O CEO que Eu Paguei
282 Ainda Estou Aprendendo
Na noite anterior, Heitor ouvira o relato sobre Patrícia com uma animação que quase irritara Helena.
Quis saber de tudo. Como Humberto tinha reagido, quanto tempo Helena conseguira ficar fora da sala, como Patrícia lidara com a crise de choro, o que tinham conversado durante o almoço. Ficou particularmente satisfeito quando Helena contou que havia conseguido subir e permanecer alguns minutos longe do filho, mas não transformou aquilo numa grande conquista nem fez nenhuma das brincadeiras que certamente estava pensando em fazer. Apenas sorriu daquele jeito satisfeito e disse que parecia promissor.
Ainda assim, quando começaram a comparar os dois dias, Heitor voltou a Denise.
— Eu gostei muito do jeito que você falou do carinho dela com ele.
Helena, que estava deitada ao lado dele, virou o rosto.
— Eu também.
— Me lembrou a Dona Solange.
Aquilo tinha peso vindo de Heitor. Helena sabia o carinho com que ele falava da mulher que cuidara dele durante parte da infância, e a comparação não era sobre Denise parecer com ela. Era sobre a sensação que Heitor reconhecia na maneira como Helena descrevia os gestos, a atenção e, principalmente, o afeto sem disputa.
— Só que a Patrícia me passa uma segurança absurda — Helena respondeu.
— Sei disso.
— E a Denise também passa segurança.
— Também sei disso.
Helena fez uma careta.
— Você não está ajudando.
Heitor riu e a puxou mais para perto.
— Amor, pra mim já está difícil e eu nem conheci nenhuma das duas desse jeito. Só estou ouvindo você contar. Imagino pra você.
Era exatamente o problema.
Helena gostava das duas.
Não de uma maneira genérica, como gostara das cinco mulheres competentes que tinham sentado diante deles durante as entrevistas. Agora conhecia pequenas coisas. Sabia como Denise conversava com Humberto, como respeitava seus espaços, como o filho sorria para ela. Sabia como Patrícia reagia quando ele chorava, como não se afobava, como parecia capaz de manter o mundo inteiro no lugar enquanto um bebê berrava em seus braços. Denise lhe despertava uma familiaridade quase imediata e Patrícia, uma confiança que Helena não esperava sentir tão rápido.
E ainda faltava Lívia.
Naquela manhã seria o último dia experimental. Depois teriam o fim de semana para conversar, pensar e escolher. Na segunda-feira, precisariam dar uma resposta.
Helena não esperava muito de Lívia.
Não porque tivesse encontrado algo de errado nela. Pelo contrário. Lívia fora muito bem na entrevista, suas referências tinham sido excelentes e algumas de suas respostas tinham permanecido na cabeça de Helena. Mas era a menos experiente das três, principalmente com bebês tão pequenos, e Helena já tinha uma confusão suficientemente grande entre Denise e Patrícia para conseguir imaginar uma terceira pessoa entrando de verdade naquela disputa.
Ainda assim, daria a ela exatamente a mesma chance.
Naquela manhã, Helena acordou bem mais cedo do que precisava.
Heitor ainda dormia quando ela saiu da cama. Antes de descer, separou as roupas que Heitor usaria naquele dia e as deixou organizadas. Depois foi para a cozinha e decidiu preparar pessoalmente o café da manhã.
Não era necessário. Havia gente naquela casa perfeitamente capaz de fazer tudo aquilo, e Helena sabia disso. Mas necessidade nunca fora o motivo.
Quando Heitor apareceu algum tempo depois, já vestido para trabalhar, diminuiu o passo assim que a encontrou.
Helena estava terminando de organizar a mesa.
Ele ficou parado por um instante, olhando para ela com um sorriso de lado.
— Por que você está acordada essa hora?
Helena ergueu os olhos.
— Bom dia pra você também.
— Bom dia, gatinha. — Heitor aproximou-se. — Agora responde.
— Porque ontem você saiu sem tomar café.
— É que eu queria chegar cedo.
— Eu sei. E fiquei preocupada.
O sorriso dele aumentou.
— Preocupada porque eu pulei um café da manhã?
— Não é um café da manhã, Heitor. Você está trabalhando demais. Chega na empresa cedo, passa o dia lá, volta pra casa, janta e entra no escritório de novo. Eu sei que você não para direito pra comer.
— Eu como.
Helena apoiou as duas mãos na bancada e o encarou.
— Não começa com “eu como coisas”.
Heitor começou a rir.
— Eu ia falar exatamente isso.
— Eu sei.
Ele chegou até ela e passou os braços por sua cintura.
— Você fez dois lanches pra mim ontem.
— Fiz.
— Eu amei.
— Eu sei. Você me mandou umas quinze mensagens falando isso.
— Porque estavam muito bons.
— Você mandou foto comendo.
— Prova documental.
Helena tentou manter a expressão séria, mas não conseguiu.
Heitor aproveitou para começar a distribuir beijos pelo rosto dela. Primeiro uma bochecha, depois a outra, a testa, a ponta do nariz.
— Para.
— Não.
— Heitor...
Ele beijou sua bochecha novamente.
— Eu sou um cara de muita sorte.
Helena finalmente sorriu.
Levantou-se um pouco na ponta dos pés e lhe deu um beijo de verdade.
— Fiz de novo.
Heitor se afastou apenas o suficiente para olhá-la.
— Fez o quê?
— Os lanches.
A felicidade no rosto dele foi tão desproporcional que Helena começou a rir.
— Você está muito feliz por causa de comida.
— Não é por causa da comida.
Ela sabia.
Talvez fosse exatamente por isso que gostasse tanto de fazer aquelas coisas por ele. Heitor podia comprar qualquer café da manhã que quisesse, mandar alguém buscar qualquer almoço, ter alguém organizando tudo para ele. Não precisava que Helena separasse sua roupa nem preparasse alguma coisa para levar ao trabalho.
Mas gostava quando era ela.
— É pra você se alimentar — Helena disse. — Os dois estão na geladeira. Um pra manhã e outro pra tarde.
— Sim, senhora.
— E come os dois.
— Sim, senhora.
— Não leva pra empresa e volta com um deles.
— Pode deixar.
— Estou avisando.
Heitor pegou sua mão.
— Vem comer comigo.
— Eu ia esperar o Humberto acordar.
— Come de novo com ele.
— Vou tomar dois cafés da manhã?
— Você que decidiu criar esse ambiente de fartura.
Helena riu enquanto era puxada pela mão.
Acabaram sentados juntos à mesa, e aquilo atrasou Heitor alguns minutos, embora ele não parecesse minimamente preocupado. Conversaram sobre coisas pequenas. Ele perguntou a que horas Lívia chegaria, Helena respondeu, e Heitor lembrou que aquela era a última.
— Depois acabou.
— Depois piora.
— Por quê?
