O Cavaleiro dos Lírios
7 Singular
Notas iniciais
Prestara atenção a todos os detalhes. Maier Tom recomendou a leitura de alguns muitos livros feitos por mestres necromantes, mas a maioria era de autoria do próprio Tom, aqueles intitulados 'Lago do Renascer', 'Aurora', 'A Vida na Morte' e 'Apenas Fisicamente'. Leu integralmente o Aurora e Apenas Fisicamente. Já Lago do Renascer e Apenas Fisicamente foram lidos parcialmente, pois Jin pulava partes com linguagem muito erudita e muito complicadas. Mas esses livros não eram a totalidade, havendo mais outros livros de autores distintos. No momento, Jin lia 'Guia das Divindades e Santidades', escrito por Gair Madsen em páginas de couro, enquanto estava deitado em um amontoado de cobertores no quarto que lhe fora dado. Era simples, mas servia bem até. As paredes de madeira o fazia suar, mas não era de muito incômodo, pois também havia uma pequena janela aberta que entrava a luz do sol acompanhada por uma doce brisa. Além da cama, havia apenas uma pequena estante de madeira clara bem construída cheia de livros e poções. Havia também uma escrivaninha e uma cadeira de pedra do outro lado do quarto. Em cima dela, pena e algum tipo de papel para anotações de seus lidos. Até agora não havia tocado nelas, estando todos aqueles papéis em branco. Ficava o dia inteiro lendo seus livros e só saia para almoçar e jantar com os moradores de Vanel Red. Eles surpreendentemente não estavam tão ligados a necromancia.
Estava quase no fim do livro, e até seus pensamentos e conclusões sobre o que leu estavam formalizados. Aprendera muito até ali, sobre as divindades. Cada uma das fronteiras, Norte, Sudoeste e Sudeste, veneravam 'divindades mães' que desembocavam em reflexos delas, um pouco mais deformadas, mesmas em regiões localizadas nelas. Na Sudoeste, Lira, como já sabia anteriormente, pois o pai de Jin já a tinha citado e sempre orava para ela. Na Sudeste, Oreva. Na Norte, saberia em breve, se a leitura continuasse.
— Olá? — Alga entrou no quarto, sem bater, apenas empurrando rudemente a porta simples de madeira a moda de Raqti, cidade há muito extinta. Seus cabelos verdes caiam sobre seus olhos, molhados de suor. Trajava uma roupa comum e ele mesmo estava ofegante — Eu me pergunto... se tem algum momento... que você para de ler... e come.
— Ah, só quando é necessário — A leitura fora interrompida, já. Fechou o livro e marcou a página em que estava — Atrasei-me muito?
— Pois é, o sol andou mais cinco centímetros a oeste.
— Almoçaremos a sós então, presumo.
— Sim e não. Dremond, Twoek, Leno, Wulk, Quart, Robin, Lea, Stev, Amer, Azlea e muitos outros já acabaram de comer, é claro. Mas ainda poderemos almoçar com Gwen.
“Ah, isso é perfeito. Nada mais poderia iluminar meu dia como Gwen”, lamentou Jin, afastando uma mecha de cabelo ruivo do olho com o mindinho. Apesar disso, sorriu e nada disse. Apenas se levantou, deixou o livro de lado e ambos colocaram-se a caminho do refeitório.
Logo após se servirem de vegetais e carne de cervo, encontrados próximo a região, observaram a nem grande nem pequena sala de refeições. Mesas arredondadas de mármore eram quase abundantes olhando da entrada, mas eram apenas sete espalhadas pela sala inteira: três de um lado, três do outro e uma no centro. Para cada mesa, quatro cadeiras de madeira. A sala estava totalmente vazia e bagunçada, com exceção da mesa central onde Gwen sentava. Possuia cabelos castanhos, pele um pouco escurecida, talvez dezenove anos e estava de cabeça baixa, também com roupas simples de grama e lã. A frente dela, um prato quase intocado. Jin e Alga abriram caminho entre várias cadeiras desordenadas e chegaram até ela, sentando-se na mesma mesa. Ela os olhou com olhos castanho-escuros desesperançosos envoltos por grandes olheiras.
Uma colherada nisso, outra naquilo e o silêncio estava incomodando a todos. Ninguém se atreveu a dar a primeira palavra. Até que:
— O cavalheirismo é tanto assim para virem até aqui? — Gwen possuía uma voz bem mais velha que a sua aparência — Era melhor terem se sentado em outro lugar, com melhor companhia — Apontou para muitas mesas, as quais não possuíam ninguém.
— Bom... É... — Alga tentava dizer. Ele não era muito bom com as palavras, como Jin percebera já anteriormente e confirmava isso agora. Mas só com algumas pessoas, e a maioria delas eram garotas — Não tem como...
— Apenas viemos ter um almoço pacífico e nada justifica a nossa escolha, na verdade — Jin percebera a formalidade que sua fala havia passado e ficou orgulhoso de si — E, afinal, esta mesa é deveras...
