O CEO que Eu Paguei
281 Você Aprende a Lidar
Na manhã seguinte, Heitor acordou antes dela.
Helena percebeu quando sentiu o colchão se mover e abriu os olhos ainda sonolenta. O quarto estava escuro o suficiente para que ela precisasse piscar algumas vezes até enxergá-lo terminando de abotoar a camisa perto do closet.
— Que horas são?
Heitor olhou para ela.
— Cedo. Dorme.
— Você já vai?
— Preciso chegar mais cedo hoje.
Helena soltou um resmungo e afundou o rosto no travesseiro por alguns segundos antes de lembrar.
— Seu lanche.
Heitor parou.
— Meu quê?
— Deixei na geladeira ontem. Tem um pra manhã e outro pra tarde.
O sorriso apareceu imediatamente.
— Helê...
— O quê?
— Você não precisava fazer isso.
— Precisava, sim. Você não sai nem do escritório daqui quando entra lá depois do jantar. Imagina no trabalho. Deve passar o dia inteiro sem comer.
— Eu como.
Helena ergueu a cabeça.
— O quê?
Ele hesitou.
— Coisas.
— “Coisas” não são comida.
Heitor riu e voltou até a cama. Abaixou-se para beijá-la, e Helena segurou seu rosto por alguns segundos antes de deixá-lo se afastar.
— Eu sei que está tudo corrido — disse.
— Eu tô bem.
— Eu sei. Mesmo assim.
Heitor a olhou por um instante e o sorriso mudou, ficando mais carinhoso.
— Você me deixa mal-acostumado.
— Esse problema é seu.
— Completamente.
Ele a beijou outra vez.
— Vou chegar no horário hoje.
— Não precisa correr por minha causa.
— Não estou correndo. — Heitor passou o polegar por sua bochecha. — Bom dia com a Patrícia. Qualquer coisa, me liga.
— Qualquer coisa você também me liga.
— Tá bom.
— Estou falando sério.
— Eu também.
Helena só o deixou ir depois de lembrá-lo mais uma vez dos dois lanches.
Quando ouviu a porta do quarto fechar, permaneceu alguns segundos olhando para o teto. Estava preocupada com ele. Não de uma maneira que pudesse resolver, talvez fosse isso que incomodasse. Heitor não reclamava, não dramatizava e continuava chegando em casa disposto a brincar com Humberto, perguntar sobre seu dia e beijá-la como se não tivesse passado horas resolvendo problemas. Mas Helena conhecia o homem com quem vivia. Sabia quando o trabalho estava ocupando espaço demais na sua cabeça.
Por enquanto, tudo que podia fazer era alimentá-lo e atormentá-lo para dormir.
Levantou.
Tinha outro assunto para ocupar a cabeça.
O dia anterior com Denise tinha sido bom.
Muito bom.
Talvez bom até demais.
Helena ainda pensava em algumas conversas que tiveram, na facilidade com que Denise parecera entrar na casa sem invadi-la e, principalmente, no jeito como Humberto se dera bem com ela. Contara tudo para Heitor à noite. Ele ouvira, fizera perguntas e parecera tão satisfeito quanto ela.
Aquilo colocava Patrícia numa posição ingrata.
Helena sabia disso e tentou não permitir que interferisse.
Quando Patrícia chegou, pouco antes do horário combinado, Helena já estava com Humberto acordado. Ela foi recebida da mesma forma que Denise havia sido, e Helena a encontrou na sala com uma xícara de café sobre a mesa e a postura tranquila que lembrava da entrevista.
Patrícia levantou-se para cumprimentá-la.
— Bom dia.
— Bom dia. Tudo bem?
— Tudo.
Helena ofereceu novamente café, água e alguma coisa para comer. Patrícia aceitou água e recusou o restante com educação, e Helena precisou conter a vontade de oferecer mais duas vezes.
Definitivamente não era Denise.
A constatação veio cedo e sem qualquer julgamento.
Patrícia era mais reservada. Não havia aquela sensação imediata de que uma conversa poderia escapar para qualquer assunto. Ela ouvia Helena com atenção, fazia perguntas quando precisava e parecia perfeitamente confortável com momentos de silêncio.
Curiosamente, Humberto também percebeu.
