O Caos dos calados

3 De repente as coisas não são tão ruins


Notas iniciais
Gente, um comentário! Que felicidade! E melhor ainda: três pessoas favoritaram! Muito obrigada, amo vocês.

O despertador tocou e Clarice respirou fundo, quase chorando ao pensar que já era de manhã. Para ela, já que a vida não valia muito, dormir era o maior prazer que um ser humano poderia sentir.

Tomou um banho pensando nos novos professores que apresentar-se-iam naquele dia. Colocou novamente sua calça jeans, seu tênis cano alto, sua camisa da escola e foi à mesa. Seu pai, Armando, homem exigente, olhou para a filha e comentou:

– Querida, ontem eu cheguei tão tarde que nem soube como é a escola nova.

– É legal... Ninguém se conhece, mas acho que tem um pessoal que já está tentando fazer amizade.

– E você, fez amigos?

– Não, só conversei lá com um menino... Diogo, seu nome.

– Acha que essa escola lhe dará uma boa base para o vestibular de medicina que você prestará?

– Acho, pai — deu um suspiro.

– Qualquer dia eu deixarei você na escola de carro, uma pena que hoje estou muito atrasado.

Ambos saíram juntos, Armando entrou no carro e Clarice dirigiu-se à parada. Seu ônibus demorou um pouco, quando ela entrou, pensou:

"Vou chegar no segundo horário."

Olhava a janela e pensava que era aquele mesmo percurso que teria de correr todos os dias. Trocava as músicas. Olhava as pontas duplas do cabelo. Uma menina da sua sala entrou no ônibus.

– Oi!

– Oi... — "droga", pensou.

– Sério que você pega esse ônibus? Mora onde?

– Na rua da parada antes dessa.

– Ah, sim. Eu moro uma rua antes dessa parada. Como é seu nome?

– Clarice.

– O meu é Karina. Já fez amizades?

– Em um dia não dá pra fazer amizade.

– Eu penso o mesmo. Aquela sala mais parece uma corrida de egos, percebeu?

– Eu só sei o nome de uma pessoa daquela sala, contando com você, duas. Não tive como formar opinião a respeito das pessoas.

– Ah, sim. Conheci um pessoal por lá, mas que eu não me identifiquei muito.

Não é que Clarice não gostasse de conversar, ela apenas não tinha assunto com a grande maioria das pessoas. Não era de um todo tímida, se encontrasse um assunto interessante, falaria tudo que pudesse. Notou que Karina carregava um livro de Clarice Lispector, Perto do Coração Selvagem.

– Já leu? — perguntou.

– Ainda não, estou acabando. Você já?

– Nunca! Queria muito ler. Quando acabar, você me empresta?

– Empresto, claro! Onde quer sentar hoje?

– No mesmo lugar que sentei ontem.

– Perto daquele carinha? Aliás, qual o nome dele?

– Diogo.

– Vou sentar perto de você.

– Tudo bem.

– Acho que hoje terão mais pessoas, tem gente que falta no primeiro dia de aula.

– É verdade.

De certa forma, Clarice ficou feliz por ter duas pessoas que talvez fossem suas amigas pelo resto do ano. Era um grande avanço se levasse em consideração o fato de que em sua outra escola, mesmo estudando lá desde o maternal, não falava com quase ninguém.

– Você é gótica? — Karina fez a pergunta, atrapalhando os pensamentos de Clarice.

– Eu, gótica? Não, não.

– É porque o jeans escuro e o tênis me fizeram pensar. Se bem que as góticas costumam ter o cabelo preto e você é loira.

Clarice deu um sorriso e Karina continuou puxando assunto.

– Você tem namorado?

– Não. Você tem?

– Também não, terminei recentemente.

– Faz quanto tempo?

– Acho que umas duas semanas.

– Ah, sim.

– Mas você nunca namorou?

– Não.

Chegaram à parada da escola e naquele momento, ambas agradeceram a Deus por não terem que subir sem ninguém aquela rua deserta.

Passaram o cartão, dirigiram-se à sala e sentaram. Diogo já estava lá e tinha guardado o lugar de Clarice. Karina sentou-se em sua frente.

– Prazer, Karina — falou com Diogo.

– Diogo.

– A primeira semana de aula é tão ruim, né? Falta assunto... Principalmente numa escola que não conhecemos ninguém.

– Pois é, mas parece que a galera lá de trás já se conhecia. Vieram de outra escola.

Clarice prestava atenção na conversa e começava a gostar dos seus novos amigos. O tempo faria com que tivessem assunto e amizade.

"Não preciso ser um bicho antissocial... De repente esse ano não vai ser tão ruim."

Novamente, Karina tira Clarice de seus pensamentos:

– Não queria parecer que eu tô forçando a barra para me enturmar, mas... O que acham de sexta, depois da aula, irmos ao shopping? Queria conhecer aquela livraria que abriu.

– Perfeito! — Clarice animou-se — Eu estava realmente querendo.

– Você vai, Diogo?

– Não, não... Sexta-feira vou almoçar com minha namorada.

– Chama ela — Karina estava empolgada -, vai ser legal! Almoçamos todos juntos por lá.

– Melhor não. Podem ir sem mim.

O professor entrou na sala e começou a passar o assunto. Professor de história, seu nome era Tadeu.

– E aquele professor de química? O Álvaro? Era um chato! Pense na pressão que eu tava sentindo na aula dele — Karina ainda conversava.

– Senhorita, eu lamento o fato de a Era Vargas não ser tão importante quanto o que você conversa, mas é o assunto que tenho para dar. Se eu chamar sua atenção mais uma vez, será para pedir que retire-se de sala.

Clarice estava achando engraçado o jeito de Karina e, naquele dia, a manhã não foi tão demorada.

Ao chegar em casa, trocou de roupa e foi almoçar. Sua mãe já estava sentada à mesa.

– Como foi a aula? — dona Joana perguntou.

– Foi legal. Mãe, a senhora me dá dinheiro para eu almoçar e ir à livraria sexta-feira depois da aula? Uma menina lá da minha sala me chamou.

– Tudo para minha futura médica!

Aquilo doía em Clarice. Doía bastante porque sentia-se falha e insuficiente para agradar seus pais. Ela não queria de jeito nenhum fazer medicina. No máximo faria direito e ainda a contragosto. Terminou de comer e dirigiu-se ao seu quarto.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Seu comentário é meu salário!