O CEO que Eu Paguei

124 Você é o meu lar


Helena ainda estava largada na cama, com metade do corpo sobre os lençóis e os cabelos espalhados como se tivessem perdido a guerra. O travesseiro caído no chão, o lençol amarrotado, e o corpo dela… bem, o corpo dela parecia ter esquecido como se ficava de pé.

Heitor se virou de lado, apoiando a cabeça na mão, e ficou observando.

— Você tá viva aí, Helê? — perguntou, com um sorriso sacana no canto da boca.

Ela virou o rosto com dificuldade e fechou os olhos.

— Vai tomar no cu, Heitor.

Ele gargalhou alto, satisfeito.

— Ihhh, se a Helena tá brava, é porque tá cansada. Aí, pronto, agora sim eu sei que mandei bem. — esticou o braço e passou os dedos pela cintura dela. — Tá sentindo as pernas ainda? Ou deixei sequelas?

Helena pegou o travesseiro e jogou nele. Fracassou.

— Cala a boca.

— Que foi, princesa? Tu que começou com aquele sussurro de “tava com saudade”… agora tem que arcar com as consequências, pô.

Ela se virou e olhou pra ele, vermelha até a orelha.

— Você é um idiota.

— Um idiota bom de cama, pelo visto. — Ele se levantou devagar, ainda nu, e caminhou até o banheiro — Vambora tomar banho antes que a cama vire território permanente.

— Vai você.

Ele apareceu na porta do banheiro de novo, só com o braço na moldura, o sorriso tão debochado que dava raiva:

— Vai querer ajuda pra levantar? Ou quer que eu vá buscar uma cadeira de rodas?

— HEITOR!

— Tá bom. — Ele entrou no quarto, pegou ela no colo como se não pesasse nada e foi andando em direção ao banheiro. — Mas só porque eu sou um namorado muito prestativo.

— Eu consigo andar!

— Ah, mas assim a gente ganha tempo. E você fica ainda mais colada em mim.

Ela resmungou, mas abraçou o pescoço dele, fingindo irritação — só fingindo.

Dentro do box de vidro, Heitor a colocou no chão com cuidado. Helena fez uma careta quando os pés encostaram no porcelanato.

— Ai…

— Tá vendo? — Ele passou a mão pela cintura dela. — Foi o que eu disse. Perninhas bambas. Vai ter que tomar banho agarradinha comigo.

— Você é insuportável.

— E irresistível.

Ela ia responder, mas ele já tinha ligado o chuveiro, e a água quente caiu sobre os dois com um som quase relaxante.

Eles ficaram em silêncio por alguns segundos, só aproveitando o calor da água no corpo cansado, os olhos fechados, as respirações sincronizadas.

Até que Heitor se aproximou por trás, passou as mãos pelo quadril dela, com aquele jeito que não era exatamente sexual, mas também não era inocente.

— Tava com saudade disso aqui — ele murmurou, encostando o rosto no pescoço dela. — De você toda molhadinha assim.

— A água tá ligada, irritante.

— Ah, então é a água, né? — Ele beijou o ombro dela. — Juro que pensei que fosse saudade.

Ela virou devagar, enfrentando o olhar dele com aquela expressão dela que era brava e apaixonada ao mesmo tempo.

— Para de ser cafajeste.

— Só se você pedir com jeitinho.

— Heitor…

— Hm?

Ela bufou e jogou água no rosto dele.

Ele riu alto.

— Tá achando que isso é castigo? Isso é provocação, Helena. E você sabe muito bem o que acontece quando você provoca...

Ele encostou a testa na dela, segurando o rosto com as mãos grandes e quentes. Beijou a ponta do nariz. Depois o canto da boca. Depois, os lábios, devagar — um beijo mais leve, mais íntimo que urgente.

— Eu gosto tanto de você, sabia? — ele murmurou, sem pressa.

Helena encostou a cabeça no peito dele, fechou os olhos.

