O vidro refletia o horizonte do Rio. O sol estava alto, sem uma nuvem para quebrar seu domínio. As avenidas fervilhavam de pressa, os prédios erguiam sombras longas sobre a cidade maravilhosa.

Mas nada disso importava para Heitor.

Ele não via a cidade.

Aquela vista deveria estar com ela ao lado — o silêncio confortável, o abraço que cabia no corpo todo, o sorriso capaz de desmontá-lo até nos dias mais tensos. O que tinha agora era o vazio. E, dentro dele, feridas que jamais pensou carregar.

Humilhado. Traído.

Helena não precisava ter saído daquela forma. Não precisava ter escolhido seguir com Fortenelle — o homem que ele mais odiava.

Heitor fechou os olhos. Os punhos cerrados atrás das costas.

Se ela fosse feliz… mesmo que ao lado do inimigo dele… conseguiria suportar?

Já sabia a resposta. Não estava preparado. Mas, se fosse preciso, suportaria. Por ela. Mesmo que isso o destruísse.

O som da porta se abrindo o arrancou dos pensamentos. Não precisou olhar.

Aquele passo pesado, firme, era inconfundível.

Renato Monteiro.

Ex-CEO. Patriarca da Monteiro Inc. O homem que carregava o sobrenome como um império. Seu pai.

Entrou com a calma de quem já presidiu conselhos, ministérios e mesas onde destinos foram decididos. O terno cinza escuro, o relógio suíço cintilando no pulso, os olhos azuis — mais frios que os do filho — avaliando cada fissura em Heitor como quem pesa um ativo numa balança.

O silêncio se estendeu, cortante.

Renato inspirou fundo. O som do suspiro soou como um veredito antecipado.

— Fiquei sabendo. — disse, grave. — O que aconteceu no almoço.

Heitor sustentou o olhar do pai, mesmo que sua cabeça pesasse para baixo. Ele não abaixou.

Renato avançou um passo.

— Não imaginei ver meu filho… o herdeiro da Monteiro… exposto a esse tipo de humilhação. — a voz baixou, mais pesada. — Diga-me… ela o trocou pelo Fortenelle?

Por um instante, o olhar de Heitor vacilou. Mas só por um instante.

— Não, pai. — respondeu baixo, firme. — Ela fez o que achava certo no trabalho. Eu respeito.

Renato estreitou os olhos.

— Trabalho. — repetiu, como se a palavra fosse um veneno. — Filho, uma mulher que ama não coloca o homem dela em posição de fraqueza.

— O senhor não conhece a Helena. — Heitor rebateu, com mais dureza do que queria. — Ela me ama. E eu a amo.

Renato observou, avaliando. A postura dele lembrava um juiz diante de um réu.

— Você acredita nisso. — disse por fim. — Eu já acreditei também.

Fez sinal para se sentarem. Heitor obedeceu.

— Quando conheci sua mãe… — começou, mergulhado em lembranças — eu ainda mantinha negócios com a família de uma ex-namorada. Nossa maior parceira na época.

Heitor ergueu o queixo, atento.

— E o que aconteceu?

Renato apoiou os cotovelos nos joelhos.

— Sua mãe disse que me amava. Mas que não ficaria comigo se eu não encerrasse aquela parceria. — fez uma pausa. — Eu não ouvi. Orgulho demais. Disse que não destruiria contratos milionários por causa de ciúmes.

Um silêncio se abriu. O pai parecia carregar o peso daquela memória na voz.

— Ela terminou comigo naquela noite.

Heitor respirou fundo.

— E o senhor cortou relações depois?

— Sim. — respondeu sem rodeios. — Mas tarde demais. Só então percebi que ela estava certa. Que a proximidade com a outra família já me corroía. E quando sua mãe me aceitou de volta, prometi a mim mesmo: nunca mais a colocaria em posição de vulnerabilidade.

Se recostou na poltrona. A voz endureceu:

— E é aí que eu quero chegar. Helena, lado a lado com Fortenelle… em reuniões, viagens, jantares. Você confia tanto assim na resistência dela?

— Não é sobre resistência. — Heitor rebateu, o maxilar trincado. — É sobre caráter. E Helena tem.

O silêncio pesou mais uma vez. Renato estudava o filho como quem procura rachaduras num vidro.

— Filho… ninguém é imune. Nem eu fui. Nem você será. Nem ela.

Heitor sentiu o coração disparar, mas não deixou transparecer.

— Eu confio nela. — disse apenas.

Renato se inclinou para frente, os olhos azuis cortantes.

— Você já desafiou sua família. Colocou seu cargo em risco. Perdeu votos no conselho. — cada palavra era uma martelada. — Tudo por ela. E me diga: o que ela está disposta a perder por você?

Heitor respirou fundo. Uma sombra passou pelo rosto ao lembrar das palavras dela: “Nunca abriria mão da minha carreira. Nem por você.”

Mas não cedeu.

— Se for preciso, ela fará o que for preciso. Eu sei disso.

Renato manteve o olhar fixo. Como quem observa alguém se afogar, mas não estende a mão.

— Você ainda acredita em conto de fadas.

— Não. — Heitor rebateu, firme. — Eu acredito em nós.

Por um instante, o pai apenas o encarou. Então recostou-se, cansado. Massageou as têmporas, o peso de anos de negociações no gesto.

— Muito bem. — disse por fim, frio. — Se essa é a sua escolha, eu vou respeitar.

Levantou-se, ajeitou o paletó, mas não saiu sem antes deixar a sentença:

— Só saiba uma coisa. Quando a queda vier… vai ser de muito alto. E você vai se machucar mais do que imagina.

Heitor manteve a postura.

— Eu já decidi.

Renato girou levemente o corpo em direção à porta. Sem olhar para trás, só havia uma solução para aquela situação e o seu pensamento foi:“Então… eu vou cuidar disso.”.

O cheiro de tabaco e poder ficou no ar.

E Heitor, sozinho diante da vista do Rio, soube que não tinha selado apenas um amor.

Tinha selado o próprio destino.