o prelúdio de algo sombrio. Fosse como fosse, não poderia mais adiar — pensou consigo mesma —, e procuraria o Supremo Conselho no dia seguinte, de qualquer modo, para falar sobre o assunto.
No entanto, quando finalmente o amanhecer se fez presente anunciando um novo dia viu seus ensejos tornarem-se frustrados, pois devido a movimentação em torno do evento — mesmo tendo o apoio da amiga e Conselheira, Arme — não conseguiu marcar uma reunião extraordinária do mesmo, tendo de resignar-se a uma audiência para dali a dois dias com o Supremo Conselho de Magia.
Isso gerou protestos por parte de Arme, mas de que nada adiantaram. Apesar de se tratarem, em sua maioria, de velhos e sábios magos de Serdin, na opinião de Arme, o Supremo Conselho agira de modo pouco prudente ao deixar um assunto tão importante de lado, e agora rogava aos elementos que o pior não ocorresse antes de se colocar a todos a par da gravidade da mensagem, oculta nos símbolos do pesadelo da jovem Techno-maga.
No dia seguinte, por volta das vinte e uma horas, teve início o Grande Baile oferecido pelos organizadores do evento aos seus participantes, como Cerimônia de Encerramento da Conferência Transcontinental de Magia de Serdin.
Sendo que antes um farto jantar foi oferecido aos convidados: Membros Honoráveis do Conselho da Faculdade de Magia de Serdin, Professores, Representantes dos Continentes que vieram em delegação para o evento, e Alunos que participaram das inúmeras Oficinas de Trabalho oferecidos durante o mesmo.
Usando sua elegante farda de alto oficial da Guarda Real de seu Reino, Ronan Erudon viera acompanhando Arme, que finamente trajada, usava um vestido longo, de singular beleza, em tom lilás, e cujas bordas delicadas possuíam bordados de luas e estrelas.
Seu decote era atraente, e ela despertou olhares dos rapazes solteiros da festa.
Percebendo-se disso, Ronan sentiu-se estranhamente incomodado, e num gesto impulsivo colocou o braço em torno da cintura de Arme, enquanto olhava de modo pouco amistoso para um ou outro rapaz que se atrevia a olhar para a jovem.
Estavam sentados à uma mesa junto de Ryan, que viera em companhia de sua esposa Lire, e também de Mari, que parecia ainda mais introspectiva do que de costume.
Conversavam animadamente, e Ryan sorriu, discretamente, ao perceber o jeito enciumado de Ronan por causa de Arme. E mesmo tendo conhecimento, pelo que Elesis o havia comentado, de que Ronan andava se encontrando com Amy, o jeito do rapaz lhe trouxe dúvidas. E desejou estar certo sobre o que sua intuição dizia.
— Mas e a sua namorada, por que não veio? — disse Ryan, propositadamente.
— Namorada? — Ronan reagiu, um tanto surpreso com a repentina pergunta do amigo Elfo.
Arme sentiu-se um pouco incomodada com o assunto, mas procurou disfarçar, fingindo pouco interesse.
— A Amy. Ouvi dizer que vocês estão juntos?
— Não é bem assim.... Eu e ela só estamos saindo... Não rolou nada... Está só na amizade por enquanto, Ryan.
— Ah, entendi. Então vocês só estão ficando! ...
— Mais ou menos... E ainda tem o Jin no meio... Sei lá.
— Mas você está a fim dela, não? — insistiu Ryan, e Ronan hesitou.
— Estão vendo aquele casal que acabou de chegar? — disse Arme, tentando desviar o assunto, pois sentia-se cada vez mais sufocada com o mesmo.
— Quem? — disse Ronan, aproveitando-se da brecha para esquivar-se das perguntas invasivas de Ryan.
— Aquele rapaz louro, com a moça ruiva.
— Os magos de Astrynat? — disse o rapaz de cabelos azulados.
— Eles mesmos.