— Eu sei.

Ele passou a mão pelo cabelo dela, pela curva da cintura.

— E mesmo assim tu me chama de idiota.

— Porque é. — ela resmungou, baixinho.

— Mas sou teu.

— Ainda não sei por quê.

— Eu sei por quê. — Ele a abraçou mais forte, enroscando as pernas com as dela sob a água. — É porque ninguém no mundo te olha como eu. Ninguém encosta assim, com esse cuidado todo. Ninguém sabe te provocar com respeito. E ninguém enfrentaria o mundo como eu estou enfrentando.

— Tá se achando muito.

— Tô me achando só o que eu sou: o cara que vai fazer você sorrir todo dia, até quando tu não quiser.

Ela mordeu o lábio, derrotada pelo charme. E encostou o rosto no peito dele.

— Só por isso, vou deixar você me lavar o cabelo.

— Olha aí! Conquistas.

Helena soltou uma risadinha abafada. E ele afogou os dedos nos cabelos dela, massageando devagar e olhando no fundo dos olhos dela.

—— Tu é minha calmaria e minha perdição ao mesmo tempo… Eu olho pra tua cara e esqueço até meu nome. E quando tu me olha de volta, com esses olhos castanhos teimosos, eu tenho certeza que é você. Que sempre foi.

Ela não conseguia falar. Só respirar. E mesmo isso, era difícil.

Heitor beijou a testa dela e voltou a olhar.

— Não quero mais saber o que é acordar sem teu cheiro no travesseiro.

Beijou a bochecha dela com carinho.

— Eu quero dividir meu tempo, minha vida e minha cama com você. Eu sou teu, porra. Até o último pedaço.

Ela não soube responder. As palavras não saíram. Então levou a mão até o rosto dele, encarando o homem que virou a vida dela de ponta cabeça e o beijou.

Após se trocarem, os dois saíram do quarto com os dedos entrelaçados. Heitor animado sobre Helena finalmente conhecer o apê e a Mel.

Mas quando passaram pelo hall do hotel… os olhares vieram.

Duas senhoras sussurraram alguma coisa. Um funcionário disfarçou um sorriso. Uma mulher na recepção chegou a dar uma ajeitada no crachá só pra poder acompanhar melhor o casal de canto de olho.

Helena parou por um segundo, apertou mais os dedos entre os de Heitor e cochichou:

— Por que estão olhando assim?

Heitor arqueou uma sobrancelha, com um sorrisinho que dizia absolutamente tudo.

— Acho que é porque a “senhorita Calor Humano” aqui gemia alto demais.

— HEITOR!

— Ué! Cê acha que o isolamento acústico é bom, mas não faz milagre.

— Cala a boca, pelo amor de Deus. — Ela sussurrava, completamente vermelha, tentando puxar ele pelo braço pra andar mais rápido.

— Tô só dizendo. Foi um baita show. Você tava inspirada. Soltando uns “ai, Heitor” que eu quase pedi bis.

— Você é impossível.

— Eu sou o impossível… — ele encostou a boca na orelha dela enquanto caminhavam — …e sou seu.

Saíram do hotel e seguiram para o outro lado da avenida. O porteiro ajeitou o uniforme com pressa assim que os dois se aproximaram da entrada principal do prédio. Bastou ver o homem de andar firme e óculos escuros se aproximando com uma mulher linda ao lado para ele se endireitar todo atrás da bancada, como se fosse um soldado em posição de sentido.

— Boa tarde, doutor Heitor. — disse com a voz respeitosa e ligeiramente empolgada.

— Boa tarde, José. Essa aqui é a Helena. — Heitor tirou os óculos, revelando os olhos azuis que estavam particularmente brilhantes naquele fim de tarde. — Minha namorada.

Helena sentiu o rosto esquentar. A palavra ainda soava surreal quando saía da boca dele daquele jeito firme, com naturalidade. Como se ser dela fosse uma certeza — e era.

