O CEO que Eu Paguei
125 O que significa isso?
O final de semana passou rápido. Eles não saíram para conhecer o Rio, só aproveitaram para tentar sumir com a saudade que ainda existia.
O despertador ainda nem tinha tocado quando Helena sentiu o movimento ao lado. Heitor já estava acordado, deitado de lado, encarando o rosto dela como se estivesse tentando memorizar cada traço antes que ela escapasse.
— Você tá me olhando faz tempo? — ela perguntou, a voz ainda rouca de sono.
— Faz tempo. E não cansei ainda.
Ela sorriu, se espreguiçando devagar, e deu um beijo leve nos lábios dele.
— Hoje é o dia. Meu primeiro dia na nova empresa.
— Sim. E você ainda não me disse qual é. Isso é quase uma traição conjugal.
— Conjugal, Heitor?
— Vai negar?
— Talvez. Só pra manter você curioso.
Ela escapou dos braços dele e seguiu para o banheiro. Alguns minutos depois, saiu vestida com uma calça de alfaiataria creme, salto fino, camisa branca levemente acetinada, cabelo preso com um laço e um batom que parecia ter sido feito para o tom de pele dela. O colar favorito com o “H” e um perfume floral suave completavam o visual.
Heitor ficou em silêncio por longos segundos. Sentado na beirada da cama, expressão de quem tinha levado um soco de beleza.
— Isso é um insulto.
— O quê?
— Você sair desse jeito. Linda assim. E ainda por cima indo pra outra empresa antes da Monteiro Inc.
— Depois eu passo lá — ela disse, com um sorrisinho contido. — Quero conhecer sua sala.
— Eu vou esperar você. O dia inteiro, se precisar.
Ela foi até ele, ajeitando a gola da camisa dele com um toque suave.
— Você tá dramático hoje.
— Tô apaixonado.
Antes que ela respondesse, ele pegou um chaveiro de couro da gaveta do criado-mudo e estendeu para ela.
— Aqui.
— O que é isso?
— Cópia das chaves do apartamento.
Helena congelou.
— Heitor, eu não posso...
— Pode sim. O lugar é seu também. Eu quero que você fique.
— Você sabe que isso é sério, né?
— Eu sou sério com você, Helena. Só com você.
Ela apertou os lábios, emocionada, tentando não demonstrar. Quando pensou que já era demais... ele puxou algo do paletó pendurado na cadeira.
— E isso aqui — ele disse, entregando um cartão preto com as bordas prateadas discretas — é pra facilitar sua vida.
— Definitivamente não. — Helena recuou um passo.
— Ah, não começa... — Heitor levantou, com aquele olhar calmo e perigoso ao mesmo tempo.
— Heitor, você deu cartão alimentação pros outros da Plano. Isso aqui é um black. Um Centurion. Você tá brincando?
— Tinha acabado os cartão alimentação.
— Você não vem com essa.
— Eu quero que não falte nada pra você. É só isso. Você merece tudo.
Ela ficou vermelha. Desviou o olhar. Apertou o cartão entre os dedos.
— É muito.
— Não. É pouco ainda.
— Eu não sei se consigo usar isso.
Heitor chegou mais perto, encostou os dedos no queixo dela e levantou o rosto suavemente.
— Você não precisa se preocupar com isso. É sem limites. Aceito em qualquer lugar. Aqui ou lá fora.
— Você não entendeu, Heitor…
— Então me explica. Ou só… deixa eu cuidar de você. Você é a minha mulher. Amor da minha vida. Hoje minha namorada. Amanhã, se você quiser… minha esposa. E quem sabe mãe dos meus filhos.
O coração de Helena bateu alto. O rosto dela já estava todo corado, e ela desviou o olhar para o cartão como se aquilo fosse ajudar a respirar.
Pegou o cartão da mão dele, respirou fundo, e disse:
— Só pra constar… eu não vou pagar a fatura.
— Tu nem vai ver a fatura. — Heitor deu aquele sorriso torto, perigoso, completamente apaixonado.