— O que tem eles? — inquiriu Lire – olhando discretamente na direção dos mesmos.
— Levaram o prêmio Emblema da Magia, um dos mais difíceis de se conquistar aqui em Serdin. Tem gente que tenta por anos sem êxito, e os dois, em uma única prova, conquistaram as Sete Runas de Nyron, o que deu ao Continente de Astrynat o Prêmio mais Alto da Magia. — falou Arme, com admiração na voz.
— Nossa! Então esses caras devem ser mesmo muito bons! — disse Ryan. — Esse prêmio é alvo de desejo de todo mago que tenciona aprofundar seus conhecimentos nos mistérios da magia, não?
— É sim Ryan, e são poucos que o tem. — disse Mari, de modo calmo.
— Você o tem, não é? — indagou Lire, fitando Arme.
— Tenho. O recebi fazem três anos. Mais ou menos na época da minha Consagração.
— Você é uma grande maga Arme... — disse Ronan impressionado.
— Tento dar o melhor de mim no que gosto. — disse, tímida. — Mas você não fica para trás, tem o Anel de Vygtol,e o poder dele equivale-se ao poder obtido com as Runas de Nyron.
— Mas não tem reconhecimento acadêmico. — disse, humilde.
— Pode até ser Ronan, mas tanto eu como você sabemos que, na prática, o que menos interessa é um diploma acadêmico.
— Isso é verdade... — concordou, e ela sorriu. E a doçura do seu sorriso o deixou fascinado. Vendo o jeito dos dois, Ryan pegou na mão da esposa e a convidou para dançarem. Estava mesmo querendo valsear com sua amada, e, também, deixando-os sozinhos, talvez pudesse ajudar Arme. Lire piscou para Mari, que compreendeu a mensagem, e saiu junto do casal.
Os dois ficaram em silêncio, e Arme percebeu que o casal de Magos de Astrynat parecia olhar na direção dos dois. Sendo integrante do Supremo Conselho atribuiu a atitude deles a isso, e então acenou-lhes educadamente. Os jovens retribuíram ao cumprimento, e se achegaram à mesa do casal.
O Mago, um homem de porte atlético e alto, aparentava ter em torno de uns vinte e cinco anos, e trajava uma túnica longa, e em tom vinho escuro, ornada com detalhes prateados.
Seus cabelos louros eram de um dourado muito vivo, que caíam-lhe até a altura dos ombros num corte elegante e repicado. Possuía uma franja longa, e seus olhos eram de um azul profundo e penetrante. Mantinha um ar muito sóbrio, e ao mesmo tempo refinado.
Já a moça ao seu lado aparentava ter em torno de vinte ou vinte e um anos e era de uma beleza singular.
Era alta e esguia, porém mais baixa que seu acompanhante. E usava um vestido longo, em veludo escuro, que, sensual, ajustava-se rente ao seu corpo.
Seus olhos verdes eram intensos como uma esmeralda, e seus cabelos cor de fogo passavam de sua cintura, caindo-lhes em ondas feito uma cascata.
— Podemos? — disse o jovem loiro, formalmente.
— Certamente. — disse Ronan, antecipando-se a Arme. Os jovens sentaram-se então à mesa.
— Meu nome é Feryus Vonsheyz, sou o Duque de Shalay, e vim em nome do Imperador de Astrynat, o deus Atron, representar nosso Continente nesta Conferência. E esta é minha esposa, a Duquesa Vikka. — ele dirigiu-se a Ronan, pois durante o evento já haviam sido apresentados à jovem Gram Maga.
— Prazer, Ronan Erudon, de Canaban.
— Um belo e distinto Reino. O conhecemos. — ele falou de modo gentil. — Nosso Ducado fica no extremo norte de Astrynat. E, como o Reino de Serdin, tem grande importância no aprendizado, conhecimento e uso da Magia. Contudo, de modo que seja aliado ao estudo combativo, tal qual o é em seu Reino, Ronan.