O porteiro ficou visivelmente emocionado, quase bobo.

— Ah, então é a senhorita Helena! — disse, rindo todo aberto enquanto digitava rápido no sistema da portaria. — Nossa, o doutor Heitor fala muito da senhora. Até a gente aqui fica torcendo por vocês.

Helena arregalou um pouco os olhos, sem saber onde enfiar a cara. Virou para Heitor com um olhar de “você contou o quê?”, e ele apenas ergueu um canto da boca, satisfeito demais.

— É só verdade, ué. — murmurou ele, bem baixo, no ouvido dela.

José imprimiu o crachá de visitante, fez o cadastro com cuidado e abriu o portão com um sorriso.

O interior do prédio era outro mundo.

Tudo ali gritava sofisticação — mas sem exagero. O hall era revestido de mármore bege claro, com detalhes em dourado fosco e uma claraboia no teto que deixava a luz do fim do dia escorrer pelos degraus da escada central. Uma fonte discreta murmurava ao lado da parede espelhada. Dois elevadores sociais com acabamento em madeira escura e tela digital exibiam o nome “Edifício Aurora” com uma tipografia delicada.

Helena segurou a mão de Heitor com mais força. Sentia-se entrando em um filme de luxo. Ele percebeu e puxou ela com carinho pela cintura, sussurrando com um sorriso:

— Relaxa, amor… Tu tá onde merece estar.

Ela revirou os olhos, tentando manter a pose, mas o coração pulava.

O elevador subiu direto para a cobertura. O andar exclusivo se abriu com um “ding” suave, revelando uma porta moderna de madeira escura com uma maçaneta dourada fosca.

Heitor tirou a chave do bolso e girou com naturalidade. Assim que a porta se abriu…

— MEL!

A golden retriever pulou do tapete da sala como se tivesse sido lançada por um foguete. Os pelos dourados balançavam, os laços coloridos presos nas orelhas quase voavam, e o rabinho mexia com tanta força que o corpo inteiro da cachorra acompanhava. Ela soltava uns sons meio gritinhos, meio ganidos, completamente tomada pela alegria de rever o dono.

Heitor se abaixou de joelhos, largou as chaves no chão e abriu os braços com um sorriso genuíno.

— Oi, meu bebê! Eu também tava com saudade, amor da minha vida.

Mel pulou nele e quase o derrubou no tapete. Ele a abraçou com força e carinho, coçou atrás da orelha dela, a barriga, a cabeça.

Helena ficou parada ali, na porta, observando. Aquele homem que todo mundo respeitava, que andava com postura de CEO, que falava firme… agora estava ali, ajoelhado, com o rosto grudado nos pelos de uma cachorra, rindo como um garoto.

Ela sorriu sem conseguir evitar. Ela realmente amava ele, todas as partes que faziam ele ser quem era.

— Vem, Helê. — Ele esticou a mão para ela, sem levantar.

Helena caminhou devagar até os dois, abaixando-se aos poucos.

— Oi, Mel... — disse, com a voz doce.

A golden olhou para ela com certa curiosidade. A cauda ainda balançando, mas mais contida. Helena estendeu a mão e fez um carinho suave atrás da orelha da cachorra.

— Você é bem fofinha, hein?

Mel pareceu aprovar. Encostou a cabeça no colo dela e deu uma fungada, como se estivesse concedendo permissão.

— Ai meu Deus. — Helena riu. — Acho que ela gostou de mim.

— Gostou sim. — Heitor respondeu, olhando as duas com uma ternura que amoleceria até o mármore do hall. — Mel tem bom gosto.

Mel deitou entre os dois com um suspiro alto, como quem estava feliz em ter os dois ali.

Heitor passou o braço por cima dos ombros de Helena e a puxou devagar. Beijou o topo da cabeça dela, e sussurrou com um sorriso:

— Agora minha casa tá completa.

Heitor se levantou e segurou a mão dela a puxando para entrar melhor no local.

