O CEO que Eu Paguei
128 O Dia em que Viramos Inimigos
Ano 2002 — Antônio Fortenelle e Heitor Monteiro, 17 anos
Era uma tarde quente de primavera na Zona Sul.
Dessas em que o uniforme gruda na pele e o sol bate dourado entre os prédios altos com vista para o mar.
O pátio da escola fervilhava com vozes, risadas, perfumes luxuosos, cabelos da moda e mochilas de marcas internacionais.
Era a elite carioca, em sua forma mais crua — jovens bonitos, ricos, preparados para herdar cargos, empresas e sobrenomes.
E entre eles, no centro, estava Antônio Fortenelle.
— Fortenelle! — alguém chamou — Vai ter assembleia do grêmio hoje?
Ele sorriu, rápido.
— Vai. Mas só se vocês prometerem que vão votar direito dessa vez.
As garotas riram. Uma delas se aproximou demais. Outra elogiou o perfume. Uma terceira perguntou se ele ia à festa de sábado.
Era sempre assim. Antônio sabia que era querido. Sabia que era visto. Sabia que era desejado.
E mesmo assim… se sentia só.
Tinha tudo.
Dinheiro. Prestígio. Notas altas. Aparência. Reconhecimento.
Mas, nada aquilo parecia o bastante, nada o preenchia.
Naquela mesma tarde, Antônio estava sentado em um dos bancos de concreto perto do campo.
As folhas das árvores tremulavam com o vento, o calor pesava nos ombros e o som da bola quicando na grama batia em sua nuca feito provocação.
Do outro lado da quadra, Heitor Monteiro comandava o treino do time de futebol.
Ele estava todo suado, dando instruções e brincando com os colegas. Os anos chutando aquele pedaço borracha o fizeram se destacar de uma forma anormal. Ele estava jogando bem, estava sempre treinando nos intervalos dos intensivos para o vestibular.
Até os professores ficavam por ali assistindo, com aquele orgulho que deveria — deveria — ser reservado ao aluno perfeito. Mas não era. Nunca era.
Antônio já havia tentado entrar nos esportes, não parecia ser tão difícil se Heitor conseguia. Achou o esporte algo bárbaro demais, nada prestigioso. Na verdade, Antônio não queria fazer nada que já não fosse bom, não estava disposto a começar sendo menos que os outros.
— Fortenelle — chamou uma voz doce atrás dele.
Livia.
A capitã do time feminino de vôlei. Alta, determinada e linda. Tinha um corpo que chamava atenção até de quem não queria olhar — mas Antônio olhava.
Ela se sentou ao lado dele. Soltou um sorriso, todos os dias Antônio estava ali encarando Heitor. Mesmo nunca admitindo.
— Porque você e o Monteiro… não tentam ser amigos?
Ele sorriu, como quem segura o próprio veneno na garganta.
— Talvez o problema seja que… o mundo não foi feito pra dois reis no mesmo trono.
Ela riu. Achou que era brincadeira. Mas ele estava falando sério.
Porque o que Livia, e todos os outros, não sabiam…
era que a inveja de Antônio era tão grande que parecia um segundo coração.
Um que batia forte quando via Heitor sorrir.
Quando ouvia o nome dele dito com admiração.
Quando percebia que, mesmo sendo impecável… nunca era o suficiente.
Diziam que ninguém podia mandar no coração, ele quem escolheu odiar Heitor. Algo decidido pelo pelo destino.
À noite, deitado no quarto escuro, o ar-condicionado soprava um frio que não alcançava por dentro.
Antônio encarava o teto como quem encara um inimigo invisível.
Antônio fechou os olhos e pela primeira vez, deixou escapar um pensamento que o assustou de verdade:
“Se Heitor sumisse do planeta, talvez… só talvez… eu finalmente me sentiria satisfeito.”
Mas ele ainda era jovem demais pra entender o que aquilo significava.
Jovem demais pra perceber que Heitor não era o problema.
Nunca foi.
O problema era aquele buraco fundo e silencioso dentro dele.
Aquela parte vazia que ninguém via — e que nenhuma vitória preenchia.
E o pior de tudo…
É que, no fundo, bem no fundo, ele sabia.
Os dias seguiram normalmente. Antônio acordava antes dos outros.