— Que interessante. — falou Ronan, realmente impressionado.
— Nossos estudos nesse sentido se fazem desde os quatro anos de idade. — disse a bela mulher de longos cabelos cacheados e em tom de fogo.
— Agora compreendo porque vocês conseguiram as Sete Runas de Nyron. E quero mais uma vez parabenizá-los por isso.
— Ficamos lisonjeados, Srta. Arme, mas também soubemos que a senhorita foi a única em quatro séculos que as conquistou também... E esse é o motivo de termos vindo à sua mesa. Queríamos também cumprimentar a jovem que obteve tamanha gloria para Serdin. — disse, a bela duquesa.
— Imagine. Não precisava.
— Como não? Sua conquista só equivale a de um rapaz que soubemos adquiriu o lendário Anel de Vygtol, no sul de nosso continente há um ano atrás. E que só poderia, segundo a própria lenda, ser conquistado por um estrangeiro. Gostaria de ter a sorte de um dia também cumprimentá-lo. — disse Feryus, pensativo.
Ronan sorriu. — Pois então me cumprimente!
— Foi você então que... — disse o Mago, fitando-o.
— Sim. Busquei o anel em Honra ao Reino de Canaban!
— Grande feito o seu. Pelo visto estamos diante de dois grandes magos querida. — O casal de Astrynat trocou um olhar significativo.
— Com certeza, meu querido...
— Algum problema? — disse Ronan, observando-os.
— Não, apenas uma curiosidade, Ronan...
— Pois pergunte. Sou todo ouvidos, Duque Feryus.
— Apenas Feryus. Dispensemos tal formalidade, não há necessidade eu lhe asseguro. Ronan sorriu e anui com a cabeça em concordância. O duque prosseguiu:
— Você e sua linda namorada, Arme... Vocês não fazem parte da Grand Chase, o grupo de heróis que salvaram os Continentes do Mal que os acometia, anos atrás?
Ronan e Arme coraram diante do comentário.
— Bem, primeiramente, eu e Ronan não somos namorados... Somos apenas bons amigos... — disse, sem jeito, Arme.
— Oh, me desculpem... Mas, à primeira vista, foi o que julguei que fossem. — disse Feryus, observando-os.
— Mas não somos... — disse Ronan, ainda sem graça.
— Lamentável, pois formam um belo casal, assim como eu e Vikka quando nos conhecemos.
— Feryus, você está sendo inconveniente... Não liguem para ele, sim. — interveio a duquesa, apercebendo-lhes o embaraço.
— Tudo bem. — disse Ronan, e Arme manteve-se corada.
— Mas vocês ainda não nos responderam... — insistiu o estrangeiro.
— Ah... sim... Nós somos sim da Grand Chase. — respondeu Arme de modo simples.
— Interessante. Posso então cumprimentar os grandes heróis dessa renomada batalha?
— Claro! — disse Ronan, de modo cortês. O Mago então estendeu a mão para o rapaz, que ao tocá-la, num aperto forte, sentiu uma energia estranha envolve-lo. Vikka passou a mesma estranheza a Arme, mas o casal disfarçou.
— Bom, os deixaremos agora... Afinal ainda não jantamos. Tivemos um imprevisto e atrasamo-nos um pouco. — disse o mago formalmente.
— Ah, sim. — disse Arme, educadamente.
— Mas antes uma pergunta também, se me permitem? — falou o Cavaleiro Mago, fitando-os de modo analítico.
— No que eu puder ajudar? — disse o duque, sem nenhuma alteração em sua voz.
— Por que Astrynat conseguiu se manter imune à ação do Mal que consumia os demais continentes, quando Astaroth espalhou o caos pelo mundo?
— Compreendo sua indagação. E digo que isso se deu devido ao infinito poder do Grande Governante de nosso Continente, Alkyraz. E agora, com sua morte seu sucessor, o Primeiro Ministro Atron, assumiu essa honrosa missão.
