O CEO que Eu Paguei
127 O Primeiro Lugar e o Terceiro
Ano 1995 — Antônio Fortenelle e Heitor Monteiro, 10 anos
O pátio interno da melhor escola do Rio de Janeiro parecia um teatro em miniatura. Filhos de políticos, empresários e banqueiros dividiam as mesmas carteiras de madeira envernizada, sempre impecáveis. Os meninos usavam camisas sociais azul-claro com o brasão bordado, gravatinhas e sapatos engraxados que reluziam no chão de mármore claro. O cheiro de perfume caro misturava-se ao giz.
A sala aplaudia em coro. Mais uma vez, Antônio conquistava o primeiro lugar. Ele ergueu o boletim como se fosse um troféu, mas a vitória tinha gosto metálico — não saciava.
— Segundo lugar, Isabella Frasano. — anunciou a professora.
Isabella caminhou com passos elegantes até a frente. O uniforme dela parecia sempre mais alinhado que o dos outros. Seus cabelos presos em trança cintilavam sob a luz. Ao lado de Antônio, o braço dela encostou de leve no dele. Todos sabiam que ela era apaixonada por ele — inclusive o próprio Antônio. Só que, para ele, Isabella não era suficiente. Ela era o segunda lugar, inaceitável para ele.
Então veio o nome que fez o estômago dele se contrair.
— Terceiro lugar: Heitor Monteiro.
Antônio sentiu ânsia de vômito. O pódio era sagrado. Como aquele moleque, com jeito de que não levava nada a sério, podia estar ali?
Heitor atravessou o corredor central sorrindo como se fosse dono do lugar. O cabelo escuro estava um pouco bagunçado, a gravata frouxa, mas os colegas o olhavam com simpatia. Antônio o observava como se assistisse a uma afronta.
A professora os alinhou, tirou a foto com a Polaroid da escola e liberou a turma para o lanche.
Antônio apertou o boletim contra o peito. Primeiro lugar. E mesmo assim, vazio. Sempre vazio.
Sentiu então uma mão no ombro.
— Parabéns, mano. Tu manda muito bem nas matérias. — a voz era de Heitor.
Antônio cerrou os dentes.
— Eu sei. Primeiro lugar. Agora… terceiro não é grande coisa. — respondeu com frieza.
Heitor o olhou de lado, intrigado.
— Besteira, cara. Top 3! Eu tô a um passo de ficar de fora e a dois do topo. Tipo um gladiador.
Antônio riu, debochado.
— Gladiador? Do que vale um gladiador quando você pode ser rei?
Heitor franziu a testa por um segundo, depois abriu aquele sorriso maroto.
— Nunca ouvi falar de um rei que fosse legal. Mas gladiadores… tem várias histórias maneiras. Eles eram fodas.
Antônio sentiu repulsa. Como alguém podia falar com tanto orgulho de ser apenas… terceiro? Estava pronto para esmagá-lo com palavras afiadas quando um colega gritou da porta:
— Bora, Heitor! As figurinhas!
— Caraca, é mesmo. — Heitor piscou para Antônio como se nada tivesse acontecido. — Depois a gente conversa, cara. — e saiu correndo, deixando o eco dos risos pelo corredor.
Seus amigos o cercaram com elogios, Antônio era o líder natural entre eles. Um dos garotos abriu a mochila e puxou uma bolsa transparente cheia de tazos, a febre do recreio. Seguiram juntos para o pátio ensolarado, onde os coqueiros balançavam levemente com a brisa de setembro. Antônio exibia, com um orgulho, os tazos raros que sua mãe tinha conseguido numa importadora de doces argentinos. Cada peça arrancava suspiros de admiração. Ele sentia-se no trono, e seus súditos o acompanhavam sem hesitar.
Foi então que notou o grupinho de Heitor, um pouco mais afastado. Não estavam brincando com tazos. Antônio, curioso e desconfiado, aproximou-se. Uma roda grande se formava em torno deles.
— O que será que esses aí tão fazendo? — murmurou um dos amigos.
