Notas iniciais
Boa leitura!

–PUCKERMAN, PARA A DIRETORIA!

Saio da sala e caminho preguiçosamente em direção a tão conhecida diretoria. Passo pela recepção e sorrio para as senhoras recepcionistas que retribuem o gesto e me oferecem uma xícara de café que eu aceito.

Chego a frente à porta de vidro e bato duas vezes. Abro-a sem ouvir a resposta e me sento na cadeira confortável. Bebo alguns goles do café fumegante e sorrio amargamente, como deve ser. Figgins, meu caro diretor, me olha e empurra meus pés para fora de sua mesa.

– Noah Puckerman, o que você aprontou dessa vez? – ele me pergunta com o familiar sotaque indiano ou algo do tipo.

Abro um sorriso verdadeiro.

– Aprontou? Eu diria mais “ajudou”, senhor. – respondo – Que belo café nossa escola oferece!

O diretor bufa audivelmente e ajeita a gravata. Sorvo mais um pouco do café já esperando o de sempre, o papel que define a minha rotina: detenção. Figgins abre minha ficha no computador e eu engasgo assim que vejo a tal “ocorrência” de hoje:

Noah grudou as nádegas do aluno novo.

Não aguento e gargalho no mesmo minuto. Sim, era verdade e era hilário. Enxugo algumas lágrimas que se formaram no canto do meu olho de tanto rir e o diretor simplesmente balança a cabeça em negação.

– Sábado, você sabe. Sete horas. – ele diz naturalmente e eu assinto – Você devia parar de fazer isso, Puckerman.

Dou de ombros e dispenso toda a cordialidade de cumprimentos, saindo da sala. Caminho para fora do McKinley, já que simplesmente não estou com vontade de assistir qualquer merda de aula. Pego um cigarro e ascendo ali mesmo. Argh, menta.

Avisto Jake, meu meio irmão, de longe e o convido para fumar comigo. Ele faz um gesto e corre rapidamente até mim. Mesmo não tendo a mesma mãe, sinto como se ele realmente fosse meu irmão, mais ou menos um amigo.

– E aí, cara? – ele diz e eu lhe entrego um maço do cigarro mentolado que ele tinha me pedido.

– Eu não sei como você consegue gostar disso. – falo enquanto apago o maldito cigarro e ele ri.

– O cheiro é, sei lá, agradável. – Jake diz com um cigarro pendurado na boca, me entregando um cigarro normal.

– Sei... Você é fraco, isso sim. – zombo e dou um soco em seu braço

Jake revira os olhos e se senta num banco de cimento que é meio que um point para a galera fumar. A escola obviamente não concorda, mas eu sei muito bem que o Figgins curte um charuto e até umas ervinhas. Então, ele simplesmente finge não ver e deixa rolar.

– Por que você está rindo? – Jake pergunta e eu balanço a cabeça, me sentando ao seu lado.

– Planos para o sábado?

– Não, nada certo. Talvez eu saia com uma gatinha aí, mas nada confirmado. — ele responde soltando a fumaça com aquele cheiro insuportável – E você?

– Detenção no sábado e, se eu der sorte, vou conseguir uma grana para comprar umas bebidas.

– Vai ter festa? – ele me pergunta curioso e eu assinto sério.

Eu não gosto de festas, quero dizer, não das festas que organizam por aqui. As patricinhas esperam os pais podres de rico viajarem e então convidam metade da escola para dar uma festa e esbanjar a vida perfeita que elas têm. Além disso, elas não fazem nada a não ser: ficar bêbada e vomitar no banheiro depois. Não, obrigado, eu passo.

– Você vai?

– Não, eu nem estava sabendo! – Jake responde furioso e eu dou de ombros.

– Você pode ir no meu lugar, se quiser. – digo e ele assente – Vai ser na casa da Nicole.

– Beleza.

O sinal bate anunciando que o terceiro período estava no fim. Isso significa que o almoço está sendo servido neste exato momento. Jogo meu cigarro ainda quase inteiro no chão e piso em cima, apagando-o. Jake faz o mesmo e se separa, indo em direção ao que ele chama de “turma”: um cara e uma garota, os dois são asiáticos e bem estranhos. Reviro os olhos e vou falar com os caras, antes de seguir para a interminável fila do refeitório.

