Notas iniciais
Primeiro capítulo: lá vamos nós! Boa Leitura :3

Sujeira. Estou suja, uns meninos jogavam bola pra lá e pra cá e como estava chovendo e a rua era de terra, lama espirrava na minha cara e no meu único vestido, que tinha achado num beco escuro perto da minha casa. Minha casa, lá estava ela virando a esquina e seguindo reto a mais ou menos uns quatro quarteirões, afastada da correria das pessoas do centro do vilarejo e totalmente silenciosa. Construída por mim mesma, era minha preciosidade. A tinha construído em um único dia: tinha pego alguns tijolos largados ali, perto do lixão adiante para fazer as paredes e tampas de lixos para fazer o teto, e ali é e sempre vai ser meu refúgio contra meus medos, é como se a casa fosse a minha mãe.

Enquanto passava de padaria em padaria implorando por comida todos me olhavam e alguns diziam: “Nossa que menina mais imunda, onde será que estão seus pais?”, porém esses não sabem que eu sou órfã. Outros diziam: “Tadinha, tão pequenininha e já tem o futuro perdido...”, porém esses também não sabem que na verdade eu tenho futuro sim, pode ser bom ou ruim, mas tenho. Quando já estava no fim da tarde e o céu pintado de laranja, estava, como todo dia, a ir para casa quando vejo pelo canto do olho, duas criaturas encurvadas conversando num beco escuro. Rastejei para mais perto a fim de ouvir a conversa, escutar fofocas as vezes são minha única diversão. Eram duas velhas feias com o rosto rasgado falando baixinho da chegada de um circo na cidade: “Amanhã chega o circo, você soube que se levar mais de duas crianças você só paga um terço da entrada? Pretendo levar meus netos, aposto que eles nunca foram a um circo, acho que vão gostar.”- uma disse enquanto a outra ajeitava os óculos. “Quero levar cinco crianças pobres para o circo também, acho que é triste vê-las viver a infância sem se comportarem como crianças de verdade, quero que elas, pelo menos por um dia, sintam que são crianças.”-disse a outra quase que em tom de súplica. Elas olharam para mim, tinha pisado num galho a minha frente e então meu coração disparou. O que ia fazer? Corri o mais rápido que pude e quando cheguei na minha casa adormeci.

Eu estava no circo. Luzes brilhavam para todo o lado e bailarinos dançavam no ar para lá e pra cá enquanto elefantes e girafas cumprimentavam a platéia. Até que eu fui tirada da minha cadeira e flutuei, me juntando aos bailarinos que me jogavam no alto e depois me pegavam no colo como se fosse um neném quando na verdade tinha 9 anos, mas depois comecei a escutar uma voz que ficava cada vez mais forte e me chamava: “Acorde, vamos, senão vai nos atrasar....Acorde.” era aquela velha da noite passada, interrompendo meu sonho maravilhoso com sua voz rouca: “Vamos ao circo, você quer vir conosco?” Espera.....Circo! Dei um pulo, quase destruindo minha casa que não aguentava nem alguém de pé. Ela repetiu a pergunta: ”Quer ir ao circo conosco?”- fiz que sim com um movimento de cabeça e me juntei a mais três crianças sujas e briguentas um pouco mais velhas que eu. Talvez o fato daquela velha chata ter me acordado do conforto dos meu sonhos não tenha sido tão mal assim.

Já tínhamos atravessado todo o vilarejo e agora adentrávamos um bosque bonitinho com árvores bem cuidadas, grama fofa e seguíamos um caminho contornado por luzinhas brancas delicadas que se escondiam entre a grama. Foi quando uma criança disparou na nossa frente e de repente pelo menos mais trinta fizeram o mesmo, quase derrubando a mim e a velha que segurava minha mão firmemente. Ouvi uma explosão e meu extinto me fez correr para as árvores mais próximas e me esconder atrás de uma delas. Porém, quando olhei para o céu, procurando algum sinal de fogo ou fumaça, meus olhos foram tomados por um espetáculo de cores e senti um frio na barriga de tanta emoção ao ver um arco-íris de purpurina colorida cortar o céu azul e em seguida cair sobre a grama fofa. E quando me liguei, estava pisando sobre o mesmo arco-íris que cortara o céu e que agora estava em todo o bosque, tornando-o mágico. Sonho, tudo era um sonho que se tornara real diante dos meus olhos.