Notas iniciais
Boa leitura ♥ ♥

Anastásia Steele

Caminho até o banco e me sento segurando meu copo de café. Está frio, uma brisa suave bagunçando meu cabelo, algumas folhas caindo, o dia perfeito de outono. A distância, posso ver Alice sentada brincando com algumas crianças. Seria o dia perfeito, como todos os últimos das duas semanas poderiam ter sido, mas depois de ficar tanto tempo ser ver Christian, e a forma ruim como rompemos, eu me sinto completamente vazia.

Eu gosto dele... e o sentimento parece ter aumentado com toda essa distância, mas em momento algum ele veio atrás de mim... e isso significa que não sou o suficiente para ele. E eu não quero apenas tentar algo, eu quero certezas, certeza de um relacionamento saudável, estável. E o tudo que eu vivi com Christian em quatro dias, acabou comigo por completo. Eu jamais poderia viver daquela forma. Me sentindo presa, invadida. Privada de fazer as coisas que gosto, é absurdo.

Eu aproveitei essas duas últimas semanas para colocar algumas coisas em ordem. Alice não está mais na escolinha, e por mais que eu saiba que ela precisa interagir com outras crianças, eu quero passar mais tempo com ela. Ela fica com Marcela apenas na hora que estou no colégio, e depois tiro a tarde para ficarmos juntas. Vamos ao parque, ou alguma de suas amigas vem em casa... coisas que tento fazer para distraí-la... já que tudo que ela faz é pergunta de Christian.

Infelizmente eu deixei a ONG um pouco de lado, os dias da semana estão mais corridos, e eu vou lá dar uma força apenas nos fins de semana. E também, se tornou insuportável conviver tanto tempo com Paul. Ele está me dando nojo já!

Deixo os pensamentos um pouco de lado e encaro o relógio. Está tarde, é melhor eu levar Alice para casa. Levanto-me e pego minha bolsa, jogo o copo de café no lixo e chamo Alice. Ela vem andando devagar, segura a minha mão e então vamos caminhando até a nossa casa.

Quando entramos eu sinto meu coração disparar ao ver Christian na recepção do hotel, ele está andando de um lado para o outro enquanto fala ao telefone. Encaro Alice e ela apenas me olha de forma curiosa, então ela solta a minha mão, mas para a minha surpresa ela não corre para ele, ela corre direito para o elevador que está aberto, porém, ela não chega nem perto.

Alice escorrega no piso e bate o queixo no chão fazendo meu coração disparar, e com seus gritos, as lágrimas vêm aos meus olhos. Corro até lá e a pego no chão vendo que ela apenas cortou o lábio.

—Meu amor, está tudo bem. —Sussurro tentando acalmá-la. —Neném, a mamãe dá beijo.

—Não quéia bezo mamãe. —Ela diz me empurrando e começa a estender as mãos para o outro lado. Viro-me e vejo Christian olhando meio inseguro enquanto Alice o chama. —Vem Chlis.

Fecho meus olhos e me abaixo colocando Alice no chão, e ela vai diretamente para os braços dele, que começa a acalmá-la com uma cantiga de ninar. Quando ela se cala, ele dá um beijinho em seu queixinho e meu coração simplesmente se derrete, mas não! Eu não vou cair nessa.

—Melhorou, neném? —Christian pergunta e ela começa a coçar os olhinhos. —Hm?

—Sim. —Alice sussurra abraçando-o.

Eu não quero me aproximar dele. A aproximação parece tão dolorosa. Eu gosto muito de Christian, mas ele realmente me chateou. E... quando ele resolveu não me procurar, eu entendi que ele não quer nada comigo.

—Alice... —Chamo, mas ela me ignora. —Vamos lá, neném. Nós precisamos ir.

Alice apenas balança a cabeça e abraça Christian de forma apertada. Ele não está me olhando... e eu acho que ele também está chateado, é difícil dizer..., mas o seu olhar quando eu fui embora... era como se eu estivesse quebrando seu coração. E será que eu quebrei?

Eu tenho problemas de confiança, sei como é. E Christian, bem, ele parece ser do mesmo jeito, num nível bem mais elevado. Seu olhar de desespero ainda me causa pesadelos, mas eu não posso acreditar que ele gostava de mim de uma forma tão grande. Ele demonstra isso de uma forma tão estranha.