Quando Helena o colocou no colo de Patrícia algum tempo depois, ele ficou sério. Muito sério.
Helena quase riu.
Patrícia o acomodou e esperou.
Humberto encarou seu rosto.
Ela encarou de volta.
Nenhum dos dois fez nada.
— Vocês vão ficar assim? — Helena perguntou.
Patrícia sorriu de leve.
Humberto fez um som.
— Oi — ela respondeu.
Ele continuou olhando.
Outro som.
— Eu ouvi.
Helena mordeu a parte interna da bochecha para não rir.
Humberto pareceu considerar aquela resposta insuficiente. Abriu um sorriso.
Patrícia sorriu um pouco.
O sorriso dele aumentou.
Ela tentou resistir por mais alguns segundos antes de rir.
Humberto imediatamente começou a mexer braços e pernas, satisfeito consigo mesmo.
— Ah, não — Helena disse. — Você descobriu.
Patrícia olhou para ela.
— O quê?
— Que ele faz isso até conseguir a reação que quer.
— Entendi.
Ela tornou a olhar para Humberto.
— Manipulador.
O bebê sorriu.
— Não adianta fazer essa cara.
Helena riu.
A relação entre os dois começou daquele jeito.
Humberto parecia determinado a arrancar alguma coisa de Patrícia, e Patrícia parecia igualmente determinada a não virar uma animadora infantil só porque ele queria. Quando ele vocalizava, ela respondia. Quando sorria, recebia um sorriso. Mas não antecipava estímulos o tempo inteiro, e isso fazia Humberto trabalhar muito mais pela atenção dela.
Em determinado momento, ele descobriu o relógio em seu pulso.
Esticou a mão.
Patrícia afastou.
— Não.
Humberto olhou para ela e tentou novamente.
— Continua não.
Ele sorriu.
Helena começou a rir.
— Ele não sabe o que você está falando.
Patrícia olhou para Humberto.
Ele ainda sorria.
Tentou pegar o relógio outra vez.
— Sabe.
— Patrícia, ele tem cinco meses.
— Não sabe o significado da palavra. Mas sabe que eu não quero que ele faça.
— Não sabe.
Patrícia ergueu os olhos para ela.
— Ele sorri antes.
Helena olhou para o filho.
Humberto sorriu e a mão começou a caminhar lentamente na direção do relógio.
— Meu Deus!
Patrícia afastou o pulso.
— Viu?
— Isso é coincidência.
— Claro.
Helena pegou o celular e mandou uma mensagem para Heitor.
Helena:Seu filho aparentemente já sabe quando está fazendo coisa errada.
A resposta demorou alguns minutos.
Heitor:Meu filho?
Helena sorriu.
Helena:Quando é bonito é nosso. Quando apronta é seu.
Heitor:Injusto isso, hein?!
O restante da manhã mostrou a diferença entre Patrícia e Denise de maneiras pequenas. Denise parecia entrar na brincadeira de Humberto com facilidade, Patrícia deixava que ele a puxasse para dentro. Era Humberto quem começava boa parte das interações, e talvez justamente por isso ele parecesse tão interessado nela.
Helena não sentiu ciúme.
Nem uma vez.
Gostava de vê-lo tentando conquistar Patrícia. Era engraçado.
Mas ainda não sabia o que sentia em relação à mulher.
Até Humberto começar a ficar irritado.
Veio depois de algum tempo de tummy time. Helena já tinha mostrado a Patrícia como costumava organizar aquele momento, os brinquedos que usava e o quanto ele aguentava antes de cansar. Humberto estava acostumado àquilo desde muito pequeno e geralmente gostava, mas naquele dia começou a reclamar mais cedo.
Helena percebeu primeiro.
— Acho que cansou.
Patrícia também já estava olhando para ele.
Humberto esfregou o rosto, reclamou novamente e, quando foi pego, arqueou o corpo com aquela irritação desorganizada que aparecia quando estava cansado demais para saber o que queria.
Helena esperou.
Patrícia não entrou em pânico.
Não começou a balançá-lo de três maneiras diferentes. Não procurou um brinquedo. Não aumentou a voz tentando distraí-lo.
Apenas o ajeitou uma vez.
Uma das mãos sustentou suas costas com firmeza, a outra o manteve confortável contra o corpo.
