Notas iniciais
Bom, aqui está o segundo capítulo...Boa leitura!

Foi como num sonho, apesar de ter sonhado poucas vezes. A velha tinha me acompanhado por todo o espetáculo e depois me levou até minha casa, mesmo eu tendo decorado o caminho. “Você gostou?”- ela me perguntou quando chegamos, mirando o horizonte com um olhar perdido. Respondi que sim e educadamente agradeci, mas quando pus o pé dentro da minha casa e já ia adentrá-la, ela me interrompeu: “Você voltaria lá amanhã? Eu posso te levar novamente se quiser.” Sem pensar muito abracei a velha e fiz que sim com a cabeça. Nunca tinha abraçado ninguém, a sensação era muito boa, acho que é isso que chamam de “amor”. Adormeci rapidamente, queria acordar o mais cedo possível amanhã, pois o sonho que vivi hoje poderei viver de novo quando o amanhã chegasse.

Desde o momento em que acordei até o momento em que cheguei ao bosque foi idêntico ao da última vez. Um homenzinho engraçado e simpático nos recepcionou na entrada do circo: “Bem vindas senhora e senhorita! É um prazer revê-las, fiquem à vontade e por hoje, suas entradas são de graça!”- encerrou a frase com uma piscadela e voltou-se á pessoa de trás da fila. Quando entrei todas as lembranças de ontem voltaram a minha mente como que num passe de mágica: o toldo vermelho brilhante com luzes coloridas voltadas para o teto, acrobatas indo e vindo, espalhando rosas pela platéia e leões rugindo alto, com enfeites em suas jubas. Sentamos bem no meio da platéia quando um homem alto e elegante vestindo azul celeste acompanhado de uma acrobata falou com voz firme: “Sejam todos muito bem vindos senhoras e senhores! O espetáculo vai começar, assegurem-se de terem seus doces e guloseimas bem pertinho de você e o coração preparado para mais uma maravilhosa apresentação dos nossos talentosos artistas aqui no Circo Neun. Muito obrigado!”- som de aplausos encheram o ambiente e confeti dourado foi jogado aos ares por canhões. “Mas para o nosso primeiro número teremos uma participação especial! Recebam com toques de trombeta a nossa pequena admiradora!”- Holofotes me ofuscaram a visão e quando me dei conta estava voando! Bailarinas me erguiam no ar e me balançavam com delicadeza até que pousei sobre o tapete vermelho ao lado do homem de azul que estava falando segundos atrás. Uma acrobata sussurrou no meu ouvido: “Você está maravilhosa, não tenha medo.” E então me lançaram no alto junto com a purpurina, que grudou em meu vestido velho fazendo-o parecer magnífico. Laços pratas estampados com estrelas me envolveram. Eu estava muito alto do chão, quase podia alcançar o teto do toldo do circo! Flutuei, e dancei no ar em sincronia com as acrobatas. Olhei para a platéia, mas a velha não estava lá. Pousei em cima de rosas derramadas no chão pelo público.

As acrobatas me levaram no colo ao camarim, todas me parabenizando e me enchendo de elogios. Sentei em uma cadeira, muito feliz comigo mesma. Uma moça bonita que nunca tinha visto antes me trouxe um copo de água e passando carinhosamente a mão no meu cabelo disse: “Você é uma garotinha muito bonita, brilhou como uma estrela na frente de todos. Quem te trouxe aqui no circo?”. “Uma velha.”-respondi. “Você não tem pais certo?”- ela perguntou. Fiz que não com a cabeça. Ela retomou: “Pois saiba que você é muito bem-vinda aqui no nosso circo, se quiser pode ficar conosco, nós seremos uma família, todos nós. Você vai viajar com a gente e conhecerá novos lugares! Então... quer fazer parte da nossa família?”- quase chorando de emoção fiz que sim com a cabeça. “Ótimo, irei falar com a velha que te trouxe aqui, você pode voltar amanhã com as suas coisas, descanse bem em casa pois terá um dia cheio amanhã.”

A Velha estava me esperando ao lado de fora do circo, e depois me levou até minha casa. Tinha me apegado a velha, não queria deixá-la, afinal ela quem me introduziu á aquele mundo mágico. Com esperança perguntei: “Você vai me levar ao circo de novo amanhã?”. Ela respondeu: “Desculpe querida, amanhã não posso.”- e dizendo isso foi embora me deixando sozinha na calada da noite, só eu e minha pequenina casa.

Não consegui dormir. Porque esperar até amanhã? Posso ir hoje mesmo ao circo, não tenho medo do escuro. Não tinha coisas para levar, por isso, me despedi da minha casinha. Não queria deixá-la porém não dava para levá-la com apenas minhas pequenas mãos. Enquanto corria á caminho do circo, uma lágrima escorreu no canto do meu olho, tinha deixado minha companheira de todos esses 9 anos, minha casa era como uma mãe para mim. Chegando lá, o circo não estava, porém pude ouvir uma música muito baixa vinda das profundezas do bosque. A segui. Luzes azuis oscilando contornavam o caminho para ainda mais fundo do bosque, alguma coisa me puxava para trás como se não fosse uma boa idéia entrar lá. Mas eu corri, com galhos raspando em meu corpo, e não olhei para trás.

Notas finais
Neun= Nove, em alemão.