O Caminho da Andorinha

18 Do Céu Ao Inferno


Quando cavalgando a galopadas na estrada para Lathlake, Ciri fez planos. Uma tina com água quente para se esquecer da imundície daquela batalha, uma refeição quente e bastante temperada. Quem sabe uma coxa de frango? Ou até mesmo um sanduíche de lombo de porco, talvez? O estômago de Ciri roncava em expectativa.

Mas paz e sossego seria a última coisa que a Bruxa encontraria, pois assim que Pandora se aproximou da entrada do vilarejo de Lathlake, uma multidão de aldeões já estava reunida à sua espera. Comentários e cochichos eram escutados enquanto os bruxos caminhavam para a estalagem. Alguns, mais ousados, se aproximaram de Ciri e Bjorn, na tentativa de ver alguma evidência sobre a morte do Dragão.

O calor da estalagem e o cheiro de porco assado ajudou a conter um pouco o cansaço de Ciri. Logo que a Bruxa adentrou, ela pôde escutar um bardo tocar, solitário, uma melodia triste. Diante da chegada de Ciri e Bjorn, o bardo imediatamente mudou a melodia para algo alegre e festivo. Certamente eles estavam se preparando para um velório, pensou Ciri. Mas não tardou até que a timidez dos aldeões do lado de fora fosse rompida e que a estalagem de Lucius fosse tomada por curiosos. Pessoas estavam na porta, mesmo na janela, engalfinhando umas com as outras para entrar e permanecer ali dentro, o que tornava o almejado desejo de Ciri por uma tina de água com sabão e comida quente cada vez mais remoto.

-Ah, Ciri. Que bom que está viva!

Era o Magistrado, se acotovelando entre os camponeses curiosos, numa esforçada tentativa de se aproximar da Bruxa de cabelos cinzentos. Ele trazia um semblante aliviado por vê-la bem, com todos os membros do corpo no lugar.

—Você está ferida?

Só naquele momento Ciri se atentou às suas feridas. A manga esquerda de sua camisa estava em frangalhos e manchada de sangue. Havia um corte em seu braço.

-Não é nada preocupante, Magistrado. – apontou Ciri.

-Assim que Turiel chegar, pedirei para examinar suas feridas. E parece que você soube lutar contra o Dragão, afinal.

-Não estaria surpreso se tivesse acreditado em mim desde o princípio, Magistrado. Sou um profissional. – disse Bjorn, de modo rabugento, tendo os braços cruzados. Sua postura fez Ciri perceber que o Bruxo estava ainda mais ferido do que ela. Mas por se tratar de um Bruxo genuíno, ou “aberração” como diziam alguns, o tratamento era sempre diferente. Permeado por indiferença e desprezo.

Camponeses começaram a disparar perguntas e mais perguntas, todas ditas de modo desenfreado e ao mesmo tempo. Ciri pôde compreender o conteúdo de algumas, que consistiam, em sua maioria, de “você conseguiu matar o Dragão?”. Coube a Lucius por um fim na confusão, quebrando com violência uma garrafa – vazia, obviamente – e imediatamente atraindo a atenção de todos os olhares daquela taberna.

-Deixem a pobre mulher e a aberração falarem, seus putos! – esbravejou o Lucius, diante do silêncio armado na estalagem. – Ciri, conte-nos o que aconteceu.

Antes que Ciri pudesse abrir a boca para dizer qualquer coisa, Bjorn tomou sem a menor cerimônia a caneca cheia de cerveja de um dos camponeses e pôs-se de pé em um banco. Sua inesperada atitude provocou pasmo e risos nos camponeses. E, é claro, indignação em Lucius.

-Pelo que me consta, aberração, você não se chama Ciri.

-Posso até não me chamar “Ciri”, é verdade. Posso até não um cabelo tão cinzento como o dela. Ah, e para tristeza dos senhores, também não possuo um par de tetas.

Uma profunda agitação tomou a taberna, principalmente nos homens, inconformados com os comentários do bruxo, ditos na presença de mulheres. Para silenciá-los, o bruxo voltou para sua narrativa.

