—Há uns cinco meses, quando minha mãe foi para o hospital, descobriu-se que seus rins jaziam inúteis, ambos. Para que ela sobrevivesse seria necessário pelo menos um –a garota me olhava enquanto eu contava a história de uma forma que fazia com que eu me sentisse a pessoa mais importante do mundo- Eu fui a única de seus três filhos que era compatível, não pensei duas vezes antes de me submeter à cirurgia.

—Nossa –ela disse me olhando fixamente, com um olhar de compreensão- você é corajosa – ela me sorriu com aquele sorriso tão aceso quanto somente os dela me pareciam.

Sorri de volta, mesmo achando que qualquer pessoa que se encontrasse nessa situação faria o mesmo, aliás, é a vida da sua genitora. Ela me deu um beijo na testa e me abraçou, assim ficamos por uns instantes, que me tiraram de todos os pensamentos ruins e aflições mesmo que por poucos segundos.

Após afastarmos nossos corpos, nos olhamos sorrindo feito bobas, ela me deu um beijo breve e deixou o banheiro, para que eu pudesse me banhar.

Tomei meu banho, pensando o tempo todo no como eu tive sorte, no meio da maior bagunça possível, no meio do momento mais triste de toda a minha vida, ela me apareceu, e ela me fez segurar as pontas esse tempo todinho, lá se iam quatro meses desde que a pessoa mais importante de minha vida me deixasse, eu jamais teria suportado sem ela.

Acabei meu banho e me vesti, ao sair do banheiro, a encontro em minha cama lendo alguma em seu celular, assim que me deito a seu lado, ela coloca o celular na mesinha de cabeceira, se vira para mim e começa a me beijar.

O clima esquenta um pouco, sem muito detalhamento, ocorre ali um intercurso sexual. E aquilo é magnífico, ela me faz sentir como se estivéssemos completamente sozinhas no universo, repousadas sobre as nuvens brancas e macias do céu.

Na manhã seguinte, acordo e humor estupefaciente, me levanto e abro as janelas da casa, que do outro lado exibem um céu ensoalheirado, sem uma única nuvem, num tom de azul ofuscante. A motivação me toma conta, a cada minuto mais quero sair para usufruir de toda a beleza que a vida poderia prover.

Acordei Karol e saímos. Meu bairro é bastante diferenciado do comum de cidade grande, possui ruas largas e calçadas tomadas por árvores floridas e por arbustos, o chão de paralelepípedo confere uma sensação nostalgia. Fomos caminhando pelo bairro até uma praça não muito distante, em uma colina.

Durante todo o caminho, nós mal conversávamos, foi uma oportunidade que encontrei para aproveitar a vista, o clima e a vegetação local, tomando nota de detalhes dos quais eu nunca antes percebera.

Chegamos à tal praça na colina, nos sentamos sobre a grama macia repleta de flores diminutas, já imaginava todo um futuro juntas, moraríamos naquele mesmo bairro e sairíamos para dar voltas com nossos filhos pela cidade todos os finais de semana:

—Eu te amo Srta. Karolina! –digo olhando para o horizonte, convexa em minhas palavras.