Finalmente chegou a primavera: o frio deixou o lugar com um clima ameno e reconfortante; o branco deu lugar ao verde; e, aos poucos, as cores das flores começaram a tomar todos os cantos daqueles ermos. Eu não sabia quando eles iriam voltar, mas sabia que meu tempo naquele lugar estava acabando; sentia que o fim se aproximava... e ainda faltava um presente.

No meu desafio, eu tinha que usar da terra, um elemento que aparentava ser simples... mas o que estava dentro dos vasos que usei um dia para plantar servia? O que ela tinha de especial que o fogo, o metal, a madeira e a água já não haviam me ensinado? Eu não tinha muito tempo para diferenciar; eu tinha que entender aquilo, antes que meu tempo se esgotasse.

Me senti confuso, pois não havia muito o que fazer; era inativa, escura e parecia não ter função. Eu já havia aprendido a paciência com a água, a potência com o fogo, a rigidez do ferro e o crescimento da madeira... mas o que a terra tinha? Ela está lá, existindo.

No primeiro momento toquei no chão — tentei compreender o que ele era, sujei a minha palma com toda aquela terra, mas nada me revelava, o cavei, o chão, achei apenas o solo úmido, pedras soltas e raízes... ainda nada para me ensinar. Voltei à torre, tentando ver os vasos, tentando compreender como que um vaso cheio de terra com algumas sementes brotando seria capaz de me passar algo, a mente não parecia processar o fato de que aquilo poderia ser realmente um presente.

Qual era meu problema? Todos os elementos tinham alguma função e todos eles se ligavam à terra, seja por criação ou controle, mas ainda assim, a mesma não parecia ter contexto. O que ela tinha de especial? O que eu podia fazer com ela que eu não podia fazer com os outros?

Sentia como se estivesse cometendo um erro, forçando ao lado errado, eu queria entender o que me levava a aquilo. Por um momento, percebi que eu precisava fazer como já havia feito várias e várias vezes, eu precisava manuseá-la para compreendê-la.

Comecei com algo simples, cavando, tirando a terra de seu lugar e carregando-a de um lado ao outro. Em seu interior, encontrei de tudo, a água acumulada, pedras que quando batiam faziam faísca, metais pobres... mas ainda metais e mais raízes. Aquilo mostrava um norte, mas ainda não era o suficiente, eu precisava separá-lo do resto, entende-lo sem o resto.

Então, comecei a limpá-la, tirei as raízes, pedras, metais e deixei secando perto do fogo, ela ficou seca e esfarelenta, não tinha mais a resistência de antes. Ainda não estava satisfeito, precisava tratá-la mais, então comecei a molhá-la, usar um pano para tirar suas impurezas e secar novamente, e cada vez que eu fazia, menos escura ela se tornava, e a areia a formava...

A terra havia perdido sua cor, sua energia, não era nada mais, seu material era inútil e sem valor para mim. Então, precisava de outra coisa, observar aquilo que se tinha nos vasos, nele se havia outra composição, era uma terra mais avermelhada, cheia de pedras, contendo as raízes dos brotos e pequenas raspas de metais diversos junto das cinzas em seu interior. Em meu novo teste eu apenas peguei a água do último teste e joguei dentro do vaso, fiz um furo abaixo e esperei o momento em que fosse vazar, pois sentia que a terra perderia suas essências novamente.

Estava errado, dessa vez, a água veio pura, cristalina, como se tivesse saído de uma nascente... como? Como que aquilo poderia ser real? Qual é a lógica que levou a água suja e turva a se tornar cristalina novamente? E outra coisa, como que aquelas plantas estavam crescendo naquele vaso? Eu nunca joguei restos e tampouco quaisquer coisas para elas absorverem.

Naquele instante eu comecei a ver a terra de uma outra forma, quanto mais eu usava, mais ela se mostrava diversa, ela não era um simples material, ela era um conjunto de todos os presentes... Voltei a cavar, mas dessa vez, plantando todos os frutos que encontrava, eu precisava de uma resposta e rápido.

Grande parte brotou, alguns seja pela falta de algo, não puderam sair de suas sementes, sempre faltando algo. Enquanto fazia isso, deixei o fogo da torre se apagar e de seu meio encontrei as cinzas, cinzas essas que quando molhadas se transformavam em uma terra escura.

Eu agora tinha clareza, clareza sobre a terra. A terra era um presente, criado do fogo, e em seu meio surgia o metal, ela sugava a água, mas era quebrada pela madeira. Sua função não era divisão, alteração ou mesmo fluxo, ela unia tudo, todos se encaixavam a ela, sem ela ela perdia a vida e deixava de ser boa.

Com ela se tinha a união e a confiança, pois todos se aproveitavam de seus recursos, ela era pacifica, pois quase nada a podia mudar, nem as estações e tampouco as agressões, ela era segura, pois os seres nasciam, cresciam e morriam sobre ela e o mais importante, ela nutria o ciclo infinito, pois de seu solo ficava a água, água puxada pela madeira que depois alimentava o fogo que moldava o metal, ela era a ponte dos 4 outros presentes, trazendo harmonia total.

Sempre sendo centrada, pois quando dispersa perdia função, ela quando instável causava preocupação, pois aquilo era um excesso ou carência, quando instável, ela precisava de algo, quando estável, ela cuidava de todos. Ela era o meio, o equilíbrio perfeito necessário para se alcançar, ela era o eixo para todos, seja das águas do mar ou do gume metálico da espada, ela era o ponto que ligava.

Em meu treinamento, pude anexar este fundamento, o último fundamento dos 5 grandes elementos que eu podia ganhar, a conexão total, perfeita e irrestrita dos presentes. Consegui a paz do corpo e a segurança da mente, sendo nutrido pela alma. Meus golpes, minha postura, meu agir estavam interligados: Potência se somando à rigidez, rigidez complementando o crescimento, crescimento fluindo pela flexibilidade e a flexibilidade criando a estabilidade.

Sem mestre, sem colegas, sem papiros, usando itens descartados por quem me exilou, eu conquistei o ciclo perfeito, eu finalmente tinha chegado ao ponto que tantos morreram a tentar, eu estava pronto, não só para voltar... mas também para me reencontrar.

Eu havia matado meu eu do passado e agora, o verdadeiro teste estava prestes a começar.


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