— E suponho seja ele da hierarquia de seu antecessor?
— Sim, Ronan. Ele é meio-irmão do finado imperador, que não possuía herdeiros diretos. E, como o saudoso e venerável Alkyraz, é um deus e também um Representante Divino dos Sagrados Deuses em Ernas.
— Compreendo.
Feryus sorriu.
— Agora, se nos dão licença, eu e Vikka vamos nos retirar.
— Fiquem à vontade. –— eles se despediram de modo polido, e afastaram-se em direção à sua mesa.
Ronan e Arme os acompanharam com os olhos, e então entreolharam-se.
— Você sentiu? — disse Ronan a Arme
— Uma energia muito estranha... Algo forte e tétrico. Um poder muito diferente...
— Também senti. E esse tipo de magia não é comum, Arme... Eles devem ser grandes magos na terra deles. — falou, pensativo.
— Com certeza são, mas mesmo assim, o poder deles me causa um desconforto...
— Em mim também Arme. Não sei por quê…
Uma balada começou a tocar, e muitos casais foram para a pista de dança. Entre eles a dupla de magos de Astrynat.
O salão ficou em meia luz, deixando o ambiente mais convidativo a dança e ao romance.
Arme ficou de repente um pouco tensa, e sentiu-se gelar quando Ronan parou à sua frente e estendeu-lhe a mão.
— Me concederia a honra desta dança?
— Claro, Ronan... — disse, tímida. Ele a conduziu até o meio da pista e a trouxe para junto de si. E nesse momento pôde sentir o leve tremor do corpo da moça, cujas mãos estavam frias.
— Você está trêmula...
—Sinto um pouco de vergonha... Não sei dançar muito bem...
— Eu te conduzo, não se preocupe...
Arme então aconchegou-se mais a ele e os dois dançaram de rosto colado. E Ronan, inebriado, sentiu a suavidade de seu perfume. Assim como a maciez de sus cabelos quando, involuntariamente, os acariciou. Algo mágico começava a envolvê-los, e eles se olharam em silêncio, longamente.
— Arme... — disse ele, sentindo-se hipnotizado por ela.
— Ronan... — ela sussurrou.
Ele foi aproximando seu rosto do dela, e seus olhos azuis encontraram a pureza daqueles olhos tom violeta.
Foi quando um estrondo enorme fez-se ouvir e tudo começou a tremer, de modo que rachaduras enormes começaram a aparecer no prédio secular da Faculdade de Magia de Serdin.
Um princípio de tumulto teve início, e todos começaram a deixar o local às pressas.
Sem soltar a mão de Arme, Ronan correu para uma janela e de lá viram o que estava a provocar aquela destruição. Deles se aproximaram Ryan, Lire e Mari.
E, como eles, ficaram estupefatos com o que estavam a ver.
Uma criatura gigantesca, de pele cor de fogo, com chifres e corpo metade homem metade besta, carregando uma clave imensa em bronze, estava a atacar a Faculdade.
— Um Demônio Antigo! — disse Arme, aflita.
— Mas como isso é possível? — disse Ronan olhando para a jovem Gram Maga, pois como ela reconhecia perfeitamente a sombria e rara energia daquele odioso ser.— Eu não sei Ronan. Mas isso não importa agora. Precisamos detê-lo antes que destrua a Faculdade e toda Serdin!
— E o que estamos esperando?! — disse Ryan.
— De volta a batalha Grand Chase! — Incentivou Ronan, enquanto saltavam a janela rumo ao pátio da Faculdade.
— Da onde me saiu essa coisa? –— disse Lire. Será que veio do mundo Asmodiano?
— A forma pode lembrar as criaturas daquele mundo, mas a energia dele é dissonante, Lire! Esse demônio é uma entidade antiga, alguém o invocou! – esclareceu rapidamente Arme.
— Entendo.... Mas quem faria algo tão terrível? – rebateu a Elfa profundamente chocada.
