O CEO que Eu Paguei

26 A Parte Que Dói é Querer


Pleno silêncio. A sala inteira da Plano & Forma já estava vazia. O relógio marcava 21h17. Só o som dos dedos de Helena passando as páginas do memorial descritivo quebrava o a calmaria.

Ela estava exausta. A vista ardia. Mas era isso ou refazer tudo amanhã. E amanhã, francamente, ela não tinha paciência nem pra respirar.

— Vai dormir aqui hoje?

A voz baixa, arrastada e quente, veio da porta.

Helena levantou os olhos. Ele estava lá. Com aquela camisa polo vermelha destacando o peitoral. Sorriso leve no canto da boca. E o maldito olhar de quem já sabia o que queria.

— Tá esperando alguém? — ela rebateu, firme, voltando os olhos pro papel.

— Na verdade, sim. — disse encostado no portal da porta— Uma mulher teimosa, que me enlouqueceu ontem e sumiu hoje como se a gente não tivesse quase feito o prédio inteiro tremer.

Helena soltou uma risada seca.

— Você é ridículo.

Heitor entrou devagar, parando ao lado da mesa. A mão encostou na cadeira, os olhos azuis nela.

— Passei o dia inteiro tentando me concentrar. E falhei. Porque tudo que eu conseguia lembrar era do seu corpo colado no meu.

— Parabéns. Agora tenta lembrar que aqui é ambiente de trabalho — ela respondeu, sem sequer encará-lo.

Ele suspirou com um meio sorriso e inclinou o rosto.

— E você passou o dia inteiro fingindo que não aconteceu. Tá doendo o ego, Helena?

Ela fechou a pasta com mais força do que precisava.

— Doendo a cabeça. E a paciência.

— Você tava sorrindo ontem. Tava entregue. Agora tá se fazendo de general em campanha. Me diz: eu fiz alguma merda?

— Não. Você fez o de sempre. Entrou, bagunçou tudo e saiu como se fosse normal — diz com os olhos carregados de rancor — A culpa é minha de acreditar que você não era só mais um macho escroto do trabalho.

Heitor parou. O sorriso sumiu. O olhar ficou mais estreito.

— Que porra é essa agora?

— Nada. Boa noite.

Ela levantou, pegou a bolsa e saiu da sala. O salto firme nos corredores ecoando irritação.

Heitor acompanhou.

— Você tá realmente puta comigo e eu não tô entendendo por quê.

— Você nunca entende — ela disse, parando no hall. Pegou o celular. — E nem precisa. Eu vou chamar um Uber.

— Não vai chamar nada — ele rebateu, firme. — Eu te levo.

— Não preciso de carona sua, Heitor.

— Não tô perguntando.

— Você tá querendo fazer showzinho aqui na frente?

— Eu tô tentando te levar pra casa, porra. Não sabia que isso agora era considerado assédio.

Helena bufou. Cruzou os braços, olhando pro teto.

— Me leva. Mas cala a boca no caminho.

— Ah, que maravilha de companhia.

Heitor apontou para o carro, e Helena foi na frente, os passos pesados marcando o asfalto. Mas, ele chegou antes, abriu a porta do carona com calma. Ela revirou os olhos, soltou um resmungo baixo e entrou na Audi A7 preta. Heitor deu a volta sem pressa e sentou-se ao volante, com um sorriso contido no canto da boca — o tipo de sorriso que irritava mais do que qualquer provocação.

— Endereço?

Ela passou. Ele digitou no GPS. Colocou o carro em movimento.

— Gostou dos chocolates? O sabor era bom?

— Comi um só… Tava gostoso.

Heitor sorriu, mesmo sem tirar os olhos da rua.

Silêncio. O som ambiente era a música sertaneja baixa saindo do carro. Algo romântico demais pro humor dela.

Heitor a olhou de relance.

— Você tá brava comigo ou com você mesma?

— Tô cansada. Só isso.

— Então olha pra mim e diz que não queria me ver hoje.

Ela não respondeu. O olhar fixo na rua. Ele soltou um suspiro, mais sério.

— Você acha que eu sou o quê, Helena? Um idiota que quer um alívio de stress de escritório?

— Você quer me comer. Eu também queria que me comesse ontem. Pronto. Tá resolvido.

— Não, não tá. Porque desde cedo, você tá fingindo que foi um erro. Mas você gemeu o meu nome como se tivesse esperado por isso a vida inteira.

— Cala a boca, Heitor. Por favor.

— Por quê? Porque eu tenho razão?