— Porque eu vou ter que escolher.
Heitor mastigou antes de responder.
— Nós vamos.
Helena olhou para ele.
— Você nem está aqui.
— Mas vou ouvir tudo. Hoje à noite você me conta, amanhã a gente conversa. Domingo, se precisar, conversa de novo. Segunda a gente decide.
— Você fala como se fosse simples.
— Não falei que é simples. Falei que você não vai decidir sozinha.
Aquilo bastou.
Quando terminou, Heitor se levantou, pegou as coisas e foi se despedir dela antes de sair. Beijou Helena, lembrou mais uma vez que poderia ligar por qualquer motivo e seguiu para a porta.
Helena começou a recolher uma das coisas da mesa.
Pouco depois ouviu passos rápidos novamente.
Nem teve tempo de se virar.
Heitor voltou praticamente correndo e a abraçou por trás.
— Heitor!
Helena começou a rir quando sentiu os braços apertando sua cintura.
— Esqueci uma coisa.
— O quê?
Ele enterrou o rosto em seu pescoço e começou a beijá-la.
— Isso.
— Você vai se atrasar.
— Problema da Monteiro Inc.
— Você é o presidente da Monteiro Inc.
— Então eu me autorizo.
Helena ria tentando afastar o rosto quando os beijos começaram a fazer cócegas.
— Vai trabalhar!
— Estou indo.
Mais um beijo no pescoço.
— Heitor!
— Agora fui.
Ele ainda apertou sua cintura uma última vez antes de soltá-la.
Dessa vez realmente foi.
Helena ficou parada, sorrindo sozinha por alguns segundos, até ouvir o som distante da porta e perceber o silêncio que voltava à casa.
Então olhou para o relógio.
Dentro de pouco tempo, Humberto acordaria e algumas horas depois Lívia chegaria.
Helena respirou fundo.
Denise tinha lhe dado carinho e familiaridade. Patrícia tinha lhe dado segurança suficiente para fazê-la subir aquelas escadas.
Lívia era a última. Helena achava sinceramente que já tinha dúvidas suficientes.
A primeira coisa que Helena percebeu quando Lívia entrou foi que ela estava muito bonita.
Não era uma observação que tivesse qualquer utilidade naquele processo, e talvez por isso a irritasse tanto. Lívia não estava produzida demais, muito menos vestida de maneira inadequada para passar horas com um bebê. Usava uma calça leve, uma blusa simples e sapatilhas, o cabelo preso num rabo baixo e pouca maquiagem. Estava confortável o suficiente para sentar no chão, carregar Humberto ou passar o dia correndo atrás dele se fosse preciso, mas tudo caía muito bem nela.
E ela parecia feliz.
O sorriso com que cumprimentou Helena era mais aberto do que na entrevista, e havia uma energia diferente nela, uma disposição que Helena percebeu antes mesmo que entrassem.
— Bom dia. Obrigada por me chamar de novo.
— Bom dia. Eu que agradeço por você ter vindo.
— Eu fiquei muito feliz quando recebi sua mensagem.
Helena acreditou.
Não havia nervosismo aparente em Lívia. Se existia, ela sabia esconder. Naquela manhã, parecia muito mais preocupada em aproveitar a oportunidade do que em demonstrar que precisava dela.
— Ele está acordado? — perguntou.
Helena sorriu.
— Está. E hoje acordou disposto a conversar.
O sorriso de Lívia aumentou.
— Na entrevista ele já tinha bastante coisa pra me dizer.
— Aquilo não foi nada. Ele fala o dia inteiro.
— Ótimo.
A resposta saiu tão imediatamente que Helena olhou para ela.
— Você gosta de bebê falante?
— Gosto de bebê que responde.
— Então você vai gostar dele.
Enquanto caminhavam até a sala, Helena tornou a reparar nela e imediatamente se repreendeu.
Era bonita. Realmente bonita.
Depois de passar dias assistindo a filmes em que aparentemente nenhuma família podia contratar uma babá jovem sem terminar em traição, assassinato ou alguma combinação dos dois, seu cérebro tinha perdido qualquer compromisso com a razoabilidade.
Heitor sequer estava em casa. E, mesmo se estivesse, continuaria sendo Heitor que ela conhecia e amava.
Helena quase revirou os olhos para si mesma.
“Parabéns.”
Quando entraram, Humberto estava no tapete, entretido com um brinquedo. Ouviu os passos e virou a cabeça.
Viu Helena primeiro.
O rosto se abriu imediatamente, acompanhado por pernas que começaram a bater no tapete e uma sequência animada de sons.
— Gué... ah... bu-bu-bu!
— Gué, ah, bu-bu-bu — Helena devolveu.
Humberto abriu ainda mais o sorriso.
Lívia parou ao lado delas.
— Ele faz isso bastante?
— O quê?
— Espera você responder.
Helena olhou para o filho.
— Faz.
Humberto produziu outro som, dessa vez mais agudo.
Helena repetiu.
Ele respondeu.
— Desde que ele começou a descobrir a voz — explicou. — Se eu não respondo, ele fala de novo. E normalmente mais alto.
— Posso testar?
Helena apontou para ele.
— Fica à vontade.
Lívia se abaixou, mas não se aproximou imediatamente. Foi a primeira coisa que Helena percebeu. Ela não chegou tentando conquistar Humberto. Sentou-se no tapete a uma distância confortável e deixou que ele a visse.
Humberto percebeu a presença nova e ficou sério.
Os olhos azuis passaram pelo rosto de Lívia, pelo cabelo, pela roupa e voltaram para o rosto.
— Oi — ela disse.
Nada.
Helena conhecia aquela expressão.
— Ele está te analisando.
Lívia não desviou os olhos dele.
— Pode analisar.
— Você não vai fazer nada?
— Ainda não.
Helena se interessou.
— Por quê?
— Porque ele já está fazendo alguma coisa.
A resposta a fez olhar para Humberto novamente.
De fato, ele estava.
Observava.
Lívia esperou.
Não chamou seu nome repetidas vezes, não bateu palmas, não estendeu os braços nem tentou produzir um sorriso. Ficou disponível.
Humberto soltou um som curto.
Lívia respondeu.
Ele parou.
Olhou.
Fez outro, diferente.
Lívia tentou repetir.
Não saiu igual.
Humberto repetiu.
Helena reconheceu na hora.
— Você fez errado.
Lívia olhou para ela.
— Fiz?
— Ele está corrigindo.
— Não acredito.
Humberto tornou a produzir o mesmo som.
Lívia tentou de novo. Dessa vez chegou mais perto.
— Melhor?
Humberto mexeu as pernas e soltou outro balbucio.
— Agora ele mudou de assunto — Helena avisou.
Lívia sorriu.
— Ele é bem exigente.
— Muito.
A conversa continuou daquele jeito por algum tempo, e Helena começou a perceber que Lívia não repetia tudo que Humberto fazia. Às vezes imitava um som, outras respondia com palavras e, em alguns momentos, simplesmente esperava.
