O CEO que Eu Paguei

130 O novo fruto proibido


O ambiente da FORT GROUP tinha o cheiro característico e ao mesmo tempo diferente de poder. Helena estava ali, com a postura ereta e o notebook aberto diante dela.

O celular, no silencioso.

Não queria falar com Heitor naquele momento.

Ele a amava, ela sabia. Mas também precisava entender que ela não era uma extensão dele. Que tinha valor próprio. Que podia se destacar em qualquer projeto — mesmo ao lado de Antônio Fortenelle, o inimigo declarado do homem que ela amava.

As mãos dela digitavam rápidas, mas o coração batia mais lento.

Por mais que tentasse se concentrar, a imagem voltava: o rosto de Heitor, triste, quase despedaçado, quando ela escolheu não ir com ele.

Aquilo lhe corroía.

Ela não se sentia errada.

Mas sentia vontade de se desculpar.

Helena suspirou, desviando os olhos da tela por um instante. Foi então que o olhar se prendeu do outro lado da sala.

Antônio Fortenelle.

Ele parecia absorvido na tela do iMAC, a luz fria refletindo na cicatriz que cortava o rosto, da sobrancelha até a maçã. Uma marca de guerra. Uma lembrança permanente.

Encarou aquela cicatriz por mais tempo do que deveria, até que a mente dela começou a repassar as palavras que ele dissera.

“Foi o Heitor. Ele me acertou com um objeto de vidro. Foi ele quem me deixou assim.”

No primeiro momento, aquilo pareceu absurdo. Heitor? Violento? Heitor, que sempre a segurava firme com carinho, que beijava sua testa como quem jura proteção?

Mas então… a dúvida.

Ela lembrou da expressão dele, hoje no restaurante, alterado, com o corpo tenso, quase fora de si.

Uma memória mais antiga retornou, lembrou da boate, quando ele quase partiu para cima de outro homem por causa dela. E nem namorados eles eram.

Até agora, sempre tinha visto aquilo como um ciúme protetor.

Mas… e se fosse algo além?

E se existisse nele uma linha tênue demais entre proteção e violência?

Um arrepio estranho atravessou sua espinha.

Foi quando Antônio ergueu o rosto e percebeu o olhar dela fixo nele.

Os olhos deles se encontraram, mas Helena desviou o olhar no mesmo instante, voltando apressada ao notebook.

Os dedos bateram nas teclas, mas o coração batia mais forte.

Ela de alguma forma conseguiu voltar ao trabalho.

Um tempo depois, o relógio digital piscava 14h em números vermelhos quando Helena fechou o notebook. O barulho seco da tampa ecoou pela sala quase vazia. O expediente dela tinha acabado, mas sua cabeça ainda fervilhava.

Ela poderia ficar mais. Queria revisar planilhas, repassar relatórios, lapidar os pontos cegos do projeto.

— Já deu o seu horário. — a voz baixa, aveludada e grave de Antônio Fortenelle cortou o ar. Seu sotaque remetia à alta elite carioca.

Ela ergueu os olhos. Ele estava em pé, sem gravata, a gola da camisa um pouco aberta, revelando um detalhe quase íntimo de pele. O paletó pendia solto nos ombros largos, e a cicatriz parecia uma marca de poder, não de fraqueza.

— Eu posso ficar mais. — respondeu Helena, direta, o tom prático, ranzinza. — Ainda tem coisas que quero finalizar.

Um sorriso lento surgiu no rosto dele. Não era caloroso, não era simpático — era o sorriso de quem já tem a resposta antes da pergunta.

— Seria maravilhoso. — disse, num tom quase elogioso. — Mas o contrato não é de exclusividade.

A frase caiu como um golpe elegante.

Helena mordeu o lábio inferior, lembrando de imediato que deveria passar na Monteiro Inc. Mais do que isso: lembrou de Heitor. Do olhar dele, triste, quase despedaçado no restaurante. Do jeito como ele a chamou e do silêncio pesado quando ela disse não.

Seu peito apertou.

— Não preciso que me lembre disso. — rebateu, seca.

Fortenelle caminhou para dentro, os passos firmes no piso. Parou ao lado da mesa dela, apoiando-se com uma mão. O perfume amadeirado que era surpreendentemente bom, preencheu o ar.