—Eu posso não ser essa “Ciri, A Matadora de Monstros” que vocês tanto admiram, mas eu sou um Bruxo de verdade, e eu estava lá. Sou não apenas uma testemunha ocular dos fatos, mas também um atuante naquela luta.

Ciri sentiu seu sangue congelar, como se estivesse andando descalça na neve. Será que ele revelaria ali todos os detalhes da batalha? Incluindo sobre suas habilidades mágicas? Afinal, Bjorn não era bobo. Ele a viu lutando.

—Foi uma luta difícil, árdua. Tenho quase um século de vida, como devem imaginar, e afirmo que jamais lutei contra um ser tão poderoso como aquele! Logo que eu e Ciri chegamos a uma campina deserta, o Dragão pousou sobre nós, com suas patas gigantes, suas garras afiadas e seus dentes ferozes, prontos para nos abocanhar!

Um urro de pavor foi ouvido por toda a taberna, especialmente das moças, que tendiam a se assustar mais. De braços cruzados, Ciri ouvia a todo o relato, enquanto observava um semblante bastante divertido em Bjorn. Decerto, ele estava gostando de ser o centro das atenções.

—E o que aconteceu? – perguntou um camponês, curioso.

—Então, peguei o meu machado Havenkar e comecei a lutar contra o Dragão.

—E quanto à jovenzinha de cabelos prateados? – perguntou um camponês. – Ficou só assistindo ou ajudou também?

Alguns assentimentos foram escutados. Sim. Muitos camponeses estavam curiosos para saber qual foi o papel de Ciri no combate. Inclusive a própria Ciri. Embora estivesse atemorizada que Bjorn contasse sobre seus poderes, no fundo a Bruxa estava curiosa para saber como ela estaria naquela narrativa tão descabida.

Ignorando o olhar preocupado de Ciri, Bjorn conversava com os presentes de modo bastante caricato, exagerando seus feitos quase teatralmente. Aos olhos de Ciri, ele estava patético, mas sua narrativa era interessante o bastante para prender a atenção dos camponeses, que em suas vidas tão pacatas e medíocres, raramente tinham a oportunidade de presenciar um acontecimento daqueles se desenrolando praticamente em seus olhos.

—Ela foi uma ótima isca. – disse o Bruxo de Skellige, provocando boas risadas em todos. De braços cruzados, Ciri tentou soar intimidante a Bjorn, mas tudo que recebeu dele foi uma leve piscadela. No fim, ela não poderia reclamar, afinal ele guardou seu segredo.

—Deixem o Bruxo falar, pelos deuses! – reclamou um camponês. Bjorn aproveitou o momento para dar mais um gole em sua cerveja roubada.

—O Dragão permanecia a me atacar, expelindo chamas e mais chamas. Eu me esquivava e atacava. Esquivava e atacava. Tomando cuidado para não ser ferido por suas garras venenosas. Até que...

Silêncio. Após grande expectativa, um dos aldeões pediu.

—Vamos, aberração! Conte-nos! O que aconteceu?

O bruxo Bjorn deu mais um gole em sua cerveja.

—O Dragão soltou um rugido tão forte que eu fiquei tonto com sua potência.

Outro grito de pavor. Àquela altura, as mulheres estavam em polvorosa. Ciri rolou os olhos quando ouviu uma delas dizer “ele é tão corajoso!”

—Mas eu me recuperei. Ciri estava cumprindo bem o seu papel, de distrair o Dragão, enquanto eu me recuperava. Peguei o meu machado e corri para ataca-lo. Mas o desgraçado acertou-me com sua cauda, repleta de espinhos!

Outro grito de pavor. “Que valente!”, ouviu Ciri o comentário de uma jovem espevitada. Já estava de saco cheio de tamanha frescura – e também dos floreios exagerados de Bjorn.

—Mas espinhos, fogo, nada disso é o suficiente para deter Bjorn, o Urso de Skellige. Eu me esquivei de suas garras e, com o meu machado, saltei em seu pescoço, cravando meu Havenkar em sua garganta, rasgando-a até atingir seu estômago. Vísceras se espalharam e...

Um dos homens levantou-se, furioso.

—Por favor, há donzelas no recinto. Evite entrar em tais detalhes.

—Tudo bem, eu serei direto, então. Sim. Sim, nós matamos o Dragão!