E Humberto percebia.
Quando Lívia demorava, ele insistia.
— Gué!
Ela esperou.
— Gué! Ah!
Lívia continuou quieta.
Humberto franziu o rostinho.
— GUÉ!
Helena abriu um sorriso.
— Eu avisei.
Lívia respondeu imediatamente:
— Eu ouvi. Não precisa brigar comigo.
Humberto bateu as mãos no tapete.
— Ele espera mesmo — Lívia comentou.
— Espera.
— E muda a intensidade quando não recebe resposta.
Helena a observou.
— Você presta atenção em tudo?
Lívia desviou os olhos para Humberto.
— Tento.
A resposta foi simples, mas havia alguma coisa muito concentrada no modo como ela trabalhava.
Na entrevista, Helena tinha entendido intelectualmente o que Lívia quisera dizer quando falara sobre conhecer uma criança. Agora começava a enxergar como aquilo acontecia.
Ela não parecia ter pressa para mostrar o que sabia. Tinha pressa para descobrir Humberto.
— Ele costuma ficar bastante tempo no chão? — perguntou.
— Bastante. A gente faz tummy time desde pequeno.
— Dá pra perceber.
— Por quê?
Lívia apontou discretamente quando Humberto começou a girar o corpo para alcançar outro brinquedo.
— Olha como ele transfere o peso.
Helena acompanhou.
Já tinha visto aquele movimento centenas de vezes, mas nunca exatamente daquela maneira.
— Isso é bom?
— Muito. Principalmente porque ele está fazendo sozinho.
Humberto esticou o braço.
O brinquedo estava longe demais.
Helena instintivamente se inclinou para pegar, mas Lívia se adiantou apenas para aproximá-lo alguns centímetros.
Não entregou.
Humberto tentou novamente. Os dedos passaram perto.
Não conseguiu.
Reclamou.
Helena olhou para Lívia.
— Ele está ficando bravo.
— Está.
— Você vai deixar?
Lívia olhou primeiro para Humberto, depois para ela.
— Por enquanto.
Helena arqueou uma sobrancelha.
Lívia explicou:
— Ele não está pedindo ajuda ainda. Está tentando.
Humberto fez força novamente. Quase alcançou.
— Vai, meu amor — Helena incentivou imediatamente. — Vai.
Os dedos tocaram o brinquedo.
Escapou.
Humberto soltou um som indignado.
— Ai, meu Deus — Helena murmurou, já querendo resolver.
Lívia aproximou o brinquedo mais um centímetro.
— Agora tenta.
Humberto foi de novo. Dessa vez conseguiu. Puxou o brinquedo para perto com as duas mãos e soltou um gritinho satisfeito.
Helena abriu um sorriso enorme.
— Aí! Muito bem!
Humberto olhou para ela como se a conquista tivesse sido realmente extraordinária.
— Você conseguiu, meu amor.
E imediatamente enfiou o brinquedo na boca.
Lívia sorriu.
— Comemoração.
Helena passou a mão na barriga dele.
— Tudo acaba na boca.
— Nessa idade, a boca faz parte da investigação.
— Essa é uma maneira muito sofisticada de dizer que meu filho lambe tudo.
Lívia soltou uma risada.
— Basicamente.
Helena olhou para o brinquedo e depois para ela.
— Você deixou longe de propósito.
— Deixei.
— Maldade.
— Um pouquinho.
— Ele ficou bravo.
— Ficou.
Lívia não se defendeu imediatamente, e isso fez Helena esperar.
— Mas também percebeu que conseguia chegar — completou. — Se eu entrego toda vez que ele faz esforço, ele não tem motivo pra terminar o movimento.
— E se ele não conseguisse?
— Eu aproximava.
— Até quando?
— Até ficar difícil o suficiente pra ele precisar tentar, mas fácil o suficiente pra conseguir.
Helena pensou.
— Então você trapaceia.
— Eu facilito discretamente.
— Isso é trapacear.
— Se ele sair satisfeito, eu aceito a acusação.
Helena olhou para Humberto, que agora mordia o brinquedo conquistado com absoluta felicidade.
— Ele parece ter comprado a fraude.
— Não conta pra ele.
Aquilo arrancou de Helena mais do que uma risada. Ela começou a gostar daquela maneira de Lívia trabalhar porque não parecia uma sequência de exercícios impostos sobre Humberto. A brincadeira continuava sendo brincadeira. O bebê sequer sabia que havia alguma intenção por trás da distância de um brinquedo ou do tempo que Lívia esperava antes de interferir.
— Foi por isso que você falou naquela entrevista que curso ensina a idade, mas não ensina o Humberto?
Lívia assentiu.
— Mais ou menos.
— Como assim?
— Eu sei o que normalmente se espera de um bebê de cinco meses. Posso olhar o desenvolvimento motor, linguagem, interação, várias coisas. Só que isso não me diz quem ele é.
Helena ficou em silêncio.
Lívia continuou olhando para Humberto enquanto falava.
— Tem bebê que precisa de mais tempo antes de chegar perto. Tem bebê que quer novidade o tempo inteiro. Tem criança que se irrita rápido quando não consegue alguma coisa, outra insiste vinte vezes. Se eu usar a mesma estratégia com todo mundo só porque têm a mesma idade, a formação não serviu pra muita coisa.
Aquilo Helena não esperava.
— E o que você já descobriu dele?
Lívia finalmente olhou para ela.
Pensou antes de responder.
— Que ele é muito social, mas não significa que ele vá imediatamente com qualquer pessoa.
Helena prestou atenção.
— Que ele gosta de resposta. Não só de barulho. Ele quer perceber que o que fez provocou alguma coisa.
Helena baixou os olhos para Humberto.
— É.
— Que ele é insistente.
— Muito.
— Curioso.
— Demais.
— E acho que ele é corajoso.
Essa fez Helena sorrir.
— É mesmo?
— Ele tenta antes de saber se consegue.
Helena sentiu um orgulho ridículo subir pelo peito.
— Isso é verdade.
— Só que ele ainda não sabe que é um bebê.
Helena olhou para ela.
— Finalmente alguém entendeu meu problema.
As duas sorriram.
— Ele acha que consegue tudo — Helena continuou. — Se vê alguma coisa, vai. Não importa se o corpo dele ainda não recebeu a informação de que não sabe fazer.
— Isso vai dar trabalho quando ele começar a andar.
— Não fala isso.
— Você perguntou.
— Não perguntei não.
Lívia sorriu e voltou a observar Humberto.
Helena também.
Por alguns minutos, o ambiente ficou tranquilo, com as duas conversando entre uma brincadeira e outra. Lívia fazia perguntas sobre os horários dele, como eram as sonecas, se costumava ficar irritado antes de dormir, quais posições preferia, como vinha evoluindo no tummy time. Não perguntava como quem preenchia uma ficha. Uma resposta de Helena frequentemente levava a outra pergunta porque alguma coisa havia chamado sua atenção.