Ela virou o rosto, o maxilar travado. Ele continuou, sem agressividade, mas com firmeza.

— Me diz uma coisa… porque tá tão puta comigo?

Ela travou. Só então o olhar encontrou o dele. Rápido, afiado.

— Quem disse que tô puta?

— O seu silêncio. A sua cara desde cedo. E o fato de você agir como se eu fosse o pior homem do mundo.

— Eu não sou sua. E você também não é meu.

— Não mesmo. Mas eu queria ser.

Helena mordeu os lábios. O peito subindo e descendo devagar. O carro seguia em silêncio agora, tenso, quase fervendo.

— A gente vai se arrepender disso, Heitor.

— Só se você continuar fugindo. Porque eu… Eu tô exatamente onde quero estar.

Helena ficou quieta. Mas os olhos… os olhos não conseguiam mais esconder. Ela tinha que ser firme para não ceder a ele.

O silêncio no carro já tinha voltado a ser cortante.

Helena olhava pela janela como se a rua tivesse algo melhor a oferecer. Heitor dirigia com o maxilar travado, os dedos tamborilando no volante. Até o GPS parecia saber que qualquer som agora podia ser um gatilho.

Quando ele estacionou em frente à casa dela, Helena abriu a porta antes mesmo do carro parar por completo.

— Helena — ele chamou, a voz baixa, mas firme. — Sério... você vai continuar assim?

Ela parou com a mão na maçaneta, sem se virar.

— Assim como?

— Como se eu tivesse feito alguma coisa que você nunca vai perdoar. Sem nem me dar a chance de saber o que foi.

— Eu só tô te tratando como a gente é — ela respondeu, seca. — Como colegas de trabalho.

Heitor franziu o cenho.

— Colegas? Depois de ontem?

Helena girou o rosto na direção dele, os olhos castanhos brilhando com raiva.

— Ontem foi um erro.

— Um erro?

— É. Um momento. Só isso.

Heitor riu, nervoso, incrédulo.

— Você gemeu o meu nome na minha boca, Helena.

— Fica quieto!

Ela saiu do carro, batendo a porta com força. Heitor desligou o motor num impulso e foi atrás.

— Fala o que tá pegando, porra! — ele disse, caminhando atrás dela. — Me trata como um estorvo, e agora diz que foi um erro? Não me fode, Helena!

Ela parou de repente e girou nos calcanhares.

— Você quer o quê, Heitor? Que eu seja a piranha do escritório? A funcionária que todos comentam pelas costas?

— Ninguém falou nada disso!

— Mas é assim que acontece! Eu fico com você, aí você cansa, vira a cara, e eu fico com a reputação no chão!

— Você tá tirando isso da cabeça! Eu só quis…

— Você quis sexo! Só isso! — ela gritou. — E talvez eu até tenha querido também. Mas eu tenho a porra de uma vida, Heitor! Uma avó pra cuidar, conta pra pagar, um nome pra manter limpo! Eu não posso me dar ao luxo de virar assunto!

Heitor ficou em silêncio, engolindo em seco.

— Então eu sou o quê pra você? Um erro bonito?

— Um problema. Lindo, cheiroso, e perigoso. Exatamente isso.

— Eu não te fiz mal nenhum.

— Ainda. Mas vai fazer. Porque é isso que acontece com homens como você.

O que ele respondeu, veio entre os dentes:

— Que merda você tem na cabeça?

— A merda da realidade.

A respiração dela estava descompassada. Os olhos, marejados — mas firmes.

Heitor balançou a cabeça.

— Então pronto.

— Que ótimo.

— Você quer acreditar que eu sou só o clichê do chefe que usa e joga fora? Fica à vontade. Mas não finge que não quer. Porque ontem você queria mais que beijo.

— Vai embora, Heitor.

— Você prefere correr de tudo do que admitir que sente alguma coisa por mim.

— Eu não sinto nada por você!

Aquilo parecia ter o acertado. Como um soco seco.

Heitor respirou fundo. Demorou alguns segundos antes de falar de novo.

— Beleza.

Ele se virou e voltou pro carro. Entrou. Ligou o motor.

Helena ficou ali, parada.

Os braços tremendo. A garganta apertada. O peito dolorido.

Totó latiu atrás do portão como se sentisse tudo.

Ela enxugou o rosto rápido. Ergueu o queixo. Mordeu o próprio orgulho até sangrar por dentro.

Ela pegou o celular e abriu no grupo de WhatsApp da sala. Eles estavam falando da inauguração da boate nova, ela só escreveu:

“Eu vou com vocês. Preciso beber e esquecer que homem existe.”