— Eu sei.
Humberto choramingou.
— Pode reclamar.
Ele reclamou.
Patrícia permaneceu exatamente igual.
Helena observava.
Humberto ainda estava irritado. Ainda esfregava o rosto. Ainda fazia pequenos sons de protesto. Mas seu corpo começou a ceder.
Não estava feliz. Mas, se sentiu acolhido.
Helena percebeu a diferença imediatamente.
Aquilo mexeu com ela de um jeito que os sorrisos do dia anterior não tinham mexido.
Porque era fácil imaginar alguém com Humberto quando ele estava feliz. Seu filho sorria para gente, brincava, conversava e aceitava colo.
Mas haveria dias em que ele estaria doente.
Dias em que teria dor. Dias em que cairia. Dias em que Helena não estaria ali.
A lembrança da referência de Patrícia apareceu sem que ela procurasse: “se alguma coisa acontecesse, ela faria primeiro o que precisava ser feito e depois me ligaria.”
Humberto abriu os olhos e encontrou Helena.
Imediatamente levantou os braços.
Patrícia olhou para ele.
— Você quer sua mãe.
E se levantou.
Não tentou mais uma vez. Não esperou para ver se conseguia.
Simplesmente levou Humberto até Helena.
Ela o recebeu e sentiu o filho se acomodar contra seu peito, ainda reclamando baixinho.
— Vem cá, meu amor.
Patrícia voltou a se sentar.
— Está com sono.
— Muito sono mesmo.
— Acho que hoje ele cansou mais rápido.
— Também acho.
Não havia competição naquela constatação. Nenhuma necessidade de provar que teria conseguido acalmá-lo se Helena não estivesse ali.
Helena gostou.
Mais tarde, depois que Humberto dormiu e acordou novamente, ela decidiu tentar o que não conseguira fazer com Denise.
Sair do cômodo.
Patrícia estava sentada no tapete com ele, que naquele momento havia descoberto que os dedos dela eram objetos interessantes. Tentava puxá-los, bater neles e, ocasionalmente, levá-los em direção à própria boca.
— Não vai comer minha mão — Patrícia disse.
Humberto tentou.
— Eu acabei de falar.
Helena riu.
Precisava subir. Não precisava de verdade. Mas tinha decidido que precisava.
— Vou pegar uma coisa no quarto.
Patrícia apenas assentiu.
— Tá.
Helena levantou.
Dessa vez conseguiu chegar até a porta.
Olhou para trás.
Humberto estava concentrado demais tentando capturar o dedo indicador de Patrícia para perceber.
Helena saiu.
No corredor, parou. Seu quarto ficava no andar de cima.
Se sentiu ridícula.
Patrícia estava a poucos metros dela. Havia funcionários na casa. Segurança. Câmeras nas áreas permitidas. Helena poderia voltar em segundos.
Subiu, entrou no quarto e então ficou parada no meio dele.
O que tinha ido buscar?
Nada.
Abriu uma gaveta por puro compromisso com a mentira que contara para si mesma.
Olhou algumas coisas.
Fechou.
Seu corpo inteiro queria descer.
Helena pegou o celular.
Nenhuma mensagem.
Olhou o horário. Dois minutos. Pareciam vinte.
Sentou-se na beirada da cama.
“Fica.”
Não porque Patrícia precisasse provar nada.
Porque ela precisava descobrir se conseguia.
Esperou mais um pouco.
Quando finalmente voltou para o corredor, já tinham se passado quase cinco minutos.
Helena desceu tentando não andar rápido demais.
Parou na porta da sala.
Patrícia continuava no tapete.
Humberto estava no colo dela agora, batendo uma das mãos em seu peito enquanto Patrícia segurava um brinquedo com a outra.
Ele viu Helena.
Sorriu e continuou onde estava.
Helena sentiu alguma coisa estranha no peito.
Não ciúme.
Dessa vez, não.
Talvez alívio.
— Achei — disse, embora estivesse de mãos vazias.
Patrícia olhou para ela. Depois olhou para as mãos vazias.
Helena percebeu.
Patrícia percebeu que Helena percebeu.
Nenhuma das duas comentou.
— Ele tentou comer meu cabelo enquanto você estava fora — Patrícia informou.