No centro, Heitor distribuía figurinhas de jogadores de futebol como se fossem tesouros. O brilho em seus olhos era evidente; a empolgação, contagiante. Antônio sentiu o canto da boca subir num sorriso de desprezo. Era típico. Heitor só podia gostar de algo tão bruto.
“Futebol. Esporte de gente sem estudo, sem cérebro.”
Ele não resistiu:
— Futebol é coisa de gente que não pensa. — declarou em voz alta.
Ninguém da roda pareceu se importar. Continuaram rindo, comparando jogadores, negociando figurinhas como pequenos empresários mirins. Antônio se irritou com a indiferença.
— Qual a graça de correr atrás de uma bola? — insistiu, mais alto.
Dessa vez, Heitor respondeu sem sequer tirar os olhos das figurinhas que trocava. A voz saiu natural, firme, como se fosse óbvia demais:
— A graça é que quando você marca um gol, parece que o mundo inteiro grita com você.
A frase simples, infantil até, fez alguns garotos da roda assentirem com entusiasmo. Antônio sentiu a raiva crescer. Como alguém podia achar aquilo maior do que conquistar o primeiro lugar da turma?
Alguns garotos da roda pararam de mexer nas figurinhas e encararam Antônio com impaciência. Um deles resmungou:
— Se não gosta, vai brincar de tazo com os teus.
Outro acrescentou, já sem paciência:
— Tá estragando a brincadeira, cara.
Antônio sentiu o sangue subir ao rosto. Ninguém falava com ele daquele jeito. Ninguém. Mas antes que respondesse, foi o próprio Heitor quem levantou a cabeça, o sorriso ainda nos lábios.
— Deixa ele, gente. — disse, calmo. — Antônio só não conhece a magia do futebol ainda.
Alguns riram. Para Antônio, porém, foi como uma bofetada. Ser defendido por Heitor? Como se fosse um pobrezinho ignorante que precisava de piedade? Imperdoável.
A voz dele saiu fria, envenenada:
— Magia? A única magia aqui é você conseguir estudar tão pouco e ainda cair em terceiro. Deve ser porque tua família paga caro pra você não repetir de ano.
O grupo silenciou por um instante. O sorriso de Heitor vacilou, mas não desapareceu. Ele não parecia entender o veneno daquelas palavras.
— Minha mãe diz que eu tenho que estudar mais mesmo. — respondeu, rindo de leve, como se fosse uma conversa comum. — Mas eu não acho ruim ficar em terceiro. Significa que ainda posso melhorar.
A simplicidade da resposta fez alguns garotos voltarem a rir — dessa vez, não de Antônio, mas com Heitor. Aquilo queimou mais do que qualquer provocação.
Antônio sentiu que precisava dizer algo ainda mais duro, esmagar aquele brilho idiota, mas as palavras se embaralharam na garganta. Heitor parecia imune. Não revidava. Não se ofendia. Era como lutar contra alguém que não reconhecia a batalha.
Era então final da tarde. O carro preto importado estacionou diante do portão de ferro forjado da mansão Fortenelle, no Alto da Gávea. O motorista abriu a porta para Antônio, que desceu em silêncio, ainda remoendo a cena do recreio. O pátio da escola, os risos, as figurinhas de futebol — tudo queimava na memória como se fosse uma humilhação.
A casa tinha cheiro de madeira encerada e flores frescas, sempre impecável. O brasão dos Fortenelle, em dourado sobre o mármore branco da entrada, era a primeira coisa que se via ao entrar. Para Antônio, aquele símbolo era tanto um fardo quanto um escudo.
No salão principal, Viviane Fortenelle descia a escadaria com o porte de uma rainha. Alta como uma modelo, cabelos loiros claros em um corte curto, olhos verdes que nada combinavam com a roupa social. Apesar da agenda sobrecarregada, ela sempre achava tempo para receber o filho.
— Meu campeão. — disse com um sorriso caloroso. — Como foi na escola?