Helena parou na entrada com os olhos arregalados. Ela viu um hall íntimo revestido em mármore claro, com iluminação discreta no rodapé e nas sancas do teto.

— Bem-vinda. — Heitor disse com um sorriso discreto, passando a mão no sensor da iluminação para acender o restante do ambiente.

A luz suave revelou a imensidão da sala de estar. O chão de madeira de demolição impecavelmente tratado refletia o calor da iluminação indireta. Um sofá cinza-escuro em L tomava boa parte do ambiente, largo o bastante para deitar sem esbarrar nos braços, com almofadas que pareciam engolir quem se jogasse ali. A televisão na parede parecia uma tela de cinema. A parede de fundo era toda em painéis de madeira clara, com um nicho sutil para exibir uma coleção de miniaturas de carros — alguns modelos clássicos, outros esportivos modernos — organizados com esmero.

— Isso tudo é... seu? — Helena perguntou, ainda parada, com Mel sentada ao lado dela como uma anfitriã formal.

— Tudo nosso agora. — Heitor disse, vindo por trás e tocando a cintura dela. — Fica à vontade. Se quiser mudar tudo de lugar, pintar parede, comprar cortina nova e móveis... faz. Quero que se sinta em casa.

Helena virou o rosto pra ele, emocionada. Os olhos brilhavam, mas o sorriso debochado não deixava escapar demais.

— Eu mal entrei e já posso mudar tudo?

— Pode. — Ele ergueu uma sobrancelha. — Menos os carros. E o quadro do Fluminense.

Ela riu, entrando mais alguns passos.

Do lado esquerdo, uma copa ampla com mesa de madeira clara fazia ligação com a cozinha gourmet, onde armários em tons de areia e aço escovado se distribuíam com perfeição. O ambiente era funcional e bonito, e tinha um toque de casa: uma cafeteira ligada, uma fruteira com bananas maduras, uma garrafa de água com o nome “Heitor” gravado na lateral.

— Isso aqui parece um episódio de Discovery Home and Health — Helena comentou, observando a bancada de granito que ligava a cozinha à área da copa.

— O básico, né? — Heitor deu de ombros.

Na lateral do corredor, um escritório bem iluminado exibia uma estante com livros de administração, direito e economia — ao lado de uma camisa do Fluminense emoldurada e autografada. Mais à frente, havia três suítes com banheiros espaçosos e janelas grandes. A suíte master era um espetáculo à parte: teto alto, vista direta para o mar e para as Ilhas Cagarras, uma cama king-size perfeitamente arrumada, um banheiro que parecia um mini spa e um walk-in closet impecável.

Helena parou na varanda da suíte. O vento bagunçava os cabelos dela. E a vista… era de tirar o fôlego.

— Olha pra frente, Helê. — Heitor pediu, já com o celular na mão. — Deixa eu eternizar essa paisagem.

Ela ajeitou o cabelo cacheado ondulado, rebelde de sempre, se virou um pouco de lado e sorriu — aquele sorriso contido, com os olhos que diziam tudo. Heitor tirou a foto, satisfeito, e depois se aproximou.

— Agora vem cá. — Ele disse, puxando ela com um braço pela cintura e levantando o celular com a outra mão. — Selfie com vista e minha garota mais linda.

Helena virou o rosto para ele, os dois com os rostos colados. Click.

— Espera. — Ela pediu, rindo. — Mel também vai sair.

Chamou a golden, que veio devagar, com o rabo balançando. Helena se agachou, Mel apoiou as patas no parapeito com a língua pra fora e eles tiraram mais uma foto.

— Agora sim. — Helena disse. — Uma foto de família.

Heitor abaixou o celular e a olhou com uma ternura que não cabia em palavras.

— Esse aqui é o nosso lar agora, Helena. — Ele disse, sério, com a voz baixa. — Pode demorar o tempo que precisar, mas eu quero que você se sinta em casa aqui. De verdade.

