O Clube dos Sete
3 A atleta
Notas iniciais
Acordo bruscamente com um barulho alto. Olho em volta e percebo que já estou na escola, mais precisamente no corredor da sala da treinadora Sue. Díos mío, como eu fui parar aqui? Pisco rapidamente tentando focalizar a visão, tentando ver o que era aquele borrão vermelho...
– Santana Lopez, certo?
– Hum, sim? – digo incerta para um gnomo loiro de óculos.
– Sue gostaria de vê-la, por aqui.
Acompanho o ser místico da minha frente que abre a porta, revelando Sue Sylvester na esteira, correndo como uma fã louca de uma banda pop. Belisco meu braço, me notificando de que não fosse um sonho ou pesadelo: e não era.
– Lopez, sente-se. – Sue ordena e eu obedeço – Pode ir já, Becky.
O gnomo loiro sai da sala e a treinadora começa a preparar uma daquelas bebidas cheias de suplementos nojentos. Observo o pó virar líquido em poucos segundos e sinto aquele cheiro de laranja artificial no ar. Ew, o que eu estou fazendo aqui?
– Fiquei sabendo que você ganhou as nacionais individuais do ano passado. – a treinadora diz e eu assinto.
– Foi um bom ano. – respondo meio nostálgica.
Minha antiga escola era demais. Eu fazia parte de vários times, inclusive o de líderes de torcidas, mas eu me destacava bastante na ginástica artística. Infelizmente, chega uma hora em que a gente cresce, e tem que abandonar a vida fácil para entrar para o inferno do ensino médio.
– Não vou tomar muito do seu tempo, Lopez. – Sue diz entre goles da bebida nojenta – Você gostaria fazer parte do meu time de líderes de torcida?
Eu ouvi direito?
– Ah, eu não sei. Eu não pratico desde o verão e...
– Não tem problema. Eu vi você nas nacionais, você é muito boa e eu realmente preciso de ajuda com aquelas meninas que não sabem ao menos fazer uma pirâmide direito. – Sue me interrompe desesperada.
Espera um pouco. Ela está implorando ou é impressão minha?
– Por favor!
Ok, ela está implorando. Isso está muito estranho.
– Tudo bem, eu aceito. – digo sem ao menos me dar conta do que estava fazendo.
Cinco minutos depois, aqui estou eu vestida com o uniforme mais pervertido do planeta, vendo algumas pobres garotas tentarem dar cambalhotas no ar. Gente, elas realmente precisam de ajuda. Observo-as por alguns instantes até uma delas cair em cima de mim.
– Porra! – grito alto, de olhos fechados e sinto todo o meu corpo doer.
– Oh, meu deus. Eu sinto muito! Você está bem?
Abro os olhos com raiva, muita raiva. Mas não consigo formular uma frase sequer. A garota que estava ainda em cima de mim era... linda. Uma pequena roda de pessoas se forma a nossa volta e eu não faço nada a não ser olhar para aquela imensidão azul dos olhos da menina grudada a mim.
– Vocês já podem voltar ao treinamento, meninas. AGORA! – uma garota ordena, chamando a minha atenção.
Subo o olhar pela extensão das pernas da garota (e que pernas, hein?). Ela me olha friamente enquanto o grupinho se dispersa. Eu tento sorrir, não sei por que exatamente, mas ela continua me encarando.
A menina em cima de mim levanta e a garota mandona vem até nós. Eu franzo a testa e continuo deitada no chão até as duas me olharem. Levanto bufando, reprimindo alguns gemidos de dor enquanto passo a mão na minha saia cheia de grama.
– Britt, você está bem? – a mandona pergunta preocupada para a garota que caiu em cima de mim.
Levanto uma sobrancelha indignada.
– Estou sim, Q.
– Você deve ser Santana. – a loira menor e irritantemente autoritária diz e eu assinto.
– Oh, eu sou Brittany! – a loira maior desastrada, que caiu em cima de mim diz e me abraça animada.
Eu correspondo o abraço.
Espera um pouco, eu nunca abraço as pessoas. Deve ter sido a queda que afetou meu cérebro. É, deve ser isso.
Brittany se separa de mim e a outra loira me analisa com o olhar.