Corria antes do sol nascer. Estudava antes da aula. Organizou sozinho o mural da sala, os treinos do time, a planilha do grêmio, o transporte da equipe e até a cotação dos uniformes. Virou referência. O garoto que resolvia.
"É o tipo de homem que vai longe", ouviu um professor dizer.
Mas isso não bastava.
Porque bastar… implicava preencher. E nada preenchia.
Nas reuniões do grêmio, ele anotava tudo — até o que não precisava. Sabia cada data, cada nome, cada função. Era ele quem deixava os outros tranquilos. Eles confiavam. Admiravam. E isso o matava, porque era admiração sem adoração.
— Antônio, parabéns pela organização. O diretor elogiou.
— Antônio, sem você, esse colégio desmoronava.
Ele sorria por fora, apenas por fora.
POV Antônio Fontenelle, 17 anos.
Naquele dia, a sala do grêmio estava uma zona.
Pastas abertas, formulários pela metade, papéis da federação empilhados de qualquer jeito.
E eu?
Sozinho. Como sempre. Tentando salvar o que os outros esqueciam de fazer. Eram uns inúteis, eu sempre soube.
O campeonato nacional estudantil era na próxima semana.
O prazo de entrega das fichas terminava às seis.
E ainda faltava o time de vôlei feminino.
“Deixo na sua mão hoje, Fortenelle. Juro.” Foi o que ela me disse mais cedo.
Olhei pro relógio: 17h16.
Ninguém à vista.
Suspirei.
Larguei a caneta, me levantei, ajeitei a prancheta embaixo do braço.
A escola estava silenciosa, fim de tarde abafado.
A quadra externa vazia — o treino do time de futebol já tinha acabado.
Vi um tênis esquecido perto do banco, uma bola largada no canto.
Eram uns animais esses atletas.
Foi aí que vi a porta da sala de materiais entreaberta.
Luz acesa. Silêncio.
Dei um passo animado.
Talvez ela estivesse lá, terminando os papéis.
Talvez fosse só isso.
Ela era mesmo uma das meninas mais bonitas da escola.
Mas não era só isso.
Ela era determinada, forte e doce.
Tinha aquela voz baixa que fazia tudo parecer mais leve.
A forma como ela falava meu nome… me dava esperança.
E naquele momento, quando caminhei em direção à sala, ajeitei minha gravata e mesmo com a cabeça cheia…
eu me permiti sorrir.
Só por um instante.
Pensei em chamá-la pra sair depois do campeonato.
Levá-la pra conhecer meus pais.
Imaginava o orgulho da minha mãe.
Imaginava… ela, ao meu lado.
Mas quando empurrei a porta da sala de materiais…eu os vi.
Ali, dentro da sala, estavam ela e o maldito Heitor.
— Eu queria falar com você. Sério. — ela disse.
— Fala.
Ela olhou para o chão. Depois para ele. E foi direto:
— Eu gosto de você, Heitor. Já faz um tempo. Você me faz rir, me faz pensar. Me desconcerta.
Engoliu em seco, mas continuou.
— Eu tentei evitar, tentei dizer pra mim mesma que meu foco era outro. Mas… Eu queria te dar uma chance. A gente poderia tentar. Ser algo. Sabe?
Ela estava nervosa. Mas firme.
Era sincera.
Heitor não sorriu.
Também não pareceu chocado.
Apenas respirou fundo e… ficou em silêncio por alguns segundos.
— Lívia…
Ela mordeu o lábio. Quase como se esperasse a resposta antes mesmo de ouvi-la.
— Você é incrível. É linda, é inteligente, é alguém que eu admiro de verdade. Mas eu não posso te dar isso. Não agora. Talvez nunca.
Ela arregalou os olhos, tentando disfarçar o impacto.
— Eu pensei que… — a voz falhou.
— Eu gosto de você, sim. Mas não do jeito que você merece que alguém goste.
Eu sou intenso demais pra fingir. E você não merece metades.
O silêncio entre os dois foi dolorido e desconfortável.
Mas respeitoso.
Heitor deu um passo à frente.
Tocou de leve a mão dela e depois a envolveu na sua que já não era tão pequena.
— Obrigado por me dizer. De verdade. Mas… eu não posso. Não seria justo.
Ela engoliu seco. Quase sorriu. Mas os olhos estavam marejados.
— Você é mesmo um problema, Monteiro — ela disse, com a voz embargada.
Ele riu, triste.
— Eu sou.