— Eu não estou lembrando. — disse, num tom suave, quase confidente. — Só quero que você entenda: você não precisa se provar para ninguém. Você já é a peça mais brilhante desse tabuleiro.

Helena respirou fundo, tentando manter a compostura.

— Eu trabalho porque é o que eu amo fazer. Não porque alguém precisa ver.

Ele inclinou o rosto, estudando cada linha dela.

— Exatamente. — murmurou, a voz mais baixa. — É isso que admiro em você. Você não aceita ser sombra. Não aceita ser só “a namorada de”. Heitor nunca vai compreender isso. Para ele, amor é proteger… mas também sufocar.

As palavras deslizaram como veneno doce. Helena sentiu o peito apertar outra vez. A lembrança voltou como uma facada: “Você não precisa mais trabalhar. Eu cuido de você.”

— Você não sabe nada sobre nós dois. — disse ela, mas a voz já não soava tão afiada.

Antônio ergueu uma sobrancelha, deixando a cicatriz em evidência.

— Não? — perguntou, suave. — Quem ama de verdade, Helena, não pede que você apague sua luz. Pede que você brilhe ainda mais.

Helena desviou o olhar, os dedos crispados sobre a bolsa. O coração batia descompassado.

Fortenelle percebeu. E recuou apenas o suficiente para não parecer uma ameaça, mas sem perder o espaço que tinha conquistado.

— Sabe de uma coisa? — disse, mudando o tom, quase casual. — Aqui ao lado tem uma franquia pequena. Eles fazem uma vitamina cremosa… deliciosa. Todo mundo da FORT GROUP passa lá depois do expediente.

Helena piscou, confusa.

— Não. — respondeu, seca. — Eu tenho outras coisas pra fazer.

Ele sorriu outra vez, mas agora mais leve, como quem compreende e oferece uma saída.

— Claro que tem. — assentiu. — Mas pense comigo: seria bom para você se enturmar com o resto da equipe. Esses rituais importam mais do que parecem. — fez uma pausa calculada. — Além disso… eu também preciso tomar um ar.

O tom não foi de convite. Foi de afirmação. Uma sugestão envolta em elegância, difícil de recusar.

Helena hesitou. Sentiu que deveria negar de novo. Mas, por algum motivo, não o fez.

— Só por um tempo. — murmurou, por fim.

Antônio ergueu o canto da boca, satisfeito.

— É tudo o que eu preciso.

E juntos, deixaram a sala.

O elevador deslizou em silêncio, o reflexo metálico revelando Helena e Antônio lado a lado. O contraste entre eles era quase gritante: ela, perdida nos próprios pensamentos, a bolsa no ombro, o maxilar tenso; ele, relaxado, mãos nos bolsos, olhar de quem sempre observa mais do que fala.

— Está confortável dividindo a sala comigo? — perguntou de repente, a voz baixa, quase íntima pelo espaço reduzido. — Ou prefere uma só para você?

Helena ajeitou o cabelo atrás da orelha. Não gostava de admitir, mas já não sentia aquele desconforto agudo perto dele. A presença de Antônio, antes intrusiva, agora parecia… tolerável.

— Uma sala só minha seria bom. — disse, pragmática. — Mas não me importo de dividir com você.

Os olhos verdes dele brilharam, como se aquela resposta fosse mais do que esperava. Um sorriso lento tomou forma.

— Trabalhar em uma sala cheia de gente pode ser estimulante. Sempre gostei de movimento… mas, ironicamente, sempre fiquei sozinho. — fez uma pausa, medindo as palavras. — Só de ter você lá… já não me sinto mais solitário.

A frase fluiu suave, carregada de um peso escondido.

Helena soltou um meio sorriso de canto, quase sem querer.

— Você não é um colega de trabalho tão ruim quanto eu achei que seria. Pensei que fosse mais barulhento.

Ele riu baixo.

— Desculpe pela primeira impressão. — disse, sincero demais para soar falso. — É que eu já me acostumei com mulheres que fingem ser eficientes só para ficarem perto de mim. Você foi a primeira que realmente mostrou competência.

Helena ergueu o queixo, satisfeita. Aquilo massageava o ego sem parecer bajulação.

— Ainda assim, foi uma péssima primeira impressão.