— Também gostaria de saber… — disse a Gram Maga, com apreensão no seu tom de voz.
— Ao menos se eu estivesse com o meu arco! – lamentou Lire.
— Deixe pra mim, amor! Eu cuido desse monstro junto com o Ronan e a Arme!
— Está esquecendo de mim?
— Ah... E de você Mari, claro!
O grupo circundou a criatura, e Ronan formou um círculo mágico conjurando seu “Bênção Divina” e, assim, envolveu a todos com uma energia reluzente e azulada, que proporcionou-lhes um significativo aumento na capacidade de ataque.
E então partiu para o combate junto de seus companheiros. Tinha consigo uma espada, a qual apanhara de um soldado que estava caído, desacordado, ao chão. Uma provável vítima do repentino ataque do demônio.
Outros soldados do Reino tentavam contê-lo com lanças, mas Ronan acenou para que se afastassem, pois a Grand Chase se encarregaria do mesmo. Era evidente que simples soldados não poderiam com aquele tipo de ser.
Com um olhar sério, cravou a espada ao solo e lançou sobre a criatura seu “Fúria de Canaban”, aproveitando-se de que Arme o havia congelado por um momento. Com o impacto de seu golpe, o ser oriundo das trevas elevou-se ao alto, para depois cair de modo brusco ao solo. Porém, logo ergueu-se novamente, como se nada o houvesse atingido.
Ryan vendo isso, tentou atingi-lo com um machado rústico, que arrancou de uma antiga armadura que achara pelo caminho, e que estava a ornar uma das entradas do prédio. Mas a pele avermelhada da criatura parecia impenetrável.
Enfurecido, o demônio fitou-os com olhos repletos de ódio e, com apenas o movimento de um de seus braços arremessou-os longe.
Mari sentiu a violência do impacto, mas contra-atacou com seu poder, lançando mão de seu livro mágico. Ao mesmo tempo que em velocidade formou um canhão, que lançou bolas de energia contra o mesmo. Conjurou então suas facas, e partiu para um ataque mais direto.
Arme, por sua vez, invocava os elementos: Água, Ar, Terra e Fogo. E com olhar fixo no demônio lançou sobre ele seu “Rajada de Vento” — de modo que este foi surpreendido pelo golpe e recuou com o seu impacto.
A Gram Maga meneou a cabeça, o fato de estarem desequipados estava influenciando negativamente o combate.
Ronan sentia a mesma coisa, e direcionou para ele seu Anel de Kalydor, um dos raros anéis mágicos que adquirira em suas longas jornadas pelos vários continentes, e cujo poder era considerado ainda um mistério. Sem hesitar, desferiu contra o mesmo um forte raio de luz que, ao atingi-lo, sob a forma de um clarão cor púrpura, fez com que este emitisse urros guturais, à medida que seus olhos iam tornando-se opacos. Ele havia o cegado.
Enraivecido, o demônio começou a bater com mais força sua clave e, assim, com seu impacto ao solo, a Faculdade começou a desmoronar. Lire esquivou-se de uma viga imensa que iria cair por sobre ela, e se aproximou de Mari puxando-a.
— O que foi?
— Precisamos avisar os outros que estão aí... Essa criatura é forte demais e, veja, está se dirigindo para a cidade!
— Você tem razão! Não sei até quando vamos conseguir... Está muito difícil... Estamos desequipados, e praticamente só podemos contar com magia nessa luta.
— Por isso mesmo! — retrucou a Elfa, aflita.
Ambas deixaram o local e saíram correndo, em meio a poeira alta e as chamas lançadas pelo monstro, seguindo em direção à cidade.
Com um forte golpe de clave, Ryan foi arremessado contra o que restara da construção da Faculdade, ficando semiconsciente.
— Ryan! — gritaram Arme e Ronan, ao mesmo tempo, mas a chama ardente que emanava da pele da criatura chegou a invadir lhes as entranhas, e os fez ter de voltarem-se para ela.