Helena soltou uma risada, agradecida pela saída.
— Conseguiu?
— Não.
Humberto sorriu.
Patrícia olhou para ele.
— E sabe que não conseguiu.
Helena voltou a se sentar no chão com os dois.
Algum tempo depois, pegou o celular.
Helena:Saí da sala.
Heitor respondeu quase imediatamente dessa vez.
Heitor:Quanto tempo?
Helena conferiu.
Helena:Uns 5 minutos.
Os três pontinhos apareceram.
Heitor:Olha só você.
Helena sorriu.
Helena:Não começa.
Heitor:Não falei nada.😏
Helena:Eu conheço você.
A resposta demorou alguns segundos.
Heitor:Também conheço você. Tô orgulhoso. ❤️❤️
Helena ficou olhando para a tela por tempo demais. Depois bloqueou o celular e voltou a atenção para Humberto.
Patrícia não tinha conquistado a casa da mesma maneira que Denise.
Talvez nunca conquistasse.
Com Denise, Helena tinha terminado o primeiro dia sentindo que passara horas com alguém que poderia conhecer havia anos. Com Patrícia, não havia aquela familiaridade. Não sentia vontade de contar histórias da própria vida durante um café, nem imaginava as duas conversando sobre qualquer assunto enquanto Humberto brincava.
Mas tinha subido as escadas.
Tinha permanecido cinco minutos longe do filho.
E, durante aqueles cinco minutos, Humberto estivera com uma mulher que Helena sabia que não se desesperaria se ele chorasse, não inventaria vinte soluções porque a primeira falhou e não hesitaria em chamá-la se realmente precisasse.
Patrícia talvez não fizesse Helena baixar a guarda porque parecia familiar.
Talvez fizesse porque parecia segura.
E aquilo deixava a disputa muito mais difícil do que Helena gostaria.
Pouco antes do almoço, Humberto chorou.
Não reclamou como fazia quando estava com sono, não fez aquele choramingo irritado que Helena já reconhecia de longe e nem começou com os resmungos que geralmente lhe davam alguns minutos de aviso. O choro veio forte, repentino, acompanhado pelo rosto vermelho e pelo corpinho se contraindo nos braços de Patrícia.
Helena sentiu o coração apertar na mesma hora.
— O que foi, meu amor?
Patrícia já o estava ajeitando. Não parecia assustada, mas também não tratou o choro como se não fosse nada. Mudou Humberto de posição, observou seu rosto, tocou sua barriga e conferiu rapidamente a fralda.
— Acho que ele está cansado.
Humberto respondeu com um choro ainda mais alto.
Helena se levantou.
Patrícia o trouxe um pouco mais contra o peito, apoiando-o com firmeza enquanto fazia um movimento lento com o corpo.
— Eu sei. — ela dizia para ele enquanto ele chorava. — Pode reclamar.
Helena sabia que Humberto estava seguro. Sabia que Patrícia não estava fazendo nada errado. Tinha visto naquela manhã como ele conseguia se acalmar fisicamente com ela mesmo quando estava irritado, e uma parte racional de sua cabeça dizia que aquele talvez fosse justamente o momento em que deveria esperar um pouco.
O problema era que o choro do filho atravessava qualquer parte racional.
Quando percebeu, seus próprios olhos estavam cheios, tentou respirar.
Não adiantou.
— Desculpa.
Patrícia olhou para ela. Helena já estava estendendo os braços.
— Me dá ele.
— Claro.
Não houve hesitação.
Patrícia colocou Humberto em seus braços imediatamente, e Helena o trouxe contra o peito, beijando sua cabeça enquanto ele continuava chorando.
— Vem cá, meu amor. Mamãe tá aqui. Mamãe tá aqui.
As lágrimas que Helena vinha tentando segurar acabaram escapando também.
Aquilo a fez se sentir ainda pior.
— Desculpa — repetiu, agora sem saber direito se falava com Patrícia ou com ela mesma.
— Helena, está tudo bem.
— Eu sei que ele estava bem com você. Eu sei.
Patrícia permaneceu perto, mas não tentou tocar em Humberto nem recuperá-lo.
— Então pronto.
