O CEO que Eu Paguei

24 Duas Trufas e um Problema


O café parecia fraco. A manhã, barulhenta demais.

E Helena… exausta.

Passou a noite rolando na cama, com o celular virado pra baixo na cômoda e a cabeça cheia de coisa que não fazia sentido nenhum.

Por que estava tão irritada? Por que aquilo a tinha atingido daquele jeito?

Ela entrou no escritório vestida do mesmo jeito que sempre — calça escura, blusa branca, blazer neutro — mas o olhar… O olhar vinha com faca.

Passou direto pela copa. Nem olhou pros colegas que já se empanturravam com uma mesa de café da manhã imensa posta ali.

Quando chegou na sala, Hugo estava de pé ao lado da mesa dele, gesticulando animado.

— Vai bombar, tô falando. — disse Hugo, com um brilho no olho, girando na cadeira. — A boate nova abre amanhã e só vai dar gente bonita, bêbada e desesperada pra beijar na boca.

— Não é possível que você seja tão básico assim — retrucou Clara, sem levantar os olhos da tela.

— Básico, não. Realista. — ele riu. — E você que lute com essa pose de quem não vai, mas aparece com o cropped mais polêmico da noite.

— Que ódio que ele tem razão. — murmurou Júlia, se abanando com um papel, animada. — Eu já tô vendo o figurino, gente. Make neon, cabelo preso com gel e minha nova missão de vida: ficar com alguém que não tenha nome de ex.

— Boa sorte. — disse Ana Alice, cruzando as pernas e se espreguiçando. — Só espero que o som esteja bom, porque se for igual à inauguração do gastrobar da outra vez, eu saio de lá no primeiro reggaeton desafinado.

Foi então que Júlia virou-se de supetão pra Helena, que fingia digitar algo muito importante.

— E você, Helena? Não vem?

— Tô trabalhando, Júlia.

— Tô falando de amanhã, criatura!

Helena respirou fundo, sem tirar os olhos da tela.

— Agradeço, mas prefiro gastar minha energia com coisa que valha a pena. Tipo dormir.

— Dormir? — Hugo se intrometeu. — Dormir é pra quem não tem história pra contar depois. Bora viver, mulher!

— Você só quer viver se tiver alguém pra agarrar — ela respondeu, seca.

Júlia, no entanto, não soltava o osso:

— Amiga, pelo amor de Deus... vai ter DJ, bebida barata, e gente nova do estado inteiro. Até os gatinhos de Vitória vão vir. Inclusive… vai ter muito branquelo do jeito que você gosta.

Helena parou. Ergueu os olhos devagar.

— Eu não gosto de branquelo, não.

— Ah tá, tá bom, Helena Ribeiro Campos! — Júlia gargalhou. — Você é a mulata mais palmiteira que eu já conheci. Não pode ver um playboy branquinho que já dá um jeito de inventar assunto.

— Que horror, Júlia! — riu Clara, engasgando de leve com a água.

— A verdade dói, mas liberta — disse Hugo, levantando as mãos como quem apenas observa a vida.

Helena mordeu a bochecha por dentro, fingindo irritação, mas seu rosto já estava mais quente do que gostaria de admitir. O rosto de Heitor apareceu na memória sem ser convidado. Olhos azuis. Sorriso torto. Aquele jeito de falar como se tudo fosse dele.

— Vocês são ridículos. — ela resmungou, mas a voz já estava mais branda.

— Então vai, Helena — provocou Júlia, cutucando o braço dela. — A gente te arruma um look matador. Até o Totó vai te aplaudir na porta.

— Vou pensar — ela murmurou, pegando um papel qualquer da mesa só pra parecer ocupada.

Mas já estava pensando mesmo.

Talvez só pra sair um pouco da própria cabeça.

Ou pra distrair esse coração que ainda latejava no ritmo do nome que ela não queria repetir.

Heitor.

A manhã foi passando e Helena já estava de saco cheio do dia — e do mundo. Ficar na mesma sala que as piadinhas de Hugo e Júlia já era um teste de paciência, mas desde o beijo de ontem e da sessão de stalking no Instagram, tudo parecia mais sensível. Cada riso, cada olhada na direção dela, parecia carregar um peso que antes não existia.

E foi exatamente nesse momento que a porta se abriu e Heitor entrou.

Ele veio com uma polo vermelha da Lacoste, que caia super bem nos ombros largos dele, calça escura, cabelo ele refez as laterias e aquele perfume amadeirado que Helena fingia não reconhecer de longe — mas o corpo sabia. Mas a grande diferença era o sorriso. Um raro, bonito, despreocupado.

