O CEO que Eu Paguei
126 O que você acabou de dizer?
O sol do meio-dia pesava no asfalto, mas a tensão entre Helena e Heitor era ainda mais quente que qualquer verão carioca. Do lado de fora do restaurante, ela o puxou pela mão até uma lateral reservada do prédio. Longe de olhares. Longe de Fortenelle.
Helena se virou de frente, os olhos castanhos arregalados, a respiração acelerada.
— Heitor… — a voz dela saiu firme. — Você quase causou uma cena no meio de um restaurante lotado de executivos. O que foi aquilo?
Ele engoliu em seco. O olhar dele correu por cada traço do rosto dela, ela parecia preocupada, quase assustada. E Heitor se sentiu um lixo por isso.
Quando finalmente falou, a voz saiu baixa:
— Me desculpa. Eu não queria assustar você. Nem me descontrolar.
Helena cruzou os braços, séria.
— Então fala. O que tá acontecendo? Por que tudo isso?
Heitor respirou fundo, como se precisasse puxar o mundo de volta para o lugar.
— Eu não esperava que você fosse trabalhar com o Antônio Fortenelle. — cuspiu o nome com nojo — Muito menos andar de carro com ele. Conversar com ele como se fossem… próximos.
Helena ergueu uma sobrancelha.
— Próximos? Aquele homem é irritante.
Heitor franziu o rosto. Estava vulnerável demais pra fingir indiferença.
— Eu pensava que o irritante… fosse eu.
Helena piscou, incrédula.
— Você é o MEU irritante. O MEU. Mas o Fortenelle… ele é irritante de verdade.
— Não quero você falando com ele desse jeito. Nem usando os apelidos ou as provocações que você usa comigo. Ele não é eu, Helena.
— Heitor... do que você tá falando?
Ele deu um suspiro profundo, como se o ar abrisse caminho para as palavras:
— Eu e Fortenelle somos inimigos declarados. Desde de quando éramos crianças. Ele tentou sabotar vários contratos da Monteiro. Tentou me prejudicar mais de uma vez. A gente se odeia. E agora você tá… com ele. Nesse projeto.
Ela franziu o cenho.
— Isso não é sobre você. Isso é sobre o meu trabalho. Sobre o que eu tô construindo.
— Você é uma excelente profissional. Eu sei disso! E existem outros lugares e projetos que você pode se destacar bem mais.
Ela o olhava com atenção, como se tivesse receio do que ele poderia dizer a seguir.
— Então abre mão desse projeto. — disparou — Não precisa disso. Não com ele. Você tá comigo agora. Se quiser, você não precisa mais trabalhar. Eu posso cuidar de você.
Helena parou.
Ela deu um passo para trás.
— O que você acabou de dizer?
Heitor sentiu o peso da voz dela. Talvez ele tenha dito algo que ela entendeu errado?
— Eu disse que… você não precisa mais se desgastar assim. Você tá comigo. Se quiser, não precisa trabalhar. Nunca mais.
Helena soltou um riso abafado. Quase nervoso. Os olhos brilhando, não de emoção — mas de decepção.
— Se você me respeitasse de verdade… — a voz dela falhou, mas ela continuou — Se você soubesse quem eu sou, não teria dito isso. Eu não tô com você pra você me bancar, Heitor.
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Mas foi o que saiu.
O olhar dela era carregado de decepção.
— Eu tô com você porque eu te amo. Porque eu te escolho. Mas eu me esforço todos os dias pra ser alguém. E você vem me dizer que, agora que eu tô contigo, eu posso parar?
— Eu só quis…
— Você só quis me podar! — ela cortou. — Só quis me colocar num lugar seguro. Cômodo. Do seu lado. Mas invisível.
— Nunca! Eu só quero o seu bem. Eu adoraria ter você trabalhando comigo na Monteiro Inc.. Não como terceira, mas como dona, ao meu lado.
— Típico! Eu tenho que ter uma extensão de você. E isso?
— Nós somos a extensão um do outro. Isso é um relacionamento. Eu represento você e você me representa.
— Eu não abriria mão da minha carreira, por nada.
— Nem por mim? — ele não aguentou, teve que perguntar.