Helena balançou o filho devagar. Humberto ainda demorou alguns minutos para se acalmar completamente, soltando aqueles soluços pequenos que continuavam mesmo depois que o choro forte acabava. Quando finalmente relaxou contra ela, Helena beijou seu cabelo e fechou os olhos por um instante.
— Eu me sinto ridícula.
— Por quê?
Helena soltou uma risada sem humor e enxugou o rosto.
— Porque ele chorou por cinco minutos e eu comecei a chorar também.
Patrícia não riu.
— Você é mãe de primeira viagem.
— Isso é desculpa?
— Não, mas explica muito.
Helena olhou para ela.
Patrícia se sentou novamente.
— Você ainda está aprendendo quais choros significam alguma coisa e quais só parecem o fim do mundo.
— Pra mim todos parecem o fim do mundo.
— Eu imagino.
Havia algo quase engraçado na tranquilidade com que ela disse aquilo.
— Depois melhora? — Helena perguntou.
Patrícia pensou.
— Não sei se “melhora” é a palavra. Você aprende a lidar.
Helena sorriu um pouco.
— Muito animador.
Patrícia também esboçou um sorriso.
— Quer que eu minta?
— Não.
— Então não fica mais fácil porque ele vai continuar arrumando coisa nova pra te preocupar. Hoje é choro. Depois é febre, queda, escola, sair sozinho...
— Patrícia, pelo amor de Deus.
Ela riu.
— Você perguntou.
Helena acabou rindo também, ainda com os olhos úmidos.
Patrícia apontou discretamente para Humberto.
— O que muda é você. Daqui a algum tempo ele vai chorar assim e você não vai pensar imediatamente que alguma coisa terrível aconteceu. Vai olhar, tentar entender, resolver o que conseguir. E, quando não conseguir, vai ficar com ele.
Helena baixou os olhos para o filho.
— E se eu continuar chorando junto?
— Aí vocês choram os dois.
Aquilo arrancou dela uma risada verdadeira.
Era uma resposta muito Patrícia. Sem discurso sobre maternidade, sem dizer que Helena precisava ser forte, sem transformar o momento numa lição.
Pouco depois, Humberto adormeceu.
Helena esperou o sono firmar antes de levá-lo para o quarto. Colocou-o no berço, ajeitou tudo como gostava e permaneceu mais alguns segundos observando sua respiração. Só então ligou a babá eletrônica e desceu com o monitor.
Encontrou Patrícia pegando alguma coisa na bolsa.
— Vamos almoçar?
Patrícia olhou para ela.
— Eu trouxe um lanche.
— Por quê?
— Porque combinamos quinze minutos de intervalo. Não dá tempo de parar pra almoçar.
Helena franziu a testa.
— Patrícia, você vai almoçar.
— Helena, está tudo bem. Eu trouxe...
— Eu sei que trouxe. Come mais tarde.
Patrícia ficou olhando para ela.
— Você faz isso com todo mundo?
— Isso o quê?
— Decide que a pessoa vai comer.
Helena pensou em Denise no dia anterior e sentiu o rosto esquentar.
— Talvez.
— Eu tenho quinze minutos.
— Hoje você não tem.
— Mas...
— Patrícia, eu estou te convidando para almoçar comigo. Não estou descontando seu almoço do expediente.
Aquela foi provavelmente a primeira vez durante todo o dia em que Patrícia pareceu genuinamente sem jeito.
— Não precisa.
— Eu sei que não precisa. — Helena pegou o monitor da babá eletrônica de Humberto. — Vem.
Patrícia acabou aceitando.
Durante os primeiros minutos do almoço, Helena percebeu que conversar com ela seria diferente do café com Denise. Patrícia não oferecia histórias espontaneamente e parecia perfeitamente confortável em comer em silêncio. Então Helena começou devagar, sem transformar a mesa em outra entrevista.
— Você é de Niterói, né?
— Sou.
— Sua família ainda mora lá?
— Quase toda.
Aos poucos, as respostas curtas começaram a ganhar detalhes. Patrícia contou que crescera numa família de classe média baixa. A mãe trabalhara como auxiliar administrativa durante muitos anos e o pai, com manutenção. Tinha uma irmã mais nova e uma sobrinha adolescente que, segundo ela, havia entrado naquela fase em que qualquer adulto acima dos trinta era considerado pré-histórico.