Ela balançou a cabeça, derrotada, mas com um brilho nos olhos que ele sabia exatamente o que significava.
Era o mesmo brilho que ela tinha sempre que era vencida… mas feliz.
— Vai com o chofer, Helena.
— Heitor...
— Não quero você sozinha no seu primeiro dia. Você vai estar pensando em mil coisas. E ele já conhece bem o caminho.
— Eu também conheço. — ela respondeu sem muita confiança.
Ele cruzou os braços, encostado na porta com aquele olhar que não pedia, determinava.
— Helena…
Ela suspirou, derrotada. Mas ergueu um dedo.
— Só aceito se ele não contar pra ninguém pra onde tá me levando. Nem pra você. Só hoje.
Heitor franziu as sobrancelhas, desconfiado.
— Tá na cara que isso é coisa sua. Você que armou tudo.
Heitor riu, rendido.
— Tá, vai. Mas se ele contar, eu demito.
Helena pegou a bolsa, os pertences e deu um beijo rápido nele.
— Tenta não morrer de curiosidade. Ou então sofre aí mesmo.
E saiu, altiva.
FORT GROUP — 08:51
O carro preto parou diante de uma imponente torre de vidro e aço no coração financeiro da cidade. Helena desceu com passos firmes. Os saltos soaram com autoridade no mármore da entrada.
A recepção a recebeu com sorrisos treinados e olhares atentos. Logo uma assistente a conduziu pelos elevadores panorâmicos da FORT GROUP.
— A senhorita Helena Ribeiro Campos será recebida diretamente pelo Sr. Fortenelle — disse a mulher, elegante, vestida com discrição absoluta. — Ele pediu que a senhorita vá direto à sala de reuniões. Já está esperando.
Helena apenas assentiu. Manteve a postura, mas a respiração começou a acelerar.
Fortenelle.
Tentou se lembrar da ‘aula’ que Ana Alice deu sobre o diretor. Ela devia ter pesquisado sobre o homem e não só ter focado em realizar uma boa apresentação. Não que importasse saber quem era o homem, no final, ela só tinha que realizar um bom trabalho.
Ela ajeitou o colarinho da blusa com um gesto leve e seguiu o caminho indicado.
A porta foi aberta pela secretária.
— Por aqui, senhorita Helena.
Helena soltou o ar dos pulmões e entrou. A sala era imensa e parado observando a cidade pela janela, um homem.
Ali então estava ele.
O homem do avião.
Mas não como ela lembrava — agora ele estava de terno alinhado, cabelos loiros escuros penteados para trás, camisa branca, abotoaduras prateadas e um relógio de pulso discreto.
A cicatriz era o que mais chamava atenção, acentuava o olhar verde e o deixava com um ar perigoso.
Helena talvez tenha olhado por tempo de mais aquela linha fina e funda, que começava na sobrancelha direita e seguia até a maçã do rosto, cortando o olhar de forma brutal.
Um rosto bonito, mas gasto. Um charme que não era caloroso. Era frio e metódico. E calculadamente sedutor.
E um sorriso perigoso no canto dos lábios assim que a viu.
Helena ficou branca por um segundo. A expressão de surpresa surgiu em seu rosto.
Antônio ergueu uma sobrancelha. Se aproximou com passos lentos e silenciosos, como se não houvesse pressa no mundo. Parou diante dela, os olhos cravados nos dela
— O que você tá fazendo aqui?
Ela respirou fundo. Recobrando a postura. Não ia recuar. Não mais.
— Eu sou Helena Ribeiro Campos, representante da Plano & Forma. Vim apresentar o projeto que sua equipe solicitou.
Ele soltou uma risada alta, firme, que ecoou na sala ampla.
— Não é possível. — Ele ajeitou os punhos da camisa, divertido. — Eu esperava muita coisa hoje. Menos reencontrar a mulher do avião.
Ela estreitou os olhos, mantendo a pose.
— Queria dizer o mesmo. Mas prefiro manter o profissionalismo.
Antônio se aproximou alguns passos, ainda sorrindo.