Ela se aproximou com intenção de o abraçar.
A raiva veio seca, direto do estômago.
Mas não gritei.
Não entrei em cena.
Bati a porta com força.
A pancada fez os dois se virarem na hora.
— Antônio?! — Lívia tentou se ajeitar, o rosto em pânico.
Heitor me olhou.
Sério.
Não tinha deboche.
Só aquela expressão tranquila de quem foi pego, mas não devia nada.
— E aí, Fortenelle — disse, simplesmente.
Não riu.
Não fingiu intimidade.
Não pediu desculpas.
Mas também não escondeu.
Eu fiquei parado por um segundo.
Depois, fui direto à mesa.
— Os formulários — falei, olhando só pro papel.
Lívia estendeu os documentos, ainda sem conseguir encarar meus olhos.
Peguei sem dizer nada.
Não olhei pra ela.
Muito menos pra ele.
Saí da sala com a porta batendo atrás de mim, e o som ecoou como se fosse dentro do meu peito.
O corredor estava vazio, mas parecia lotado de fantasmas.
O sol já não queimava como antes, mas o calor grudava na pele, misturado ao suor, à raiva e à vergonha.
Eu andava devagar, cada passo pesado, como se arrastasse correntes. A prancheta tremia na minha mão, os documentos dobrados suavam junto comigo. Mas nada queimava mais do que a cena que ainda pulsava na minha cabeça.
A voz dela.
A coragem dela.
A maldita maneira como ele a olhou.
Não com deboche. Não com arrogância.
Mas com aquela calma insuportável de quem parece sempre no controle.
De quem não precisa se esforçar para ser desejado.
E eu?
Eu que estava sempre lá.
Sempre pronto. Sempre impecável. Sempre disponível.
Eu era o seguro, o confiável, o previsível.
E nunca… nunca o escolhido.
Cheguei à sala do grêmio, fechei a porta com cuidado — como quem fecha um caixão — e me sentei.
A papelada estava toda espalhada na mesa, mas meus olhos foram direto para a lista.
Passei os dedos pelos nomes como quem percorre uma ferida.
E então encontrei o dele.
HEITOR MONTEIRO.
As letras pareciam me encarar, como se zombassem de mim.
Respirei fundo. Peguei a caneta.
E parei.
Eu sabia o que significava.
Sabia o que custava.
Sabia que aquilo não era só um risco num papel — era um risco em mim mesmo.
Mas por dentro, alguma coisa já estava rasgada há muito tempo.
Talvez desde o dia em que percebi que nada que eu fazia era suficiente.
Talvez desde que descobri que não adiantava ser perfeito.
Pensei nele.
E pensei em mim, sempre o segundo plano de uma história que eu mesmo escrevia.
“Só dessa vez”, eu disse a mim mesmo.
“Só pra ele saber como é. Só pra ele sentir.”
E então fiz.
Dobrei a inscrição dele e guardei na mochila.
Coloquei os formulários em cada pacote de envelope devagar e depois assinei com calma, caligrafia perfeita..
Entreguei na coordenação sem tremer, sem hesitar.
Quando voltei para o grêmio, me sentei sozinho.
O silêncio era tão denso que parecia me esmagar.
Olhei para o chão por longos minutos.
Não chorei.
Não sorri.
Só fiquei vazio.
Mas, pela primeira vez, tive a sensação de que o mundo não girava em torno dele.
Girava em torno da minha decisão.
Do meu poder.
E aquilo… aquilo foi …ótimo.
Mas, não durou muito tempo.
O ventilador fazia um zumbido contínuo no canto do quarto. Girava devagar, como se também estivesse cansado demais pra funcionar direito.
O lençol me cobria até o peito, mas o calor parecia vir de dentro.
Eu não conseguia dormir.
Fechava os olhos. E via em loop o que eu fiz.
O envelope já estava com o carimbo da escola.
Na pilha de saída da coordenação.
Amanhã cedo, ia pro correio.
E dali… pra federação nacional.
“Você fez isso. E ninguém viu. Ninguém suspeitou.”
Virei pro lado.
O lençol grudava na pele. O travesseiro parecia cheio de areia.
Tentei pensar em outra coisa.
Na aula de história. No simulado de segunda.
Na próxima partida do time de vôlei.
Na Lívia.
Merda.
Lívia.
O gosto da raiva ainda estava ali.