— Então você já é idosa.
— Para ela, sim.
Helena sorriu.
— Humberto vai fazer isso comigo um dia.
— Vai, pode apostar.
— Você podia mentir de vez em quando.
— Posso tentar amanhã.
A conversa continuou daquele jeito, aos poucos.
Patrícia morava sozinha. Nunca tivera filhos. Teve dois relacionamentos longos, mas falava sobre isso sem amargura ou necessidade de explicar por que não haviam terminado em casamento e filhos. Era apenas a vida que tivera.
— Você sempre quis trabalhar com criança? — Helena perguntou.
— Não desse jeito.
Foi a primeira resposta que abriu naturalmente outra parte da história.
Patrícia contou sobre a formação como técnica de enfermagem e os anos em maternidade. Oito ao todo. Dois deles em UTI neonatal.
— UTI neonatal deve ser muito difícil.
— É.
A resposta veio simples.
Patrícia mexeu na comida antes de continuar.
— Mas você aprende muito.
Helena imaginou bebês menores do que Humberto, famílias esperando notícias, mães com medo de tocar nos próprios filhos.
De repente, algumas coisas naquela mulher ficaram mais fáceis de entender.
A calma.
A maneira como um choro forte não a desorganizava.
A tendência de observar antes de agir.
— Foi de lá que veio esse seu jeito? — Helena perguntou.
— Que jeito?
— De achar que todo mundo está vivo até prova em contrário.
Patrícia quase engasgou de tanto rir.
— Eu não sou assim.
Helena levantou as sobrancelhas.
— Humberto quase arrancou seu relógio hoje e você falou “não” como se estivesse informando a previsão do tempo.
— E funcionou.
— Ele tentou mais quatro vezes.
— Mas não arrancou.
— Porque tem cinco meses e coordenação motora ruim.
Patrícia sorriu.
— Resultado é resultado.
Helena riu.
Era diferente de Denise.
Muito.
Com Denise, a conversa tinha se aberto quase sozinha. Com Patrícia, Helena precisava bater em algumas portas. Mas, quando uma delas abria, encontrava alguma coisa interessante atrás.
E começava a entender que talvez tivesse interpretado reserva como distância cedo demais.
— E por que saiu do hospital?
Patrícia explicou que, depois de tantos anos, quis uma rotina diferente. Passou pelo atendimento domiciliar antes de começar a trabalhar exclusivamente com famílias, primeiro por indicação e depois de maneira cada vez mais especializada com bebês.
— Sentiu falta?
Ela pensou.
— De algumas coisas.
— Da adrenalina?
— Não.
Helena riu.
— Ainda bem.
— Sinto falta da equipe. De ter muita gente que entende exatamente o que você está vendo sem precisar explicar.
Aquilo parecia fazer sentido para alguém como Patrícia.
— Mas gosto mais disso agora. — ela indicou vagamente a direção do andar de cima. — Você acompanha.
Helena esperou.
— No hospital, muitas vezes você cuida de uma criança num pedaço muito ruim da história dela. Aqui você vê crescer.
A frase surpreendeu Helena justamente porque Patrícia não a disse de maneira sentimental.
— Então você gosta mesmo de ser babá.
Patrícia olhou para ela como se a pergunta fosse estranha.
— Claro.
— Não sei. Às vezes parece que você ainda está trabalhando num hospital.
Patrícia sorriu.
— Eu estou tentando melhorar minha reputação com você.
Helena começou a rir.
— Não falei por mal.
— Eu sei.
A babá eletrônica permaneceu silenciosa ao lado do prato de Helena.
Ela olhou para o monitor uma vez, depois outra. Humberto continuava dormindo.
Quando tornou a erguer os olhos, encontrou Patrícia comendo tranquilamente, sem qualquer necessidade de comentar quantas vezes Helena conferia a tela.
Durante um almoço que Patrícia nem pretendia fazer, que Helena percebeu uma coisa que não havia conseguido enxergar completamente na entrevista.
Patrícia não era fria.
Ela apenas não oferecia tudo de si imediatamente.
Talvez Humberto tivesse entendido aquilo antes dela.
Com Patrícia, era preciso provocar um pouco o sorriso.
Mas, quando ele vinha, era verdadeiro.
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