O Cavaleiro dos Lírios
6 Impasse
O chão estava gelado a ponto de fazê-lo tremer. Não via nem Flora, nem Jane Olho-bom há algum tempo. Na verdade, havia um tempo que não via nada vivo. Após um certo tempo, refletindo e refletindo, concluiu que estava em algum tipo de cela. Mas não uma comum, uma insanamente grande e enevoada que não era possível ver o outro extremo dela. Uma vez conseguiu achar uma parede, mas a comida fora entregue no meio da cela e teve de abandoná-la. O suposto, mas na verdade irmão de, Almur agora não era ninguém, agora era apenas o Rato numa jaula trajado tristemente de pano sujo e sem qualquer tipo de calçado.
Neste momento, brincava com alguns gravetos pequenos: fazia pequenos desenhos no chão frio de terra. Alguns eram sinais para que pudesse encontrá-los quando se perdesse, outros eram pinturas de pessoas que uma vez ele já conheceu, quando não reivindicou o nome Almur, quando era apenas um estudante pensando em ser um vendedor medicinal, o que seria posteriormente e que não seria mais logo depois. A névoa que respirava e o tempo que passava o deixava cada vez um pouco mais louco. Havia pouco tinha avistado um viking com uma grande espada e elmo com cornos. Desaparecera rapidamente. Agora, escrevia algum tipo de paródia a algum livro que tinha lido antes, mudando o nome de personagens e fazendo uma história passada em uma prisão. “Eles estão presos como eu!”, pensou ele dando risinhos. Mas logo ela perdeu o nexo e ele apagou tudo com a sola do pé. Começaria tudo de novo e agora pensava num romance.
— Almur? É você? — Rato achou aquela voz familiar — Sou eu, Flora!
“Almur? Irmão? Ele está aqui?”, pensou em resposta, mas nada saiu. Ele não era mais Almur, apenas Rato. Por fim, podia vê-la mas ainda assim alegrou-se.
Ela se aproximava em roupas tão inúteis quanto as dele, todas rasgadas de um modo até que provocante. Não usava nenhum sapato, também. Lágrimas caiam no rosto corado dela. Ela veio para abraçá-lo, com ambos braços abertos.
— Não se mova — Rato disse numa voz fina, traçando uma linha no chão, horizontal, a sua frente. Ela parou e o encarou como se encara um homem louco.
— O que é que há?
— Está pisando no Ira Mortal — Silêncio pairou no ar por um minuto. Apontou para seus escritos — Minha história. Penso em publicá-la quando sair daqui.
— Ah, Ira Mortal. Me desculpe — Respondeu Flora, em um tom carregado de culpa. Chegou um pouco mais perto da linha — Se eu o lesse, te faria sentir melhor?
— Aaaah, não. Não é uma história boa. É sobre… — A encarou em um momento, entortando a cabeça pro lado por alguns graus. Ela o olhava cara a cara. Havia algo muito errado naquilo. Seus olhos agora eram azuis quando eram para ser castanho-escuros — Sou Rato. Você é?
— Rato? O que houve com você, Almur? — Seu tom era doce demais e ele não se lembrava de ela ter cabelos tão cacheados como aqueles que via agora. Aquela não parecia mais ser a Flora. Mas o que ele faria sobre isso? “Vou pular pra cima dela, tirar alguma máscara que ela esteja usando e prendê-la?”, pensou Rato, ainda que estivesse preso. Isso o fez cair no chão e rir histericamente. Levantou-se, ainda rindo um pouco, e simplesmente pulou em cima dela. Os dois caíram, mas Rato não conseguiu segurar a mulher ao cair. Ela rapidamente se levantou e correu em direção a névoa. Rato, sem senso algum, correu atrás dela.
— Isso! Corra! — Dava um pulo a cada palavra. Mal percebera que torcera o punho na queda e que ralara o joelho, que agora estava todo em sangue e terra. Mas não se importava, nem sabia o que estava fazendo mesmo.