Mas agora… misturado com algo pior.
Culpa.
Porque por mais que eu odiasse Heitor…
por mais que ver ele sendo barrado me parecesse, por um segundo, justiça…
eu sabia.
Aquele era o último campeonato do ano. Nosso terceiro ano. O fim da linha.
Se ele não jogasse agora, não jogaria mais.
Eu tirei isso dele.
Respirei fundo.
Senti o travesseiro úmido de suor.
Me sentei na cama.
O quarto estava escuro.
Só a luz da rua filtrando pela persiana e desenhando riscos na parede.
Passei a mão no rosto.
O silêncio gritava.
O tempo todo, eu disse a mim mesmo que ele merecia.
Que alguém precisava fazê-lo cair.
Que eu estava apenas equilibrando as coisas.
Mas agora, deitado aqui…
sozinho…
não parecia equilíbrio.
Parecia covardia.
Lembrei da primeira vez que vi Heitor jogar.
A quadra lotada.
Ele gritando com o time, vibrando.
Correndo como se o corpo inteiro fosse feito pra aquilo.
Eu nunca fui como ele.
E nunca seria.
Mas talvez… talvez eu não precisasse ter sido tão baixo.
“Dá pra resolver.”
A frase apareceu de repente.
Quase como um sussurro.
“Se eu for cedo pra escola, falo com a coordenadora. Peço pra refazer a inscrição. Digo que houve erro. Que faltou um nome.”
O coração acelerou.
Me levantei da cama.
Fui até a escrivaninha.
A luz do abajur clareou os livros, os papéis da escola, a medalha do torneio de xadrez do semestre passado.
Fiquei ali, parado, com a mão tremendo levemente.
Eu podia resolver.
Podia corrigir.
Amanhã.
A ficha ainda não foi enviada.
O envelope ainda não saiu.
“Amanhã eu conserto tudo.”
Mas a verdade, lá no fundo,
era que eu não sabia se tinha coragem de desfazer.
Porque se eu desfizesse…
era como admitir que errei.
Que eu fui pequeno.
Que eu agi por dor.
E ainda doía.
Deitei de novo.
A cabeça afundou no travesseiro, mas o sono… não veio.
Fechei os olhos.
E vi, de novo, o espaço em branco onde o nome dele deveria estar.
Naquela madrugada abafada…
eu odiei Heitor Monteiro.
Mas odiei mais ainda a parte de mim que quis apagar alguém pra finalmente existir.
POV Heitor Monteiro, 17 anos.
Eu estava rodando a camisa do time nos mãos ali no fundo no busão..
— QUEM NÃO PULAR, É O JUIZ FILHO DA…
— ÔÔÔÔÔÔÔÔ! — o coro respondeu antes que eu terminasse.
A gente pulava tanto que o ônibus balançava. O motorista pediu pra maneirar, mas era só ele virar o rosto que alguém já começava outro grito de guerra.
— TÁ DOMINADO, TÁ TUDO DOMINADO!
Eu ria com gosto. Gargalhava alto, sem vergonha de nada. Meus moleques estavam ali. O time estava afiado. A final era nossa. Nada podia dar errado.
Vitor estava do meu lado, com o boné virado pra trás, cantando alto. Vicente inventava funk com o nome dos adversários. E Guilherme tava filmando tudo com uma filmadora minúscula, daquelas moderninhas, que o pai tinha trazido de Miami.
A gente era rico, mimado e inconsequente — mas a gente também era bom.
Treinamos pra caralho.
Organizamos tudo.
Eu montei os treinos extras, convenci o técnico a mudar a formação, botei ordem no ataque.
Não era só bagunça.
Era amor por aquilo. Era a última chance. Terceiro ano. Se a gente ganhasse, nossos nomes iam ficar marcados naquela escola.
Eu botei os pés no banco da frente, abri um pacote de balas, joguei umas no Vitor, e ele revidou com um tapa na minha perna. Gargalhei ainda mais alto.
— Monteiro, quando a gente voltar com o troféu, vai mandar fazer tatuagem? — alguém gritou lá da frente.
— O nome do time nas costas e da minha mãe no peito! — respondi, abrindo os braços. Todo mundo gritou.
E no meio daquela bagunça toda, vi ele.
Antônio Fortenelle.
Sentado sozinho, três fileiras à frente, encostado na janela. Fones no ouvido. Cabeça meio virada. Parecia… distante.