– Eu sou Quinn Fabray, a capitã. – ela se apresenta e eu apenas concordo com a cabeça.
Está explicado o jeito autoritário.
– Vamos voltar para o treino. – Quinn manda e Brittany concorda animada.
Corro para acompanhá-las, mas logo somos dispensadas devido a alguma coisa que a treinadora falou e eu não ouvi porque eu estava distraída demais olhando as duas loiras de longe.
Então, somos obrigadas a ir para o vestiário. Quinn se aproxima rapidamente de mim e me entrega um papel com alguns números e aponta o grande armário, saindo em seguida de perto de mim.
Estranha.
Abro o armário girando a maçaneta para a direção dos números do papel e encontro várias toalhas, outro conjunto de uniforme, uma garrafinha de água com as iniciais da escola e alguns produtos de beleza que foram “cortesia de Sue Sylvester”. Reviro os olhos e separo as coisas para tomar banho.
Aparentemente, todas as garotas já tinham se arrumado e só eu estava ainda no vestiário. Ou eu sou muito lenta, ou elas são rápidas demais. Acho que fico com a segunda opção: elas são monstruosamente rápidas.
Elas podiam ser rápidas para fazer uma estúpida pirâmide humana também, não?
Entro no Box e tomo rapidamente um banho. Me troco colocando outro conjunto de uniforme, dessa vez com o casaco do time por cima. Incrível: uma hora está quente como um deserto e outra hora está mais fria que o Alasca. Clima bipolar, uh.
Saio do local e caminho para o corredor principal que fica dentro do prédio. Ao me aproximar, vejo um monte de gente reunida gritando algo como: “BRIGA, BRIGA”. Caminho desviando as pessoas com uma dificuldade enorme, tentando me aproximar mais e conseguir ver o que estava acontecendo.
Curiosa? Não, imagina.
E então sou surpreendida por uma Quinn furiosa gesticulando e gritando com um loiro que, pelo uniforme, deve fazer parte do time de futebol americano daqui. Ele não responde e só protege uma garota que parece querer avançar na loira.
– VOCÊ É UM CANALHA, SAM. – Quinn grita a plenos pulmões e a multidão não vai embora, pelo contrário, só aumenta.
Observo a cena toda aflita. Procuro a outra loira, Brittany, na multidão, mas não a encontro. A multidão me empurra e eu estou cada vez mais sufocada. “Briga, briga.” O que eu faço?
Quinn tenta segurar o choro, porém algumas lágrimas escorrem timidamente pelo seu rosto. Começo a correr em sua direção e a menina atrás de Sam ri alto. As pessoas pegam seus celulares e tiram algumas fotos, outras filmam e Quinn avança nos dois.
Felizmente eu chego a tempo e arrasto-a para longe, empurrando a multidão. Ela tenta se desvencilhar de mim, mas eu seguro seu pulso firmemente. Eu xingo algumas pessoas que se recusam a dar passagem e Quinn para de se debater, me acompanhando para longe.
– Santana – ela me chama quando já estamos longe, porém eu não respondo, tenho certeza de que não estamos totalmente sozinhas.
Suspiro audivelmente e solto Quinn, que massageia o próprio pulso e chora baixinho. Não questiono nada e nem faço muito contato visual. A loira permanece assim por um longo tempo. Vejo que algumas pessoas nos observam não tão discretamente de longe e eu as lanço um olhar ameaçador.
– Ele me traiu. – Quinn sussurra tão baixo que tenho que parar e refletir até entender.
– Eu sinto muito, Quinn. – digo sincera, colocando uma mão em seu ombro e ela se acalma um pouco.
– Obrigada – ela diz meio insegura e eu a encorajo sorrindo levemente – por me tirar de lá.
– Não há de quê.
Ouço passos e sigo o som com a cabeça, encontrando Brittany correndo desesperada até nós. Quinn também vê a garota e me lança um olhar de “conte a ela que eu te mato”. Decido, então, não abrir a boca e apenas observar a interação das duas loiras.
Enquanto eu olhava as duas, vejo a tal garota que estava sendo protegida por aquele idiota do Sam, boca de truta. Oh, eu mal conheço a Quinn e já estou protegendo-a como se fosse minha melhor amiga. Ela deve me achar muito louca.