—É melhor você ir com a mamãe... —Christian sussurra pondo Alice no chão.

—Não... eu pecizo tica tom voxê. —Alice murmura acariciando seu rosto. Ele está abaixado na frente dela. —Vamos... vamos binca tom o Tuntum.

De repente os olhos de Christian ficam cheios de lágrimas e ele puxa Alice para um abraço, um soluço escapa de seus lábios e ele começa a chorar alto enquanto a abraça. Merda. Tem alguma coisa errada. Aproximo-me com cuidado e abaixo ao lado deles, sentando-me sobre meus calcanhares. Toco o ombro de Christian e ele levanta a cabeça. Seu olhar é tão desesperado, tão dolorido que acaba comigo, é ainda pior do que quando eu fui embora.

—Christian... o que houve? —Pergunto e ele usa uma das mãos para secar o rosto, mas de forma inútil. Um soluço escapa de seus lábios e ele volta a chorar. —Christian, me fale.

—Ele está morto. Meu bebê morreu. —Christian sussurra entre soluços e eu acho que posso ouvir meu coração se quebrar.

—O Arthur... morreu? —As lágrimas vêm aos meus olhos e eu sinto uma dor absurda me invadir.

Ele me puxa para seus braços, de forma desesperada, e então, Alice e eu estamos presas aqui, enquanto ele soluça e nos aperta, deixando toda sua dor tão evidente. Eu não posso acreditar, isso não pode ser verdade. Há três noites eu podia ouvir claramente o choro de Arthur... então eu parei de ouvir, mas que merda!

Eu deveria ter ido ver se ele estava bem, mas eu estava deixando meu orgulho falar tão alto que nem sequer pensei no bebê. Ah, meu Deus. Eu me sinto horrível.

—Christian... vamos subir. —Sussurro segurando seu rosto. —Você me conta o que aconteceu.

Ganho apenas uma balançar de cabeça. Eu estou acabada. Destruída por dentro. Arthur tinha apenas seis meses. E ele era tão saudável. Eu não consigo imaginar como isso pode ter acontecido. Eu estou tão devastada, mas preciso ser forte. Por Christian.

Levanto-me com dificuldade e o ajudo a levantar. Ele puxa Alice para seus braços, e mesmo sem entender o que está acontecendo, ela vai sem contestar e fica abraçada a Christian o percurso todo até o elevador. Quando as portas se abrem, já no último andar, nós saímos, mas não vamos para a casa de Christian, vamos para a minha. Abro a porta e ele caminha até o sofá com Alice ainda em seus braços.

Fecho a porta e fico olhando os dois juntos. Enquanto Christian chora, encolhido, Alice o consola. Eu acho que nunca imaginaria ver um homem tão devastado, mas quando Alice nasceu, e eu passei a cuidar dela, eu entendi como era o amor por uma criança, e eu entendo Christian, ele se apegou a Arthur nos últimos dias... e tê-lo perdido deve ser devastador.

Seco algumas lágrimas que caíram e caminho até eles. Sento-me ao lado dele, mas não o toco, deixo ele em sua pequena bolha com Alice, se eu sei de alguém que pode consolá-lo agora... é ela.

O tempo começa a passar, e pela janela eu posso ver a noite cair. Alice está dormindo nos braços de Christian, e ele não moveu um musculo sequer. A sala está escura, como toda a casa... eu estou começando a ficar muito preocupada. Eu jamais veria Christian tão devastado. Isso está me matando.

—Ei... eu vou colocar a Alice na cama. —Sussurro tocando seu rosto. Ele apenas balança a cabeça.

Levanto-me com cuidado e tomo Alice de seus braços, levo-a para seu quarto e lhe coloco na cama, depois de cobri-la e acender seu abajur, eu volto à sala. Sento-me ao lado de Christian e seguro sua mão. Ele entrelaça nossos dedos e aperta firmemente sua mão a minha.

—Como aconteceu? —Pergunto encarando-o e ele apenas abaixa a cabeça.