Antônio entregou o boletim com discrição, sem entusiasmo.
— Primeiro lugar… como sempre.
Viviane o abraçou, orgulhosa.
— Eu sabia. Você é brilhante.
— Primeiro lugar… — murmurou uma voz do outro lado da sala. — Como se houvesse outro lugar aceitável.
Gregório Borborema se levantava lentamente da poltrona de couro, ajeitando a larga camiseta. Não se aproximou muito, odiava que Antônio visse que era menor que a esposa. Puxava a camiseta para baixo, em uma tentativa falha de cobrir seus quilos a mais. Seus olhos verdes não tinham nenhum brilho. Havia sempre algo azedo em seu tom.
— Ao menos alguém nessa casa mantém a tradição de vencer. — completou, lançando o olhar para Viviane antes de pousá-lo no filho. — Ainda bem que puxou o sangue certo.
Viviane estreitou levemente os olhos, mantendo a postura ereta. Ela detestava quando ele tocava neste assunto. Sua voz, ainda doce, veio firme:
— Gregório. Nosso filho é metade de cada um de nós. E eu não admito que você insinue o contrário.
Gregório levantou as mãos, como quem se defende de uma acusação inexistente.
— Eu não disse nada demais, Vivi. Só que… é bom ver que o menino entende o peso do nome que carrega. “Fortenelle” e não Borborema.
Viviane se aproximou de Antônio e segurou o rosto dele com carinho, sem desviar o olhar do marido.
— O nome que ele carrega é motivo de orgulho. E não é o peso que vai defini-lo, mas a grandeza do que ele escolher ser.
Antônio permaneceu em silêncio, absorvendo cada palavra. Sabia que a mãe o defendia com firmeza, mas também sentia o peso das alfinetadas do pai. Era como se Gregório sempre deixasse claro — sem dizer abertamente — que o filho precisava provar algo.
E Antônio jurava para si mesmo que provaria.
Respirou fundo, como se a pergunta fosse mais difícil do que entregar o boletim.
— Mãe… será que eu posso comprar umas figurinhas de jogadores de futebol?
Viviane abriu um sorriso imediato, surpresa e animada.
— Claro que pode! — disse, ajeitando os cabelos loiros dele com carinho. — Se é isso que você quer, hoje mesmo eu mando o motorista comprar para você. Ou melhor… podemos sair juntos, escolher as melhores. E se você gostar, eu consigo até ingressos para um jogo. Quem sabe você não leva alguns amiguinhos da escola também? Ia ser divertido.
Os olhos de Antônio brilharam por um instante. Ele não se importava tanto com o futebol, na verdade, ele detestava, mas queria provar que podia também brilhar onde Heitor brilhava.
Foi então que a voz grave de Gregório atravessou a sala, lenta e carregada de desdém:
— Figurinhas de futebol? Jogo de bola? Isso é uma perda de tempo. Isso com certeza não é coisa de um Borborema.
Viviane ergueu o queixo, ainda com o sorriso no rosto, mas a voz saiu firme, sem vacilo:
— Gregório, chega. Nosso filho tem direito de fazer o que quiser. E se ele quiser colecionar figurinhas, ele vai colecionar.
Gregório suspirou fundo, ajeitando-se de volta na poltrona.
— Faça como quiser. Mas não espere que eu aplauda.
Viviane voltou-se para Antônio e, ignorando o marido, tocou-lhe o rosto com ternura.
— Você pode gostar do que quiser, meu amor. Não há nada de errado nisso. Meninos da sua idade gostam de futebol. É normal.
Antônio apenas assentiu, sabia que futebol era ridículo. Mas, as figurinhas eram mais emocionantes que os tazos pelo o que percebeu. Então ele precisava ter.
A noite começava a surgir e o carro seguia em direção ao shopping mais sofisticado do Rio, enquanto Antônio, no banco de trás, se esforçava para disfarçar a animação. Viviane sorria com ele, aproveitando cada detalhe da “trilha divertida”: pararam para comprar gelato antes, comentaram das vitrines reluzentes, e até riram juntos quando uma vendedora insistiu em mostrar perfumes importados que Antônio achou “cheiro de velha”.