Nesse momento, vários feixes de luz atingiram ao demônio de modo violento e abrupto. E todos olharam para a direção de onde se originavam os feixes. Viram então, reunidos próximos aos escombros da Faculdade, o grupo de Magos do Supremo Conselho Mágico de Serdin com seus cetros e cajados erguidos ao alto a atacarem a horrível besta com poderosa magia.
Arme fitou seu avô, e olhou para o demônio rapidamente. Um estranho frio a envolveu, seguido de um calafrio repentino que lhe percorreu o corpo violentamente.
—Vovô!!! — ela gritou vendo o demônio rebater ao ataque dos Magos com fúria, e lançar sobre eles um turbilhão de chamas que os envolveu de modo certeiro, impiedosamente.
Ronan e Ryan, que já havia se recuperado e estava novamente junto deles, reuniram poderes e contra-atacaram, fazendo com que o mesmo cessasse seu ataque aos Magos; enquanto desesperada Arme correu até onde, extremamente ferido, encontrava-se caído seu avô. Em torno dele os demais Magos jaziam sem vida.
Ela ergueu com cuidado sua cabeça, trazendo-o para perto de si. Os olhos de Arme estavam marejados.
— Vovô!!... Resista! — disse, concentrando-se para usar magia de cura, mas o velho homem a deteve segurando suas mãos.
— Deixe filha, já é tarde... — sua voz saiu quase inaudível. — Minha hora chegou...
— Não, não!!! — ela disse com desespero, conjurando o feitiço, e pela primeira vez desobedecendo ao avô, que era também seu mestre. O velho esboçou um sorriso, que foi se apagando. E então seus olhos se fecharam num súbito.
— Vovô!!! Vovô!!!...Não morra!!!... Vovô!!!... — gritou Arme, tendo o rosto coberto por lágrimas. E então abraçou-o com força, chorando e soluçando alto.
Os urros bestiais do demônio ecoaram, e ela deitou o corpo do velho homem ao solo e tocou-lhe o rosto. Pegou então o longo e rústico cajado que este tinha caído perto de si, e ergueu-se. Correu até onde os amigos estavam e, com os olhos parecendo petrificados, ergueu o cajado ao alto e desferiu por sobre a criatura sombria seu “Impacto Profundo”. E, assim, por entre as imensas nuvens carregadas que se avolumavam por sobre o Reino de Serdin, desceram, arrebatadoras, imensas esferas de energia azulada que irromperam por sobre o demônio aniquilando-o.
Ronan e Ryan a fitaram, e já iam ao seu encontro quando, em meio a fumaça oriunda do que restara da horrenda criatura, esta imergiu ainda mais sombria e violenta do que antes.
— Não pode ser! — disse a Gram Maga, estupefata. Enquanto os demais se juntavam a ela, posicionando-se novamente para o combate.
Enfurecido e implacável, o Demônio Ancestral avançou, e por todos os lados um rastro de destruição ia se formando à sua passagem. E mesmo com todos seus esforços o grupo não conseguiu impedir que a terrível criatura chegasse até o centro de Euryalli, muito próximo de onde o Castelo Real de Serdin situava-se.
E quando estavam a apenas poucos metros da grande praça, onde há poucos dias havia ocorrido o tão alegre Show de Amy, eles sentiram a esperança refazer-se: Elesis, Lass, Amy, Jin e Mari ali se encontravam agrupados, e lançaram um ataque combinado, com seus mais poderosos golpes contra a terrível criatura.
Lire, por usa vez, havia conseguido um arco e flechas com um aldeão e estava posicionada, estrategicamente, em cima do telhado de uma antiga construção à entrada da cidade; mirou alto e disparou flechas que saíram zunindo, sob a forma de uma chuva de estrelas reluzentes, na direção da criatura.