A garota era incrivelmente loira também e era baixa. Ela vestia um uniforme diferente do nosso: era azul com algumas tiras amarelas e, em vez de casaco, ela usava apenas um gorro branco. E, por mais bizarro que pareça, conversava animadamente com o Sam.
Eu não estou acreditando, todo mundo é loiro aqui?
Sam se despede da garota e olha descaradamente para Quinn que, ainda bem, não percebe o olhar do desgraçado. Logo, a garota passa olhar para nós e, assim que Sam sai do campo de visão, ela caminha decididamente em nossa direção.
Mierda.
Faltando poucos metros, Quinn percebe a presença da outra garota e manda Brittany avisar algo a treinadora. Eu me contento com observar e torcer para que nada de ruim aconteça.
Até parece, está mais do que óbvio que vai ter briga.
– Kitty, querida. – Quinn cumprimenta ácida.
– Olá, Quinn. – a tal Kitty diz com sua voz enjoada.
Sério, prefiro ficar surda a ter que ouvi-la falando.
Antes mesmo que eu consiga piscar, as duas loiras já estão no chão se estapeando. Uma roda logo se forma em volta e várias pessoas começam a gravar todo o escândalo. Decido intervir em seguida e me ponho entre as duas.
E é a partir daí que eu me ferro.
Kitty avança em mim sem pudor algum e arranha meu braço. Como eu não levo desaforo para casa e sou de Lima Heighs e honro as minhas origens, avanço na loirinha nojenta e começo a socar todo seu corpo.
Quinn se assusta de início, eu acho, assim como todas as outras pessoas. Mas logo ela me apoia e incentiva, dizendo aonde eu devo bater. Então as pessoas começam a gritar me incentivando também e eu apenas enxergo vermelho.
Alguns poucos minutos depois, sinto minha mão doer e Kitty aproveita a pequena pausa para sair debaixo de mim e acertar um tapa certeiro no meu rosto. A ardência logo se espalha e eu não consigo pensar em mais nada a não ser: ACABAR COM AQUELA VADIA.
Empurro-a forte e ela cai no chão. A multidão fica em silêncio. Logo, por entre as pessoas surge Sue Sylvester seguida de outros dois professores: um com cabelo de miojo e uma ruiva completamente neurótica.
Olho rapidamente para Kitty no chão, que se contorce de dor. Sue não diz uma palavra e apenas me indica o corredor com o olhar enquanto o resto dos alunos assustados se dispersa.
Quinn sorri desajeitadamente e corre para a enfermaria, tentando ver o estado de Kitty. Eu marcho para o corredor e Sue logo me segue, indicando a sala do diretor para mim. Os dois professores apenas se entreolham e vão embora.
Idiotas.
– Sue! Outra verba para uniformes das cheerios? – Figgins, o diretor diz com aquele sotaque ridículo.
Bufo alto e sento na poltrona em frente à mesa do diretor. Figgins me observa brevemente e olha para Sue, pedindo explicação. A treinadora me lança um olhar severo e eu cruzo os braços, mas não mantenho o contato visual.
Ok, já sei que estou errada.
– Santana Lopez – Sue diz apontando para mim – agrediu fisicamente uma visitante.
– Santana Lopez? – o diretor pergunta confuso – Você não foi transferida hoje?
– Sim.
– Acredito que você não saiba das regras daqui, mocinha. – o diretor diz e eu reviro os olhos.
– Ela sabe sim. – Sue responde – Mas acho que precisa de um lembrete.
Figgins preenche uma ficha e me entrega. Permaneço em silêncio e Sue balança a cabeça negativamente e sai da sala. Então sou dispensada e obrigada a voltar para casa, pelo menos por hoje.
Não leio a ficha até sair do McKinley e quando o faço já estou no ônibus, voltando para a casa. Sinto meu rosto esquentar assim que encontro DETENÇÃO no papel e me seguro para não gritar quando vejo “07:00 – SÁBADO”.
Fecho os olhos numa tentativa falha de controlar minha respiração.
– EU NÃO QUERO ACREDITAR! ARGH, EU ODEIO A QUINN E TODAS AQUELAS NOJENTAS. Vai ter troco, pode apostar.
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