—Ele estava doente, eu não entendi como aconteceu, começou com uma gripe. —Christian diz fungando. —Eu cuidei dele em casa nos primeiros dias. Minha mãe me ajudou, mas ele piorou, sua febre nunca abaixava, então há três dias ele teve que ser internado. Eu passei todos os minutos ao lado dele... torcendo para ele melhorar, mas então, na última noite ele se foi... eu o deixei dormindo, fui ao banheiro, e quando eu voltei ele estava lá... já roxo pela falta de ar. Eu queria estar ao seu lado, mas ele preferiu esperar para eu sair...

—Ah, Christian. —Puxo-o para mais perto e ele deita no sofá apoiando a cabeça em minhas pernas. —Eu sinto tanto... tanto...

—Anastásia... eu sei que eu fui um idiota, eu sei disso, mas, por favor... fique comigo. Não me deixe longe de Alice. —Ele pede em desespero.

—Eu estou aqui... com você. —Sussurro acariciando seus cabelos rebeldes. —Eu não vou te deixar. Eu juro que não.

Não trocamos mais palavras, ele apenas fica deitando enquanto eu mexo seus cabelos, e ele chora, por horas e horas. Seu celular toca várias e várias vezes, e Christian nem sequer se mexe. Sua mão esquerda está agarrada ao meu joelho, e a outra está segurando minha mão direita.

Ainda estamos no escuro. Há apenas uma claridade vinda do quarto de Alice... e eu imagino que logo ela acordará. Ela dormiu muito cedo.

Suspiro e encaro a porta ao ouvir uma leve batida. Christian não se mexe, então eu percebo que ele está dormindo.

—Entre. —Murmuro e a porta se abre.

Kate, Mia, Elliot e Ethan estão do outro lado, e há uma mulher. Eu nunca a vi, mas ela é muito bonita, e está muito bem-vestida. Kate acende a luz e eu aperto meus olhos acostumando-me.

—Oi. —Kate sussurra e eu apenas encolho os ombros.

Eles entram sem fazer barulho e sentam nos outros dois sofás encarando Christian adormecido.

—Ana... essa aqui é minha mãe. —Elliot murmura segurando a mão da mulher que me olha e forma carinhosa. —Grace Trevelyan Grey.

—Muito prazer, Sra. Grey. —Sussurro.

—Apenas, Grace, querida. —Ela diz dando um leve sorriso. —Ele está aqui faz tempo?

—Acho que sim. Ele me contou o que houve... eu sinto muito.

—Nós estamos organizando as coisas. —Kate diz começando a chorar. —Nós vamos velá-lo amanhã... aqui no apartamento, e depois vamos para o cemitério. Você vai, não é?

—Claro... eu acho que devo levar Alice. Ela merece se despedir.

—Ela morria de ciúmes dele..., mas eu sempre a pegava brincado com ele. —Kate diz rindo enquanto enxuga as lágrimas.

—Ela passou as duas últimas semanas fazendo desenhos para ele e Christian. —Sussurro com um peso de culpa sobre mim. —Eu me sinto tão culpada. Eu fui tão má com ele.

—Você está com ele agora, querida. É o que importa. —Grace sussurra. —Ele me falou com muito carinho de você, e da sua filha.

—Ela é minha irmã, mas acho que isso já não importa mais.

Tento soltar a mão de Christian para enxugar as lágrimas que estão caindo, mas ele mantém sua mão firme segurando a minha. Levanto a cabeça e encaro o teto numa tentativa de não chorar mais. Está doendo. Eu adorava Arthur. Adorava quando ele gritava toda vez que me via. Eu não posso imaginar que isso acabou. Eu não consigo sequer pensar que não vou ver mais aquele sorriso banguela.

Voltamos todos a ficar em silêncio, tudo que se pode ouvir é o ressonar baixinho de Christian, e assim ficamos por um bom tempo, até Alice acordar chorando. Christian se levanta assustado e encara todos, mas não diz nada, ele apenas corre para o quarto de Alice ficando por lá.

—Eu vou fazer alguma coisa para vocês comerem. O corpo do Arthur vai chegar em breve... e nós temos que... —Um soluço escapa dos lábios de Kate e ela começa a chorar.

—Tudo bem, nós não estamos com fome. —Sussurro olhando para todos. Levanto-me e suspiro. —Eu vou falar com Christian. É melhor ele separar a roupa de Arthur.

—Você tem razão, querida. —Grace murmura se levantando e se aproxima. —Obrigada por estar com ele.