E Helena percebeu que gostava de responder.
Gostava de falar sobre Humberto. Gostava quando alguém parecia realmente interessado nas pequenas coisas que para o restante do mundo talvez fossem irrelevantes, mas que ela conhecia de cor.
Foi durante uma brincadeira que Humberto começou a perder o ritmo.
Lívia percebeu primeiro a mudança de atenção. Helena percebeu quase ao mesmo tempo.
Ele desviou o rosto.
Voltou.
Depois esfregou a lateral da cabeça.
Lívia parou.
Helena já estava abrindo os braços.
— Cansou.
Humberto virou para ela e estendeu os dois bracinhos.
— Vem, meu amor.
Helena o pegou e imediatamente recebeu o peso do corpo contra o peito. Humberto enterrou o rosto em seu pescoço, ainda resmungando baixinho, e ela passou a mão por suas costas.
— Acabou a conversa?
Um som abafado veio contra sua pele.
— Ah, agora você está reclamando.
Lívia observou os dois.
— Ele faz isso sempre antes de cansar?
— Virar o rosto?
— É. E esfregar aqui.
Ela apontou a própria lateral da cabeça.
— Quase sempre. Primeiro para de prestar atenção direito. Depois começa isso. Se eu continuo insistindo, ele fica bravo.
Lívia assentiu. Não fez nenhum comentário sobre ter percebido sozinha.
Apenas guardou a informação. Isso chamou a atenção de Helena.
— Você já tinha visto?
— Achei que fosse cansaço.
— E não falou nada.
— Você percebeu.
A resposta foi tão simples que Helena demorou um instante.
— E se eu não tivesse percebido?
— Eu perguntava.
Helena gostou daquilo mais do que deveria.
Lívia não parecia precisar demonstrar que conseguira interpretar Humberto antes da própria mãe. Se Helena sabia, ótimo. Se não soubesse, ela falaria.
Talvez fosse uma diferença pequena.
Para Helena, não era.
Depois de alguns minutos quieto no colo, Humberto começou a levantar a cabeça.
Helena conhecia aquela movimentação.
— Já descansou?
Ele olhou para Lívia. Depois para o chão. Depois para a mãe.
— Você quer voltar?
O corpo começou a se inclinar.
Lívia não o chamou. Apenas abriu os braços quando ficou evidente que ele queria ir.
— Quer?
Humberto foi.
Helena o entregou e ficou olhando.
Não sentiu a fisgada que tivera com Denise.
Isso também chamou sua atenção.
Com Denise, a facilidade imediata entre os dois tinha despertado algo que Helena ainda tinha vergonha de admitir. Com Lívia, a sensação era diferente. Humberto parecia ir para descobrir alguma coisa e voltar para a mãe quando precisava reorganizar o próprio mundo.
Então saía novamente.
— Ele faz bastante isso? — Lívia perguntou.
— O quê?
— Vai, volta pra você e depois quer ir de novo.
— Faz.
— Que bom.
Helena imediatamente quis saber.
— Por quê?
Lívia ajeitou Humberto no colo.
— Porque você é a base segura dele.
Helena ficou quieta.
— Ele vai explorar porque sabe onde voltar. Quando precisa se regular, volta pra você. Quando está bem de novo, consegue sair.
A frase atingiu Helena num lugar que Lívia não tinha como conhecer.
— Tem gente que acha que eu pego ele demais.
Lívia ergueu os olhos.
— Por quê?
— Porque ele pede.
— Ele tem cinco meses.
A resposta veio com tanta naturalidade que Helena quase sorriu.
— Eu sei.
— Então.
— Dizem que ele já sabe que, se pedir, eu vou pegar.
— Provavelmente sabe.
Helena franziu a testa.
Lívia percebeu e explicou:
— Mas isso não é ruim. É exatamente o que ele deveria saber.
Helena passou a mão devagar pela perna do filho.
— E se você estivesse cuidando dele? Toda vez que ele me pedisse, você me entregaria?
Lívia pensou.
— Depende.
Helena imediatamente prestou mais atenção.
— Se ele estiver frustrado porque não alcançou alguma coisa, não. Se estiver começando a cansar, eu posso tentar ajudar. Se estiver comigo e só reclamar porque mudou de posição, também não acho que você precise aparecer toda vez. — fez uma pausa. — Mas se ele estiver olhando pra você, abrindo os braços e claramente querendo a mãe...
Deu de ombros.
— Você está ali. Por que eu faria ele não ir?
Helena sentiu o peito afrouxar um pouco.
— E não atrapalha ele se acostumar com você?
— Acho que seria pior se ele aprendesse que ficar comigo significa não poder ir pra você.
Helena não respondeu imediatamente. Essa era uma resposta de que se lembraria.
Humberto resolveu o silêncio agarrando uma mecha do cabelo de Lívia.
— Ai!
Helena se inclinou.
— Humberto, solta!
Lívia tentou abrir os dedinhos dele.
— Não. Cabelo não.
Ele apertou.
— Meu amor...
Helena ajudou a libertá-la.
Assim que Lívia jogou o cabelo para trás, Humberto acompanhou o movimento com os olhos.
— Nem olha — ela avisou.
O sorriso apareceu. Helena reconheceu na hora.
— Essa cara.
Lívia olhou para ela.
— O quê?
— É a cara que ele faz antes de tentar de novo.
— Não é possível.
Humberto esticou a mão. Lívia afastou o cabelo.
— Você sabia!
Ele abriu um sorriso enorme.
Helena sentiu aquela satisfação boba de quem tinha acabado de provar uma teoria importantíssima.
— Eu te avisei.
— Ele tem cinco meses.
— Fala isso pra ele.
Lívia estreitou os olhos para Humberto.
— Então nós temos um problema.
Ele respondeu com um balbucio alegre.
— Não dá confiança — Helena avisou. — Ele vai achar que ganhou.
A conversa foi ficando mais fácil conforme a manhã avançava. Lívia era só um ano mais velha que Helena, e isso aparecia nas pequenas coisas. Não havia a familiaridade quase imediata que Denise provocara, nem a reserva que Helena precisara atravessar com Patrícia. Com Lívia, os assuntos simplesmente iam surgindo. Uma reclamação sobre o calor virava outra conversa, uma gracinha de Humberto levava a alguma história, e de repente Helena percebia que estavam falando havia vários minutos sem que nenhuma das duas estivesse fazendo perguntas de entrevista.
Foi justamente nesses momentos que Helena se lembrava de que Lívia era muito bonita.
Quando ela se levantou para buscar água, Helena acompanhou involuntariamente o movimento por alguns segundos.
A calça realmente caía muito bem nela.
Helena desviou os olhos.
“Meu Deus.”