As portas se abriram e os dois saíram. O calor do Rio bateu de frente, úmido, pesado, mas o movimento da rua trazia energia. Seguiram a pé pela calçada até a pequena franquia mencionada por ele.

O lugar tinha charme. Mesas de madeira polida, paredes claras, quadros minimalistas. Apesar do tamanho, havia algo de sofisticado ali: clientes bem vestidos, jovens executivos e casais discretos.

— Então… — disse Antônio, abrindo a porta para ela entrar primeiro — já pensou no que vai pedir?

Helena olhou para o cardápio acima do balcão, distraída por tantas opções.

— Minha fruta favorita é goiaba. Então, vou pedir a de goiaba.

Antônio assentiu, os olhos brilhando de interesse.

— A vitamina de goiaba é ótima. Doce, cremosa… familiar. Mas — inclinou-se ligeiramente, a voz aveludada — o que acha de experimentar algo diferente?

Ela arqueou uma sobrancelha, rindo pelo nariz.

— Diferente como?

Ele ergueu a mão, contando nos dedos como se estivesse revelando segredos.

— Abacaxi. Refrescante, ácido na medida. Te acorda. Maracujá. Intenso, às vezes até exagerado, mas impossível de ignorar. E tem a Manga. — fez uma pausa maior, olhando-a nos olhos. — Doce, firme, densa… é a fruta que preenche, que sacia.

Helena sustentou o olhar por um segundo a mais do que gostaria. Sentiu o duplo sentido deslizar sob a pele, mesmo sem ele dizer nada além do óbvio.

— Manga, então? — perguntou ela, tentando soar indiferente.

— Se me permite a sugestão. — respondeu, sorrindo com os olhos. — Às vezes vale a pena sair do costume… e descobrir o que surpreende de verdade.

Helena cruzou os braços, olhando para o cardápio iluminado acima do balcão.

— Bom… se é a sua sugestão, você deve conhecer o lugar.

Antônio deu um meio sorriso, aquele que nunca entregava tudo de uma vez.

— É a minha fruta favorita. — respondeu, com naturalidade. — Mas não se preocupe, vou pedir uma de goiaba também. Você pode experimentar sem compromisso.

Helena ergueu o canto da boca, divertida, mas ainda defensiva.

— Depois eu peço uma só para mim.

— Eu resolvo com um copo extra. — rebateu ele, no mesmo tom leve. — Mas fica ao seu critério. Quando começar a se enturmar com os colaboradores da FORT GROUP, vai ver: todo mundo acaba provando todos os sabores daqui… até enjoar.

Ela riu baixo pelo nariz, um riso curto.

— Não sei se vai ser o meu caso. Não sou muito boa com as pessoas.

Ele inclinou levemente a cabeça, o olhar verde sereno.

— Eu também não.

Ela arqueou uma sobrancelha, desconfiada.

— Você não parece o tipo.

Antônio soltou um riso baixo, sem humor. Depois, sua voz ficou mais calma, carregada de algo raro: sinceridade.

— A verdade, Helena, é que eu sempre senti que precisava provar algo. Desde garoto. Cada passo, cada decisão… era uma corrida contra uma régua invisível que meu pai colocava diante de mim.

Fez uma pausa, os dedos girando o papel do cupom entre eles.

— Eu me esforçava tanto que mal sobrava tempo para pessoas. Mesmo gostando de companhia, nunca conseguia ficar muito tempo com ninguém. Sempre havia outra coisa a fazer, outro objetivo a alcançar.

Helena o olhava com atenção, sem interromper.

— O pior… — continuou, os olhos perdidos por um instante — era sentir que não importava o quanto eu caminhava, nunca era suficiente.

Ela inclinou o corpo para frente, curiosa.

— E quando foi suficiente?

Os olhos dele voltaram para ela. Um sorriso triste, melancólico, tomou-lhe o rosto.

— No dia em que meu pai me parabenizou por me tornar CEO da FORT GROUP.

O painel do balcão apitou, mas ele não se moveu de imediato. A lembrança parecia puxar o ar de seus pulmões.

— Naquele instante, senti uma saciedade que nunca tinha experimentado. Como se, enfim, tudo tivesse valido a pena. — respirou fundo. — Mas a sensação durou pouco. Porque percebi o quanto tinha sacrificado para chegar ali. E comecei a me perguntar… se realmente tinha valido.

