O CEO que Eu Paguei
23 @marcelatorres.rj
O estrago... foi imediato.
Helena encarou a tela como quem entra numa loja cara só de olhar — sabendo que nada ali foi feito pra ela.
A foto de perfil já dava o tom:
Marcela sentada numa cadeira de diretor de cinema, luz profissional ao fundo, blazer branco impecável, calça jeans clara.
Cabelos loiros escuros, com luzes suaves e corte médio, reto com pontas levemente desfiadas, perfeitamente cuidados. Olhos azuis bem claros. Rostinho de mulher rica e bonita, aquelas que você até duvida se não é filtro.
Postura firme, olhar direto. Queixo apoiado na mão.
Tipo de mulher que não precisa falar alto pra todo mundo parar e prestar atenção.
Helena inclinou a cabeça.
Fechou um pouco os olhos.
— Claro. É óbvio, né? É sempre esse tipo.
A bio tinha curadoria.
Nada sobrando.
@marcelatorres.rj
Bio:
✔️ Arquitetura | Arte | Estética
🎨 Aquarela nas horas vagas
💬 Arte, vinho, e quem me conhece sabe.
📍Rio de Janeiro
www.marcelatorresarquitetura.com.br
Helena apertou os olhos.
— Tá bom, diretora de cinema… — murmurou, irritada sem motivo legítimo.
Ela rolou os olhos, mas desceu o feed.
As primeiras fotos eram todas bem compostas: ângulos limpos, cores neutras, paletas harmoniosas. Um toque profissional em tudo. Helena passou foi rolando o feed com aquele aperto incômodo no estômago, negando que estivesse caçando alguma coisa. Mas, na verdade, ela estava.
Até que parou, depois de várias fotos.
Foto na academia: Marcela, de top preto e legging de cintura alta, perfil molhado de suor, segurando uma garrafinha d’água. O fundo era um cartão-postal: o Pão de Açúcar.
Legenda: “A mente precisa de silêncio. O corpo, de movimento.”
Comentários:
💬 @hm.monteiro: “Disciplina sempre foi seu superpoder.”
💬 @bernardo.arq: “E esse visual do Rio junto com esse corpo? Não tem pra ninguém!”
💬 @luizacastro: “A estética tá completa. Arquiteta de si mesma.”
O comentário dele estava lá.
Helena travou o dedo. Leu de novo.
“Disciplina sempre foi seu superpoder.”
Era íntimo demais. Calmo demais. Como quem conhecia e admirava.
E ela respondeu. Claro que respondeu. Um emoji de raio. E um “Você que me ensinou isso.”
Helena apertou os lábios.
Não era “ciúmes”, ela nunca falaria isso. Chamava de desconforto. Desconforto com o quanto ele parecia ter sido parte daquela vida, com o quanto aquela mulher parecia ter um espaço que ela — que mal sabia se queria algo — nunca teria.
Foto de um projeto assinado em São Paulo: Marcela de vestido midi branco, segurando um tablet, à frente de uma fachada com traços minimalistas.
Legenda: “Novo espaço, nova assinatura. Pra quem sabe que luz é tudo.”
Comentários:
💬 @hm.monteiro: “Você tem esse dom de deixar tudo mais bonito.”
💬 @casasmoderno: “A arquiteta do momento. Inspiração pura.”
💬 @thaissouza: “Brilho sóbrio. Sua estética é um tapa na cara do vulgar.”
Helena rolou os olhos.
— Tá, Heitor, a gente entendeu. Ela ilumina os ambientes, as pessoas, provavelmente até as contas do banco e a sua vida. — Disse num tom cínico, enquanto o Totó cheirava um poste próximo.
Ela ficou mais um segundo encarando aquela frase. “Dom de deixar tudo mais bonito.” Como se ele ainda visse beleza nela.
Por que isso doía mesmo sem motivo?
Foto pintando aquarela no fim de semana: Close na mão da Marcela segurando um pincel. Uma figura feminina sendo formada com traços sutis de azul e vermelho.
Legenda: “Enquanto os olhos gritam, as mãos sussurram.”
Comentários:
💬 @hm.monteiro: “Essa pintura aí tem sua cara todinha.”
💬 @galeriadearte.br: “Queremos isso na próxima exposição!”
💬 @isabelamota: “Você é a estética que eu tento alcançar há anos.”
Helena suspirou.
“Sua cara todinha.”
Eles pareciam ser tão íntimos, Heitor nunca falou com ela como se ela não fosse uma transa. Será que ele não a considerava uma mulher séria? Ela voltou a sentir aquele calor ruim subindo pelo peito. Uma mistura de indignação e humilhação.
Mas desceu.
Foto dela com amigas numa vinícola: Marcela rindo, chapéu de palha, taça de vinho tinto na mão, cercada de mulheres igualmente bem vestidas.
Legenda: “Maturidade é saber escolher o vinho — e quem bebe com você.”
Comentários:
💬 @hm.monteiro: “As escolhas sempre foram seu ponto forte.”
💬 @analuciafalconier: “E essa pele, meu Deus?”
Helena apertou mais forte a guia do Totó.
Ele parecia... agradecido. Como se ela tivesse escolhido por ele também. Como se tivesse sido uma das “escolhas fortes”.
Totó latiu, impaciente. Helena ignorou.
Ela quase fechou o app.
Mas aí... veio a última.
Foto de casal: Marcela e Heitor, de costas. Andando de mãos dadas e descalços na beira de um lago. Ela de vestido leve. Ele de camiseta cinza escura e um calção azul escuro.
Legenda: “A vista era linda. Mas foi a companhia que eu quis guardar.”
Comentários:
💬 @hm.monteiro: “Foi um bom dia de muitos.”
💬 @clarafernandes: “O casal mais bonito que eu já vi.”
💬 @vanessacosta: “Essa energia de vocês...”
Postada há mais de um ano.
Helena sentiu um gosto amargo subir pela garganta. A paisagem era bonita, sim. Mas não era a paisagem que doía. Era a calma do momento e as mãos dadas.O modo como ele estava com ela — como se fosse o lugar certo e ela também fosse.
Helena pensou que ele nunca segurou a sua mão e com toda certeza ele nunca havia pensando nisso.
E aquelas fotos eram públicas. Parte do passado deles. Será que era apenas passado?
Todos os comentários dele tinham resposta.
Sempre dela.
Uma risadinha. Um emoji. Um "Você sabe que sim."
Helena apertou o celular com tanta força que os dedos doeram.
Agora ela só via o tamanho da diferença. Entre ela e Marcela. Heitor nunca estaria disposto a bagunçar a estética perfeita da própria vida.
— Vem, Totó — disse baixo, voz firme demais pra quem mal conseguia respirar.
O cachorro latiu em alegria e pulou à frente puxando.
Helena guardou o celular no bolso sem olhar pra trás. Só respirou fundo e continuou andando.
Porque, às vezes, o que machuca mais…
Não é o que foi dito.
É tudo o que foi dito para outra.
E que nunca seria para ela.
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