Orgulhou-se ao manter o ritmo de corrida da outra pessoa, sempre mantendo-se na cola dela. Todos os seus desenhos passavam pelos seus pés, e quase não podia ver nada agora. Sentiu-se triste deixando-os para trás. Após um certo tempo, pôde avistar uma parede de tijolos enegrecidos cheios de musgo a frente. A mulher encostou-se nela, ofegante e, puxando alguns tijolos para o lado, abriu-se uma passagem. Rapidamente, ela entrou e começou a fechá-la até que, subitamente, Rato aparece com seu graveto em mãos rindo em alto som. Quando ele passou pela parede, parecia ter voltado para a sua própria cela, pois apenas névoa o esperava a frente. Havia desenhos no chão também, mas esses eram diferentes dos dele. Eram pessoas desenhadas de uma maneira circular todas de mãos dadas e não era um desenho feio. Lembrava-se da época em que fazia desenhos malfeitos de frascos medicinais, época que parecia a séculos de distância. Perdeu a mulher, pois enquanto observava os desenhos no chão, ela desapareceu na névoa.
Se sentia estranhamente mais normal, agora que saíra de lá. Talvez pelo progresso que conquistou ao encontrar uma saída. Pensou no quanto aquilo foi perigoso, tanto por não ter confiado nela quanto ter pulado em cima dela. Isso foi uma total loucura e agora ele ria, conscientemente, do que tinha feito. Decidiu ir ao longo das paredes tateando cada tijolo a procura de outra entrada secreta, uma árdua tarefa, na verdade, uma vez que eles possuíam pequenas pontas que causavam algumas feridas menores. Lembrou-se do joelho e, rasgando um pouco daquele trapo velho que vestia, o amarrou no joelho que sangrava. Já o pulso torcido não mereceu tanta atenção assim, apenas um incomodo a mais na tarefa que executava. Tudo foi névoa, tudo foi nada.
Mais a frente, encontrou duas pessoas próximas a parede. Eram apenas silhuetas e logo concluiu que ele também era, para elas. As duas estavam tão próximas que chegavam a formar quase apenas uma pessoa grotescamente composta por duas. Elas estavam ambas sentadas no chão. O dito Almur, isto é, Rato, uma identidade que ele gostara mais do que Almur uma vez que era o irmão dele e queria uma identidade própria, jogou-se ao chão fazendo mais barulho do que desejaria ter feito. Uma das silhuetas o percebeu e começou a mexer seus braços freneticamente. Achou que estava cortando a outra ou até mesmo batendo nela. Com os antebraços a frente do corpo, começou a rastejar para perto delas. Talvez não tivesse recuperado toda a sanidade ainda mas, pelo menos, dessa vez estava tremendo. “E como esse chão está frio”, pensou Rato.
— Rápido, ele está vindo, temos que sair daqui — A voz era feminina, meio aguda e era estranha, até Rato poder ver a aparência das duas pessoas. Uma era a mulher que perseguia, mas sua voz estava totalmente diferente de antes, quando ela tinha a aparência de Flora. Já a outra pessoa, era a própria Flora. Ela estava sentada ao chão, vestida com os mesmos trapos que ele, mas presa pelo tornozelo a uma corrente que a prendia a uma grande esfera de ferro. A outra mulher parecia querer tirá-la das correntes. A dita Flora conseguiu o detectar, e, ao olhar para Rato, apontou para ele e disse:
— Dois? — Não entendeu o que aquilo poderia significar, mas chamou a atenção da outra mulher, que arregalou ambos olhos depois de olhá-lo. Ela a libertou logo depois. Ambas se levantaram e Rato ficou apenas lá, olhando para as duas sem saber o que ocorria. Flora também, mas alternava o olhar entre ele e a mulher.
— Ele — O tom da mulher parecia carregado de medo e ela gaguejava. Agora que a olhava melhor soube que ela não era uma mulher, mas uma criança de, no máximo, onze anos. Tinha cabelos brancos e olhos azuis encovados. Se vestia do mesmo jeito que ambos — Ele n-não é... E-ele é um dos lagartos.
Rato estreitou as sobrancelhas. Não fazia sentido algum, para ele, o que ela estava falando dele. Além disso, Flora o conhecia e sabia que ele não era um lagarto ou seja lá o que fosse.
