O Ciclo
4 A Água
O fogo tinha trazido o calor e a alteração, o metal a disciplina e a rigidez, a madeira o crescimento e o recomeço... mas agora, eu precisava de algo mais, de algo que trouxesse o extremo; o próximo presente deveria ser um ponto de rompimento e de ligação com o que já havia aprendido. Eu precisava da água.
O inverno havia se tornado mais intenso, mesmo com as contramedidas criadas; elas não foram eficazes para impedir a tormenta gélida que atacava a fortaleza. O meu lugar de aconchego caloroso ficou cada vez mais frio, até o ponto de voltar ao início de tudo; eu apenas pude ver a água que me permite viver congelando novamente, ficando tão dura quanto o metal que compunha minhas ferramentas.
Eu precisava agir, mas rápido, sem travar, senão morreria antes que pudesse sair. De início, comecei a tampar as entradas e aumentar o fogo. Porém, tal ato se mostrou ineficaz — era preciso algo mais; usei meu empenho para moldar a madeira e deixá-la constante, melhor para a queima e para fechar as janelas; isso também não foi suficiente.
Tentei recorrer à exploração novamente, usando do que havia pego em minhas viagens, mas nada serviu, e já não dava para partir, pois os ventos estavam fortes, a ponto de nada ver. Nenhuma daquelas habilidades podia mais me ajudar, eu estava cercado por uma tormenta branca e sussurrante, naquele momento, a única coisa que eu podia fazer era me sentar perto do fogo e pensar em como poderia impedir o frio de me matar.
Por horas, a chama pendeu, as barricadas não era suficientes para conter tudo que entrava, mas ainda estava ali a pensar, não podia ficar ali para sempre, mas também não podia ficar muito tempo fora, era uma escolha difícil que só foi me vir no ultimo alvejar da estrela Solaris e a chegada da Lua Azul, a tempestade de neve havia reduzido, o fogo estabilizado e a água dentro do jarro voltou a seu estado líquido.
Naquele momento, saí da torre carregando apenas algumas tábuas soltas das antigas escadas, eu sabia que de manhã a tempestade voltaria, e precisava agir, a única ideia que veio era fazer um muro usando da própria neve para me proteger da tempestade. De bloco em bloco, montando com uma forma improvisada, fui levantando um pequeno muro de neve compactada em meio à noite iluminada, era um momento de tensão, não tinha ninguém para me proteger, apenas uma tocha improvisada sendo usada para afastar as feras que rondavam aquele lugar.
Mal tive tempo para chegar à metade daquela obra, o dia já começava a clarear e junto dele a força daquele vendaval, corri para dentro e me resguardei perto do fogo, pela primeira vez eu senti o medo da morte, de não conseguir finalizar aquilo a tempo, mas ao mesmo tempo eu tinha calma, calma, pois sabia que não adiantava estar ansioso, pois a noite não chegaria mais cedo.
Quando a noite chegou, a água voltou ao seu estado natural e pude voltar a trabalhar, fiz isso por dias a fio, até que as paredes estavam altas de blocos de neve e grossas pelas constantes geadas, o frio já não invadia o quarto abaixo, e a água dos jarros já não se transformava em gelo mais. Com a água pude ferve-la e deixá-la tão quente que me permitiu aquecer o corpo e sobreviver ao inverno, fiquei por 2 meses preso na fortificação, esperando o dia de minha libertação, o silêncio me acompanhou por todo esse tempo, me deixando alerta e preparado para qualquer pequena mudança...
No fim, o vapor d'água chegou, a friagem que tomou conta daquele vale estava acabando, as paredes que um dia me defenderam começaram a derreter. Era o fim de um momento de sofrimento, estava se aproximando a primavera.
Eu pensei que não tinha aprendido nada, pois mal pude treinar, mas, na verdade, era isso que a água estava me ensinando. A água em seu interior é flexível, que se adapta aos meios e capaz de refletir com o que está a seu redor; ela é serena e fluida, representando a calma e o silêncio de quem não pode dar o primeiro passo até ter certeza.
Ela se adapta, ficando sólida quando está sob resfriamento e virando vapor quando o calor conquista tudo ao seu redor, ela é uma potência latente, só que intensa quando o meio coordena representando o retorno da força e o contorno dos obstáculos, ela é quem traz o medo do profundo e a calma, já que vive do mistério e do desconhecido.
Ela é quem gera a madeira, sendo absorvida e suprindo suas demandas e também é quem controla o fogo, pois se jogada por cima, ela apaga seus excessos ou o da fim. Contudo, ela é retirada pela terra que a absorve para seu interior. Seus ensinamentos são bem sutis, difíceis de se pegar, pois eles não aparecem pelo uso de seu material, mas por sua observação constante.
Aplicar esse presente a meu aprendizado parecia impossível, até eu começar a praticar, eu precisava ser leve como o vapor, fluido como a água e pesado como o gelo para representar sua adaptação, não podia agir de forma precipitada, precisava usá-la para controlar a minha chama e expandir minha vitalidade, assim, somando com minha rigidez e disciplina.
Por momentos, pensei que isso era incompatível, mas incompatível era minha forma de pensar, os presentes sempre se ligavam, como se nascessem para isso, eu podia juntar a disciplina e o corte do inútil com a abundância, com a potência e o crescimento; podia reunir a sabedoria com a razão, o recomeço e as emoções. Eles não se excluem, eles se complementam.
Meu entendimento era claro assim como a primavera que estava a chegar, a torre aos poucos foi mudada, ficou mais defensível, deixou de ser apenas uma morada e se tornou uma defesa, a água se encontrava tanto do lado de fora quanto de dentro, revelando o que estava em volta, os ventos já deixavam de ser inimigos e se tornaram aviso da mudança...
Os quatro presentes foram revelados... mas ainda faltava um. A terra.
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