O destino, no entanto, era a banca de revistas lotada, bem no centro do shopping. Ali, meninos se aglomeravam, disputando figurinhas de futebol como se fossem ouro. Antônio arregalou os olhos, surpreso com a confusão.
Foi quando uma voz conhecida cortou o burburinho:
— Antônio!
Seu corpo travou. Reconheceu de imediato. Heitor vinha saltitando entre os garotos, com o sorriso fácil de sempre.
Antônio sentiu o estômago embrulhar. “Por que sempre ele? Por que precisa aparecer em todo lugar?” pensou, mas não teve tempo de se esquivar.
Viviane, elegante, segurou a mão do filho com firmeza.
— Ora, olhe só quem está aqui. — sorriu, cordial.
Atrás de Heitor, surgiu Celina Monteiro. A mulher que quando andava fazia todos a observar, parecia uma atriz. Seu jeito era radiante, quase magnético. Com certeza uma das mulheres mais bonitas da cidade maravilhosa.
— Vivi! — exclamou, abrindo os braços com um entusiasmo sincero. — Que prazer!
Viviane correspondeu ao abraço, mais contida, mas com a mesma ternura.
— Lili, querida. Sempre um prazer encontrá-la.
Os dois meninos ficaram lado a lado, em silêncio. Antônio com os olhos estreitos, Heitor já sorrindo de orelha a orelha.
— Vem, vamos escolher as figurinhas! — disse Heitor, puxando Antônio pelo braço sem cerimônia.
Antônio, contrariado, deixou-se arrastar, lançando um último olhar de reclamação para a mãe.
As duas mulheres ficaram para trás, observando-os se afastar. Celina inclinou-se um pouco, a voz suave mas carregada de curiosidade genuína:
— E como vai a Fort Group, Vivi? Eu imagino como deve ser… desafiador, às vezes. Você ali, única mulher, no meio daqueles tubarões.
Viviane respirou fundo, mantendo o sorriso elegante.
— É desafiador, sim. Mas eu gosto da pressão. — disse, firme, com aquele brilho característico nos olhos. — Quero deixar a empresa em ordem para o Antônio no futuro. E, no fundo, sinto que só eu poderia fazer isso.
Celina a observou com atenção, quase emocionada. Depois, sorriu, divertida:
— Você é única mesmo. Eu admiro isso em você. Mas olha… não se esqueça de respirar. Até eu, que só cuido de ONGs e eventos, sinto o peso.
Viviane arqueou uma sobrancelha, divertida.
— “Só” ONGs e eventos? Lili, isso é uma teia ainda mais cansativa que a minha.
Celina riu com gosto, os olhos azuis cintilando.
— É exaustivo, eu sei. Mas, Vivi, eu adoro. É o meu palco, entende? Esse vai e vem da alta sociedade carioca… as pessoas, as conexões, os detalhes. É onde eu me sinto viva.
As duas se afastaram alguns passos, deixando os meninos mergulhados na confusão da banca. Celina ajeitou a alça da bolsa Chanel no ombro e suspirou, observando Antônio com um carinho quase maternal.
— Eles cresceram tão rápido… — disse, com um ar nostálgico. — O seu então… é a sua cara, Vivi. Um anjinho. Parece até você quando era pequena.
Viviane sorriu, sincera, os olhos verdes iluminados pela lembrança.
— É verdade. Ele é muito parecido comigo. Não só no rosto. Antônio se esforça para agradar… para estar à altura do que espera a família. Às vezes… até demais.
O sorriso se desfez devagar, substituído por uma sombra de tristeza. Celina percebeu imediatamente — era boa em notar os detalhes, em sentir o que não era dito.
— Vivi… — chamou com doçura, tocando levemente o braço dela. — Aconteceu alguma coisa?
