O Café das Bandas Mortas
1 Sedativo
Notas iniciais
Não definitivo.
I
Sedativo, Ela.
Olhos de botão e mãos amarradas em bolsos fundos, mancha de café na calça e coco de pato no pé. Calos nos dedos das mãos e bolhas no coração, completados por aquela lepra na alma que corrói tão devagar quanto uma pia pingando depois do banho. Chapinha mal feita e maquiagem borrada, as calças rasgadas e os tenis mofados, a velha regata preta sem graça roubada do guarda roupa da mãe. Respiração ofegante com a boca desenhada por um batom mal passado, vermelho, como a cor de sua aura. A mochila retalhada com chaveiros fazendo barulho insuportável como a memória de uma infancia tão retalhada quanto a própria mochila. O cabelo fedendo a química, oleoso e sem forma.
O gosto daquele pedaço de pão impregnado na boca, seca, borrada, solitária. Bebada. Não importa. Olhava para o espelho sem roupa e sem vontade de sair daquele cubiculo que os pais chamam de quarto, aquela fortaleza sem graça com paredes azuis preenchidas por quadros de bandas velhas e mortas. O sol, aquela coisa brilhosa no teto sem teto, nem sequer apareceu para dar as caras.
Pequena, alma. Grande, alta. Caminha por aqueles corredores escuros e frios de um lugar rodeado por prédios velhos e feios, salas numeradas e armários enferrujados trancados. Pobre e com fome. Vê.
Ele.
Cabelos longos também fedendo a química, camiseta também de bandas velhas e mortas, e os tenis velhos surrados com as calças caidas, embora usasse um cinto. Magro, coberto por um guarda-chuva inutil dentro do prédio. Quieto. Um violão preto nas costas tomando coca cola olhando para o nada com cara de nada.
Ela.
Encara.
Sedada.
Solitária.
Encara.
Ignorada.
Sonhando.
Observando seu veneno caminhar, indiferente a sua presença. Sua cicuta, seu problema. Almejando por um gole daquele veneno que acabara de descobrir. Aquela droga que não sairia de sua alma tão cedo.
“Troco meu coração por um fígado” era isso que estava estampado em sua testa larga cheia de espinhas espremidas. Ela. Sente-se pequena querendo fugir... Fugir
Fugir
Para longe.
Descobrira seu sedativo para sua vida sem graça e falha. Injete-o direto na veia agora, ou aguarde a próxima estação.
Sedativo, Ele.
Cabelos longos também fedendo a química, camiseta também de bandas velhas e mortas, e os tenis velhos surrados com as calças caidas, embora usasse um cinto. Magro, coberto por um guarda-chuva inutil dentro do prédio. Quieto. Um violão preto nas costas tomando coca cola olhando para o nada com cara de nada.
Encara.
Sem graça, ela, sem atrativos, olhando para ele sem ver nada. Bonitinha? Bonitinha, uma garotinha, existem melhores. Não mudaria nada de sua vida se ela estivesse ali ou não, menininha, mesmo tendo a mesma idade. Mas... Por que, aquela menininha, bonitinha, sem graça, lhe parecia chamar, puxar, magnetizar?
Estaciona suas pernas ao lado dela, colocando sob ela o guarda-chuva, sem a menos utilidade.
“Cobri-la de todos, proteje-la” era o que passava na cabeça pequena cheia de cabelo dele. Ela, fragil, menininha, linda. Seu sedativo para sua vida incompleta e falha. Seu sedativo para sua vida errada, confusa e mal feita.
Sedativo, câmbio e desligo.
Carregando.
Notas finais
Deixem reviws, gosto de saber se está bom! Critiquem, elogiem, sejam sinceros!
Demoro a postar por falta de tempo devido ao trabalho e a faculdade, mas nunca abandono meus textos.
Espero ter agradado.
Até o próximo capítulo!
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