O Canto Dos Corvos Vermelhos
4 Capítulo 4 - Macarrão e Salsichas
Notas iniciais
–Paul? – Flake indagou assim que reconheceu o vulto loiro encolhido de encontro ao Muro. O amigo sorriu assim que o viu, acenando com a cabeça. Flake notou que ao lado dele jazia uma garrafa de cerveja vazia e uma pela metade, a qual Paul ainda estava bebendo.
–Oi, Flake. – Paul sorriu, mas Flake sabia que ele sorria por causa da bebida, e não de felicidade mesmo.
–O que você tá fazendo aí? – o mais novo sorriu suavemente e entortou as sobrancelhas quando viu a mala ao lado do amigo – Por que a mala?
–Ah... – Paul baixou os olhos – Eu não aguentava mais viver com Klaus.
Flake suspirou.
–O que ele fez agora?
–Falou que eu era uma bicha por ter furado as orelhas. – ele fez um gesto indicando as orelhas furadas – Você sabe que eu não gosto dessa palavra. Odeio, na verdade.
–Eu sei. – Flake disse calmamente, ignorando o ódio que borbulhava em seu estômago vazio – E o que você vai fazer?
–Não sei... – Paul suspirou tristemente.
–Vem morar comigo.
–O quê!? – ele riu sarcasticamente.
–Eu posso pegar o colchão que tem no quarto do Jackie, e aí você dorme no meu quarto que é bem grande e...
–Flake, olha pra você! – Paul o interrompeu – Você tem só quinze anos! E você nem sabe se seus pais me deixam ficar na sua casa. E eu uso drogas, você sabe.
O menino levantou os ombros e cruzou os braços.
–Como se eu ligasse. E meus pais ficam um mês fora, agora, em Moscou.
Paul bufou, cansado.
–Ok então. Qualquer lugar é melhor do que a rua.
Flake sorriu vitorioso e o ajudou e pegar suas coisas. A casa do menino estava vazia, porém todas as luzes estavam ligadas; aquilo era comum quando ele ficava sozinho. Paul pensou que às vezes, apesar de toda a maturidade e inteligência que dominava sua cabeça loira, ele conseguia agir como um garotinho de quinze anos comum. Porque falar com Flake era o mesmo que falar com alguém sua idade. Era por isso que eles eram amigos.
Paul jogou sua mala em um canto do quarto de Flake e se sentou na cama, sem pedir. O outro, ao ver isso, o empurrou da cama e Paul caiu no chão.
–Idiota! Por que você fez isso!? – ele disse, irritado, esfregando as costas doloridas por causa do impacto.
–Você ia esmaga-lo!
–Esmagar quem?
Flake tirou uma bolinha de pelos que cabia na palma de suas mãos. Era cinza com manchas pretas e estava dormindo.
–Steven. – o menino beijou a cabecinha do filhote – Steven Tyler.
Paul explodiu em risadas e Flake o olhou por cima da bola de pelos, com raiva.
–Um gatinho? Um gatinho chamado “Steven Tyler”? – Paul disse entre risadas – Oh não, Flake...
–Eu o achei na rua, abandonado. – ele voltou seus olhos azuis brilhando para o gato que dormia em suas mãos – Precisava de mim, e eu precisava dele. Estava com fome...
Paul parou de rir para observar o amigo que parecia em transe, olhando para o gato como se este fosse feito de ouro, segurando-o com todo cuidado. O felino não devia ter nem oito meses de vida.
–Você está deprimido?
Flake o olhou e revirou os olhos, colocando o gato em cima da cama. Quando fez isso, ele acordou. Paul pôde ver que ele tinha olhos azuis grandes e brilhantes, parecidos com os de Flake. O gato emitiu um som agudo e rouco e Flake riu suavemente, acariciando-o na cabeça.
–Você não entende. Bem... Está com fome? Fiz jantar. Macarrão e bratwurst.
–Vamos comer.
Paul o seguiu até a cozinha e o observou colocar dois pratos sobre a mesa. “Ele nunca foi assim...” ele pensou, esfregando o queixo “Quer dizer, ele é quieto. Mas não melancolicamente quieto. Tem algo de errado nisso tudo”.
Se sentaram à mesa e começaram a comer, sem dizer nada, apenas saboreando o macarrão e as salsichas.
–Está ótimo, Flake. – Paul disse de boca cheia.
–Danke. – o menino respondeu, sorrindo.
–Você estava com fome, não é? – Paul apontou com o garfo para a montanha de macarrão no prato de Flake.
Ele parou imediatamente de comer, engolindo com força e dificuldade sua última garfada de macarrão, e seu olhar ficou vazio. Paul o olhou confuso e desconfortável.
–Algo errado? Na comida?...
Flake balançou a cabeça negativamente, se levantando bruscamente e jogando seu prato ainda cheio na pia. Paul se levantou junto, barrando a passagem na porta da cozinha. Flake o olhou cansado e triste.
–O que está acontecendo com você, Flake? – Paul disse, quase que com raiva – Estou preocupado. O que eu estou fazendo que não está te agradando? Quer que eu vá embora? Pode falar!
–Não é nada com você, Paul. – Flake abaixou a cabeça.
–Então o que é?
–Estou cansado. Só isso. Tive um dia ruim.
–O que? Foi aquele imbecil que ficou te batendo de novo?
–Sim, e eu preciso descansar agora ou não vou aguentar mais um dia de surra amanhã. – ele disse friamente, abrindo caminho entre o braço do amigo. Paul o deixou ir, perplexo.
Flake se trancou no banheiro e ligou seu rádio no volume máximo. Paul tentou abrir a porta e descobriu que ela estava trancada.
–Flake! – Paul o chamou em voz alta, encostando seu ouvido à porta para tentar ouvir algo. Mas só conseguiu ouvir o punk rock muito alto, estourando dos alto-falantes do rádio – Tudo bem?!
Minutos depois, a música cessou e a porta foi aberta novamente. Flake saiu de lá, esfregando a boca úmida. Seus olhos estavam meio avermelhados e parecia que ele havia lavado o rosto depois de chorar. Seus cabelos loiros e curtos estavam bagunçados também.
–Preciso descansar. Boa noite, Paul. – foi tudo que ele disse, antes de tomar rumo para seu quarto. Paul foi atrás dele, já que sua cama estava lá também.
–Flake... – ele disse, fechando a porta do quarto devagar – Só quero que saiba que eu te amo. E eu odiaria se algo de ruim acontecesse com você.
Ele corou e Flake riu suavemente.
–Também te amo, Paul. Boa noite.
Paul apagou e luz e se deitou, sentindo o gatinho Steven se enroscar em suas pernas. Apesar de odiar gatos, ele não teve coragem de chutá-lo para fora do colchão. E então, lá o gato se encolheu com a cabeça encostada em seu joelho, ronronando suavemente.
“Ele nunca vai entender...” pensou, antes de mergulhar em um mundo de sonhos.
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