Viviane hesitou. A postura ereta, treinada para nunca vacilar, vacilou por um segundo. Olhou para o filho, como se buscasse coragem, e então murmurou:
— Eu tenho pensado em pedir o divórcio.
O mundo pareceu suspender o ar por um instante. Celina piscou, surpresa, mas manteve a compostura — afinal, eram mulheres acostumadas a segredos e escândalos sussurrados nas colunas sociais. Ainda assim, a sinceridade a atingiu.
— Meu Deus, Vivi… você não fala isso da boca pra fora.
Viviane respirou fundo, a voz baixa, mas firme.
— Gregório não é mais o mesmo. Depois da doença… depois que meu pai o afastou da presidência da empresa… é como se algo nele tivesse quebrado. Ele nunca me bateu. Mas, às vezes, Celina… as palavras dele… doem como se fossem agressões físicas.
Celina levou a mão até a dela, apertando-a com intensidade.
— Eu sinto muito… você não merece isso.
Viviane balançou a cabeça, tentando se recompor, mas os olhos estavam marejados.
— Não é só por mim. O que mais me dói é pensar no Antônio. Eu não quero que o meu filho cresça entre todo esse rancor. Ele é tão bom, tão dedicado. Não quero que nada manche isso.
Celina, intensa, aproximou-se, olhando-a nos olhos.
— Escuta bem o que eu vou te dizer: eu estou do seu lado. Sempre. E se você decidir dar esse passo… eu vou estar lá. E vou garantir que toda essa nossa alta sociedade esteja também. Você sabe que tenho influência. Eu não vou deixar você cair.
Viviane sorriu de leve, agradecida, mas com o coração pesado.
— Obrigada… mas é difícil aceitar que possa acabar assim. Gregório… ele foi o homem mais bonito e cobiçado da alta sociedade carioca. Inteligente, charmoso e carinhoso. Eu me apaixonei de verdade. E agora… somos dois estranhos dentro de casa.
Celina suspirou, os olhos azuis cheios de compaixão, mas também de firmeza.
— Vivi, às vezes, os homens se perdem. Mas não é você quem tem que carregar a ruína dele. Você é forte, brilhante, uma Fortenelle. E o Antônio tem a mãe mais incrível que poderia ter.
Viviane fechou os olhos por um segundo, absorvendo aquelas palavras como quem se aquece ao sol depois de um dia frio. Quando voltou a encarar a amiga, o sorriso estava de volta — pequeno, mas sincero.
— Você sempre sabe o que dizer, Lili.
Celina sorriu, inclinando a cabeça, com aquele charme natural da mulher que sabia se mover como ninguém no labirinto social carioca.
— Não é o que dizer, Vivi. É saber enxergar. E eu enxergo em você a mulher que todos temem e respeitam. Nunca esqueça disso.
As duas ficaram em silêncio por alguns segundos, lado a lado, observando os meninos. O mundo adulto não era fácil, mas isso não importava. Eram os pilares de suas respectivas famílias. Cada uma à sua maneira.
Mais a frente, a banca estava cheia de garotos amontoados, uns sentados no chão, outros equilibrados na ponta dos pés para enxergar as novidades. O cheiro de chiclete e plástico novo se misturava ao barulho de pacotinhos sendo rasgados com ansiedade.
Heitor puxava Antônio pela manga da camisa, arrastando-o até a frente do balcão.
— Bora, Antônio! Compra logo, senão vão pegar tudo que é raro.
Antônio olhava em volta, meio incomodado. A agitação parecia desordenada, caótica demais para o seu gosto. Ainda assim, comprou alguns pacotinhos. Rasgou o primeiro com cuidado, diferente dos outros garotos que mal esperavam para ver o que vinha dentro.
E então, brilhou diante dos olhos: um jogador raro, daqueles que todos comentavam, difícil de encontrar. Os meninos ao redor arregalaram os olhos.
— Caraca! — gritou um deles. — Você tirou o Romário especial!
Heitor bateu palmas, animado.
— Que irado, Antônio! Tá vendo? A gente dá sorte quando abre junto. Essa aí vale um montão de trocas. Ninguém que conheço tirou essa.
