O Ciclo
2 O Metal
O fogo me deu o conforto para comer e beber; ainda não havia acabado meu dever. Ainda precisava de mais, garantir que eu deveria voltar ao meu lugar e não me confortar. O conforto foi o que me levou ali e eu não poderia usá-lo para me manter naquele lugar.
Aos poucos comecei a perceber os detalhes; o que eu tinha foi deixado pelo meu mestre. Aqueles itens diversos tinham algo a me ensinar, algo que era por fora e por dentro; aquilo simbolizava uma cadeia. Cada item naquele lugar tinha uma função e significado que eu ainda desconhecia.
Eu já havia dominado o fogo, mas agora eu precisava de algo mais, algo que pudesse me ajudar não só a me suprir, como também a controlar o resto. Eu precisava das ferramentas. Meu primeiro empecilho era a ferrugem: o metal estava marcado pela corrosão; usar daquele jeito poderia ser fatal. Eu precisava tornar aquilo útil novamente, então recorri à chama novamente.
Com ela comecei a esquentar o metal e, com o calor intenso da brasa, alimentado constantemente, consegui purificar o ferro e trazê-lo a uma cor fosca, imperfeita, mas sem a ferrugem. Aquilo não estava certo, ainda precisava torná-los bons novamente, mas era o que eu tinha para utilizar.
O primeiro feito foi gastar o machado, cortando os troncos menores para finalmente ter uma lenha duradoura em meio à frieza. Contudo, o corte foi gradualmente acabando e precisava amolar... Peguei uma pedra que podia servir para aquilo e a fiz para afiá-la. Nos primeiros dias usando as ferramentas, não sabia como preservá-las, forçando-me a sempre utilizar o fogo. Eu ainda estava tentando compreender os elementos ligados àquilo, mas pouco ainda se encaixava em minha mente.
Com o tempo, comecei a poupar as árvores jovens e as que davam fruto, pois, mesmo tendo que ir mais longe, ainda era melhor mantê-las vivas, não por acaso, mas por seleção. Matá-las seria me condenar não ao curto, mas ao longo de minha prisão naquele lugar.
Gradualmente, fui pegando mais ferramentas, primeiro as essenciais, depois as mais específicas. Quando pude notar, estava utilizando quase todas, desde as pinças para manipular o fogo até o martelo que fazia o pó das sementes e amaciava a carne dos pequenos seres que conseguia pegar.
Com tudo aquilo, todo aquele preparo e cuidado, consegui analisá-las e formar meu primeiro ideal. O metal tinha uma forma em seu interior, era forte, tinha uma estrutura definida, era rígido quando mal usado e era preciso ter disciplina, pois com ela se podia ver o material em seu estado mais puro, que mostrava a clareza.
Ele me ajudava a cortar e a separar, mas também tinha limites. Mesmo sendo especial e me estendendo as capacidades, ele impunha uma restrição.
O metal vinha da terra, pois, para se ter, tinha que quebrar as pedras ou cavar a terra. Se utilizado junto do ar, ele podia condensá-lo e criar a água; somente o fogo o moldava por seu calor, e a madeira que abastecia a chama só podia ser extraída pelo corte do machado.
Com o metal, pude captar a necessidade de retirar as imperfeições, de abandonar hábitos que não eram necessários ou ruins para mim e de tomar decisões que pudessem melhorar meu ser. Poupei as coisas pequenas, pois elas não retribuíam o esforço do trabalho. Pude agir com justiça ao meu redor, fiz mesmo no frio o ato justo e cortei apenas o que estava errado, trazendo ordem onde ela já não existia mais.
Finalmente, pude usá-lo para meu treino. O fogo me trouxe a emoção, a transformação e a energia e, junto do ferro, pude utilizá-la para moldar, para fazer o alterado se tornar claro e perfeito, concentrar a energia e a força em meus movimentos. Consegui descartar os movimentos errados, tornando-me mais simples e direto. Minha postura se tornou resistente e meus golpes firmes; eu tinha clareza do que fazer.
Por fim, consegui utilizá-lo; agora não passava mais necessidade, pude tocar o fogo, abastecer a torre com lenha, remover a neve e as pedras ao redor da passagem e limpar as sementes. A água agora era quente e podia utilizar para me aquecer. Finalmente pude cozinhar algo sem queimar e aproveitando tudo aquilo que fiz.
O metal me deu o que precisava, agora eu tinha o calor e a força... mas eu sentia que não era o bastante, havia alguma coisa faltando, alguma coisa que eu ainda não havia dominado... não sabia se era a água, a madeira ou a terra, pouco entendia o porque de eu precisar daqueles vasos, em realmente me sinto culpado por ter ignorado os ensinamentos e achado que as artes marciais se resumiam a penas ao sabor da batalha.
Agora estou aqui, com metais brilhantes de tanto polir e afiar e uma chama constante que faz minhas noites não serem tomadas pela escuridão.
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