Aquele cara era estranho.
Sempre foi.
Era inteligente, organizado, prestativo. Fazia tudo certo. Mas era como se tudo que ele fizesse… ficasse invisível quando eu estava por perto. Eu percebia. Não era burro. Mas também nunca soube como mudar isso.
Eu nunca fui contra ele. Mesmo quando ele me olhava torto. Mesmo quando mandava umas alfinetadas sem motivo.
Nunca entendi por que ele me odiava tanto.
Apontei pra ele.
— Fortenelle! Já mandou avisar os gringos lá da final que o Rio tá chegando?
Ele olhou. Sem rir.
Fez um joinha seco e voltou a olhar pra janela.
Estranho.
Mais estranho do que o normal.
Mas dane-se.
A final era daqui a pouco. A gente ia chegar, descer do ônibus com estilo, dominar o estádio e ganhar.
Depois ia ter festa. Medalha. Camisa assinada.
Memória pra sempre.
Eu me virei pro fundo do ônibus, bati nas costas dos meus moleques e gritei:
— VAMO CARALHO!
E o ônibus explodiu outra vez e foi assim durante todo o trajeto.
O ônibus mal tinha parado e a galera já estava pulando pra fora. O sol batia forte no rosto, a arquibancada ao fundo já começava a encher, e eu…
Eu sentia que aquele dia era nosso.
Me vesti no ônibus, estava ansioso. Treinei tanto para esse dia, ano passado chegamos tão perto,agora eu tinha certeza que iríamos conseguir.
Olhei a faixa de capitão pendurada no braço. Aqueles manés contavam comigo e eu contava com eles.
— Monteiro! — o técnico me chamou antes que eu alcançasse o grupo. A voz dele era firme, mas com aquele tom… diferente. Como se segurasse uma notícia grande demais pra entregar de uma vez.
Me aproximei, ainda ofegante da empolgação, o sorriso quase abrindo sozinho.
— Fala, professor.
Ele olhou ao redor. Se certificou de que ninguém ouvia.
Depois me encarou, sério.
— Tem um olheiro do Flamengo ali na arquibancada. Da base sub-20.
Eu arregalei os olhos.
— Tá brincando…
— Não. E ele veio por sua causa.
Foi como um soco no estômago — mas do tipo bom. Que te tira o ar e te faz rir ao mesmo tempo. Eu senti o sangue ferver nas veias. Meus dedos formigaram. As pernas quase bambearam.
— Ele viu suas estatísticas. Alguém da comissão mandou os vídeos dos jogos anteriores. Disse que nunca viu alguém da sua idade chutar de canhota com tanta precisão.
Meu coração disparou.
Eu nem conseguia responder. Só olhava pro campo… e depois de novo pro técnico… como se aquilo fosse um sonho.
— Se você jogar hoje como vem jogando… é teste direto. Ele quer alguém com sua entrega. Seu tipo de liderança.
Eu quis rir. Quis gritar. Quis abraçar alguém.
Mas só consegui engolir seco e dizer:
— Pode deixar. Eu vou fazer.
Ele assentiu, deu dois tapinhas no meu ombro.
— Vai lá, Monteiro. Joga como sempre jogou. Hoje é o dia.
E foi nesse momento que tudo ficou ainda maior.
Porque até então era só um campeonato nacional estudantil. A despedida do colégio. O grito da arquibancada.
Agora… era a chance de virar profissional.
De vestir uma camisa de verdade.
De treinar com os melhores.
De colocar minha vida inteira no campo.
Mesmo sendo Fluminense fanático…
Se o Flamengo me quisesse, eu ia.
A gente jogava futebol com o coração, não com escudo.
E ali, naquele instante…
com o sol queimando a nuca, o estádio se abrindo à frente, e os gritos dos colegas ecoando…
Eu soube.
Tudo o que eu tinha feito até ali — cada treino, cada dor, cada suor — ia valer a pena.
Eu só pensava em jogar. Em dar o passe certo. Em meter aquele chute de canhota que vinha treinando há semanas.
Hoje era o dia.
O dia que podia mudar tudo.
Até o professor veio comigo, sorrindo. A gente desceu direto pro credenciamento com a equipe da escola. O técnico do time tava junto, animado, organizando os nomes da prancheta dele.