O chão se aproximou rápido demais. Sua bochecha doía pelo soco que Flora dera. O trapo que usava rasgou em suas costas. Percebeu o quão fraco estava, por permanecer no chão, e tentou achar um sentido em tudo aquilo. Afinal, já estava choramingando quando o arrastaram pelo chão, ela e Flora, e o prenderam na mesma esfera pelo tornozelo. As duas trocavam olhares enquanto Flora dava um sorriso satisfatório.
— Se eu estivesse com o meu arco, esse maldito teria uma flecha em sua cabeça — Se afastaram um pouco — Que tal chutá-lo até...
A criança deu um chute por trás, nos joelhos da Flora, e a fez cair de joelhos. Quando isso aconteceu, prendeu ambos braços em volta do pescoço dela e começou a apertar. “Ela treme”, observou Rato. As correntes no tornozelo dele não saíam não importava a força que tentava aplicar. Flora ficava cada vez mais roxa. Ela não parava de olhar para os cabelos da criança. Haveria uma morte ali, e não podia fazer nada. Se bem que ele não precisou.
Alguém surgiu em meio a névoa, em passos largos e ruidosos e levou ambas ao chão, interrompendo a cena. Rato tomou um susto tão grande que soltou um grito agudo e começou a chorar, já Flora bateu a cabeça na terra com tanta força que produziu um baque audível com o ato. A criança caiu de lado no chão, raspando seu ombro com toda a força e um homem estava em cima de ambas. Começou a sentir novamente que a sua vida acabaria ali, em breve. Até que o homem, que se levantou em seguida, era Jane Olho-bom. Antes, teria se alegrado mas agora apenas pedia para que estivesse são.
— Almur! — Aquilo foi um alívio gigante para ele, por um momento — O que houve aqui? Você está pálido — Aproximou-se um pouco mais. Rato tentou fugir se arrastando pelo chão, mas a esfera de ferro quebrou sua esperança — O que há? Perdeu a mente? — Jane, fazendo uma força descomunal, conseguiu o libertar da sua limitação. Não confiaria em ninguém de agora em diante. Rato, ao se levantar enquanto em pernas bambas, dirigiu um soco em direção da barriga de Olho-bom. O seu oponente, mais robusto que ele mesmo, conseguiu bloquear o golpe, mas não esperava pelo próximo ataque, um chute. O atingiu na panturrilha, mas não pareceu fazer dano algum. Olho-bom começou a rir e, pegando o braço de Rato, passou o braço dele no seu pescoço, imobilizando-o e não o enforcando.
— O que é isso? Você quer uma luta, garoto? Bom, te darei uma, eu prometo. Mas não aqui e não agora — Olho-bom disse, e retirou seu braço e empurrou Rato — Onde está aquela piranha? — Disse quando olhou que apenas flora estava no chão — Ah, se eu...
— Se você é mesmo Jane, carregue-a — Rato falou de cabeça baixa, ofegante. Jane deu de ombros e a colocou sobre os ombros. Rato pensou que estivesse louco, mas via uma luz vermelha vinda de uma parede próxima. Andou até ela e começou a tateá-la. “Achei!”, pensou alegremente quando encontrou um tijolo solto. Quando o empurrou para o lado, outros tantos fizeram o mesmo, abrindo uma nova passagem que saía sol dela.
Não conseguia enxergar nada pela dilatação da sua pupila, mas sabia que essa claridade toda só poderia ser proveniente do sol. Estava fora da prisão e Jane saía também, com os olhos fechados. Ali fora, um homem perto de um grande carvalho erguia algo, enquanto muitas pessoas observavam. À medida que seus olhos se acostumavam com a claridade, puderam perceber que o homem musculoso segurava uma espada acima da sua cabeça, enquanto em sua frente a criança de antes estava de joelhos. “Decapitação?”, pensou Rato, visto que muitas pessoas estavam presentes para observar o ato. Aliás, um velho senhor corcunda trajado de roupas simples de algodão os viu e, rapidamente gritou uma ordem.
— Espere — A voz dele não parecia a de um homem velho — O destino da pobre criança não está em nossas mãos mais. Vocês, aproximem-se. Terão sua liberdade. Vocês a conquistaram e ninguém tem o direito de tirá-la de vocês.