— Nem por você. — a voz dela fez o peito de Heitor arder.
Ele abaixou a cabeça, decepcionado.
— Eu abriria mão do meu cargo por você.
O olhar de Helena era raivoso, como se fosse um cachorro mordendo o osso.
— Você já tem tudo Heitor. — a frase saiu cuspida, carregada de rancor — É diferente.
— Helena…
Ela levantou a mão rapidamente como se fosse uma barreira.
— Não, Heitor.
Ela virou as costas e saiu andando. Passos rápidos e decididos. Ele a chamou uma vez. Duas.
Ela não respondeu.
Ficou apenas o vazio.
E a respiração dele, pesada e descompassada.
A água escorria pelos dedos quando Heitor lavou as mãos no banheiro do restaurante. Respirou fundo.
Que porra ele tinha acabado de fazer?
Odiava Fortenelle — isso não era novidade. Mas ver a mulher que mais ama saindo de um carro com ele, andando lado a lado… mexeu. Mais do que ele estava preparado. E ele reagiu com raiva.
Lavou o rosto. Não era esse tipo de homem.
Mas hoje… foi.
Se sentia derrotado. Tinha deixado o ódio vencer — e decepcionado Helena. E, no fundo, ela também o decepcionou.
Mas isso não importava mais. O que importava era o que viriam a construir juntos — ou não.
Respirou fundo outra vez.
Relacionamentos reais são assim: dois mundos diferentes tentando se entender. Se machucam no começo. Erram. Ajustam. Aprendem.
Ele sabia disso. Tinha crescido em uma casa onde os pais se escutavam, não lutavam um contra o outro, mas lado a lado.
Era isso que ele queria com Helena.
E, se precisava se desculpar, se explicar, escutar… ele faria.
Porque ele não queria vencer. Ele queria ela.
Se olhou no espelho.
Lembrou de quem era.
Heitor Monteiro.
Homem de palavra. E agora, homem rejeitado.
Secou as mãos, ajeitou a gola da camisa. E voltou.
O salão estava cheio, vozes e taças tilintando, garçons circulando, sorrisos sociais nos rostos importantes. A mesa reservada para os executivos da FORT GROUP e convidados estava montada no centro — um altar corporativo.
Heitor se aproximou devagar. Passos firmes. Postura ereta.
E então, ele a viu.
Helena.
Sentada ao lado de Antônio Fortenelle.
A única mulher a mesa.
Estava lindíssima como sempre, como se brilhasse.
Mas o olhar...
Ferido.
Decepcionado.
Ela não o olhou. Nem uma vez.
E isso doeu mais do que qualquer tapa que ele poderia ter levado.
O pior não era só o silêncio dela.
Era o sorriso de Antônio.
O maldito sorriso satisfeito.
Fortenelle tocou de leve a taça à sua frente e se levantou, batendo levemente com a faca contra o vidro para chamar atenção.
— Meus caros — disse ele, com aquele tom arrastado e polido. — Depois de um espetáculo tão… expressivo na entrada, cortesia do sempre eloquente Heitor Monteiro…
Todos riram. Até alguns tímidos aplaudiram.
Heitor apenas cruzou os braços, firme e impassível.
— ...é com prazer que anuncio a nova parceria entre a FORT GROUP e a Plano & Forma, com quem vamos iniciar um projeto de revisão e reforço dos nossos controles internos em unidades estratégicas.
Ele fez uma pequena pausa dramática e então girou levemente o corpo, apontando para Helena ao lado.
— E liderando esse projeto, está a analista sênior Helena Ribeiro Campos. Uma profissional absolutamente brilhante, como muitos de vocês puderam testemunhar hoje de manhã. Inteligente, técnica, objetiva… e com um temperamento afiado que eu pessoalmente aprendi a admirar.
Mais algumas risadas.
Alguns olhares curiosos.
Heitor lutou com tudo o que estava sentindo. Manteve a expressão congelada. Era o retrato da firmeza.
Antônio sorriu mais um pouco. Sabia o que estava fazendo.
Sabia que aquilo era um golpe emocional em Heitor Monteiro — e estava adorando.
