O CEO que Eu Paguei
129 O veredito
O vidro refletia o horizonte do Rio. O sol estava alto, sem uma nuvem para quebrar seu domínio. As avenidas fervilhavam de pressa, os prédios erguiam sombras longas sobre a cidade maravilhosa.
Mas nada disso importava para Heitor.
Ele não via a cidade.
Aquela vista deveria estar com ela ao lado — o silêncio confortável, o abraço que cabia no corpo todo, o sorriso capaz de desmontá-lo até nos dias mais tensos. O que tinha agora era o vazio. E, dentro dele, feridas que jamais pensou carregar.
Humilhado. Traído.
Helena não precisava ter saído daquela forma. Não precisava ter escolhido seguir com Fortenelle — o homem que ele mais odiava.
Heitor fechou os olhos. Os punhos cerrados atrás das costas.
Se ela fosse feliz… mesmo que ao lado do inimigo dele… conseguiria suportar?
Já sabia a resposta. Não estava preparado. Mas, se fosse preciso, suportaria. Por ela. Mesmo que isso o destruísse.
O som da porta se abrindo o arrancou dos pensamentos. Não precisou olhar.
Aquele passo pesado, firme, era inconfundível.
Renato Monteiro.
Ex-CEO. Patriarca da Monteiro Inc. O homem que carregava o sobrenome como um império. Seu pai.
Entrou com a calma de quem já presidiu conselhos, ministérios e mesas onde destinos foram decididos. O terno cinza escuro, o relógio suíço cintilando no pulso, os olhos azuis — mais frios que os do filho — avaliando cada fissura em Heitor como quem pesa um ativo numa balança.
O silêncio se estendeu, cortante.
Renato inspirou fundo. O som do suspiro soou como um veredito antecipado.
— Fiquei sabendo. — disse, grave. — O que aconteceu no almoço.
Heitor sustentou o olhar do pai, mesmo que sua cabeça pesasse para baixo. Ele não abaixou.
Renato avançou um passo.
— Não imaginei ver meu filho… o herdeiro da Monteiro… exposto a esse tipo de humilhação. — a voz baixou, mais pesada. — Diga-me… ela o trocou pelo Fortenelle?
Por um instante, o olhar de Heitor vacilou. Mas só por um instante.
— Não, pai. — respondeu baixo, firme. — Ela fez o que achava certo no trabalho. Eu respeito.
Renato estreitou os olhos.
— Trabalho. — repetiu, como se a palavra fosse um veneno. — Filho, uma mulher que ama não coloca o homem dela em posição de fraqueza.
— O senhor não conhece a Helena. — Heitor rebateu, com mais dureza do que queria. — Ela me ama. E eu a amo.
Renato observou, avaliando. A postura dele lembrava um juiz diante de um réu.
— Você acredita nisso. — disse por fim. — Eu já acreditei também.
Fez sinal para se sentarem. Heitor obedeceu.
— Quando conheci sua mãe… — começou, mergulhado em lembranças — eu ainda mantinha negócios com a família de uma ex-namorada. Nossa maior parceira na época.
Heitor ergueu o queixo, atento.
— E o que aconteceu?
Renato apoiou os cotovelos nos joelhos.
— Sua mãe disse que me amava. Mas que não ficaria comigo se eu não encerrasse aquela parceria. — fez uma pausa. — Eu não ouvi. Orgulho demais. Disse que não destruiria contratos milionários por causa de ciúmes.
Um silêncio se abriu. O pai parecia carregar o peso daquela memória na voz.
— Ela terminou comigo naquela noite.
Heitor respirou fundo.
— E o senhor cortou relações depois?
— Sim. — respondeu sem rodeios. — Mas tarde demais. Só então percebi que ela estava certa. Que a proximidade com a outra família já me corroía. E quando sua mãe me aceitou de volta, prometi a mim mesmo: nunca mais a colocaria em posição de vulnerabilidade.
Se recostou na poltrona. A voz endureceu:
— E é aí que eu quero chegar. Helena, lado a lado com Fortenelle… em reuniões, viagens, jantares. Você confia tanto assim na resistência dela?
— Não é sobre resistência. — Heitor rebateu, o maxilar trincado. — É sobre caráter. E Helena tem.
O silêncio pesou mais uma vez. Renato estudava o filho como quem procura rachaduras num vidro.
— Filho… ninguém é imune. Nem eu fui. Nem você será. Nem ela.
Heitor sentiu o coração disparar, mas não deixou transparecer.
— Eu confio nela. — disse apenas.
Renato se inclinou para frente, os olhos azuis cortantes.
— Você já desafiou sua família. Colocou seu cargo em risco. Perdeu votos no conselho. — cada palavra era uma martelada. — Tudo por ela. E me diga: o que ela está disposta a perder por você?
Heitor respirou fundo. Uma sombra passou pelo rosto ao lembrar das palavras dela: “Nunca abriria mão da minha carreira. Nem por você.”
Mas não cedeu.
— Se for preciso, ela fará o que for preciso. Eu sei disso.
Renato manteve o olhar fixo. Como quem observa alguém se afogar, mas não estende a mão.
— Você ainda acredita em conto de fadas.
— Não. — Heitor rebateu, firme. — Eu acredito em nós.
Por um instante, o pai apenas o encarou. Então recostou-se, cansado. Massageou as têmporas, o peso de anos de negociações no gesto.
— Muito bem. — disse por fim, frio. — Se essa é a sua escolha, eu vou respeitar.
Levantou-se, ajeitou o paletó, mas não saiu sem antes deixar a sentença:
— Só saiba uma coisa. Quando a queda vier… vai ser de muito alto. E você vai se machucar mais do que imagina.
Heitor manteve a postura.
— Eu já decidi.
Renato girou levemente o corpo em direção à porta. Sem olhar para trás, só havia uma solução para aquela situação e o seu pensamento foi:“Então… eu vou cuidar disso.”.
O cheiro de tabaco e poder ficou no ar.
E Heitor, sozinho diante da vista do Rio, soube que não tinha selado apenas um amor.
Tinha selado o próprio destino.
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