Almur e Olho-bom se entreolharam. Não gostariam de seguir a ordem dele, mas que opção teriam com tantos homens assim por perto e eles cansados e frágeis assim. Afinal, uma cidadela se localizava logo a oeste e a floresta que haviam passado justo a oeste. “Chegamos ao Campo das Árvores Mortas”, refletiu Rato, sem qualquer esperança nisso. Por fim, cambaleando, ele foi em direção ao velho e Olho-bom logo o seguiu, com Flora em seus ombros.
— Esta criança — O velho apontou para ela, que nem levantar a cabeça levantava — Falhou comigo, falhou com vocês e com todos nós. Gerter Steil, Senhor da Camuflagem, foi direto em seu mandamento de iniciação. Em caso de falha, morte. Em caso de submissão, submissão ou morte! — Todos gritavam ao redor — E o segundo caso foi ocorrido. Submissão ou morte? — Gritaram todos “Morte” em coro, repetindo a palavra diversas vezes. Todos ficaram em silêncio logo após, como se esperassem algum tipo de resposta de alguém.
— Submissão — Jane respondeu.
— Então está feito. Deem um nome a isto! — O velho disse, e esta última frase a fez levantar a cabeça por fim.
— Será Almur — Rato disse e Olho-bom o olhou com uma expressão de “Enloqueceu?”
— Então será Almur — O velho respondeu — Que Almur esteja fadada a segui-los por toda a vida, até que sua vergonha seja apagada.
Tempo passou e pessoas foram-se, até sobrar apenas a criança, Almur na verdade, ainda de joelhos no chão, Olho-bom com Flora, o velho e Rato. O velho estava apoiado numa espada embainhada que ele passara a conhecer bem, a sua espada.
— Minha espada, por favor — Respondeu Rato.
— O quê? Sua espada é esta aqui? — O velho começou a rir — Mil perdões — jogou a espada para Rato e ele a pegou com as duas mãos — Achei que ele seria a Víbora Escarlate, na verdade — Apontou para Olho-bom, ainda rindo.
— Víbora Escarlate? — Jane respondeu, sem ainda conhecer nem metade da história em que Rato, mais conhecido como Almur, mas, na verdade, era o irmão desse, estava contido.
— Sim, ninguém conseguiu brandir essa espada. Alguns terminaram até petrificados por ela. Sinto muito por essa nossa recepção, mas hoje em dia é difícil diferenciar aliados de inimigos. Eu sou Ben Rerol e sejam bem-vindos a Kernport! Somos uma cidade pacata e fora do mapa e blá blá blá... Como você é a Vibora, moleque, precisa saber disto: aqui nós desenvolvemos a arte da camuflagem. Almur falhou em demonstrar maestria nela e, por isso, mereceu a morte. Se bem que acabou recebendo algo pior, um nome — Ben riu alto uma risada forçada — Sua obrigação como Víbora é aprendê-la, mas você me parece mais uma criança. Você gostaria de aprender a ser um Trickster?
Deu sua resposta e logo depois o Rerol desapareceu em direção a cidade. A Almur ainda estava lá no chão, de joelhos, enxugando as lágrimas. Quando Rato se aproximou dela para levantá-la, ela afastou suas mãos e começou a se debater, colocando a mão na cabeça:
— Por quê? Por que você tinha que me dar um nome? — Sua voz estava chorosa e sua pele parda estava suja de terra — Você por acaso sabe o que acabou de fazer?
— Eu não te dei um nome — Após Rato dizer isso, a garota ficou confusa olhando-o com olhos vermelhos cheios de lágrimas. Jane soltou um “hã?” — Eu pude ver que você preferiria a morte a isso. E, sabe, Almur nunca foi uma identidade — “É a do meu irmão, na verdade. Mas o usei tanto que esqueço de quem sou e de quem ele é”, pensou ele — É algo vazio, sem sentido algum que me confunde muitas vezes — Após isso, ele sorriu e estendeu a mão para que ela levantasse — Sou... — “Rato? Não posso usar isso como nome”, ele se entristeceu. Rapidamente, pensou em um nome que havia lido em algum livro — Ron. Pode me chamar de Ron, de agora em diante — Ela segurou a mão de Ron, chorando ainda mais.
Fale com o autor