Fortenelle odiava Heitor, desde a primeira vez que o viu quando eram crianças em uma peça da escola. Agora como homens feitos, ele finalmente teria a chance de destruir Heitor Monteiro.
— Helena, quer dizer algumas palavras?
Ela respirou devagar.
Se levantou.
— Claro.
A voz dela saiu limpa, estável e até doce.
— Agradeço pela confiança da FORT GROUP e pela parceria com a Plano & Forma. Esse projeto é um passo importante para trazer mais transparência e eficiência aos processos, e estou orgulhosa de estar à frente disso.
Ela deu uma pausa e então continuou.
— Trabalhamos duro para garantir um escopo funcional, prático e sólido, e acredito que os resultados vão falar por si.
Aplausos. Sorrisos. Alguns brindes.
Mas ela não olhou para Heitor em nenhum momento.
Nem uma vez.
Ele, sentado mais ao fundo, a observava e batia palmas. Mas, com o peito em frangalhos.
Ela tinha dito tudo certo. Tudo lindo. Como ele sempre soube que ela era capaz de fazer. E ele se orgulhava dela. A respeitava como igual, como mulher e como namorada, como ela podia dizer que não?
Helena se sentou de novo, recuando a taça, sem brindar.
Heitor apertou os olhos por um segundo. Depois voltou a encarar Antônio, que mantinha a taça erguida como um rei zombeteiro.
O almoço foi encerrando aos poucos. Taças erguidas, cartões trocados, risos cortados pela digestão de quem sempre mastigou mais poder do que comida.
Heitor se manteve em silêncio, afastado, observando tudo com olhos escurecidos. Helena sorriu com educação para quem a elogiava, agradeceu com leveza… mas nunca o olhou.
Não até ele chamá-la.
A voz dele ecoou baixa, mas intensa:
— Helena.
Ela parou.
Estava ao lado de Antônio, a bolsa discreta no ombro, a postura impecável. Como se o dia não a tivesse abalado.
Ela virou o rosto em sua direção.
Mas não era o olhar de sempre.
Não havia brilho, nem afeto.
Era um olhar vazio, profissional. Magoado. Frio.
Aquilo… feriu Heitor ainda mais.
Mas ele tentou. Ainda assim, tentou.
— Você quer… voltar comigo?
O silêncio entre os dois foi imediato.
Até o ruído dos talheres na mesa ao fundo pareceu cessar por um segundo.
— Eu queria te mostrar a Monteiro Inc. — completou, a voz mais baixa, quase quebrada.
Helena o encarou por alguns segundos.
Ela não era tão boa em disfarçar sentimentos. E naquele momento, estava tentando com todas as forças não o ofender.
— Não, Heitor. Eu ainda tenho coisas pra fazer na FORT GROUP.
Ele piscou e a resposta dela foi como se uma lança atravessasse o peito dele. A dor já era física.
— Você vai voltar com ele?
Helena assentiu. Com firmeza.
Sem hesitação.
— Sim.
Aquilo rasgou Heitor por dentro.
Como um golpe seco no estômago, daqueles que fazem o corpo parar por um segundo antes de desmoronar.
Foi então que Antônio Fortenelle passou o braço pelas costas de Helena, com aquele toque “cordial” e falso que apenas homens perigosos sabem simular com elegância.
— É isso, Monteiro — disse ele, sorrindo com os dentes à mostra — Você sabe como é… negócios.
Heitor cerrou o maxilar. O corpo inteiro tenso.
Mas ele não reagiu. Não explodiu.
Porque ele sabia: se dissesse uma palavra errada, ela nunca mais olharia para ele do mesmo jeito. E as coisas já estão ruins o suficiente.
— Se cuida, Helena. — disse ele por fim, a voz rouca. Quase engolida.
Ela apenas assentiu. Sem sorrir. Sem prometer nada.
Virou-se, empurrando Fortenelle para o lado e caminhou.
Heitor ficou ali.
Sozinho.
O carro preto deslizava em silêncio pelas avenidas do Rio. O motorista mantinha a direção firme, e o único som audível era o sussurro constante do ar-condicionado, preenchendo o espaço com uma calma enganosa.