Ele desviou o olhar para o painel, ainda segurando o cupom. A voz ficou mais baixa, mais grave:

— Tentei recuperar o tempo perdido, mas o tempo não se recupera. O sucesso tem um preço, Helena. Se você não tem pessoas leais de verdade ao seu lado no início da caminhada, no fim não encontra ninguém disposto a ficar pelo que você é. Só pelo que você tem.

Por um segundo, o barulho ao redor pareceu sumir.

Ele concluiu, quase num sussurro:

— É por isso que eu estou sozinho até hoje.

Helena sentiu o peito apertar. Havia algo dolorosamente humano naquela confissão. Pela primeira vez, a presença dele não era apenas tolerável… parecia até próxima.

O número da senha piscou de novo no painel. Antônio se levantou, ajeitou o paletó e seguiu até o balcão para buscar as vitaminas.

Antônio pegou as duas vitaminas no balcão, agradecendo ao atendente com um aceno curto. O frio do copo de plástico contrastava com o calor que subia do peito.

Aquilo seria mais fácil do que imaginara.

Não daria uma semana para que Helena e Heitor Monteiro não estivessem mais juntos.

Ele sabia — o golpe fora certeiro. E Heitor não se recuperaria. Antônio tivera a certeza quando viu a derrota nos olhos dele, quando Helena escolheu segui-lo.

Um calor diferente percorreu-lhe a espinha. Não era apenas vitória. Era uma ferida sendo curada por dentro. Uma vingança, finalmente consumada.

Mas quando voltou o olhar para Helena, sentado à mesa próxima à vitrine, o que sentiu não foi ódio.

Ele lembrava perfeitamente.

Sabia que ela era diferente desde a primeira vez em que a viu.

No avião.

O perfume dela parecia ter se entranhado em suas narinas durante todo aquele fim de semana, persistente, quase hipnótico. Lá mesmo, após o voo, já tinha descoberto quem era: Helena Ribeiro Campos.

Do interior de Minas.

Formada em uma faculdade à distância.

Alguém que trabalhara em mercado, em posto de gasolina… até finalmente conquistar um cargo administrativo na Plano & Forma.

Uma funcionária que crescera por mérito próprio, que se destacava no meio de tantas.

E que, por ironia do destino, prestava serviços para a Monteiro Inc.

A intenção inicial dele era simples e cruel: mostrar a Heitor que havia tomado dele uma funcionária brilhante, alguém que faria falta. Era uma questão de poder corporativo.

Nunca passou pela sua cabeça que Heitor pudesse estar envolvido com ela de forma pessoal.

Talvez, por arrogância ou excesso de confiança, tivesse negligenciado as informações recentes sobre seu maior inimigo.

E agora ali estava ela.

Arrogante e doce ao mesmo tempo.

Muito mais do que uma peça em um tabuleiro.

Helena observava a calçada, distraída, enquanto Antônio deixava os olhos se perderem nos traços dela.

O formato dos olhos castanhos, doces e meigos, destoava da acidez de suas palavras afiadas.

A pele quente, mulata, salpicada de sardas no nariz e nas maçãs do rosto, parecia obra de acaso e arte ao mesmo tempo.

Os cabelos castanho-escuros, rebeldes, nem cacheados nem ondulados, mas com um movimento próprio — como se recusassem se enquadrar em qualquer molde.

Era isso que o fascinava: a contradição.

E talvez fosse isso que sempre escapara a Heitor Monteiro.

Um sorriso melancólico surgiu em seus lábios.

E, em silêncio, admitiu para si mesmo:

Talvez toda a história dele com Heitor Monteiro tivesse acontecido por este motivo.

Talvez a rivalidade, as feridas, os anos de ódio… existissem apenas para guiá-lo até ela.

Até Helena.

Sentiu o peito aquecer de novo.

Era a estranha sensação de que o destino, caprichoso, havia entregue em suas mãos a única coisa capaz de preencher o vazio.

Talvez, no fim daquela semana, tivesse até que agradecer ao próprio Heitor Monteiro.

Mandaria flores. Ou melhor — um cartão simples:

“Obrigado por me dar a Helena.”