O quarto período é o pior de todos. Eu conto os segundos para sair deste inferno e poder fazer qualquer outra coisa. Afinal, qualquer outra coisa é melhor que isso aqui. Até uma bosta de cachorro é melhor que a aula de literatura ou...história. A professora é velha e chata, deve ser aula de história.

– Hey!

Ouço uma voz me chamando, mas não a identifico. Então, simplesmente me cubro com o casaco e volto a deitar sobre a mesa, tentando dormir ou me distrair vendo as coxas deliciosas da menina baixinha da minha frente. Se eu pudesse ver mais para cima...

– Puck!

Viro em direção ao som e vejo o cara asiático que anda com o Jake. Ele me chama com um gesto e eu me levanto indo em direção a ele. A professora nem percebe o movimento porque, além de velha, ela é meio cega e estava concentrada escrevendo na lousa.

– Fala, é...

– Mike, Mike Chang. – ele se apresenta com uma mão estendida que eu ignoro – Ah, este é o Blaine.

Mike aponta para um garoto com a cabeça completamente encharcada de gel usando o uniforme do time da escola. Mexo a cabeça em concordância tentando não prolongar o assunto ou fazer amizade. Está na cara que eles são uns idiotas e, bom, eu não posso perder tempo com isso.

– Er, eu...nós... — o asiático se remexe desconfortável e cutuca o tal Blaine que se vira sorridente.

Eu, hein? Que cara mais...

– Então, Puck, não é? A gente ficou sabendo que você vende umas paradas... e, bom, a gente quer comprar.

Ah, sim. Drogas, bebidas, ervas, cigarros... chame do que quiser, vender essas “paradas” dá uma grana bem razoável.

– Hum, o que exatamente? – pergunto interessado. Eu daria de tudo para ver esses idiotas filhinhos de papai bêbados.

Os dois se entreolham e parecem discutir silenciosamente por alguns minutos. Blaine me entrega uma lista e quinhentas pratas. Os observo surpreso e Mike apenas acena nervoso.

– Você não precisa comprar tudo, só não deixe de trazer cigarros e alguma bebida. – Blaine diz baixo – O seu pagamento será feito depois da entrega.

– Para quando? – pergunto analisando os itens da lista: vodka, charutos, whisky, comprimidos, cigarros de todos os tipos, cervejas e “qualquer pó que você conseguir”.

– O mais rápido que der. – Mike responde e eu me levanto, encerrando o assunto e já pensando em como conseguir tudo em pouco tempo.

O sinal bate sinalizando o fim das aulas do dia e eu me apresso para a saída, deixando o McKinley para trás antes dos outros alunos.

Sou um dos primeiros a chegar à escola. O motivo? Eu simplesmente moro longe para cacete daqui e eu não suporto o meu velho, sabe? Ele é sempre muito agressivo. Deve ser por causa da bebida. Aquele velho idiota bêbado... Nem acredito que sou filho daquele imundo.

Então, para não ter que aturar um bêbado dirigindo de manhã, eu venho andando de lá até aqui. Não, ele não me deixa dirigir o carro dele. Eu poderia pegar o ônibus da escola, já que é de graça e chega muito mais rápido. Porém, a rua que eu moro não está na rota do ônibus e se eu ficasse esperando iria chegar sempre atrasado.

Sue Sylvester, treinadora das nojentinhas (também conhecidas como líderes de torcidas), chega quinze minutos depois de mim e abre o portão principal do McKinley. Eu espero mais alguns minutos fora do prédio, no estacionamento, conferindo todas as mercadorias que aqueles dois me pediram.

Sim, eu consegui em menos de 24 horas tudo o que eles queriam.

Entro no grande corredor principal e caminho silenciosamente até o meu armário. Os alunos começam a chegar mesmo daqui uma hora mais ou menos. Esfrego minhas mãos no casaco na tentativa inútil de me esquentar um pouco. E me sento no chão frio, pegando um cigarro velho.

Decido não acender ali dentro. Não que eu me importe com as consequências, eu só estou meio cansado dessa merda toda. Então, eu apenas guardo-o e pego a mochila pesada cheia das mercadorias.

Alguns alunos passam timidamente por mim e eu apenas os encaro. Todos parecem ter medo de mim, tirando alguns caras da minha turma e umas poucas meninas. Lauren é uma dessas meninas. Nos conhecemos no jardim de infância e somos praticamente vizinhos, mas raramente nos falamos.