— Deveras? Que palavras bonitas! Talvez você possa me ensinar um pouco de feminilidade e eu te ensinar a deixar de ser mocinha — Gwen respondeu, empurrando o prato para frente, se levantando da cadeira e dando as costas pra eles começou a andar em direção a entrada.
— Diz em me deixar mais homem mas negligencia isso, dando as costas ao inimigo — Jin falou e ela subitamente parou. Um sorriso se formou no rosto dele. Alga apenas observava a situação com olhos tímidos — Mas eu estou aqui para lhe dar alguma feminilidade se quiser — Ela se virou lentamente e, com olhos raivosos, observou o sorriso dele.
Tudo girou em seguida. Gwen correu até ele e, sem dar qualquer brecha de raciocínio, o apanhou pela camisa e o jogou contra a mesa, que quebrou em duas partes. A comida que comiam voava para todos os cantos, e Jin sentia uma dor terrível nas costas. Até que ela o levantou novamente. Um erro, pois levantou o braço esquerdo e deu um soco moderadamente forte perto do cotovelo dela. Deu certo, ela o soltou enquanto dava um berro. Tinha aprendido isso com um dos cavaleiros do pai. “O lugar certo e uma dor pulsante”, recordou. Caiu de joelhos na mesa e raspou parte da perna no mármore lascado. Levantou-se rapidamente. Alga tinha saído da mesa quando ela deu o primeiro ataque, e estava fora de toda a batalha. “As lutas que você arranjar serão só suas por enquanto, meu amigo”, recordara Jin.
O próximo movimento de Jin foi ficar atrás de uma das mesas, mas quando percebeu que Gwen estava atrás dele, pulou em cima da mesa e ela também. O resultado foi mais outra mesa quebrada. Mas dessa vez, ele caiu em pé e ela também, entretanto Gwen era muito mais experiente em batalhas se adiantara e dera dois socos em seu estômago e um na cara de Jin. O pobre Lorde Menino cambaleou e parou numa mesa próxima para respirar. A comida que comera remexia em seu estômago e sua face estaria provavelmente vermelha pela pancada. Entretanto, Gwen deve ter se sentido especialmente ofendida pois ela não parava de atacar. Quando se aproximou de Jin, o agarrou pelo cabelo e o puxou para perto de si:
— Tem medo de morrer? Você não sabe exatamente nada sobre mim — Gwen sussurou de forma ameaçadora.
— Mas o que é isto? — Maier Tom exclamou ao chegar na entrada e ver duas mesas quebradas e Jin todo abatido. Gwen o soltou rapidamente e encarou Tom de maneira indiferente. Jin caiu no chão, de joelhos — Depois terei com você, e devia se envergonhar por isso — Tom aproximou-se de Jin, o levantou e começou a levá-lo para fora do refeitório. Mas, na entrada, olhou para trás e continuou — Ele é um servo da Senhora, agora.
Depois desse almoço entusiasmante, o resto foi apenas gelo nas partes doloridas e mais alguma leitura no seu quarto. No fim da tarde já estava se sentindo melhor, isto é, menos dolorido, e Tom o fez uma visita com suas vestes usuais, o manto branco:
— Está na hora, hoje você finalmente dará um passo a mais! — Deu uma risada um pouco eufórica — Você finalmente está pronto para animar seu primeiro Reke! — Rain havia estado fora um tempo, com outros Reke's, aprendendo a manusear com maestria seu novo corpo. Maier puxou uma adaga e a entregou para Jin — Para que a arte seja possível, alguém precisa morrer, certo? E deixarei você escolher — Deu uma risada mais alta dessa vez.
— Sim, já tenho uma ideia. Mas antes, qual será o jantar?
Após a resposta, Jin dirigiu-se novamente ao refeitório, observando tudo melhor agora no crepúsculo. A mesma torre, só que fechada dessa vez, as mesmas casas e as mesmas pessoas, ainda que essas o olhassem e rissem. Havia um cão o seguindo, também. Mas não importava, tudo isso acabaria logo. Estava na entrada do refeitório, e abriu rudemente a porta como alguém abre quando se está sozinho em casa.
Todos jantavam e poucas das mesas estavam vazias, exceto aquelas que ele e Gwen quebrara. Agora, montes de velas estavam presas as paredes para iluminar a sala, mesmo que um pouco. Todos olhavam para ele, esperando que falasse ou que fizesse algo, mas nada veio até certo instante. Alguns soltaram pequenas risadas e sussurraram um pros outros, exceto Gwen. Ela estava sentada numa mesa, com três pessoas, Twoek, Leno e Lea, achava ele.
— Você tem coragem de chamar tanta atenção assim depois de hoje — Risadas ecoavam de todos os lados, mas Leno, o jovem com espinhas excessivas, começou a zombaria.