— Sextou, meu time! — ele disse, com aquela voz grave, ritmada e o sotaque carregado como só ele sabia fazer. — Recebi uma caixa com chocolates — disse enquanto abria a caixa com a mão grande — e como não sou de comer tudo sozinho… pensei em dividir com quem mais sofre perto da minha sala.

Um “oooooown” coletivo tomou conta do ambiente.

— Chocolate? — Júlia foi a primeira a levantar os olhos, já com um sorrisinho malicioso. — Olha que esse tipo de carinho dá processo, hein, chefe...

Heitor riu baixo.

— Só se for por excesso de generosidade.

Ele foi andando devagar entre as mesas, deixando uma barra da Kopenhagen na mesa de cada um. Quando chegou em Hugo, o rapaz já estava com a mão estendida antes mesmo do chocolate encostar.

— Heitor, você é um homem de visão. E de paladar refinado. — Hugo disse, cheirando a embalagem como se fosse uma joia.

Ana Alice, claro, ajeitou o cabelo e estufou o peito ao ver o chefe se aproximar.

— Até que enfim alguém nessa sala reconheceu quem merece tratamento doce.

Heitor riu, educado, mas sem se demorar. Colocou a barra sobre a mesa dela com um aceno suave de cabeça.

Mas foi quando ele chegou na mesa da Helena que o clima mudou.

Ele parou, observou a mesa vazia e olhou diretamente pra ela.

— Olha só... vai sobrar uma. — Ele disse, com a expressão meio divertida, meio calculada. — Acho que alguém vai ter que ganhar duas.

Ele colocou a primeira barra comum na mesa dela. Depois tirou a segunda: uma caixa enorme de trufas Cherry Brandy, refinada, elegante, que claramente não era parte da distribuição padrão.

Clara, quieta como sempre, ergueu as sobrancelhas.

— Mandaram uma caixa tão diferente da outra, será que foi por engano? — murmurou.

— Já que você foi a última… sobra nobre é prêmio — disse, colocando a caixa por cima da barra. — Essa é pra quando não quiser dividir.

Ele se inclinou levemente, sussurrando:

— Ou pra quando der vontade de lembrar que tem coisa boa que só a gente sabe saborear direito.

Helena tentou manter a compostura. Puxou os chocolates da mesa com a ponta dos dedos e respondeu com o humor seco de sempre:

— Obrigada. Vou considerar um bônus por aturar essa sala.

Heitor riu, gostando mais ainda do mal humor dela.

— Pode considerar um agrado pessoal.

Heitor se virou para sair, mas ele parou na porta.

— Não se esqueçam de provarem os lanches que estão na copa. Estão todos fazendo um excelente trabalho, é apenas um presente.

E saiu, com o mesmo sorriso sereno com que chegou.

Silêncio.

Três segundos.

E então:

— DUAS?? — Júlia foi a primeira a explodir. — Helena, me explica agora que fetiche é esse que você despertou no homem?

— Gente... isso foi pessoal. — disse Hugo, de boca aberta. — Aquela caixinha ali eu já vi na vitrine. Custa uma fortuna. Eu nem tive coragem de entrar na loja.

— Eu falei. — Ana Alice passou batom de novo. — Ele deve gostar de mulher difícil. Ou foi só marketing reverso, né, Helena? Mostra desprezo e ganha mimo caro.

— Foi gentileza. Só isso.

— Ah, claro — ironizou Júlia. — Igual quando um boy te dá uma trufa dessas sem esperar nem um sorrisinho. Super normal.

Ana Alice tentou amenizar:

— Gente… talvez ele só quis agradecer mesmo. A vistoria ontem… foi só os dois, né?

— EXATO. — Hugo apontou. — Só os dois. Obra fechada. Um sol danado. Um homem bonito, uma mulher… e agora trufa cara. Isso tem cheiro de coisa feita.

— Palhaçada — murmurou Helena, cruzando os braços.

Mas seu coração estava aos pulos.

E as mãos… tremiam de leve.

— Preciso de café.

— Precisa é de um freio — disse Júlia, rindo. — E contar como conseguiu, é o mais importante.

Helena revirou os olhos, mas sua mão permaneceu firme sobre a caixa, como se ela estivesse protegendo um segredo — ou tentando se proteger de si mesma.

Mas o cheiro do chocolate estava ali.

E o perfume dele também.

E o sorriso.

E os olhos.

Ela queria resistir. Precisava resistir.

Mas o pior de tudo era: ela estava doida pra abrir a caixa.