Antônio sentiu o peito inflar. Finalmente, algo que o colocava acima. Ergueu a figurinha como um troféu, olhando em volta com ar vitorioso.
— É claro que eu tirei. Essas coisas acontecem comigo. Sempre fui diferente dos outros.
Esperava que os meninos o olhassem com admiração, mas muitos já estavam de volta aos próprios pacotinhos. E Heitor apenas o olhou gentileza.
— Então guarda bem essa, cara. Vai ser legal ter no álbum. — disse, voltando a mexer nas próprias figurinhas, como se não houvesse nada de extraordinário em Antônio se destacar.
Aquilo queimou como ferro em brasa. Antônio queria ver inveja nos olhos dele, queria ver frustração, mas só encontrou uma alegria simples, quase irritante de tão sincera.
A raiva cresceu dentro dele. Como Heitor podia ser tão… indiferente à grandeza? Como podia sorrir como se fossem iguais?
Antônio apertou a figurinha entre os dedos, jurando para si mesmo que, um dia, faria questão de esmagar aquele sorriso.
Era noite. O lustre de cristal refletia a luz amarela sobre a mesa de jacarandá maciça. A sala era um retrato da elite carioca: tapeçaria persa no chão, quadros assinados nas paredes, arranjos de flores frescas em vasos de prata. No ar, misturava-se o cheiro das flores com o forte aroma de charuto que ainda vinha da varanda, onde Renato Monteiro gostava de passar as tardes.
Mas agora todos estavam reunidos ao redor do tabuleiro de Jogo Imobiliário, espalhando notas coloridas e pequenas casas verdes por toda a mesa.
— Caiu em Copacabana. — anunciou Celina, com a elegância de sempre, loira impecável, cruzando as pernas com naturalidade. — E adivinha, meu amor? Hotel meu.
Heitor bateu a palma da mão na testa, dramático.
— Ah não! Você comprou tudo, mãe. Assim não dá pra jogar.
Renato, de camisa social clara e mangas dobradas, riu baixo.
— É sempre assim, filho. Se sua mãe entra em um jogo, pode se preparar: ela leva tudo.
Maria, a avó, gargalhou, batendo as mãos cheias de anéis na mesa.
— Sempre foi desse jeito. Desde menina, a Celina passava a perna no seu pai nos jogos.
— Eu não passava perna, dona Maria. — respondeu Celina, sorrindo, divertida. — Eu só era rápida.
— Rápida? — Afonso ergueu a sobrancelha, com a voz grave. — Você sempre trapaceou.
— Afonso! — Maria fingiu indignação, mas inclinou-se para o marido, tocando-lhe a mão com carinho. — Você só não aguenta perder.
Ele manteve a carranca por alguns segundos, mas logo o olhar derreteu. Era sempre assim. O patriarca podia ser duro com o mundo, mas diante da mulher, se entregava.
Heitor riu alto, levantando os olhos azuis.
— Ih, olha lá, começou a melação…
Maria agarrou o neto de surpresa, enchendo-lhe o rosto de beijos.
— Vai reclamar não, meu príncipe. Beijo de vó vale ouro.
— Vóóó, paraaa! — ele se debatia, mas ria junto, o cabelo preto já bagunçado.
Celina olhava a cena com um sorriso satisfeito. Aquela era a verdadeira riqueza: a família reunida, entre gargalhadas e provocações.
Renato, mais calado, pigarreou.
— Falando em família… fiquei sabendo que o Paulo Medeiros está apaixonado.
Celina arregalou os olhos, surpresa.
— Não! O Paulo? Ele? — levou a mão à boca, rindo. — Eu nunca o vi com mulher nenhuma.
Maria se adiantou, curiosa como sempre.
— E quem é a santa que conseguiu isso?
— Não sei. — Renato respondeu, contido. — Só me disse que não é daqui.
Celina, pensativa, apoiou o queixo na mão.