Tinha um segurança segurando uma lista na entrada da lateral do estádio.
— Nome completo? — ele perguntou.
— Heitor Monteiro.
Falei no automático. Já esperando ele riscar a folha e mandar eu passar.
Mas ele franziu a testa.
Passou a lista uma vez.
Duas.
Três.
— Heitor… como é o sobrenome?
— Monteiro. M-O-N-T-E-I-R-O.
Falei pausado. Uma pontinha de riso, tipo "vamos lá, irmão".
— Não tá aqui.
— Como assim não tá aqui?
— O nome não tá na lista da Federação. Sem nome aqui, sem entrada no campo.
Eu ri. De nervoso.
— Vê direito, cara. Eu sou o capitão. Organizei os treinos. Eu…
O técnico já se aproximava, confuso.
— O que tá acontecendo?
— Ele não tá na lista. — o segurança repetiu.
E o professor, do lado, já começava a mexer na própria mochila procurando os formulários.
— Isso é algum erro. Ele é o capitão. Ele treinou esse time desde o primeiro jogo. — o técnico argumentava.
— Reconfere. Por favor. Tem que estar aí.
Mas o cara só balançava a cabeça.
— Eu tô dizendo: não tá. O sistema é da Federação. Foi fechado há uma semana. Não dá pra incluir mais ninguém.
— Isso é um absurdo! — o professor gritou, já vermelho. — Vocês precisam resolver!
E eu…só conseguia olhar pra lista.
Não tinha nada ali.
Nenhuma linha com o meu nome.
Nenhum “Monteiro” sequer.
O barulho dos colegas subia ao fundo, os gritos de “vamos ganhar!”, a música alta do ginásio…
E eu parado ali.
Com a faixa no braço.
Com o corpo pronto pra jogar.
E o meu nome… invisível.
Foi aí que meu estômago afundou.
O professor berrava com o administrativo da escola, mandando alguém ligar pra coordenação. O técnico gritava com o cara da Federação.
— Isso é sabotagem! — ele disse.
E a palavra ficou ali.
Sabotagem.
Dei um passo pra trás.
Um só.
Como se quisesse sair da cena, mas as pernas não obedecessem.
O suor escorria do meu queixo até o colarinho, e a camisa grudava nas costas como se me sufocasse.
Levantei a mão, passei no rosto, tentando afastar o suor e o nó na garganta.
E foi quando eu olhei pro alambrado…
e o vi.
Antônio Fontenelle.
Não sei o que passou primeiro.
Se foi o calor subindo pelo pescoço, ou o gosto de sangue imaginário na boca.
Mas ali, naquele momento, eu soube.
Foi ele.
Era ele quem ficava com as inscrições. Era ele quem organizava os nomes.
Era ele quem sempre fingia que não ligava, mas olhava de lado quando eu falava.
Era ele quem vivia me tratando mal.
E agora…
tinha tirado de mim o maior jogo da minha vida.
Fui até ele. Os degraus da arquibancada tremiam sob meus pés, mas a minha raiva era o que mantinha o passo firme.
Ele viu quando me aproximei. E não se moveu.
— Por quê?
Minha voz saiu firme. Sem gaguejar.
Odiava isso em mim — que mesmo tomado pela emoção, eu mantinha o controle. Quase sempre.
— Por que você fez isso comigo, Fortenelle?
Ele ergueu o olhar, devagar.
Depois sorriu.
Sorriu.
— Engraçado… você sempre acha que o mundo gira ao seu redor, não é? Capitão Monteiro.
O sangue subiu. Tentei respirar.
— Eu só queria jogar.
— Você sempre quer tudo, Heitor. Os amigos. A liderança. As meninas. O palco. A atenção.
— Eu conquistei. Eu treinei. Eu lutei pelo que tenho. — rebati, firme. — Nunca te roubei nada.
Ele riu. Um riso seco, de desprezo.
— Roubar? — ele deu um passo à frente. — Você rouba só de existir. Rouba o olhar que devia ser meu. Rouba o orgulho que devia ser dos meus pais. Rouba até o ar da sala quando entra. E o pior? Nem percebe. Nem precisa tentar. Você só… é.
— Era pra gente ser amigo — disparei. — A gente tem a mesma idade. Mesma escola. Somos homens. Caralho, Fortenelle… era pra gente estar do mesmo lado.