Veio à cabeça um dos filmes.
A babá bonita. A casa. O marido. A traição.
Depois provavelmente alguém morria. Helena já tinha assistido a tanta porcaria que as histórias começavam a se misturar.
Olhou novamente.
Lívia estava enchendo um copo de água.
Só.
Heitor estava na empresa, provavelmente trabalhando demais e esquecendo de comer alguma coisa que Helena não tivesse colocado pessoalmente numa embalagem para ele. E, mesmo que estivesse naquela sala, continuaria sendo Heitor.
Helena sentiu vergonha da própria cabeça.
O problema não era Lívia.
Era ter alimentado a própria ansiedade com filmes de babás psicopatas durante uma semana inteira.
Pegou o celular e encontrou uma mensagem de Heitor.
“Como está a última candidata?”
Helena olhou para Lívia, que voltara ao tapete e estava esperando Humberto terminar de examinar um brinquedo antes de interferir.
Digitou:
“Melhor do que eu esperava.”
A resposta chegou pouco depois.
“Ih.”
Helena estreitou os olhos.
“O quê?”
Heitor respondeu.
“Mais uma.”
Ela fez uma careta.
“Cala a boca.”
Heitor mandou uma figurinha rindo.
“kkkkkkkk”
Helena bloqueou o celular, mas ficou alguns segundos olhando para Humberto e Lívia.
Heitor estava certo, era mais uma.
Tinha começado aquela manhã achando que Lívia precisaria fazer alguma coisa extraordinária para alcançar Denise e Patrícia. Agora percebia que a comparação talvez estivesse errada desde o começo.
Lívia não precisava ser mais carinhosa que Denise.
Nem mais segura que Patrícia.
Precisava mostrar por que ela também poderia ser importante para Humberto.
E estava fazendo isso trabalhando.
Observava antes de interferir, perguntava antes de supor, guardava cada informação que Helena dava e, pouco a pouco, começava a antecipar pequenas coisas. Não porque conhecesse Humberto.
Porque estava se esforçando para conhecê-lo.
Pouco depois, Lívia olhou pelas portas de vidro para o jardim. O sol forte do Rio iluminava boa parte da área externa, mas as árvores maiores deixavam uma faixa ampla de sombra próxima à casa.
Ela observou por alguns segundos. Depois olhou para Humberto.
Helena já começava a reconhecer aquela expressão.
Foi Lívia quem sugeriu o jardim, mas não imediatamente.
A manhã já tinha avançado, e Humberto estava numa disposição excelente. Tinha mamado, descansado e passado boa parte do tempo alternando entre o tapete, o colo da mãe e as pequenas descobertas que Lívia lhe apresentava. Falava sem parar do jeito dele, produzindo sequências diferentes de sons, estalos com a língua, gritinhos curtos e alguns balbucios que Helena respondia automaticamente. Fazia aquilo desde que ele começara a descobrir a própria voz. Às vezes repetia exatamente o som, outras respondia como se tivesse entendido perfeitamente o assunto.
— Gué... ah... bu-bu.
— Não acredito — Helena respondeu, muito séria. — E você deixou?
Humberto abriu um sorriso.
— É verdade? — Lívia perguntou.
— Não faço ideia.
— Pela sua reação, achei que fosse grave.
— Aqui a gente respeita o que ele tem a dizer.
Humberto soltou um gritinho agudo.
Helena repetiu.
Ele imediatamente fez outro, diferente.
— Esse eu não consigo.
Lívia riu.
Era uma dinâmica que já existia muito antes dela chegar, e Lívia não tentou se colocar no meio. Observou primeiro. Depois começou a participar quando Humberto passou a dirigir alguns dos sons também para ela. Não repetia todos como Helena fazia; às vezes respondia com palavras, às vezes imitava, às vezes apenas esperava para ver se ele produziria alguma coisa nova.
Foi durante uma dessas conversas que ela olhou pelas portas de vidro.
— Helena, vocês costumam levar ele pro jardim?
— Bastante. Quando não está esse inferno de quente.
Lívia olhou para fora novamente.
— Agora ainda tem uma área boa de sombra. Você se importa se a gente for um pouco?
Helena se interessou.
— Não. O que você quer fazer?
— Deixar ele explorar. Sem muita coisa preparada. O jardim já tem estímulo suficiente.
Antes mesmo de Helena perguntar, Lívia acrescentou:
— Só na sombra. Está muito quente pra colocar ele no sol.
Aquilo agradou Helena.
Não porque precisasse ser lembrada de proteger Humberto do sol forte do Rio de Janeiro, mas porque Lívia pensara nisso antes de sugerir qualquer coisa. Helena foi buscar o chapéuzinho dele mesmo assim e conferiu a temperatura lá fora antes de saírem.
— Essa roupa pode sujar? — Lívia perguntou.
Helena olhou para o conjunto claro que Humberto usava.
— Pode.
— Mesmo?
— Lívia, se sujar eu lavo. — ela hesitou. — Quer dizer... alguém lava — corrigiu, começando a sentir o rosto a esquentar. — Eu ainda não me acostumei completamente a falar isso.
Lívia sorriu.
— Então está liberado.
Foram para uma parte sombreada do jardim, longe do sol direto. Havia grama, árvores, algumas plantas de folhas grandes e uma brisa quente que de vez em quando atravessava o espaço. Helena levou uma manta fina e a estendeu, embora Humberto parecesse muito mais interessado em tudo que existia fora dela.
Assim que foi colocado sentado com apoio no colo da mãe, começou a olhar ao redor.
Não com espanto passivo.
Com pressa.
A cabeça virou para um lado quando ouviu folhas se mexendo, depois para o outro por causa de algum pássaro. Um funcionário passou mais distante e Humberto acompanhou. Ouviu outro som, tentou localizar. Viu Mel atravessando uma parte do jardim e imediatamente começou a mexer as pernas.
— Ah! Gu! Gu!
— Eu vi a Mel — Helena respondeu.
Humberto soltou outro som, mais alto.
— Eu vi!
Lívia começou a rir.
— Ele realmente conversa o tempo inteiro.
— O dia inteiro. Se acorda de madrugada disposto a conversar, conversa também.
— Que ótimo pra vocês.
— Principalmente pro pai dele, que acha lindo porque consegue voltar a dormir.
Lívia riu novamente.
Humberto já estava inclinado para frente, tentando alcançar alguma coisa no chão.
— Espera — Lívia disse, mais para organizar o movimento do que para impedi-lo.
Ela se sentou perto deles e colocou a própria mão sobre a grama.
— Pode colocar ele?
— Pode.
Helena sustentou Humberto enquanto os pezinhos tocaram a grama.
Ele puxou um deles imediatamente.
Os olhos azuis se arregalaram. Depois olhou para baixo.
Helena sorriu.
— Estranho?
Humberto tocou de novo.
Dessa vez não recolheu.