Helena permanecia imóvel, os olhos fixos na janela como se buscassem respostas no reflexo embaçado do vidro. Por fora, serena. Por dentro… uma tempestade.
A mente dela fervilhava.
Talvez — só talvez — tivesse sido um pouco cruel. Um pouquinho só.
Mas Heitor tocou onde mais doía: no orgulho dela. E isso, ela não deixava passar.
Ainda assim… uma pontada de dúvida atravessou o peito. Será que, sem perceber, ela também havia ferido o dele?
Ela não devia tê-lo tratado daquela forma. Não ali. Não diante de todas aquelas pessoas — e, principalmente, não na frente de Antônio.
Foi Antônio quem a tirou de seus pensamentos.
— Eu não esperava por isso. Então… você namora o Heitor Monteiro.
A voz dele veio baixa, quase casual, como quem fala sobre o tempo.
Mas os olhos… observavam cada reação dela.
Helena respondeu sem virar o rosto:
— Sim.
Seca. Firme. Sem vontade de prolongar o assunto.
Antônio suspirou, encostando o ombro no banco com um ar falsamente reflexivo.
— Ele sempre foi assim, sabia?
Ela franziu levemente o cenho.
— Assim como?
— Estourado. Agressivo. Ele perde o controle fácil. Desde os tempos da escola.
Helena virou o rosto devagar. Os olhos fixos nele.
— Heitor nunca foi violento comigo.
Antônio captou o detalhe.
A fisgada.
Ela defendeu.
E foi aí que ele decidiu mergulhar mais fundo.
— Claro que não foi. — disse ele, com uma expressão gentil. — Ele não é burro. Mas essa raiva toda… esse descontrole? Não é novo. A gente estudou junto. Ele vivia brigando. Era o típico playboy que descontava frustração nos outros.
Helena manteve o olhar fixo.
— Eu duvido disso.
— Você pode duvidar. — respondeu Antônio, calmo. — Mas quer ver uma prova?
Suspirou fundo e de uma forma quase dramática apontou para a cicatriz.
Aquela que cortava o rosto dele, da sobrancelha até a maçã.
— Foi ele. — disse Antônio, encarando-a. — Tínhamos 17 anos. Ele fazia bullying comigo. Eu tentei sair, ele me puxou de volta e me bateu com um objeto de vidro. Dizem que foi um troféu. Tive que levar ponto, cirurgia plástica… e mesmo assim, ficou.
Helena apertou a bolsa no colo, os olhos fixos na cicatriz.
— Foi o Heitor que fez isso?
— Ele não gostava de mim. — disse Antônio, cruzando as pernas com teatralidade. — Eu era popular, me dava bem com as meninas, com os professores. Ele era sempre... sombra. Ranzinza. Tinha raiva de mim. Aquilo cresceu. Até explodir.
— Mas ele nunca me falou disso.
— Claro que não. — respondeu ele, com um riso abafado. — Ele quer ser o homem ideal agora, né? O bom partido. O CEO charmoso. Mas o passado… sempre volta.
A pausa foi teatral.
— Helena, eu só tô te dizendo isso porque você parece uma mulher decente. E… inteligente. Não quero te ver presa numa redoma de vidro com um cara que não mudou de verdade. Um cara violento e tóxico.
Antônio suspirou profundamente.
— Eu não queria me intrometer. Mas você viu a postura dele? Se eu não estivesse lá, ele poderia ter machucado você. Ele estava furioso.
Helena virou o rosto de novo. Olhou pela janela. Mas ficou em silêncio por alguns segundos.
Quando falou, a voz era baixa. Quase como se testasse a si mesma:
— Heitor… não parece esse tipo de pessoa.
Antônio inclinou o corpo para frente.
— Talvez você só não tenha ficado tempo suficiente pra ver.
Silêncio.
Ele voltou a se recostar, vitorioso em seu jogo de veneno bem servido.
Helena continuou quieta, mas por dentro… o coração pesava.
Uma parte dela dizia que aquilo era mentira.
A outra… estava fraturada demais para saber o que era verdade e o que não era.
E Antônio sabia disso.
E nunca foi tão difícil segurar um sorriso.
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