O Clube dos Sete
4 O cérebro
Notas iniciais
Faltando poucos minutos para acabar o terceiro período, Mike decidiu que deveríamos “bolar” o resto das aulas para preparar a nossa festa. Obviamente eu não concordei de primeira porque isso resultaria em uma falha catastrófica no meu histórico escolar.
– Chega de frescura, Blaine. Vamos logo ou então não vai dar tempo.
– Eu não posso, Mike. Isso acabaria com...
– Vem! – o asiático disse correndo pelo corredor com minha mochila, não dando tempo para mais questionamentos.
Balancei a cabeça tentando afastar os pensamentos que irritantemente ecoavam na minha mente e parti rumo ao carro do Mike. Corri o mais rápido que pude, evitando passar pelos caras do time e, consequentemente, fugindo das “brincadeirinhas” deles.
A festa era para ser uma distração para todos os caras que gostam de “zoar” comigo. Todo dia eu sou o alvo das brincadeiras mais estúpidas, mesmo pertencendo àquela merda de time de futebol, que incluem me trancar no vestiário e trocar minhas roupas por vestidos. Eu estou cansado de ser humilhado e a solução parecia ser tão simples...
Porém, tudo mudou assim que eu cheguei à quadra, alguns poucos metros do carro do Mike.
– Posso verificar a mochila? – o treinador me parou e perguntou direto e, claro, eu estranhei já que eu não estava com a maldita mochila.
– Eu estou sem mochila. – respondi naturalmente e continuei caminhando a procura de Mike.
– Pode parar de gracinha, Anderson. Onde está a mochila? – ele insistiu e eu suspendi os ombros.
Não, eu não admitiria nada, pois, afinal, eu estava sem a mochila e sem o Mike. Aliás, o Mike foi um...
– DIRETORIA, ANDERSON. AGORA!
E isso nos leva ao momento presente.
Aqui eu estou sentado na diretoria, com o pior amigo do planeta ao meu lado: Mike Chang. O treinador apenas fiscaliza a porta e nos mantém quietos nos observando periodicamente. Aberta vergonhosamente no meio da mesa está a mochila com todas as coisas que o Puck comprou, sendo cuidadosamente analisada pelo diretor.
Encaro o Mike furioso. Eu simplesmente não quero acreditar que ele pôs tudo a perder e ainda vai ter a honra de marcar o meu histórico até então impecável com uma merda dessas. Inacreditável. O plano era tão simples! NÃO TINHA COMO DAR ERRADO!
É tudo culpa desse cretino asiático. Eu sabia que sair antes iria dar problema. Mas não, eu tive que sair atrás porque a minha mochila foi arrastada junto com a porcaria que está na mesa e ainda por cima, ele tinha que me denunciar, não? Ótimo.
EU QUERO MORRER.
– Chang, Anderson. O que significa isso? – o diretor pergunta após longos minutos de “análise” – Logo você, Blaine?
Mike apenas se encolhe na cadeira e eu me mantenho em silêncio, tentando pensar no jeito mais doloroso para matar o “amigo” ao meu lado.
– Vocês já sabem as consequências, não? – o treinador diz e Mike assente vagarosamente e eu apenas faço um breve aceno com a cabeça.
– Todo o material será apreendido... – Figgins começa a falar, mas é interrompido pelo asiático que se levanta bruscamente.
– Blaine fez isso. Ele me usou. Disse que se eu não fizesse o que ele mandasse, o time inteiro de futebol me atormentaria para o resto da minha vida. – Mike quase grita desesperado e eu soco a mesa para não socá-lo.
– C-como? – o treinador e o diretor perguntam surpreendidos ao mesmo tempo.
– Eu não posso mais mentir, e-eu só não queria ser agredido e...
– SEU MENTIROSO COVARDE, FILHO DE UMA...
– HEY! – o diretor chama nossa atenção e eu sinto meu rosto esquentar.
Mike faz sua melhor cara de inocente e é dispensado no mesmo segundo. Droga de ator asiático covarde traíra. Eu me sento novamente e passo a mão pelo rosto, tentando me acalmar. O treinador sai da sala para acompanhar aquele desgraçado enquanto o diretor digita no computador.
– Eu esperava mais de você, Blaine. Você é o presidente do clube de matemática e todos os integrantes dele dependem de você e, bom, depois disso... A escola não mandará dinheiro para o clube de matemática, uma vez que o presidente mostrou um comportamento tão inapropriado. E... Considere-se fora do time de futebol.
Engulo em seco. Isso não pode estar acontecendo. O clube de matemática é a única exceção do grande inferno que é isso aqui. Sinto meus olhos marejarem, mas não deixo uma lágrima sequer cair. Eu ainda preciso usar aquela velha máscara de superioridade, preciso me proteger.
Figgins me entrega o papel da detenção e minhas mãos tremem. Não, eu já era, meu histórico já era. Este é o meu fim. Eu sou oficialmente um perdedor que nunca vai conseguir realizar seus sonhos. O time de futebol vai adorar saber disso, e com certeza eu estarei acompanhando Kurt na lata de lixo amanhã.
– Sábado, sete horas. – o diretor diz decepcionado e eu suspiro forte para conter qualquer emoção – Nem um minuto a mais e... Você já está dispensado, vá para casa. Seus pais já devem estar sabendo e você deve algumas explicações.
Assinto e abandono a sala. Não consigo me conter e deixo as lágrimas escorrerem livremente pelo meu rosto. Ainda bem que o quarto período não terminou e os corredores estão vazios, quero dizer, quase vazios.
Vejo uma silhueta familiar no final do corredor e tento esconder o breve sorriso que se forma em meu rosto assim que reconheço a pessoa. Seco as lágrimas com a manga do uniforme ridículo que vou “infelizmente” parar de usar e me aproximo do garoto.
– Hey, Blaine! – ele me cumprimenta animado, mas sua empolgação se transforma em preocupação assim que me vê.
– Kurt, como vai? – cumprimento rapidamente e corro para saída para evitar perguntas que eu ainda não estou preparado para responder.
– Te vejo amanhã? – Kurt grita e eu me viro para ele já fora do prédio.
– Com certeza! – digo desaparecendo do campo de visão do menino e caminhando rapidamente, tendo inutilmente fugir do tormento e da confusão que meu corpo abriga.
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