Ryan agora concentrava-se, reunindo em torno de si grande poder. Parecia em transe, e seus olhos foram ficando vidrados, à medida que uma luz o envolvia.
Um uivo ecoou alto pelo campo de batalha ali formado, e um imenso lobo negro surgiu repentinamente saltando em direção ao demônio, com olhos ávidos, desferindo sobre ele incontáveis ataques sob a forma de uma energia circular.
Ronan elevou a mão ao alto, e de um de seus anéis uma luz reluziu. Minutos depois então o Dragão Gorgos ali surgiu voando alto e caindo em rasantes por sobre o demônio, ferindo-o com suas garras e com suas chamas.
Contudo, o grupo sentia dificuldade em vencer ao terrível inimigo, que, estranhamente, parecia não perder nenhum pouco de sua energia vital, e que, pelo contrário, ficava ainda mais forte a cada minuto.
A destruição de Serdin era praticamente inevitável, e eles lutavam de corpo e alma para tentar salvar algo. O cenário era de guerra. E ouviam-se as lágrimas daqueles que sobreviviam, mas que perdiam tudo, assim como as pessoas que amavam.
A população fugia para a floresta tendo o temor da morte em seus rostos débeis. Enquanto as bucólicas casas ruíam, uma a uma, em meio as chamas.
— Não podemos desistir!!! Não podemos!!! — gritava Ronan, aflito.
— Isso nunca!!! — disse Elesis, passando uma das mãos por sobre um corte que sangrava em seu rosto, e que era a única do grupo a trajar uma veste de combate.
Novamente o grupo uniu forças num ataque combinado, o qual, para desespero de todos, novamente se fez infrutífero.
Ronan afligiu-se ao ver Amy e Mari sendo jogadas para longe, após serem atingidas pela pesada clave do demônio.
— Amy!!! — gritou Jin, desesperado.
Arme aproximou-se de Mari – que fez sinal de estar bem.
Enquanto o Cavaleiro da Terra de Prata, que havia corrido até Amy, afastava-se, a carregando desacordada em seus braços.
Furioso, Ronan olhou para o a criatura maligna com ódio, e, então, voltou-se para Arme.
— Eu vou usar o Anel de Vygtol! Mas não sei se será suficiente! Use o poder das suas Runas de Nyron! E atacaremos juntos!
— Mas você só tem o Anel há um ano! Não pode usá-lo agora ou o poder dele se dissipará!
— Não há outro jeito Arme! Temos de fazer! Esse demônio está envolto por uma magia sombria, algo além de nossas forças no momento!
— Ele está certo! — disse aquela voz grave que fez-se ouvir em meio aos urros do demônio.
Era o Duque Feryus Vonsheys, que deles se aproximou, junto de Vikka, ambos em trajes de guerra muito reluzentes e poderosos.
— Vocês?! — disseram Ronan e Arme, surpresos.
— Deixem-nos ajudar.... Demoramos porque estamos acampados na floresta, e nossas armaduras estavam lá! — falou Feryus de modo solícito.
— Nunca as deixamos! — complementou Vikka, justificando o motivo pelo qual ambos estavam a usar suas armaduras.
— Claro! Toda a ajuda é bem-vinda! –— disse Ronan.
— Vá em frente Ronan, você está certo... Só o Anel e o Poder das Runas poderá acabar com essa coisa! E eu também ajudarei com o Poder das minhas Runas!
— Obrigado Feryus! — agradeceu, com sinceridade, o guerreiro de Canaban.
Ronan aproximou-se de Arme, mas antes olhou para Amy que continuava desacordada, e então apontou o anel na direção do monstro evocando um feitiço em língua antiga dos magos. Arme, por sua vez, fechou os olhos e invocou todo o poder de suas Runas, o qual manifestou-se através de um intenso globo de energia que surgiu diante de si. Feryus fez o mesmo, mas a língua que falava era estranha para eles.