Imediatamente, uma festa se seguiu ao brado de Bjorn. Alguns mais exaltados chegaram a erguer suas cervejas para o alto, respingando bebida nas pessoas mais próximas. Alheia a toda aquela comemoração, Ciri não conseguia esconder sua confusão. Como assim “matamos o Dragão”?! O Dragão ainda estava vivo. Claro, bastante ferido, mas vivo.

O que Bjorn está pretendendo com isto?

—Uma rodada de cerveja temeriana por conta da casa! – bradou Lucius, animando ainda mais os presentes. O bardo começou a tocar uma música alegre, que logo preencheu o ambiente, juntamente ao cada vez mais sedutor cheiro de carne de porco assando no fogo. Ciri estava confusa demais para se juntar aos presentes naquela festa.

Ainda de pé sob o banco, Bjorn terminou de beber sua cerveja em um só gole. Ciri percebeu que algumas mulheres cochichavam, secretamente, e trocavam risadinhas. Sem dúvida, o assunto era Bjorn. Bruxos se constituíam de um fetiche e tanto para muitas mulheres, porque eram criaturas exóticas e que despertavam tanto desejo quanto curiosidade.

Sob fortes aplausos dos presentes, Bjorn recebeu mais cerveja do estalajadeiro. Em meio ao festejo dos aldeões, Ciri percebeu o Magistrado dar um passo adiante.

—Uma bela história, esta que contara. – disse o Magistrado.

Risonho, Bjorn concordou.

—Tenho certeza de que os bardos cantarão sobre isso por toda a Teméria.

—Não me espantaria. Os bardos cantam qualquer coisa, até mesmo mentiras.

—Eu ouvi bem, ou permanece a me chamar de mentiroso? – Bjorn perguntou, cinicamente. O Magistrado sorriu levemente.

—Devo admitir, você estava certo sobre o Dragão.

Bjorn riu vitoriosamente. – E estou certo sobre a morte dele.

—Talvez. O que mais me estranhou é que não trouxe nenhuma prova...

Distante dali, Ciri prestava atenção na conversa, que tinha tudo para ser explosiva. Afinal, ela sabia que Bjorn estava mentindo. E para piorar, seu silêncio a fez compactuar com toda aquela mentira. Seus instintos gritavam para que ela fosse discretamente do lado de fora, montasse em Pandora e fugissse dali enquanto ainda era tempo, mas Ciri nunca foi a pessoa mais sensata do mundo. Estava curiosa demais em ver o circo pegar fogo e Bjorn pagar por sua mentira.

—O corpo dele está na campina, no mesmo lugar onde o matei. Sabe, era grande e pesado demais para carregar em um cavalo...

—Ora, mas você deve ter ao menos um pedaço dele, não? Um “troféu”, como vocês, Bruxos, costumam chamar. Do que sei da vida, um verdadeiro Bruxo prova seus feitos.

Bjorn riu. Sua risada nada tinha de humor, mas sim, ameaça. O Bruxo desatou uma bolsa de couro de sua cintura e a pressionou forte contra o peito do Magistrado Godfrey, fazendo-o cambalear levemente para trás.

—Veja com seus próprios olhos, então. – disse o Bruxo.

O Magistrado abriu a bolsa, sem retirar o conteúdo de dentro dela. Por fim, o homem riu. Ciri se alertou. Afinal, jamais viu o Magistrado rindo. Jamais. Ele era sempre muito sério. Algo de errado estava acontecendo ali. “Suba em Pandora e cavalgue para o mais longe possível dali”, gritava o interior de Ciri. Mas sua curiosidade não permitia que ela movesse um só músculo.

—É esta a prova que proclama? – perguntou o Magistrado. No mesmo instante, ele pegou a bolsa aberta e virou sua abertura em direção ao chão, deixando cair ao chão um único objeto.

Um dedo humano.

—Mas que porra é essa?! – exclamou Bjorn, com os olhos arregalados. Também abismada, Ciri entendeu a extensão da confusão. Bjorn havia decepado o dedo do Dragão na luta e o colocado naquela mesma bolsa, a Bruxo havia visto. No entanto, o dedo do Dragão simplesmente desapareceu, dando lugar a um dedo humano, ensanguentado.