Ele continuou em minha direção, era poucos centímetros mais baixo do que eu, mas seu olhar era cheio de veneno.
Aproximou o rosto.
— Eu nunca quis ser seu amigo. Você sempre foi o espelho de tudo que eu não conseguia ser.
— E por isso você me tirou do meu sonho?
— Por isso eu te derrubei do pedestal. Pelo menos uma vez, Monteiro. Uma única vez... você não foi o melhor. Você não entrou em campo. Você ficou de fora. E eu tava lá, com sua vaga vazia na mão. E sabe o que foi melhor?
Ele se inclinou, o hálito quente, cruel, no meu rosto.
— Você chorando igual um filho da puta, sem entender o porquê. E eu ali, vendo tudo.Com prazer.
Ele me empurrou.
Um gesto idiota, inútil.
Não me tirou do lugar.
Mas foi o suficiente pra quebrar o resto da minha paciência.
— Não faz isso.
Minha voz saiu baixa, trincada.
Os dedos cerrados. O maxilar preso.
Tudo em mim dizia: para.
Mas ele não parou.
— Tu é um merda Heitor. Nunca se esforçou em nada. Sempre teve tudo de mão beijada. Tu é um lixo, como o resto de merda que são os Monteiros.
— Antônio. — tentei, mas minha voz já não era calma.
Ele riu. Um riso amargo, carregado de ódio.
— Tadinho dele, queria jogar bolinha com os amiguinhos — a voz dele era o puro sarro — vai chorar para o papai? Ou para a puta da sua mãe?
Senti o ar preso na garganta, como se tivesse engolido vidro.
— Repete. — minha voz saiu baixa, mas firme.
Ele ergueu o queixo, desafiador.
— O quê? Que sua mãe é uma…
— CALA A BOCA! — minha voz explodiu, cortando o ar. — VOCÊ NÃO FALA DELA. NUNCA. ENTENDEU? NUNCA!
Ele riu, um riso amargo que doía só de ouvir.
— Olha só o herói da família Monteiro. Aposto que até sua mãe deve te amar mais do que merece…
— CHEGA! — avancei um passo, o peito quase colado ao dele. — Você me inveja desde moleque, Fortenelle. Eu treinei, me esforcei e estudei. Você só correu atrás de papelada e sorrisos falsos pra diretor. Você queria ser eu, mas nunca foi. E agora… você passa do limite.
Ele não recuou. Pelo contrário, encostou a testa na minha, os olhos verdes queimando como uma floresta incendiada.
— Eu nunca quis ser você. Eu sempre quis te destruir.
Minha respiração era fogo.
— Pois parabéns. — cuspi as palavras. — Você conseguiu.
Ele arqueou um sorriso, venenoso.
— Finalmente. Agora você fala com raiva. Agora você me mostra quem é de verdade.
Meus punhos tremiam. A visão embaçava.
Tudo em mim gritava que eu não podia.
— Eu acho que me enganei. Sua mãe não é uma puta, é uma vadia!
E foi aí.
O momento em que tudo dentro de mim parou.
E eu só vi.
Vi meu punho acertando o rosto dele.
Com força.
Com tudo.
Com 11 anos de silêncio acumulado.
O barulho do impacto foi pesado.
Mas o que veio depois...
foi pior.
O impacto abriu um corte na sobrancelha direita dele — mas não parou aí.
A pele se rasgou em linha viva até o alto da maçã do rosto.
Sangue espirrou com força.
Um filete escorreu rente ao olho o deixando vermelho.
Outro manchou o colarinho branco da camisa dele.
E ele caiu. Com a mão no rosto. Gritando de dor e pânico.
O sangue pingava na arquibancada.
E na minha mão.
— Eu te entendi por anos. Eu te respeitei. Mesmo quando você me odiava. Mesmo quando você tentou me humilhar, me diminuir e me provocar.
Respirei fundo. O som do meu peito ofegante era mais alto do que a torcida ao longe.
— Mas agora… agora eu juro pela porra da minha vida, Fortenelle… Eu te odeio. E vou te odiar até o fim. Agora você conseguiu. Agora a gente não é rival. A gente é inimigo.
Foi quando as mãos dos adultos me puxaram.
Professor. Técnico. Dois caras da Federação.
— Heitor!
— Puta merda, segura ele!
— Alguém chama a enfermaria!
Mas eu nem ouvi.
Eu só encarava ele, caído.
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