— Se ela não é daqui, deve ser difícil se enturmar. Eu posso ajudar. Aliás, a gente devia sair juntos, fazer um jantar de casais.
Renato sorriu, orgulhoso dela.
— Ótima ideia. Você sempre sabe como receber as pessoas.
— Mais jantares intermináveis… — resmungou Afonso.
Maria não perdeu tempo.
— Interminável é você, Afonso. — e piscou, arrancando risos de todos quando ele, derrotado, cedeu ao sorriso.
Heitor aproveitou para intervir, impaciente:
— Vocês só falam de namoro, casamento, essas coisas… que saco.
Celina inclinou-se, divertida.
— É que eu fico curiosa, sabia? Quero ver que tipo de menina vai conquistar você.
— Nenhuma. — Heitor cruzou os braços. — As meninas não são divertidas.
Renato, tímido ao falar do assunto, se adiantou.
— Olha, filho, um dia você vai entender. Um homem tem que cuidar bem da mulher que escolhe. A mulher é a coroa do homem, tem que ser escolhida com cuidado e ser bem cuidada.
Heitor fez cara de nojo.
— Mas vocês se beijam na boca… isso é esquisito.
Maria gargalhou.
— É porque quando um homem e uma mulher se amam, eles se beijam, meu querido.
— Isso nunca vai acontecer comigo. — Heitor insistiu, rindo.
Celina, com aquele humor refinado, comentou:
— Ia ser poético se você se apaixonasse por uma Helena.
Renato ergueu o olhar, interessado.
— Não confunda, Lili. Quem se apaixonou por Helena foi Pares. O Heitor era outro.
O garoto arregalou os olhos, curioso.
— E o que o Heitor fazia?
Afonso, com voz grave, respondeu com solenidade:
— Ele era o príncipe de Tróia. Um guerreiro honrado, abençoado pelo deus da guerra. O maior herói da cidade. Mas o meio-irmão, Pares, trouxe a desgraça… e a guerra começou.
Heitor bateu as mãos na mesa, os olhos brilhando.
— Eu ia adorar lutar numa guerra.
Renato passou a mão no cabelo do filho, rindo baixo.
— Melhor não, filhão. Guerras de verdade não são como as histórias.
Maria piscou para Celina.
— Aposto que, quando chegar a hora, a guerra dele vai ser por causa de uma menina. E vai ser como se fosse a guerra de Tróia.
Celina ergueu a taça de vinho, elegante.
— E eu vou adorar conhecer essa futura nora, motivo de tanto alvoroço. Vou levá-la a jantares, viagens, eventos… se ela se der bem comigo, vai se dar bem com a família inteira.
— Vai sim. — completou Maria. — A régua para uma “futura senhora monteiro” é bem alta, mas os homens dessa família sabem escolher bem.
Heitor escondeu o rosto com as mãos, rindo sem jeito.
— Aff… vocês já tão planejando minha vida.
E a sala inteira explodiu em risadas.
Era uma noite de quinta-feira normal para eles, os Monteiro eram a elite carioca — poderosos, refinados — mas, acima de tudo, uma família unida e feliz.
A casa estava mergulhada no silêncio da madrugada. Nenhum ruído, a não ser o tique-taque distante do relógio antigo na sala de jantar. Heitor caminhava descalço, a manta sobre os ombros, a lanterna na mão. O frio do chão de mármore subia pelos pés, mas ele não se importava. Era como se estivesse em uma aventura secreta.
Abriu a porta lateral devagar, sentindo a maçaneta gelada. A noite carioca estava fresca, úmida. A grama fazia cócegas em seus pés, e ele quase riu — mas se segurou, mordendo o lábio.
Seguiu até a primeira árvore grande do jardim. Galhos secos espalhados pelo chão denunciavam a ausência do jardineiro. Heitor os recolheu com rapidez, equilibrando-os até formar uma cabana improvisada. O abrigo mal o cobria, mas para ele era suficiente: um reino só seu.