— Agora eu tô curioso. — Ele apontou para a cadeira à frente. — Mostra aí o que você veio fazer, Helena Ribeiro Campos. Aposto que vai ser interessante.
Ela se sentou, cruzou as pernas e ligou o notebook com firmeza.
— Vai ser mais que interessante. Vai ser inesquecível.
— Aposto que sim. Igual a você — Helena revirou os olhos assim que ele disse — Não faça essa carinha, aposto que ficou pensando em mim também.
Antônio olhou para ela como quem analisa uma peça rara de leilão
— Esse mundo é realmente muito pequeno. Mas… fico feliz em te ver de novo.
— Queria dizer o mesmo, mas não é verdade. — ela respondeu, seca.
Ele se sentou na poltrona central, ajeitando as abotoaduras como se o mundo girasse no ritmo do próprio pulso.
— Você tem um temperamento difícil, é isso? — Ele apoiou a mão na mesa. — Você rosna… e morde. Eu adoro isso.
Helena sentia uma repulsa enorme, mas continuou sem perder a elegância.
— Podemos começar a apresentação, senhor Fortenelle?
— Claro. Mostra o que veio fazer. Estou curioso.
Helena se levantou. Começou a explicar o projeto com uma firmeza que contrastava com o fogo que queimava por dentro.
Ela não gaguejou, não desviou os olhos.
Apresentou soluções modernas, números sólidos, argumentos consistentes e ideias ousadas.
Antônio a observava com interesse real agora. Os olhos verdes estavam fixos nela, mas já sem o tom de antes.
Ela falava com domínio. Era o tipo de mulher que não precisava gritar para ser escutada. Que impressionava sem implorar atenção.
E ele estava, sim, impressionado.
Principalmente após ele a testar, fazer perguntas difíceis e receber respostas excelentes.
Boa garota.
Ao final, ela fechou o notebook com calma e o encostou à lateral da mesa.
Silêncio.
Ele não sorriu dessa vez.
— Você é inteligente.
— Achei que já tinha percebido.
Antônio se recostou na cadeira, passando os dedos pela cicatriz com um gesto inconsciente.
— Eu gosto disso. Fico ainda mais ansioso pra esse projeto. Pela Plano, claro. Mas principalmente... por você.
Helena não desviou o olhar.
— Espero que seja profissional o suficiente pra separar as coisas. E respeitável o bastante para nada além.
Ele riu alto novamente. O som ecoou pela sala preenchendo o local e a fazendo perceber que tudo aquilo era dele.
— Você é um achado, Helena. Não sei quem teve a ideia de mandar você aqui, mas que bom que mandaram.
Ele se levantou, ajeitando o paletó.
— Vou chamar os outros sócios. Ah... antes que eu esqueça.
Virou-se na porta.
— Aquele seu namorado... você encontrou ele, afinal?
Helena ergueu o queixo.
— Encontrei. E estamos mais unidos que nunca.
Antônio sorriu devagar. Mas o olhar... tinha uma sombra de algo mais.
— Será mesmo?
Ele pegou o celular e fez uma ligação, falava para deixar a equipe entrar.
Helena respirou fundo. Endireitou os ombros.
A sala de reuniões encheu-se pouco a pouco com homens que Helena só conhecia de nome — e alguns, nem isso. Sócios da FORT GROUP. Executivos de renome. Todos brancos. Alguns mais velhos, outros visivelmente mais jovens, de terno cortado sob medida e relógios que podiam pagar meses de aluguel.
Mas não era isso que intimidava Helena.
Era o peso da atenção deles.
Todos a escutavam. Alguns com expressão técnica, outros com interesse genuíno. Havia ali olhares masculinos, sim — mas o olhar profissional prevaleceu. E foi exatamente isso que fez Helena brilhar.
A manhã inteira foi tomada por projeções, respostas a perguntas difíceis, contrapontos técnicos. Ela manteve a compostura em cada uma. Apontou soluções, sugeriu ajustes e, por fim, ouviu elogios que não vinham com sorrisos condescendentes — vinham com respeito.
Quando a reunião terminou, um dos sócios mais antigos ajeitou os óculos e se inclinou levemente.
