O Caos dos calados

2 Um encontro mais que clichê


Notas iniciais
Segundo capítulo, espero que gostem!

Era segunda-feira, Clarice acordou às seis da manhã e dirigiu-se ao banheiro. Primeiro dia de aula, ano do vestibular. Tomava seu banho imaginando o quanto aquele seria um ano cansativo e pior ainda, numa escola nova a qual ela não conhecia ninguém.

Clarice nunca foi uma menina normal, quando as meninas brincavam de boneca, ela lia livros. Não entendia qual a graça de pegar miniaturas dentro do padrão social e dar vida às mesmas. Acho que esse meu fascínio veio da personalidade de Clarice, uma menina de pensamentos marcantes e que não tinha necessidade de espalhar por aí.

Tomou seu café da manhã e foi à parada esperar seu ônibus. Usava uma calça jeans escura, um tênis de cano alto e a camisa da escola, aparentemente uma menina normal escutando Legião Urbana e olhando a janela.

Passou por sua antiga escola e as lembranças de bons anos de estudos lhe acometeram. Foram ótimos anos: não falava com muitas pessoas, tirava boas notas e era respeitada. Aquilo lhe bastava. Foi naquela mesma escola que deu seu primeiro beijo, ou melhor, deram nela. Um cara do terceiro ano do ensino médio quando ela fazia o sétimo do fundamental. Não fazia mal, não foi uma experiência ruim, já que sempre gostou de homens mais velhos.

A parada ficava a uma rua da escola; guardou o celular com medo de assaltos e foi andando sozinha até chegar ao grande colégio. Fundado naquele ano, o Instituto JK tinha a promessa de conseguir o maior número de aprovações nos vestibulares, superando as escolas tradicionais. Muitos dos alunos de escolas tradicionais foram para lá e Clarice era uma deles.

Encontrou sua sala, 3ºB — Sala 12; sentou-se na fila da parede, quarto lugar e percebeu que a menina ao seu lado a olhava como se implorasse por alguém que puxasse assunto.

"Pobres pessoas... Por que temos tanta necessidade de conversar?" pensava.

Distanciei-me de Clarice para ir ao encontro do mocinho (não mais tão moço) da história, dirigindo seu carro estressado e de rosto vermelho, buzinando e xingando os outros.

– Filho da puta! Eu tenho aula para dar dentro de dez minutos! — gritava dentro do carro.

Em manobras e atalhos, conseguiu finalmente chegar à escola entrando apressado no momento em que o sinal tocou. Entrou na sala e os alunos já estavam presentes.

– Bom dia, eu sou o professor Álvaro Oliveira e não tenho tempo a perder. Dou aula em mais sete escolas e já trato o estresse como um velho amigo. Na minha aula só é permitido piscar e respirar. Se você abaixar a cabeça, conversar ou fizer pouco da minha aula, será posto para fora de sala. Apenas perguntas pertinentes ao conteúdo.

Álvaro passava longe de ser o professor mais bonito da escola (se é que era ao menos bonito) e apesar de ter dito que já tratava o estresse como um velho amigo, em nenhum dos momentos que estive com o homem eu o vi por perto. Baixinho (1,64m), cinquenta anos, cabelos grisalhos e partidos ao lado, usava óculos e tinha um nariz levemente arqueado.

Clarice anotava a matéria que estava sendo passada na lousa quando a aula acabou e um rapaz foi falar com ela.

– Posso sentar aqui? Lá atrás é uma bagunça.

– Fica à vontade. É uma sala de aula, não um restaurante.

– Se eu pudesse, não viria à escola. Não é por não gostar de estudar, mas por não gostar das pessoas da escola. Você aqui me parece ser bem na sua, não vou incomodar.

Nossa mocinha olhou para o rapaz com os olhos brilhando! Finalmente havia encontrado alguém como ela.

– Desculpa — falou, puxando assunto novamente -, eu sei que eu disse que não queria incomodar, mas é desagradável tanto para você quanto para mim não conversar com ninguém. Daqui dessa sala você foi uma das únicas que até agora não quis chamar atenção. Prazer, Diogo.

– Clarice.

– Você tem namorado, Clarice?

– Não. Você tem? — se esforçou para se mostrar o mais interessada possível.

– Tenho. Ela já é universitária, sabe? Cursa História. Gosto de mulheres mais velhas, ao menos possuem mais conteúdo que essas meninas por aí.

– E o que você quer cursar? — Clarice estava começando a se interessar, coisa que raramente acontecia.

– Arqueologia. E você?

– Eu me interesso bastante por Letras.

– É um curso bom.

O outro professor entrou na sala e começou a passar a matéria.

A manhã de aulas acabou e Clarice voltou para casa escutando Another Brick in the Wall e lembrando das conversas que teve com Diogo e o quanto queria conhecer a namorada do rapaz, já que pelo que ele havia falado, se identificara muito com a moça.

Chegou em casa e revisou a matéria de Álvaro.

"Até que soube explicar bem, apesar da pressão", dizia para si.

Nem devia perder meu tempo dizendo onde Álvaro estava porque certamente estava dando aula. Dava aula de segunda a sábado, de manhã, à tarde e à noite. Apesar de tudo, era feliz com sua vida. Gostava de bons livros e música clássica (será um detalhe importante para a aproximação), era divorciado e muito próximo dos amigos. Uma pessoa que, fora da sala de aula, era irreconhecível! Animada e de bem com a vida. Não era muito namorador e morava sozinho, não gostava nem de imaginar se envolvendo com alguma aluna, tampouco a confusão que daria se descobrissem.

Quando a noite chega, nossa mocinha vai assistir a alguns filmes, nosso mocinho, chega em casa tarde e capota na cama.

Notas finais
Seu comentário é meu salário! :)