O som das teclas ecoava mais forte que o normal naquela tarde. Talvez porque a sala estivesse tensa. Ou, talvez, porque todo mundo estivesse de olho em Helena.

Após a distribuição dos chocolates, ela tentava ser mais ranzinza do que nunca. Estava ainda irritada e não seria dois agradinhos que mudariam a sua cabeça.

Mas não adiantava a sua expressão. O assunto era um só.

— Então… — Hugo puxou, girando na cadeira com o café na mão. — Como foi a vistoria com o chefão?

Helena nem levantou os olhos do computador.

— Profissional. Como tinha que ser.

— Aham. — Júlia cruzou os braços, debruçada na mesa, com um sorriso que dizia tudo. — Então quer dizer que você saiu sozinha com Heitor Monteiro e voltou assim… tranquila, centrada, sem nenhuma novidade?

— Ué, queria que eu voltasse com o quê? Um souvenir?

Clara riu baixo, mas ficou na dela. Já Ana Alice, que não perdia a chance de entrar num palco, girou o cabelo com os dedos.

— Eu só queria saber o que foi que você fez pra ganhar uma barra de chocolate hoje e uma caixa caríssima, sendo importada com recheio alcoólico.

Helena respirou fundo, levantando os olhos devagar.

— Eu não pedi nada. Ele que deixou.

— Aham. Ele que deixou. — Hugo repetiu, em tom debochado. — Igual o boy que "sem querer" deixa cueca na sua casa pra ter que voltar depois.

— Eu, hein. — ela retrucou. — Vocês tão parecendo uns fofoqueiros de condomínio. Se querem trabalhar com novela, vai mandar currículo pra Globo.

Mas ninguém arredava o pé.

— Helena... — insistiu Júlia, com um sorrisinho afiado. — Foi você que passou a tarde com o homem mais desejado dos últimos relatórios da firma. A gente só quer saber se ele é mais gostoso de perto. E o porquê ele te deu uma caixa tão cara.

Helena trincou os dentes. E aí, inevitavelmente, a imagem veio à mente: o corpo dele inclinado sobre o dela, o calor na nuca, a mão grande em sua cintura, a voz dele colada em seu ouvido…

Aquele beijo maldito ainda estava no centro do peito.

Ela engoliu seco, desviando o olhar.

— Foi o que precisava ser. A gente analisou o terreno, conversou sobre o projeto, fiz anotações. Pronto.

— Só isso? — Ana Alice cutucou, erguendo a sobrancelha. — Nenhuma quedinha no barranco? Nenhuma inspeção mais... técnica?

Helena fechou o caderno com força.

— Vocês vão trabalhar ou querem que eu faça um relatório da minha vida amorosa? Não aconteceu nada!

Todos riram, mas deram uma trégua.

Só que ela sabia. Eles estavam certos em suspeitar. A diferença é que não tinham nem ideia da metade do que rolou. E se dependesse dela, nunca teriam.

Helena tentou se concentrar. Tentou mesmo.

Mas era difícil quando a única coisa que ela conseguia ouvir na própria cabeça era o som da respiração dele encostada no pescoço dela. E agora, além da memória do beijo, tinha uma maldita trufa chique da Kopenhagen com licor de cereja na mesa.

Ela mordeu a tampa da caneta, irritada. E então…

🔔 Notificação do Teams.

Remetente: Heitor Monteiro


Heitor Monteiro:

Não paro de pensar no seu gemido ontem.


Helena travou. Olhou em volta. Como se alguém ali pudesse ler o que tinha acabado de aparecer na tela. Olhou para sala da frente e o viu, com os olhos azuis carregados de desejo.

Respondeu seca.


Helena Ribeiro Campos:

Você devia parar e focar nos relatórios.

Isso sim é urgente.


Dois minutos depois, outra mensagem:


Heitor Monteiro:

Tem razão.

Mas te ver encostando naquela parede foi o suficiente pra estragar qualquer planilha do dia.


Ela fechou os olhos, respirou fundo. Digitou sem olhar:


Helena Ribeiro Campos:

Tá querendo perder o cargo de diretor por assédio?


Heitor Monteiro:

Tô querendo perder o juízo.

Já tô no lucro desde o momento em que você me beijou de volta.


Helena ficou paralisada. A barra de rolagem do relatório congelada. O coração batendo rápido.


Heitor Monteiro:

Sai comigo hoje.

Sem drama, sem complicação.

Eu busco você. A gente janta, conversa.

Ou não conversa.

Só quero você de novo.


Ela apertou os lábios com força. Ficou olhando pra tela. O pior de tudo era o maldito tom que ele usava. A certeza dele. Como se ela já fosse dele. Como se ela sempre fosse.


Helena Ribeiro Campos:

Eu tenho uma vida, Heitor.

Não posso viver à base de impulso e arrependimento.


Heitor Monteiro:

Então me dá um arrependimento novo.

Ontem foi pouco.


Ela largou o teclado com força e se recostou na cadeira. Maldito. Ele não precisava levantar a voz pra gritar dentro dela. E o pior… é que ela queria.


Heitor Monteiro:

A caixa é só pra você, sabe disso, né?


Helena Ribeiro Campos:

A sala inteira ganhou chocolate.


Heitor Monteiro:

Mas ninguém mais ganhou aquela caixa.


Helena Ribeiro Campos:

Se for pra me comprar, vai ter que subir o orçamento.


Heitor Monteiro:

Quem disse que tô tentando te comprar?

Tô tentando te saborear de novo.


Helena Ribeiro Campos:

Cuidado com o que escreve. Vai acabar engasgando.


Heitor Monteiro:

Engasgar com você não seria um problema.

Seria privilégio.


Ela travou. Mordeu o lábio com força. Olhou ao redor. Ninguém parecia notar. Só ela estava ali, queimando. Mas, quando olhou para frente, ele estava com um sorriso safado no rosto.


Helena Ribeiro Campos:

Você é um idiota.


Heitor Monteiro:

Talvez.

Mas sou um idiota que sabe exatamente como você tremeu quando minha mão subiu pelas suas costas.


Ela encostou a testa na mesa por dois segundos. Depois levantou. Escreveu com raiva contida:


Helena Ribeiro Campos:

Me esquece por hoje.


Heitor Monteiro:

Por hoje…

Mas amanhã?


Ela digitou rápido:


Helena Ribeiro Campos:

Amanhã é sábado.


Heitor Monteiro:

Ótimo. Dia livre pra eu te fazer esquecer todos os outros.


Helena Ribeiro Campos:

Você tem resposta pra tudo?


Heitor Monteiro:

Quando se trata de você? Tenho.


Helena parou. Respirou fundo. Aquele homem era perigoso com a fala. Perigoso com o silêncio. Perigoso até por mensagem.


Helena Ribeiro Campos:

Vai trabalhar, Heitor.


Heitor Monteiro:

Tô tentando, Helena.

Mas tô com gosto de você na boca até agora.


Helena fechou o notebook de vez. Desligando as outras telas.

Se ficasse mais um minuto naquela conversa, ia mandar o endereço da casa dela com um "traz o vinho".