— Senhorita Helena… esperamos que este seja apenas o começo.
Helena assentiu com educação. Mas quem tomou a palavra com mais entusiasmo foi Antônio Fortenelle, que já vinha descendo as escadas da sala de reuniões com a arrogância natural de quem está sempre em posição de liderança.
— Vamos almoçar — disse ele, alto. — Convoquei o pessoal. Alguns dos figurões do Rio vão estar lá. Quero apresentar nossa nova conquista.
Olhou para Helena e completou, provocando:
— Quero esfregar esse projeto na cara do meu figurão favorito. — um sorriso diabólico se formou no rosto dele — Sinto que hoje é um bom dia, um excelente dia na verdade.
Helena ergueu uma sobrancelha.
— Favorito?
— Um homem arrogante, sócio de uma empresinha qualquer. Vive nos desprezando, como se estivesse à altura. Mal posso esperar pra ver a cara dele. — Antônio a olhou como se fossem cúmplices — Você vai o detestar também.
Ela sorriu de lado.
— Gosto da sua humildade.
Ele riu.
— Gosto da sua provocação.
Enquanto os executivos se organizavam, Helena pegou o celular e digitou com rapidez:
Mensagem para: Heitor 🥰💖
A parte da manhã foi um sucesso.
Você NUNCA vai acreditar quem era o CEO kkkkk
A resposta chegou segundos depois:
Heitor:
Tô DOIDO pra saber. Não faz isso comigo.
Helena:
Eu vou contar tudo com detalhes… quando eu voltar pra sua casa. 😉
Heitor:
Nossa casa.
Corrigindo aqui rapidinho.
Helena ficou um tempinho encarando aquela frase. Respirou fundo. Sorriu de leve e digitou:
Helena:
❤️
Agora vou almoçar com uns figurões da empresa.
Heitor:
Inveja. Queria estar nas figurinhas com você.
Mas tudo bem… a gente janta junto.
Helena:
Combinado. Bom almoço, CEO.
Ela travou o celular, mas antes que pudesse guardá-lo, ouviu:
— Mandando mensagem pro namorado?
Helena se virou. Antônio estava a poucos passos, mãos nos bolsos do paletó, expressão provocadora.
— Não é da sua conta — respondeu, sem perder o tom.
— Isso só me deixa mais curioso — disse ele, rindo, antes de virar e caminhar na frente.
A equipe começou a descer em direção à garagem. Vários motoristas aguardavam os executivos, mas quando chegaram ao último carro… Helena notou a movimentação hesitante de um assistente.
— O carro da senhorita Helena ainda não chegou — avisou o homem, com voz neutra.
— Tá resolvido — disse Antônio, já abrindo a porta traseira de seu próprio veículo. — Vai comigo.
— Não precisa, eu posso esperar.
— Estamos atrasados. Vai comigo.
— Prefiro pegar um Uber.
Um dos sócios mais antigos reforçou, com tom firme:
— Helena, você é nossa convidada agora. E não apenas isso, somos uma equipe. O carro do Fortenelle é seguro. Vai ser rápido.
Ela olhou de um para outro. Sabia que recusar demais poderia parecer rude. Suspirou.
— Tá certo. Só espero que ele não tente contar vantagem.
— Eu nunca conto vantagem — disse Antônio, entrando. — Eu só deixo claro quando já ganhei.
Helena revirou os olhos, entrou e sentou do outro lado do banco traseiro. O motorista fechou a porta. O vidro fumê isolou o mundo.
Silêncio.
Ela olhava pela janela. Antônio olhava para ela.
— Sabe... — ele disse, depois de alguns minutos — É por isso que eu me esforcei tanto para conversar com você no avião. Tive um pressentimento intrigante sobre você. Deveria ter se apresentado verdadeiramente para mim.
— Que bom que fiz. Eu gosto da minha liberdade.
Ele sorriu.
— Por quanto tempo você acha que vai continuar resistindo?
— Por quanto tempo você acha que isso é charme?
Ele virou o rosto devagar, encostando a cabeça no encosto.