Avisto Lauren na entrada do corredor e sorrio para ela. Eu sempre tive uma... queda por ela. É, isso. Os caras geralmente me zoam porque ela é gorda, mas... eu não me importo. Ela é especial para mim e isso basta.

Coincidentemente, o armário dela é ao lado do meu. Sabendo disso, eu me levanto rapidamente e pego a mochila, colocando-a sobre as costas. Lauren finge não me ver e continua conversando com umas meninas que só se separam dela quando me veem. Uau, que ótima impressão eu causo.

– E aí, Lauren?

– Puckerman. – ela cumprimenta entre dentes e eu sorrio.

– Você está bonita hoje. – digo e ela me olha sem acreditar, revirando os olhos – Eu estou falando sério.

– Ok, obrigada. – ela agradece debochadamente e pega alguns livros do armário, saindo poucos instantes depois.

A primeira aula passa incrivelmente devagar. Utilizo o meu tempo para observar o quarterback babaca do time de futebol, Samuel Evans, conversando com uma menininha do primeiro ano. Ele se acha, mas eu tenho certeza absoluta que eu sou mil vezes melhor que ele EM TODOS OS SENTIDOS.

O sinal bate e o Evans se levanta, indo falar com a namorada que, convenhamos, é gata demais para ele. Ok, ela é muito gata. Por que eu ainda não falei com ela? Aposto que ela cairia fácil nos meus encantos.

Me levanto também e passo propositalmente pelo casal, aproveitando para mandar uma piscadinha para a gos..., hum, namorada do Samuel: Quinn Fabray. Ela se vira indignada e me encara furiosa. Eu gargalho abertamente e ela fica desconcertada. Se ela apenas soubesse o que eu sei...

Caminho em direção à sala 32 para ter alguma aula que eu sinceramente não sei sobre o que é. Aliás, eu não estou nem aí para qualquer aula. Eu nasci no lugar errado, pode crer. Era para eu ser rico e rodeado de gatinhas, mas não, eu estou aqui preso nesta escola com um bando de idiotas.

Entro na sala e dou de cara com Mike e sua amiga japa ou chinesa, sei lá, asiáticos são todos iguais. A garota sai da sala e eu me aproximo do Mike. O asiático se vira assustado para mim e eu rio da sua cara. Ele é o cara mais estranho que eu já vi, digo, tirando aquele Blaine.

– Mike, e aí, cara? – o cumprimento e ele me olha desconfiado – Eu consegui tudo já.

– Sério? – ele pergunta e eu assinto – Vou falar com o Blaine. Nos encontramos em dez minutos no corredor dos armários, beleza?

– Fechado.

Mike sai da sala antes mesmo da professora entrar e eu faço o mesmo, arrastando a mochila pesada das mercadorias. Perder mais uma aula não vai mudar meu destino de merda. Sigo o garoto um pouco afastado e paro no caminho para tomar água. O bebedouro fica na ponta do corredor que tem vista para a quadra onde, neste minuto, várias pessoas correm em volta da quadra se aquecendo. Idiotas.

Ando devagar até chegar ao corredor dos armários, onde Blaine e Mike me esperam ansiosos. Arrasto a mochila para perto deles e abro-a, mostrando tudo o que eu tinha conseguido.

– Bom trabalho, Puck. – Blaine diz animado – Quanto eu devo?

– Hum, como é a primeira vez que vocês compram, vou dar um desconto... – respondo pensativo – 460.

– QUANTO? – Mike pergunta – ISSO É QUASE O PREÇO DAS COISAS QUE NÓS PAGAMOS JÁ!

– Pois é, Mike. Por isso eu falei “desconto”. – digo fechando a mochila – Sem dinheiro, sem mercadoria.

– Hey, calma aí. – Blaine diz lançando um olhar reprovador para Mike – Você fez o trabalho sujo, você merece.

– Eu não vou pagar. – Mike diz e eu dou de ombros.

– Beleza, você não fica com a mochila.

– Toma, vai. – Blaine diz entregando cinco notas de cem.

Eu sorrio, guardando o dinheiro e entregando a mochila.

– Foi um prazer fazer negócio com vocês.

Notas finais
Comentem! Até a próxima.