Esfregou os dedos dos pés, ergueu um, tornou a colocar e começou a mexer as pernas com crescente entusiasmo.
— Gostou — Helena disse.
— Acho que sim.
— Não precisa achar. Quando ele não gosta, você sabe.
Como se quisesse demonstrar coragem, Humberto se inclinou ainda mais para frente.
Lívia apoiou uma mão em seu tronco.
— Calma. Uma coisa de cada vez.
Ele alcançou a grama com a mão.
Fechou os dedos.
Puxou.
E imediatamente tentou levar o punho à boca.
Helena interceptou.
— Nem pensar.
Humberto reclamou.
— Não adianta reclamar. Grama você não vai comer.
— É importante experimentar diferentes texturas — Lívia comentou.
Helena olhou para ela.
— Com a mão.
— Isso, com a mão — Lívia concordou, rindo.
Humberto protestou mais uma vez e voltou à grama, aparentemente conformado com a limitação injusta imposta à pesquisa.
Lívia não tinha levado brinquedos para fora.
Isso começou a fazer sentido para Helena conforme observava.
Humberto já tinha brinquedos excelentes dentro de casa, próprios para cada fase, livros de tecido, objetos de diferentes texturas, mordedores e um espaço montado para brincar. No jardim, Lívia parecia interessada justamente no que não existia naquele ambiente controlado.
Pegou uma folha grande ainda presa a uma planta baixa e a movimentou suavemente.
Humberto acompanhou.
Lívia parou.
Ele olhou para ela.
Ela mexeu outra vez.
Humberto estendeu a mão.
— Quer?
Ela aproximou o suficiente.
Ele tocou primeiro com a ponta dos dedos. Depois bateu a mão aberta sobre a folha.
Ela se moveu.
Humberto arregalou os olhos.
Bateu novamente.
A folha tornou a balançar.
— Ô! — ele soltou, surpreso.
Helena imediatamente repetiu:
— Ô!
Humberto olhou para ela e abriu um sorriso enorme.
— Ôôô!
— Ôôô! — Helena devolveu.
Lívia ria olhando os dois.
— Eu estou começando a achar que vocês têm um idioma próprio.
— Temos. O problema é que só um de nós sabe o que está falando.
Humberto voltou para a folha.
Bateu.
Parou.
Bateu outra vez.
Dessa vez puxou.
— Devagar — Lívia disse.
Ele puxou de novo.
— Isso. Sente.
Ela não segurou sua mão para ensinar como tocar. Apenas impediu que arrancasse a folha e deixou que descobrisse o resto.
Depois vieram outras coisas pequenas.
A superfície lisa de uma folha diferente. A parte áspera de um tronco, que Lívia deixou Humberto tocar mantendo a própria mão junto para controlar o movimento. Uma flor que ele só pôde observar porque a primeira intenção, naturalmente, foi agarrá-la. O barulho das folhas quando o vento aumentava. A sombra se movimentando no chão.
Humberto queria tudo.
Tentava se projetar para frente antes que o próprio corpo tivesse capacidade para acompanhá-lo, soltava sons para o que chamava sua atenção e ficava visivelmente contrariado quando alguma coisa estava fora de alcance.
— Ele não tem medo nenhum — Lívia comentou.
— Não. — Helena sorriu enquanto segurava o filho pela cintura. — Esse é um problema futuro.
— Talvez.
— Com o pai que ele tem? Com certeza.
Humberto viu Mel novamente e soltou uma sequência animada:
— Bá! Gué! Aaaa... da-da-da!
Helena arregalou os olhos.
— Você ouviu isso?
Lívia olhou para ela.
— O “da-da”?
— Sim!
Helena virou Humberto para si.
— Fala de novo.
Ele sorriu.
— Da-da-da.
Lívia começou a sorrir com expressão dela.
— Ainda não é uma palavra.
— Eu sei que não é uma palavra.
— Pela sua cara, achei que já ia ligar pro pai.
Helena já estava procurando o celular.
— Eu vou mandar pra ele. Ele vai querer saber.
Tentou gravar Humberto repetindo, naturalmente sem sucesso. Assim que a câmera apareceu, o bebê decidiu que não tinha mais qualquer interesse em produzir da-da-da e tentou agarrar o aparelho.
— Agora você fica quieto?
Humberto sorriu.
— Humberto Campos Monteiro!
A experiência no jardim acabou durando mais do que Helena imaginara porque Humberto continuava interessado. Lívia, porém, foi a primeira a perceber quando aquela curiosidade começou a virar cansaço.
Não esperou o choro.
Viu quando os movimentos ficaram menos coordenados, quando Humberto começou a esfregar o rosto e quando a atenção, antes tão rápida, passou a demorar mais para mudar de um estímulo para outro.
— Acho que chega.
Helena olhou para ele.
— Também acho.
— Foi muita coisa.
— Ele está acabado.
Humberto discordou com um resmungo.
— Está sim — Helena respondeu. — Você nem sabe mais do que está reclamando.
No caminho de volta para dentro, ele ainda virou a cabeça para olhar o jardim por cima do ombro de Helena.
Lívia percebeu.
— Depois você volta.
Humberto respondeu alguma coisa incompreensível.
— Ela falou depois — Helena traduziu.
Mais tarde, Helena decidiu deixar Lívia dar o banho.
Não foi uma decisão tão simples quanto gostaria que parecesse.
Ela já tinha mostrado onde estavam as coisas, explicado a temperatura que costumava usar e separado a roupa que Humberto vestiria depois. Lívia ouviu tudo sem a impaciência de quem considerava banho de bebê uma tarefa óbvia.
Humberto estava cansado.
Tinha brincado mais do que o habitual, passado tempo no jardim, mamado e agora oscilava entre a irritação do sono e aquela última reserva absurda de energia que bebês pareciam guardar justamente quando deveriam estar desligando.
Quando os pés tocaram a água, porém, reagiu.
Bateu uma perna, depois a outra.
Água espirrou.
Lívia riu.
— Ah, então ainda tinha energia escondida.
Humberto soltou um gritinho.
Helena estava ao lado.
Observando bastante.
Lívia molhou devagar a barriga dele, conversando enquanto fazia cada coisa. Humberto tentou agarrar a água, descobriu mais uma vez que aquilo era impossível e bateu a mão na superfície.
— Bu! Bu! Gué!
— Bu! — Helena repetiu automaticamente.
Humberto olhou para ela e sorriu.
Lívia também olhou.
— Vocês fazem isso o tempo inteiro mesmo.
— O quê?
— Conversam.
Helena deu de ombros.
— Ele fala comigo praticamente o dia inteiro.
Helena ficou mais alguns minutos. Depois lembrou do que deveria estar tentando fazer.
— Eu vou... pegar uma coisa.
Outra vez.
Já estava ficando ridículo.
Lívia apenas respondeu:
— Tá.
Helena saiu.