— Você tem coragem, Helena. E coragem é mais rara que beleza nesse mundo.
Antônio não deixava de a observar. Sentado ao lado dela, com o braço apoiado no encosto e a mão sobre o joelho, ele parecia relaxado. Mas os olhos… calculavam. Como se ela fosse um quebra-cabeça que ele ainda não sabia montar.
— Você fala como quem gosta de mandar — ele disse, rompendo o silêncio.
Helena não se virou.
— Eu falo como quem está cansada de homem que acha que já ouviu tudo.
Ele sorriu, discreto.
— Tá me incluindo nessa lista?
— Tô incluindo o mundo inteiro, Fortenelle.
— Mas o mundo inteiro não te deu carona de luxo hoje. — arriscou, o anel no dedo dela, gritava que aquilo não era verdade. E era a oportunidade de descobrir mais.
— Não me faz falta.
Garota esperta.
Ele riu. Um som baixo, quase contido. Antônio não era do tipo expansivo. Era do tipo silencioso e que o olhar que pareciam medir cada centímetro da reação da outra pessoa.
— Sabia que você é uma exceção rara?
— Que ótimo. Sempre sonhei em ser sua exceção.
— Não falo isso pra qualquer uma.
— Claro que não. Deve guardar esse texto pra quando o espelho não responde.
Ele virou o rosto, sorrindo de verdade agora. A cicatriz pareceu mais visível sob a luz que entrava pela janela.
— Você gosta de bater, hein?
— Não. Eu só devolvo. Você que ainda não entendeu. Não conhece limites?
Ele a olhou com mais atenção.
— Tá acostumada com homem que se ofende?
— Não. Tô acostumada com homem que entende que charme sem propósito é só ruído. E hoje eu tô com pouco tempo pra ruído.
Antônio a encarou em silêncio por longos segundos. Depois virou-se devagar para frente, ajeitando o paletó com um puxar elegante dos punhos.
— Você me intriga, Helena.
— É. E você me cansa.
— Mas ainda tá no meu carro.
Ela olhou pra ele pela primeira vez desde que entraram.
— Apenas por educação.
Ele riu mais alto agora, quase surpreso.
— Você é perigosa.
— Só pra quem tenta me dominar.
Antônio se recostou, sem tirar os olhos dela.
— A última vez que uma mulher me respondeu assim… acabou na minha cama.
— A última vez que um homem me disse isso… acabou com um chute no saco.
Ele ficou em silêncio por um instante. Mas não pareceu derrotado. Pelo contrário — parecia ainda mais interessado.
A tensão entre os dois não era romântica. Não era flerte inocente.
Era como dois gladiadores de palavras medindo forças num campo de aço e veludo.
Ele observou a aliança dela, ela com certeza não era uma mulher qualquer, uma mulher qualquer não usaria uma aliança daquelas. O namorado deveria ser rico, a expressão que Antônio fez foi serena, se riqueza era um requisito, ele tinha isso de sobra.
Já fazia um tempo que não se interessava por alguma mulher, todas eram muito fácies e não apenas isso, não estavam à altura da postura e do intelecto dele. Ele precisava observar mais, porém se ele decidisse que a queria, só existia um resultado possível para ela e era se entregar para ele.
Quando o carro finalmente reduziu a velocidade na entrada do restaurante, ele soltou:
— Gosto de jogo duro.
— E eu gosto de vencer.
Antônio abriu a porta do carro, mas antes de sair, a olhou bem mais uma vez. E depois riu. Um riso curto, satisfeito.
O restaurante era elegante, silencioso e cheio de gente importante. Executivos em ternos de corte perfeito conversavam entre taças de vinho e pratos caros.
Heitor estava ali.
Sentado à mesa com homens que mandavam em grandes setores do país. Ele sorria por educação. Comentava com frieza e certeza. Reforçava as alianças e reafirmava pela postura o seu poder.
E mesmo entre aquele jogo empresarial, seus pensamentos só tinham um nome.
Helena.