—Não precisa agradecer, Grace. Eu faria de qualquer forma.

Sorrio e enxugo algumas lágrimas antes de passar por Grace. Chego ao quarto de Alice e encaro Christian sentado com ela na poltrona. Ela está dormindo, e ele acordado olhando para o rostinho da nossa pequena.

—Oi. —Murmuro e ele levanta a cabeça me encarando. —Christian... você precisa escolher a roupa...

—Eu não consigo. —Ele diz soltando um pequeno soluço.

—Ei... —Aproximo-me e seguro sua mão. —Eu vou estar ao seu lado, em todos os momentos eu vou estar segurando sua mão. Você é o pai dele.

—Promete que vai estar comigo?

—É claro que sim. Não se preocupe quanto a isso.

Christian balança a cabeça, mas ainda leva uns bons minutos para soltar Alice e coloca-la na cama. Ele se levanta e me encara. Seus olhos estão vermelhos, seu semblante está tão cansado, ele tem olheiras e parece até um pouco mais magro. Envolvo meus braços em sua cintura e ele me embala com cuidado, enfiando seu nariz entre meus cabelos, e assim ficamos, por minutos.

Quando chegamos a sala, eu deixo Christian falando um pouco com Grace, e vou conversar com Kate.

—Será que você pode olhar a Alice? —Pergunto encarando Christian.

—Claro, eu fico com ela. Você quer que eu arrume?

—Por favor, mas não coloque roupa preta nela..., por favor. —Sussurro.

—Tudo bem, vai lá ficar com ele. —Kate diz dando-me um sorriso fraco.

Toco seu rosto com cuidado e sorrio antes de voltar para Christian. Vamos para o seu apartamento e eu vejo tudo já arrumado na sala. Os móveis não estão aqui, mas há flores por todos os lados, alguns bancos e no meio da sala há um pequeno caixão. Meu coração se aperta e eu encaro Christian preocupada.

Ele aperta os olhos e suspira, posso apenas ver umas lágrimas escorrendo, então aperto sua mão firmemente. Eu estou aqui, por ele. Lentamente ele abre os olhos e me encara. Sua expressão se suaviza um pouco. Então vamos para o andar de cima, para o quarto de Arthur.

Christian solta minha mão e sorri quando entra no quarto.

—Eu nunca pensei que fosse amá-lo tanto. —Ele diz sorrindo. —Mas você fez isso acontecer. De alguma forma você fez. Eu não aproveitei quando deveria... e agora ele se foi.

—Eu sinto muito. —Sussurro recostando-me ao batente.

—Eu vou vesti-lo... com a roupinha que eu comprei antes de ele ir ao médico. —Christian sussurra caminhando até a cômoda e a abre tirando a roupa.

Ele abraça a roupa de Arthur e de repente essa cena se torna dolorosa demais, mas eu não posso de forma alguma deixá-lo. Se é ruim para mim, imagine para Christian que é pai de Arthur. Fico-o encarando-o por minutos que me assusto quando Taylor adentra o quarto.

—Sr. Grey, ele chegou. —Taylor murmura e Christian balança a cabeça.

—Pode trazê-lo. —Ele diz afastando a roupinha.

Taylor me olha e balança a cabeça antes de sair do quarto. Minutos depois Gail chega ao quarto com uma cesta, dentro, envolto por uma mantinha toda feita de tricô, lá está ele, roxinho e meio inchado. Isso é demais. As lágrimas começam a cair e eu viro o rosto.

Christian começa a se aproximar e para na frente de Gail, suas lágrimas e soluços voltam enquanto ele acaricia o rosto de Arthur. Ele o tira da cesta e se corpinho todo molinho torna tudo ainda mais doloroso. As lágrimas ficam mais fortes quando o vejo puxar o bebê contra seu peito e abraça-lo enquanto o balança.

—Pode ir, Gail. Eu cuido dele agora. —Christian diz caminhando até o trocador, onde coloca o pequeno corpo.

Gail me olha preocupada e eu balanço a cabeça sussurrando um ‘tudo bem’, então ela se vai. Caminho até Christian e encaro o Arthur. Isso dói. Dói de uma forma que eu jamais vou explicar. Abaixo-me e pego uma fralda descartável, então começo a trocar o bebê enquanto Christian observa.