Helena o olhou, a emoção batendo no peito, mas a voz saindo com aquele jeito dela, meio debochado, meio entregue.

— Isso aqui é tipo... o começo da nossa casa?

Heitor respirou fundo. As palavras vieram mais baixas.

— No futuro… eu quero comprar uma casa. Uma mesmo, sabe? Mel correndo solta... E você.

Helena ficou quieta por um segundo. Depois sorriu, um sorriso que não cabia nos lábios. Os olhos castanhos dela se encontraram com os azuis dele.

— Eu vou adorar viver numa casa com você.

Heitor se aproximou e colou a testa na dela.

— Vai ser a casa mais feliz do mundo.

Mel latiu baixo, como se tivesse concordado.

Helena ligou para a avó, conversaram um tempo, depois decidiu que iria cozinhar para ele naquela noite, eles então saíram juntos para fazer compras.

Caminhavam devagar, o olhar dela varrendo tudo ao redor. Cada coqueiro, cada barulho de risada ao longe, cada gaivota cruzando o céu.

— Isso aqui… é tão bonito. — ela murmurou, quase como se estivesse falando com ela mesma.

Heitor a olhou de lado. O sorriso dela refletido nos olhos, a emoção vibrando na voz.

— Vem comigo. — ele disse, puxando de leve a mão dela para desviar do caminho.

— Hã? Pra onde?

— Só vem. — respondeu, já com aquele meio sorriso de quem ia aprontar alguma.

Helena seguiu. O chão de pedra portuguesa deu lugar à areia fina e macia. Eles caminharam até um ponto mais vazio da praia. O som do mar dominava tudo. Helena olhava ao redor com os olhos mais redondos que Heitor já tinha visto.

Quando pararam, Heitor agachou-se na frente dela, as mãos indo direto aos tênis dela.

— Ei… — Helena disse, baixinho, rindo — você tá fazendo o quê?

— Tirando seu tênis. Você vai sentir a areia de verdade. — ele disse, com naturalidade.

— Eu mesma posso…

— Deixa eu fazer. — falou sem olhar pra cima, mas com um tom tão cheio de afeto que Helena simplesmente cedeu.

Ele tirou os tênis com cuidado, depois as meias, e ergueu o rosto, aquele sorriso tranquilo e quente.

— Agora vem aqui. — disse, sentando-se na areia com as pernas abertas e batendo de leve no espaço entre elas.

— Heitor…

— Vem, mulher. Só quero te abraçar vendo o pôr do sol.

Helena olhou ao redor, envergonhada como sempre, mas quando viu o olhar dele — aquele olhar… que parecia enxergar a alma dela e ficar feliz com o que via — ela se aproximou e se sentou entre as pernas dele.

Ele passou os braços por trás dela, cruzando as mãos sobre a barriga, como se quisesse protegê-la do mundo.

Ela se encostou no peito dele. A respiração dele atrás do pescoço dela… a pele quente… o cheiro dele, inconfundível, inebriante.

O sol estava se pondo.

Era como se o céu estivesse pegando fogo e, ainda assim, tudo fosse suave.

Helena sentiu os olhos arderem. Estava ali. De verdade. O mar à sua frente, os braços dele ao redor do seu corpo, o coração dela batendo alto como nunca.

— Tá tudo bem? — ele perguntou em voz baixa, os lábios roçando atrás da orelha dela.

— É que… eu nunca imaginei que ia ver isso. Assim. De verdade.

Heitor apertou os braços com mais firmeza em torno dela.

— É só o começo. — ele disse. — A vida que eu quero construir com você… ainda nem começou direito.

Helena não respondeu. Mas levou a mão até o antebraço dele e apertou. Um gesto pequeno. Mas que dizia tudo.

O vento bagunçava ainda mais o cabelo dela. O sal começava a grudar nos tornozelos descalços. O céu descia com as cores mais lindas que o mundo já pintou.