Ela tinha dito que almoçaria com os “figurões”. Tinha mandado mensagem dizendo que a manhã foi um sucesso. Que contaria tudo “em casa”. Ele segurou um sorriso. Agora eles estão em uma ‘casa’, juntos. Ele estava ansioso para ser recebido por ela e ouvir a voz cantada dela falar sobre o dia.
Foi quando o carro preto parou na porta principal do restaurante.
Ele viu primeiro o homem descer.
Antônio Fortenelle.
E depois, do outro lado do carro, desceu Helena.
A Helena dele.
Fortenelle se posicionou ao lado dela, conversavam e ela fazia aquela cara brava que Heitor conhecia tão bem. Antônio estava levemente inclinado em sua direção.
O sangue de Heitor subiu.
As mãos dele se fecharam com tanta força sobre o guardanapo que os dedos ficaram brancos.
Ele não ouviu mais nada. O mundo sumiu.
Os olhos de Helena encontraram os dele. E ela sorriu.
Mas o olhar dele…já era outro.
Ele se levantou, devagar. Como uma tempestade que se ergue em silêncio.
A cadeira arrastou no chão com um som seco. Todos à mesa viraram-se para ele, mas ele não olhou para ninguém.
Só caminhou, firme, como um animal predador em direção ao perigo.
Quando parou diante deles, sua voz saiu grave, baixa, perigosamente rouca:
— O que significa isso?
Helena travou.
Antônio, por sua vez, deu um passo à frente. A expressão de desprezo moldando cada linha do rosto.
— Ora, ora… se não é o grande Heitor Monteiro. — disse ele, com um sorriso cínico. — Que entrada pouco cordial… principalmente com a nova aquisição da FORT GROUP.
Heitor cuspiu a resposta como veneno:
— Eu quero uma explicação. Agora.
Helena tentou contornar, deu um passo, mas Antônio se adiantou, bloqueando a visão dela de Heitor.
— Vocês se conhecem? — perguntou Antônio, surpreso.
Heitor passou por ele como se ele fosse vento.
Se posicionou ao lado de Helena e falou firme, olhando direto para Fortenelle:
— Essa mulher é minha.
Helena sentiu o estômago revirar. Os olhos dela arregalaram um pouco — não pela posse, mas pelo tom. Ele estava fora de si, bravo, de um jeito que ela nunca viu.
Nenhum dos dois se moveram.
Antônio levantou uma sobrancelha. E então… sorriu largamente.
Um sorriso cínico, provocador e venenoso.
— Então é você o homem de sorte. — disse ele, como quem aprecia a própria ironia. — Devo dizer: sua mulher é inteligente, doce, e tem um jeitinho bravo que… é irresistível.
Foi aí.
Foi nesse momento que Heitor quase perdeu a linha.
O maxilar travado, os olhos azuis congelados em puro ódio, o corpo inteiro tensionado como se lutasse contra a urgência de um soco. O peito subia e descia.
Helena, com o coração disparado, chegou perto.
Encostou a mão no braço dele, e disse baixo — com urgência contida:
— Heitor… por favor. Calma.
Ela notou o jeito que ele apertava a mão. E continuou.
— Eu não sei o que tá acontecendo, mas esse projeto é importante pra mim. Muito. — ela acariciou o braço dele — É o meu trabalho. A minha chance.
Ele olhou pra ela.
O olhar dela pedia equilíbrio. Mas o dele ainda queimava.
A mão dele continuava cerrada, o corpo dele ainda era fúria — mas por ela, ele respirou.
Só uma vez.
E então olhou para Antônio com desprezo.
— Aproveita essa parceria, Fortenelle. Porque é a única coisa sua que vai estar perto dela.
Antônio apenas riu baixo, mas os olhos… estavam escuros de inveja.
Helena se virou para ele.
— Vamos conversar. Agora. Só nós dois.
Heitor assentiu, os olhos ainda faiscando.
Ela o puxou pela mão e o levou para fora, deixando para trás Antônio que observava a cena como se tivesse ganhado um presente do próprio papai Noel… agora sabia exatamente o ponto fraco de Heitor Monteiro. Seu pressentimento estava correto. O dia não podia ser mais perfeito.
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