Um gigantesco círculo de fogo azulado rodeou então a criatura, que ficou debatendo-se dentro do mesmo, enquanto soltava urros horripilantes. Ronan estendeu a mão para frente e o Anel de Vygtol reluziu em cor dourada emitindo um poderoso feixe de energia que subiu ao alto, o qual depois caiu verticalmente atravessando a criatura na velocidade de um raio. Esta então começou a congelar de baixo para cima.
Com rapidez, Elesis, Feryus e Vikka, aproveitaram-se disso e desferiram golpes precisos com suas espadas e cajado, enquanto os demais os auxiliavam atacando com seus golpes mais poderosos; aliados as chamas vigorosas expelidas pelo Dragão Gorgos.
Um ruído semelhante ao de cacos de vidro partindo-se fez ouvir, e o monstro fragmentou-se, sendo consumido pela chama azulada que o envolvia.
Um cheiro de enxofre invadiu a tudo, trazido pela fumaça que emanou das cinzas do demônio.
E quando a luz do feitiço se dissipou, o Anel de Vygtol de Ronan se tornou opaco, em seu anelar direito. No entanto o poder das Runas de Nyron se manteve inabalado, porém enfraquecido.
Começava a chover tão forte como o fora na noite anterior, e as chamas que incendiavam a cidade iam se apagando, deixando o cheiro ácido da destruição subir ao alto junto da escura fumaça.
Não havia glória na vitória conquistada, e sim muito a lamentar.
Amy despertou nos braços de Jin, que a acarinhava no rosto, e sorriu ao vê-lo.
— Vencemos?
— Sim, minha linda... Derrotamos aquela coisa.
— Que bom... E o Ronan?
— Ele tá bem. — disse um pouco contrariado. Foi ele, a Arme, a Elesis e os estrangeiros de Astrynat que deram cabo da criatura... Nós, outros, demos cobertura.
Amy sorriu e, após, saiu correndo na direção de Ronan; abraçando-se nele com força.
— Ronan!!!
— Amy! ... Que bom que está bem! ... Fiquei tão preocupado.
— Ronan... — disse com um sorriso, tornando a abraçá-lo.
Arme fitou-os em silêncio. Estava exausta, e seu coração sangrava pela dor do luto que a consumia. Perdera seu amado avô, e diante do horror à sua volta, um ciúme tolo não poderia abalá-la mais do que já estava.
— Vencemos Amy...
— Graças a você Ronan.
— Não, graças a todos nós e aos amigos de Astrynat.
Elesis se aproximou, e junto dela os demais membros da Grand Chase.
— Ronan está certo. Vocês foram muito bravos nos ajudando. Obrigada. — disse ela estendendo a mão para Feryus.
— Não fizemos mais do que nosso dever... Afinal somos todos filhos de uma Grande Nação, não é mesmo? — disse, igualmente lhe estendendo a mão.
Um relinchar chamou a atenção de todos para mais atrás e não houve quem não se admirasse com a beleza do Corcel negro e alado – com olhos de fogo – ali parado.
— Aquele é Kyron, meu fiel companheiro de jornada. — disse Feryus referindo-se ao belo animal.
E todos se mantiveram a fitar admirados o Corcel. Todos, menos Mari, que ao vê-lo sentiu-se congelar. Não tinha dúvidas, aquele era o animal de seu sonho. Olhou para Arme, e pelo olhar da Maga, compreendeu que ela também sentia o mesmo.
Foi quando um grito alto e agudo de ave fez-se ouvir, seguido pelo vento forte do bater de suas asas.
Todos ergueram seus olhos para o alto e reconheceram o ser alado que ali chegava junto de seu mestre. Feryus e Vikka entreolharam-se, de modo significativo.
O gigantesco Grifo então pousou, e seu cavaleiro apeou num salto, posicionando-se ao seu lado com sua Soluna em punho, de modo ofensivo.
— Sieg! — gritou Mari ao vê-lo, e este permaneceu imóvel e em posição de combate.
Continua...
Fale com o autor