O sol beijava o mar como se não quisesse ir embora. O céu era uma pintura viva, em tons de laranja, dourado e lilás, refletidos no mar ondulante como promessas de coisas boas.

Helena estava entre as pernas de Heitor, sentada na areia fina, com as costas coladas ao peito dele. As mãos grandes dele envolviam sua cintura como uma âncora tranquila. O queixo dele repousava sobre o topo da cabeça dela, vez ou outra ele encostava os lábios em seus cabelos. Os dois estavam em silêncio há longos minutos. Um silêncio bom. Que dizia tudo.

O coração de Helena, no entanto, estava apertado demais para ficar quieto.

Ela sentia o peito aquecido, mas doía. Como se algo quisesse sair, mas ficasse preso na garganta. Não era medo. Nem insegurança. Era outra coisa. Era o sentimento crescendo tanto que não cabia mais só nos gestos, nem nos olhares, nem nas provocações escondidas em deboche.

Era amor.

Amor de verdade.

E ela nunca tinha sentido aquilo.

Fechou os olhos, como se tentasse conter o que sabia que viria. E mesmo assim, veio. Baixo. Sincero. E com a voz meio rouca, como se dissesse algo proibido.

— …Eu te amo, Heitor.

Silêncio.

Ela sentiu o corpo dele se enrijecer por um segundo atrás dela.

Talvez ela tivesse ido longe demais.

Talvez… talvez ele…

Mas, antes que os pensamentos corressem soltos, ele moveu os braços. Apertou a cintura dela com força, como se ela fosse a única coisa certa naquele mundo. Depois, ele deslizou as mãos para a frente, segurou o rosto dela com cuidado e virou de leve o corpo dela, fazendo com que ela se virasse no colo dele.

Helena não queria encarar. O rosto quente. Os olhos quase marejados.

Mas ele não deixou.

— Fala de novo. — ele pediu, com a voz mais baixa que ela já ouviu, carregada de uma emoção que ele tentava conter, mas não conseguia. — Por favor… fala de novo.

— Eu te amo. — ela repetiu, baixando um pouco os olhos, depois levantando de novo. — E... mesmo sendo difícil de dizer... eu sempre vou falar pra você.

A voz dela falhou um pouco. Mas não o sentimento.

— Porque é a verdade. — ela continuou. — Eu nunca senti isso por ninguém. E agora que senti… eu não quero que seja outra pessoa. Nem hoje. Nem amanhã. Nunca.

Ela mordeu o lábio, como se quisesse controlar alguma coisa dentro de si, e sorriu. Um sorriso pequeno, mas real. Do tipo que não pedia aprovação. Era só confissão.

— Falar isso em voz alta dá um medo danado. — confessou. — Mas... eu me sinto mais leve agora.

Heitor continuou ali, parado, olhando pra ela como se o mundo tivesse parado de girar por um segundo.

— Vem cá. — ele disse, com a voz baixa e cheia de emoção.

Ele sorriu.

Aquele sorriso que começava num canto da boca, subia até os olhos e parava o mundo.

Ele a abraçou.

Com o corpo inteiro. Com o coração inteiro.

E depois de um momento, ele falou com o sotaque arrastado do jeito dele, com a voz rouca que ela adorava:

— Eu te amo, Helena Ribeiro Campos. Cê não faz ideia do quanto.

Ela soltou o ar devagar, quase como um soluço contido.

— Eu acho que faço, sim. — sussurrou.

Ele a beijou. Lento. Profundo. Sem pressa de acabar.

Quando o beijo acabou. Ele a abraçou como quem protege algo precioso demais pra correr o risco de perder. Enterrou o rosto no pescoço dela e ficou ali, respirando o cheiro dela, sentindo a pele dela, e jurando pra si mesmo que faria de tudo pra nunca decepcioná-la.

E enquanto o sol sumia atrás das ilhas, Heitor Monteiro ouvia seu coração gritar: nada mais no mundo importava além daquela mulher ali nos braços dele.