Chegou ao corredor, continuou andando.
Parou.
Ouviu a voz de Lívia lá dentro.
Não distinguia todas as palavras, apenas o tom baixo, intercalado pelos sons de Humberto.
Esperou.
Um minuto.
Talvez dois.
Não aguentou.
Voltou.
Entrou tentando agir como se realmente tivesse ido buscar alguma coisa.
Não carregava absolutamente nada.
Lívia não comentou.
Humberto estava seguro em seus braços, molhado, com o cabelo escuro grudado na cabeça e uma expressão cansada. Quando viu Helena, abriu um sorriso menor do que os anteriores.
— Oi, meu amor.
Ele soltou um som baixinho.
Helena repetiu.
Lívia continuou o banho.
Não havia nada espetacular acontecendo. E talvez fosse justamente isso que Helena precisasse ver.
Lívia segurava Humberto com segurança, mas não com a precisão quase clínica de Patrícia. Também não havia a intimidade espontânea que Denise construíra com ele. Seu cuidado parecia nascer de outra coisa: atenção constante.
Ela observava.
O tempo inteiro.
Quando Humberto esticava a perna, ela ajustava. Quando tentava alcançar a água, permitia dentro do que era seguro. Quando começava a perder a paciência, não insistia porque ainda faltava alguma etapa de uma rotina imaginária.
— Acho que acabou pra ele — Lívia disse.
Helena reconheceu imediatamente.
— Acabou.
Humberto esfregou o rosto.
Lívia não prolongou.
Terminou o necessário, tirou-o da água e o envolveu na toalha. Por alguns segundos ele aceitou ficar ali, cansado demais até para protestar.
Então viu Helena.
Os braços apareceram.
Lívia sorriu.
— Eu já sabia.
E o entregou. Helena recebeu Humberto ainda quentinho do banho, apertando-o contra o peito.
— Vem, meu amor.
Ele encostou a cabeça nela.
Lívia começou a organizar o que tinha usado, e Helena olhou para o filho quase dormindo em seus braços.
Tinha conseguido ficar cinco minutos longe dele com Patrícia.
Com Lívia, dois.
Não significava que confiava menos nela.
Helena começava a perceber que não era uma equação tão simples.
Talvez houvesse dias em que conseguiria sair.
Outros em que não.
Talvez com algumas pessoas fosse mais fácil no começo, com outras.
Talvez com algumas pessoas fosse mais fácil no começo, com outras levasse tempo.
E talvez aquilo também não precisasse determinar sozinho quem seria escolhida.
Quando levantou os olhos, Lívia estava guardando uma das coisas no lugar errado.
— Essa fica na outra gaveta.
— Aqui?
— Do lado.
Lívia corrigiu.
— Ainda estou aprendendo.
Helena olhou para ela.
A frase era simples.
Mas lembrava exatamente o que Lívia dissera na entrevista.
Ela não conhecia Humberto ainda. Estava aprendendo.
Era hora de se despedirem e Humberto já estava entregue ao cansaço.
Depois do jardim, do banho e de tudo que tinha descoberto durante o dia, restava pouco daquele bebê elétrico que passara horas tentando alcançar, tocar, puxar e conversar com tudo ao redor. Estava no colo de Helena, com a cabeça apoiada em seu peito e os olhos pesados, ainda lutando contra o sono por uma questão de princípio. De vez em quando levantava o rosto como se lembrasse que não podia perder nada, olhava ao redor por alguns segundos e tornava a se acomodar.
Lívia terminou de guardar suas coisas devagar. O cabelo já não estava tão arrumado quanto quando chegara, havia alguns fios soltos perto do rosto e a calça ainda carregava discretamente a lembrança do tempo que passara sentada na grama. Parecia cansada também, mas era um cansaço bom. Desde que tinham voltado do jardim, alguma coisa nela parecia mais solta, como se o nervosismo do início da manhã tivesse desaparecido conforme o dia avançara.
Quando finalmente pegou a bolsa, olhou para Humberto e abriu um sorriso.
— Ele vai dormir muito hoje.
Helena passou a mão devagar pelas costas do filho.
— Se Deus quiser.
Humberto fez um som preguiçoso contra seu peito.
— Nem reclama — Helena murmurou. — Você aproveitou o dia inteiro.
Lívia ficou olhando para ele por alguns segundos.
— Eu gostei muito dele.
Helena ergueu os olhos.
Não era uma frase extraordinária. Denise gostara de Humberto. Patrícia também. Quase qualquer pessoa que passasse algumas horas com ele acabava gostando daquele jeito comunicativo e exagerado de existir. Mas havia alguma coisa diferente na expressão de Lívia.
Ela parecia genuinamente empolgada.
— Já fiquei pensando em algumas coisas que dá pra fazer com ele — continuou. — Principalmente agora que ele está chegando perto de sentar.
Helena imediatamente prestou mais atenção.
— Você acha que está perto?
— Acho. Ainda falta estabilidade, claro, e não tem que apressar. Mas ele já está fazendo várias coisas que vêm antes. O controle de tronco está muito bom, ele tenta corrigir o próprio corpo quando desequilibra, procura apoio... — Lívia percebeu que começava a falar rápido e sorriu. — Desculpa. Eu fico animada.
Helena sentiu o próprio sorriso aparecer também, mas daquela vez havia mais do que diversão.
— Não pede desculpa. Eu gosto.
E gostava mesmo.
Humberto ainda nem sentava e Lívia já estava pensando no que vinha depois.
Não como quem tinha uma lista de marcos a cumprir, mas como alguém curiosa para assistir ao processo.
— Dá para trabalhar equilíbrio de um jeito bem natural — Lívia continuou, agora um pouco mais à vontade. — Sem ficar colocando ele sentado antes da hora. Dá pra aproveitar quando ele está no chão, os movimentos que ele já tenta fazer... E ele é muito curioso, então isso ajuda muito. Ele quer chegar nas coisas.
— Quer chegar em tudo.
— Eu percebi.
— O problema é que ele acha que consegue.
— Isso também ficou claro.
As duas sorriram, e Helena baixou os olhos para o filho. Humberto tinha desistido de participar da conversa e agora mantinha os olhos quase completamente fechados.
— Eu quero aproveitar muito essa fase — Helena confessou. — Parece que toda semana ele aprende alguma coisa.
— Porque aprende. — Lívia olhou novamente para Humberto. — É uma fase muito gostosa de acompanhar.
A palavra ficou um pouco mais tempo no ar.
Acompanhar.
Helena percebeu que Lívia apertou a alça da bolsa entre os dedos.
Foi uma mudança mínima. Ainda assim, depois de passar o dia observando aquela mulher observar seu filho, Helena já começava a notar algumas coisas nela também.
— Helena...
— Oi?
Lívia respirou antes de continuar. Pela primeira vez naquele dia, pareceu nervosa de verdade.
— Eu queria te agradecer.