A sensação é horrível. Porque todos as vezes que eu troquei bebês, eles eram ativos. E sentir Arthur, com o corpinho gelado, sem se mexer... isso está me matando por dentro, mas eu não posso chorar. Eu quero ser forte por Christian.

Termino de vestir a fralda dando lugar a Christian e ele fica por minutos encarando o bebê antes de começar a trocá-lo. Coloco minha mão em seu ombro, dando meu total apoio. Ele chora em todos os momentos, mas não para, ele coloca a roupinha de Arthur, penteada seus cabelos e então o toma em seus braços, ficando por minutos assim com ele, até eu dizer que precisamos ir.

Caminhamos para fora do quarto, descemos as escadas e quando chegamos a sala já posso ver algumas pessoas chegando. Christian se aproxima do caixão e seus pequenos soluços estão lá. Caminho com ele e o ajudo a ajeitar Arthur no pequeno caixão. Tudo dói nesse momento. Eu jamais imaginei viver algo assim, e eu não queria que Christian estivesse passando por isso. Nunca.

—Eu preciso ir pegar, Alice. —Sussurro e Christian me olha por alguns segundos antes de balançar a cabeça. —Eu já volto. Certo?

—Certo...

Dou um beijo em sua bochecha e volto ao meu apartamento. Todos ainda estão aqui, com Alice. Ela sorri ao me ver, mas sua expressão muda rápido quando percebe as lágrimas.

—Eu posso ficar sozinha com ela? —Pergunto encarando todos.

—Claro, nós vamos ficar com Christian. —Elliot diz fungando e eu balanço a cabeça.

Todos começam a sair e logo eu estou sozinha com Alice. Sento-a no sofá e me aproximo segurando suas mãos.

—Querida... você lembra aquela gatinha que você gostava muito, da ONG? A Lulu? —Pergunto e ela balança a cabeça.

—A Nunu vinou esteninha, né, mamãe?

—É, meu amor, ela virou. —Sussurro começando a chorar.

—O que aconteceu, mamãe?

—Meu amor... o Tuntum... ele também virou uma estrelinha.

Meu coração se dói ao dizer isso. Eu não queria que fosse real. Não queria. Mas dizer isso Alice, torna tudo tão real e doloroso.

Alice me olha por alguns segundos, e como se ela entendesse o que isso significa, ela começa a chorar. E é um choro desesperado. Eu nunca a vi chorar assim.

—Não, mamãe. Não vinou. —Alice murmura segurando meu rosto. —Eu não quéia.

—Meu amor... aconteceu... ele está dormindo agora... e ele vai ficar com o Papai do Céu, e a Lulu.

—Mas o Chlis vai tica tisxi. —Alice diz chorosa.

—Eu sei, por isso eu quero que você seja muito forte. A mamãe vai levar você para ver o Tuntum agora... e dizer adeus... depois nós vamos cuidar do Christian. Você pode ser forte pela mamãe?

—Eu pode, mamãe. —Ela funga e se aproxima me abraçando.

Abraço Alice e ficamos assim por minutos, enquanto ela chora e soluça em meus ombros, e eu apenas a espero se acalmar.

Sorrio e toco o rosto de Alice com cuidado. Levanto-me e caminho até meu quarto para pôr um vestido preto rápido, calço minhas botas e então pego minha filha. Me dói ela ter que passar por isso, mas eu sei que ela sempre vai lembrar de Arthur, e eu não quero mentir. Ela merece se despedir.

Chego ao apartamento de Christian e todos começam a nos encarar. O clima é devastador. Todos chorando. E Christian ainda está lá, no mesmo lugar onde eu o deixei, acariciando o rosto de Arthur. Aproximo-me com Alice e ela olha para ele no caixão, então ela encara Christian e encara a todos.

—Cadê, mamãe? Cadê o Tuntum? —Ela pergunta ainda procurando.

—Querida... ele está aqui. —Sussurro olhando para o bebê.

—Não, mamãe. Não é o Tuntum. —Alice diz se curvando um pouco. —Cadê a manchinha do Tuntum?

Troco um olhar com Christian e então olhamos para o mesmo ponto, a mão esquerda de Arthur, onde deveria ter uma marquinha de nascença, mas não há nada.

—Puta que pariu. —Kate sussurra.

Notas finais