Como aluno de artes marciais, eu era um prodígio, aprendia rápido, vencia rápido... para mim, aquilo era tão natural quanto o mero respirar. Mas meu mestre via aquilo como um erro, um aprendizado corrompido pela soberba; eu sabia executar, copiar, mas ele dizia que eu não compreendia.

No fim, meu desdém e meu orgulho me levaram ao maior dos testes, o isolamento para aprender. Fui sedado por meus colegas fiéis, levado pelos meus rivais e deixado por todos em uma pequena torre no meio de uma encosta íngreme. Eu estava sozinho, sem ninguém para conversar ou mesmo desafiar, a única coisa que eu tinha comigo era um papiro dizendo:

"Tua imprudência te levou a este lugar e apenas tua observação te fará sair; aprenda com os 5 presentes e você será perdoado, mas, se com os 5 não se firmar, saiba que jamais voltaremos para te buscar."

Por um momento, me sentei, sem saber como aquilo procedia, o que eram os cinco e como me firmaria com eles. Eram perguntas que não compreendia direito, mas eu não podia ficar a esperar, eles não avisaram quando iriam voltar, então tinha que logo os dominar. De início, pensei no que se enquadraria nos cinco citados, mas nada me veio à mente.

Adentrei aquela torre, à procura de algo que me pudesse esclarecer, aquilo não parecia com nada que já conheci, nem prisões eram daquela forma, sem nada para as portas trancar, sem móveis para usar, as poucas coisas que tinham eram sacas de comida deixada, jarras cheias de água congelada, ferramentas enferrujadas, vasos sem nada, sementes largadas e por fim uma lareira apagada.

Naquele momento, mesmo não sabendo o que fazer, eu sabia que eu precisava do fogo...

Ascendê-lo foi uma tarefa árdua, não dependia apenas da faísca, mas dos materiais e do ar que me cercava, forçou-me a sair no frio gélido daquela terra e pegar tudo que estava seco e morto, com galhos e folhas pude me aquecer pela primeira vez, trazendo a chama e a luz para aquele lugar fechado e feito de pedras. No primeiro momento, me sentei perto do fogo e fiquei pensando no manuscrito de meu mestre, ainda irritado pelo fato de ser testado daquela forma, mas, aos poucos, comecei a entender uma coisa, a observação me faria sair dali.

No primeiro instante, observei a única coisa que me movia à minha frente, a chama que me confortava, ela era agitada, instável, não criava nada e apenas consumia o que tinha para ela, o fogo era dependente, mas ainda assim, forte. Entendi que o fogo era o primeiro presente, pois ele, mesmo não tendo ação própria, conseguia me ensinar.

Com ele, compreendi o espaço, se estivesse longe, só sua luz me tocaria, se estivesse perto demais, era possível me queimar, somente no lugar certo eu teria o conforto e a iluminação. Mas o fogo também me ensinou o sacrifício, pois não podia ter seu calor sem trocar os galhos e meu tempo para o coletar.

Seu maior ensinamento é o manejo, manejar o fogo é algo necessário para seu perpetuar ou para sua ruina, se deixa-lo forte demais, ele consumirá tudo e logo se apagará, se consumir pouco, ele não se mantém e se apaga por não se suprir.

O fogo é como as emoções, se intensa, pode causar dano e desconforto, se for fraca, ela deixa tudo ao seu redor esfriar e apaga a luz que guia todos à segurança.

Após eu entender isso, sabia o que seria meu primeiro passo, ser o fogo, ser o primeiro pilar, treinei ao seu redor, usando de sua intensidade e volatilidade para me guiar, revezando os momentos de excesso com os de carência até chegar ao equilíbrio da chama, quanto mais fazia aquilo, mais vezes eu tinha que sair, a lenha, os galhos e a palha foram meus primeiros aliados.

Por fim, a lareira não só me ensinou sobre o presente do fogo, mas me salvou da morte, agora que a chama se manteve constante, as coisas se aqueciam, o chão frio se tornou confortável, as sementes secas e marcadas estavam mais vivas, os vasos já não brilhavam com os cristais frios e a água dos jarros era finalmente líquida.


As primeiras dificuldades se foram, a juíza já não me chamava para ser julgado... ainda havia quatro presentes para descobrir, quais seriam elas?