A Bruxa estava atordoada. O dedo do dragão não era tão pequenino quanto um dedo humano, de modo que a bolsa de Bjorn estava estufada pelo espaço ocupado por ele. Mas agora, a bolsa estava vazia nas mãos do Magistrado. Como? Bjorn não percebeu a falta de volume quando entregou ao Magistrado? Não havia distração no mundo que fizesse o bruxo desconsiderar a diferença de peso.

A não ser que...

Magia. No instante em que a bolsa chegou às mãos do Magistrado, alguém trocou os dedos por meio de Magia. Essa era a única explicação plausível...

—Prendam esse impostor! – esbravejou o Magistrado. Porém, as ordens não foram executadas prontamente. Os guardas temerianos pareciam temerosos, e com razão. Afinal, Bruxos eram afamados como guerreiros, e pouquíssimos sobreviviam a um embate contra eles. Uma confusão sem precedentes se instalou. Acuado, Bjorn sacou seu machado Havenkar e colocou-se em guarda.

—Se alguém tentar pôr as mãos em mim, eu fatio como presunto!

Os camponeses começaram a correr dali, ao ponto de algumas pessoas tropeçarem e quase serem pisoteadas. O clima festivo imediatamente se tornou apreensivo. Três guardas, de espadas desembainhadas, porém temerosos em enfrentar Bjorn, tentavam cerca-lo.

—Esses três homens podem não ter a coragem de te atacar, mas logo essa confusão chegará aos ouvidos do Barão de Leftengord, o senhor destas terras. Não dou uma hora para que esta estalagem esteja cercada de soldados.

—Ciri, por favor... – pediu o Bruxo. – Conte a ele que eu realmente coloquei o dedo de um Dragão na bolsa!

Recebendo um olhar inquisitivo do Magistrado, Ciri não teve escolha senão assentir.

—É verdade, senhor Magistrado. Eu vi Bjorn atacar o Dragão e decepar seu dedo. Eu o vi também guardando o dedo do Dragão nesta mesma bolsa. Garanto que não era um dedo humano, mas draconiano.

—Está vendo, Magistrado? Estou sendo vítima de uma armação! Alguém trocou o dedo, eu tenho certeza!

O Magistrado parecia relevar, coçando levemente o queixo.

—Mas a pergunta que não quer calar é: o Dragão está realmente morto?

Ciri voltou seus olhos para Bjorn. Ele parecia suplicar que ela confirmasse. Ciri ainda estava confusa. Por que ele mentiu? O que ele ganhava com a mentira? Ela não entendia.

—Eu... Eu não sei. Eu desmaiei. Quando acordei, já estava na garupa de meu cavalo, sendo levada por Bjorn. – mentiu Ciri. O Magistrado parecia desconfiado, mas precisou relevar.

—Faremos assim, então. O Bruxo se dispõe a ser mantido encarcerado...

—Não. – retrucou Bjorn, enfurecido. – Eu sou um Bruxo, um caçador de monstros itinerante e sem endereço fixo, portanto, não sou habitante daqui. Logo, suas leis não podem se aplicar a mim.

—Pensa que por não ter um lar você pode fazer o que bem entende nas terras dos outros? Você está em Teméria, rapaz. Não na sua maldita fortaleza de bruxos. Portanto, você está sim, submetido às nossas leis. Mas não se preocupe. Você será solto, assim que Ciri me levar até o que restou do Dragão. Se o que disse for verdade, que o corpo do Dragão realmente está na campina, então não há o que temer. Não é mesmo?

Bjorn parecia inconformado

—E se ele tiver sido roubado?

O Magistrado riu. – Então, pagará muito caro por sua negligência. Não se deixa abandonado algo tão valioso assim. Mas então, irá acompanhar meus três guardas até a cela, ou quer esperar até que esta estalagem esteja cercada pela Guarda Pessoal do Barão de Leftengord?

Notas finais
Ihhh... Será que armaram para o Bjorn? Ou o dedo de dragão da Saskia simplesmente se transformou em um dedo humano na hora mais errada possível? Tudo é possível. Quando se está sem sorte, as coisas mais bizarras acontecem. Até o próximo cap!