— Pelo quê?
— Por hoje. E por ter me chamado para essa etapa.
— Lívia, você não precisa agradecer. Você chegou até aqui porque a gente gostou de você.
— Eu sei. — ela sorriu, mas havia um leve vermelho começando a aparecer em seu rosto. — Mesmo assim.
Helena esperou.
— Eu gostei muito daqui. — Lívia olhou rapidamente para Humberto e depois voltou para ela. — E gostei muito de você também.
A frase saiu com uma sinceridade que deixou Helena ligeiramente surpresa. Lívia pareceu perceber como poderia soar e se apressou:
— Não estou falando isso porque você pode me contratar.
Helena sentiu alguma coisa amolecer dentro dela.
— Eu entendi.
— É que... — Lívia soltou uma pequena respiração, procurando as palavras. — Eu fiquei muito confortável hoje. Mesmo sabendo que você estava me avaliando.
Helena quase sorriu diante da ironia. Se Lívia soubesse quantas vezes ela própria tinha se sentido avaliada durante aquele processo, talvez achasse graça.
— Eu também gostei de você — respondeu.
O vermelho no rosto de Lívia aumentou um pouco e foi ali que Helena enxergou uma coisa que ainda não tinha visto.
Lívia queria aquele emprego e queria muito mesmo.
Não havia nada de errado nisso. Pelo contrário. Era estranho Helena só perceber agora o quanto todas aquelas horas também significavam alguma coisa para a mulher do outro lado. Para ela e Heitor, aqueles três dias tinham sido sobre decidir quem entraria na vida de Humberto. Para Lívia, Denise e Patrícia, também existia uma espera. Uma escolha sendo feita sobre a vida delas.
No caso de Lívia, aquilo parecia especialmente grande.
Ela estava começando a construir uma trajetória mais sólida como babá. Tinha estudado desenvolvimento infantil, buscado especialização, aprendido, acumulado experiência, mas ainda não carregava os anos de profissão das outras duas. Um vínculo longo com uma família, acompanhando um bebê desde os cinco meses, seria uma parte enorme dessa trajetória.
Helena conhecia aquela sensação.
Conhecia o esforço para chegar a uma oportunidade e a tentativa quase impossível de parecer tranquila quando, por dentro, se queria muito que alguém dissesse sim.
Talvez por isso não conseguisse olhar para o rosto levemente vermelho de Lívia apenas como o nervosismo de uma candidata.
Via uma pessoa.
— Posso falar uma coisa meio... — Lívia parou, procurando a palavra. — Boba?
— Pode.
— Eu consigo me imaginar trabalhando aqui.
Helena ficou quieta.
Lívia continuou antes que perdesse a coragem.
— Hoje, no jardim, eu fiquei pensando nele maior. Sentando, depois engatinhando... andando… — olhou para Humberto, adormecendo no colo da mãe. — Eu sei que parece precipitado porque eu passei só um dia com vocês.
Helena não interrompeu.
— Mas eu consigo me ver acompanhando ele. Não só agora. Até ele estar crescidinho mesmo.
Dessa vez, Helena sentiu.
Não era uma resposta de entrevista.
Lívia não estava falando sobre “contribuir para o desenvolvimento integral da criança” nem reproduzindo alguma frase perfeita sobre vínculo. Estava vermelha, segurando a própria bolsa com as duas mãos e provavelmente se perguntando se tinha falado demais.
— Eu queria muito ter essa oportunidade — completou.
Helena olhou para ela por alguns segundos.
Pensou na Lívia que chegara de manhã impecavelmente arrumada e sorrindo mais do que durante a entrevista. Na mulher que perguntara se a roupa de Humberto podia sujar antes de levá-lo para o jardim. Na maneira como se sentara na grama sem se importar com a própria calça, como esperara em vez de entregar imediatamente um brinquedo, como percebera o cansaço dele, como aceitara todas as vezes em que Humberto precisara voltar para a mãe.
Pensou também nos dois minutos que conseguira permanecer fora durante o banho.
Lívia tinha se esforçado.
Não de uma maneira performática. Não passara o dia tentando provar que sabia mais do que Denise ou Patrícia. Helena sequer sabia se ela conhecia os detalhes das outras candidatas.
Tinha simplesmente tentado mostrar o que poderia oferecer a Humberto. E agora estava ali, permitindo que Helena visse o quanto aquela escolha também importava para ela.
Helena sentiu um aperto no peito.
Porque na segunda-feira duas mulheres receberiam uma resposta que não queriam.
Até aquele momento, isso ainda parecia uma abstração.
Agora tinha rosto.
— Não é bobo — Helena disse.
Lívia a olhou.
— E não acho precipitado você pensar nisso. Se eu contratar alguém, eu também não quero ficar trocando de pessoa a cada seis meses. Quero alguém que conheça o Humberto. Que acompanhe ele.
Lívia assentiu imediatamente.
— É exatamente isso que eu quero.
Helena acreditou.
Humberto se mexeu em seu colo, incomodado com alguma coisa no próprio sono, e as duas olharam para ele ao mesmo tempo. Helena ajeitou sua posição e passou a mão sobre o cabelo escuro até que relaxasse novamente.
Quando tornou a olhar para Lívia, ela ainda observava Humberto.
Não havia cálculo naquela expressão e sim vontade.
— A gente vai conversar no fim de semana — Helena explicou. — Eu e o Heitor. E na segunda eu entro em contato com você.
— Claro.
— Eu não quero te prometer nada agora.
— Eu sei. Nem espero que prometa.
A resposta veio rápida, e Helena gostou dela por isso.
Lívia não tentou arrancar uma indicação. Não perguntou se tinha ido bem, se estava na frente ou se Helena tinha alguma preocupação que pudesse esclarecer naquele instante.
Apenas aceitou.
Então se aproximou um pouco mais de Humberto.
— Posso me despedir?
— Claro.
Lívia tocou delicadamente a mãozinha que descansava sobre Helena. Humberto abriu os olhos só pela metade, reconheceu alguma presença diante dele e produziu um resmungo sonolento.
— Tchau, falador.
Os olhos tornaram a fechar.
Lívia sorriu.
— Obrigada pelo dia.
Helena sentiu aquela frase de uma maneira inesperada.
Quando acompanhou Lívia até a saída, já não estava pensando na mulher bonita que entrara naquela manhã e fizera seu cérebro recuperar todos os filmes ruins que assistira.
Também não estava pensando apenas na candidata com menos experiência.
Estava pensando numa mulher de trinta e um anos que estudara para entender crianças, que ainda estava construindo espaço naquela profissão e que olhara para Humberto aos cinco meses imaginando a criança que ele ainda se tornaria.
Denise queria cuidar dele.
Patrícia tinha mostrado que saberia protegê-lo.
Lívia queria vê-lo crescer.
E Helena odiou perceber que, no fundo, aquilo importava muito para ela também.
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