O Ciclo
3 Madeira
Dominei a disciplina e a potência, mas isso não era suficiente; meu mestre sempre deixou claro que alguns discípulos eram pontuais e sempre fixados em uma constância de avanço dos treinos e estudos, mas que eram tão sem vida quanto as pedras esculpidas que ficavam na entrada do templo.
Essa vaga memória me revelou um detalhe: mesmo sendo um elfo, a vida longeva perdia o sentido quando se fazia o mesmo; a estagnação e a falta do "novo" eram tão maléficas quanto o comodismo e o prazer do aconchego. Eu precisava de algo novo, algo que ajuda-se a crescer, a expandir... a viver.
Captei o próximo presente a explorar: as sementes e a madeira. Antes, via-as apenas como alimento e como forma de me manter aquecido perante aquele frio; jamais pensei que até mesmo minha forma de sustento seria algo que estivesse disposto a me ensinar. Agora entendia o motivo dos vasos cheios de terra e das sementes intactas; elas não eram apenas comidas, mas sim para serem usadas.
Minha inicialização neste fundamento foi clara, eu precisava entender o novo, entender a madeira, então eu saí novamente, não para cortar lenha e tampouco para limpar os arredores como estava fazendo, mas para explorar tudo que tinha ao meu redor, mesmo que o frio dificultasse isso.
A exploração foi intensa, cansativa e um pouco dolorosa, andar por aquelas terras desoladas era um árduo trabalho, mas ali encontrei coisas novas, escombros de estruturas antigas e abandonadas, plantas frutíferas, arbustos carregados, árvores verdes em meio ao frio extremo, além de outros artefatos deixados por aqueles que um dia viveram naquelas terras.
Mal pude carregar parte daqueles objetos, pois a noite chegava com grande tensão, apenas consegui memorizar a localização para que eu pudesse retornar, aquele dia não foi tão gratificante, mas foi essencial, com ele comecei a perceber o quão desorganizado estava, havia me focado tanto em me manter no ritmo e acomodado que havia perdido a organização daquela torre, havia pegado aos poucos tanta lenha e recursos que não tinha nem sequer acomodação além do fogo, os troncos estavam empilhados e espalhados por todo o lugar, eu precisava mudar aquilo, renovar.
Na organização, notei a falta de visão que tanto era criticada, aquela estrutura era maior que eu imaginava, eu nem tinha percebido que poderia subir e expandir aquela base, era só preciso arrumar as partes que estavam quebradas. Finalmente tive acesso ao outro andar e pude ter um pouco mais de alívio, era um lugar vazio, com finos feixes por onde passava a luz, o calor que vinha de baixo se mantinha mais por lá, ali era perfeito para se manter no início.
Nos outros dias, ainda continuei com minha rotina, mas alterando todo dia aos poucos, deixei de fazer o esforço repetitivo e cada dia descobria algo novo, seja um recurso ou um perigo que rondava a região, eu sentia meu corpo cada vez mais se condicionar ao clima frio, senti minha vitalidade aumentar como se eu tivesse a rejuvenescer.
Aproveitei isso para melhorar os arredores, colhi os grandes arbustos e os replantei ao redor da torre, carreguei o abandonado e usei a meu favor, as frutas que nasciam no frio eu as colhia sem pensar, as árvores fortes eu peguei seus ramos e semente e as coloquei ao redor de minha morada, esperando que um dia o frio absurdo pudesse me deixar. Internamente, fiz do segundo andar meu quarto, ali carreguei os troncos e a palha e improvisei uma cama, fiz um banco e usei das pedras ao redor para anotar nas paredes o que eu já tinha aprendido, no andar superior coloquei os vasos cheios de terra e plantei as sementes que havia em meu tempo livre separado.
Alguns dias se passaram e agora tinha realmente entendido o presente que eram as sementes e a madeira. A madeira em seu interior era algo vivo, tinha vitalidade, sempre crescia em busca da luz e suas raízes se expandiam pela terra, ela sempre estava em desenvolvimento, seja crescendo em tamanho ou engrossando, às vezes sendo até criativa, não havendo árvores uniformes e tendo diversos tipos e meios para chegarem ao mesmo objetivo.
A madeira ainda alimentava o fogo, servindo como seu combustível, sendo indispensável para sua sobrevivência, e ao mesmo tempo ela regia a terra, pois esta era segurada e rompida por suas raízes, muitas vezes ela tinha seu inicio pelas sementes, brotando e se elevando aos céus, mas também podiam ser flexíveis, podendo se espalhar por meio de seus frutos e seus galhos cortados, mas o mais incrível era sua capacidade de se renovar, de mesmo após grande tragédia ela sempre brotar e recomeçar novamente, a arvore, a planta morrem, mas de sua madeira e folhas alimentam não só o fogo mas as que virão no futuro para a substituir.
Eu agora conseguia adequar aquele presente a meu conhecimento, a emoção calorosa e poderosa do fogo, a rigidez e a disciplina do metal eram poderosas, mas, quando incluía a flexibilidade e a renovação da madeira, eles tomavam um novo ar, os golpes se tornavam mais fluidos e letais, a repetição e a alternância levara-me a novos padrões, padrões estes que apenas tinha visto em lutadores experientes, chutes, socos, cotoveladas e joelhadas juntos em um comando rígido ao ponto de não cair e flexível ao ponto de não quebrar.
Ao meu meio, as coisas também haviam melhorado, sentia que agora tinha espaço, que meu corpo estava viril, haviam plantas ao meu redor e agora animais... após tantas semanas nesta reclusão, pude ver vida e saborear a carne, meu corpo se sentia energético, a torre cada vez mais restaurada, eu estava chegando a novos patamares, patamares estes que nunca havia pensado em estar... mas ainda, não havia completado tudo.
Ainda havia 2 presentes, a água e a terra... os mais misteriosos e vagos, não seria fácil entendê-los e tampouco simples de os adquirir, minha maior missão ainda estava prestes a começar.
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