— Eu não fiz nada — Disse Robin, um homem experiente cheio de cicatrizes de batalha de outra mesa, rindo — Por favor, quebre a mesa do Leno, não a minha.
Todos pareciam rir em uníssono, mas Jin abriu caminho entre todos até Gwen, que permanecia imóvel como uma escultura. Seu prato era um pedaço de jaguar intocado. Tirou o prato da frente dela e deu as costas rapidamente, saindo do lugar. Quando fechou a porta da entrada, todos riram alto dele. Pra eles, não havia sentido naquilo. “Não perdem por esperar”, refletiu Jin.
O lugar era escuro, cheio de livros, de mesas e de espaço aberto no centro dela, com um Reke de formato animal a frente. Estava numa das casas que vira da primeira vez que chegara, uma feita com gesso enegrecido. O chão era composto por tábuas de madeira.
Abriu o livro que precisava: Aurora. Aurora é simbolizada como a deusa do renascer, da esperança. Mas por se aproximar tanto da morte, os humanos a associaram com a cor preta e a ligaram a corrupção da alma. Diz-se que muitos animais já foram trazidos e não esquecidos por ela, perante todos os milhões e milhões de anos de história já existentes. Os anciões, segundo relatos, costumavam falar que ela era a representação lógica do orgulho, totalmente estrategista e cruel. Atualmente, aqueles que ousam se aprofundar na necromancia dizem que ela é a benção do mundo e mãe de muitos exércitos. Jin não acreditava em nenhuma delas, mas se baseava nelas. “Tirarei minhas próprias conclusões, e ninguém dirá o que é o que”, pensou. Foi para a seção 'Encantamento'.
Antes, havia estranhado essa seção, pois não havia nada escrito nela. Mas agora, as palavras iam sendo escritas na sua frente, com letras extremamente legíveis de cor vermelha. Jin franziu o cenho e arregalou os olhos. Por um segundo, perguntou se estava mesmo fazendo a coisa certa.
'Tudo começa com a vida, tudo termina com a morte. Tudo desaparece, nada reaparece. Quando perdemos algo, pedimos ajuda. E eu aceitarei o seu pedido', as palavras foram lidas claramente por ele. “E agora?”, pensou confuso. Olhou para o prato de comida e voltou para o livro. Mais palavras eram escritas agora, mas numa língua que não conhecia. “Tudo começou perto de um damasqueiro, eu acho. Senti a brisa do vento pela primeira vez lá. (Estou conseguindo ler isso?) Lembro-me da minha mãe, tão grande, e meus dois irmãos menores, que vieram depois. Nenhum de nós jamais teve um nome. A vida nunca foi fácil, mas digna. Vivíamos uns pelos outros, caçávamos juntos e nunca nos abandonávamos. Um dia, consegui encontrar algo estranho e exótico. Parecia algum tipo de ninho pintado. Quem conseguiria construir aquilo? Fui cada vez mais perto. Havia humanos lá também, e poderiam dar um bom banquete. Mas eles eram muitos, e eu não conseguiria nada além de sair machucado, ou talvez pior. Até que um dia eu resolvi explorar um dos ninhos deles. O pior erro de todos”, Jin lia mentalmente. Sentiu-se triste por tudo aquilo e, já imaginando o final, parou de ler. “O próximo passo será julgá-lo”, relembrou Maier falando para ele muito antes.
— O pior erro de todos — Jin repetiu para as quatro paredes que o cercavam — Eu entendo. Você tem sua mãe, seus irmãos, e sua vida a sua espera. Por um pequeno erro tudo termina como agora — Lágrimas saíram dos seus olhos. Costumava a ler tanto que tomava as emoções dos personagens de alguns livros — Mas não precisa acabar assim. Você teve culpa, mas merece outra chance.
“O próximo passo é libertá-lo fisicamente”, recordou. Segurou o pedaço de carne com as duas mãos. Ele não podia queimá-la, pois não podia interromper o processo para pegar lenha. Pensou em qualquer maneira de fazê-lo até que viu o cão na frente da casa. Sabia que ele estava com fome e que seria uma coisa boa a fazer também. Jogou a carne para ele. Em resposta, ele pegou a carne com os dentes.
— Ofereço-te esta parte física dele — O cão abaixou a cabeça e foi embora.
O Reke tinha forma de jaguar, assim como ele tinha trabalhado depois que soube do cardápio. Só ficou muito grande, com mais de dois metros e meio. Fechou os olhos e esperou, esperou. Esse era o próximo passo que Maier havia lhe ensinado. Tudo ficou silencioso por um momento. Foi quando ele ouviu um obrigado que ele abriu os olhos e observou o Reke ganhar vida. Ele pulou para todos os lados, tropeçando em suas novas patas e derrubou muitas velas e livros. Parou do outro lado da sala, encolhido. Jin levantou-se, limpou suas lágrimas e disse:
— Não há nada mais o que temer.
E então, por um momento, Jin viu a si mesmo pelos olhos do recém-animado Reke.
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