Sentou-se na grama úmida, puxou a mochila e tirou o álbum de figurinhas e um maço grosso de repetidas. Ajeitou tudo no colo, a lanterna apoiada de lado iluminando seu rosto. Separava as figurinhas uma a uma, mordendo a língua em concentração.
— Essas vão pro Antônio. — murmurava. — Ele não tem quase nada. Se começar com um monte, fica mais fácil.
O barulho foi repentino: a manta foi arrancada de cima dele, e um galho desabou sobre seu ombro. Heitor deu um pulo, os olhos arregalados.
— Heitor? — a voz grave de Renato cortou o silêncio.
O menino respirou fundo, reconhecendo o pai, e assentiu em silêncio.
Renato suspirou, cruzando os braços. A figura dele contra a luz da lua parecia ainda maior, imponente.
— Você quase me matou do coração, garoto. Que diabos faz aqui, a essa hora?
Heitor abaixou os olhos, sem graça.
— Tava separando umas figurinhas.
Por um instante, o silêncio pesou. Depois, ao invés de repreender, Renato sentou-se na grama ao lado dele. O terno de linho amassou, a barra da calça molhou, mas ele não se importou. Ficaram lado a lado, olhando a lua por entre as copas escuras.
— Figurinhas? — repetiu, mais calmo.
Heitor fez que sim, tímido.
— Tô juntando um monte pro Antônio. Ele não tem quase nada… começar é sempre difícil. Se eu der algumas, ele vai ter mais chance de completar também.
Renato o encarou em silêncio, absorvendo. Nos olhos azuis do filho havia uma seriedade rara e infantil. Não se parecia em nada com um tubarão que deveria dominar a Monteiro Inc. no futuro. E Renato não sabia ao certo se era bom sinal ou não.
— Sabe, Heitor… — disse devagar, a voz baixa. — A vida é como esse álbum. Cada pessoa tenta completar o seu. Tem gente que pensa só no próprio.
Apontou para as figurinhas separadas.
— Mas alguns entendem que dividir pode fazer todo o jogo valer a pena.
O menino franziu a testa.
— Mas o que acontece com quem completa primeiro?
Renato sorriu de lado, bagunçando o cabelo do filho.
— Ser o primeiro não é o que faz de alguém grande. O que faz diferença é a forma como você caminha… e como as pessoas olham pra você quando chega ao fim.
Heitor ficou pensativo.
— Isso é sobre figurinhas?
— É sobre nós — Renato olhou para o céu estrelado.
Heitor encostou a cabeça no braço do pai. Ele ainda era pequeno, mas não mais tanto quanto antes.
Renato olhou para a casa, onde sabia que o pai dormia — rígido, implacável.
— Sabe filho… Nós, os Monteiros acreditamos na união, principalmente entre a família. Nada é mais importante que a família. Eu nunca abria mão de você e da sua mãe. Vocês são meus bens mais preciosos.
O garoto olhou para seu pai, os olhos brilhando como só um menino de dez anos podia brilhar.
— Eu quero ser como você, pai. Eu também quero cuidar da minha família.
Renato sentiu um aperto no peito, mas não deixou transparecer. Apenas colocou a mão firme sobre o ombro do filho.
— E eu quero que seja maior do que eu. Porque um dia, Heitor, a Monteiro vai ser sua. E depois vai ser dos seus filhos e dos filhos dos seus filhos. É um legado. Lembra quando eu disse que um homem tem que ter fibra? É o que é preciso para carregar um legado.
A lua refletia nos olhos do menino, e por um instante parecia que ele realmente entendia.
— Eu vou ter fibra pai. Vou cuidar de todo mundo. — disse, sério, como quem faz um juramento.
Renato sorriu, puxando-o para um abraço forte.
— Não precisa ser de todos. Mas, cuide bem daqueles que ama. Defenda. É isso que significa ser um homem. Ser um Monteiro.
Levantou-se, oferecendo a mão.
— Vamos, filhão. Antes que sua mãe acorde e descubra que estamos escondidos no jardim.
Heitor segurou a risada e pegou a mão do pai.
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