Antônio caminhava até a mesa.

Helena, distraída olhando o movimento da rua, ergueu os olhos no instante em que sentiu a presença dele. A intensidade do olhar dela — rápida, mas inescapável — fez nascer em seus lábios um sorriso involuntário, daqueles que nem mesmo ele, acostumado a dominar cada gesto, conseguiu conter.

Foi quando um corpo esbarrou nele.

Forte o bastante para desequilibrar o copo que escorregava em sua mão.

A vitamina de manga explodiu contra o tecido claro da camisa, escorrendo como uma mancha amarela e viscosa.

Helena se levantou na mesma hora, na intenção de ajudar em algo.

O homem que havia trombado parou de súbito, voltando-se para Fortenelle. Era mais baixo que Antônio, mas ainda assim mais alto que ela. Usava óculos escuros, máscara cirúrgica e um boné preto da The North Face, de onde escapavam fios ondulados de cabelo castanho-claro. A camiseta oversize branca, ainda assim, deixava adivinhar o corpo atlético, contrastando com o calção preto e o chinelo slide.

— Sorry, are you okay? — perguntou em inglês, a voz abafada, mas o tom era educado e preocupado.

Helena piscou, confusa. Não entendia uma palavra. Apenas observava, tensa, os dois homens frente a frente.

Fortenelle baixou o olhar para a própria camisa suja, depois ergueu-o lentamente para o desconhecido. Poderia ter reagido com irritação, mas, em vez disso, abriu um largo sorriso — calculado, quase charmoso.

— I’m fine. Don’t worry. — respondeu, o inglês fluente deslizando natural, carregado de autoconfiança.

Esquivou-se do rapaz e caminhou até a mesa onde Helena aguardava. Ao ver o jeito que ela o acompanhava com os olhos, a preocupação no rosto, ele soltou uma risada breve. E, contagiada, Helena acabou rindo também.

Antônio depositou o outro copo na frente dela.

— Não vai ser dessa vez que você vai provar a vitamina de manga. — comentou, ainda com humor, e empurrou a de goiaba em direção a ela.

Helena baixou o olhar para o líquido rosado no copo e, quase sem pensar, murmurou:

— A cor combinou com você.

Ele arqueou uma sobrancelha, divertido, antes de rir.

— Vou adotar mais essa paleta, então. — respondeu, o sarcasmo leve, mas envolvente.

O riso foi se apagando em seu rosto à medida que ajeitava os punhos molhados da camisa. O homem que raramente se permitia o imprevisto agora era obrigado a render-se à urgência prática.

— Não vou poder ficar. — disse, o tom casual, mas firme. — Preciso trocar de roupa. Tenho uma reunião importante mais tarde.

Endireitou a postura, como quem já se despedia, e acrescentou com suavidade certeira:

— Aproveite o lugar, Helena. Nos vemos amanhã.

Ela assentiu, ainda com aquele sorriso de lado que raramente concedia.

— Até amanhã.

Ele partiu com a mesma segurança com que havia entrado, deixando atrás de si o rastro de seu perfume caro misturado ao cheiro adocicado da fruta.

Helena se sentou novamente, levou o copo aos lábios e fechou os olhos ao provar o sabor. A cremosidade da goiaba era perfeita — exatamente por isso era sua fruta favorita.

Permaneceu ali alguns minutos, observando o entra e sai elegante da pequena franquia, tentando relaxar. Mas logo a mente voltou ao peso de antes: Heitor.

A expressão dele ao vê-la partir ainda queimava em sua memória.

E, ainda assim, uma contradição a corroía.

Por que ele havia falado tantas coisas sobre Antônio? Por que tanto rancor?

Do jeito que Helena via, Fortenelle não parecia o monstro que Heitor pintava. Pelo contrário. Ele parecia atencioso, inteligente… até gentil. Talvez Heitor tivesse se deixado levar pelo ciúme.

Ela deveria conversar com ele. Olhou para o celular, ainda estava em modo avião. Se sentia culpada, ele provavelmente estava mandando mensagens e ligando, principalmente por ser o primeiro dia dela sozinha no Rio de Janeiro. Não era algo maduro que ela estava fazendo, mas ela queria que ele sentisse que ela não precisava dele.

Imaginou o que Heitor estaria fazendo se estivesse ali, provavelmente teria pedido uma vitamina de abacaxi com laranja, ele adorava misturar os sabores. E sempre a fazia ser cobaia de seus experimentos, o que ela fazia com prazer, era algo deles. Seu coração doeu, sentia falta dele. Olhou para a sua aliança, ela deveria ter ido a Monteiro Inc. , seus olhos lacrimejaram e ela os limpou de imediato. Estava tão sensível ultimamente, será que era efeitos colaterais do amor?

Terminou a vitamina devagar e saiu para a rua.

O ar quente do Rio a envolveu de imediato, estava quente e ela começou a suar um pouco. Caminhou sem rumo pelo calçadão, sozinha, deixando os pensamentos correrem.

Precisava decidir o que diria a Heitor.

Helena caminhava pelo calçadão, tentando se distrair.

As vitrines iluminadas refletiam em seus olhos castanhos, mas ela não via nada. O calor úmido da tarde grudava na pele, o barulho das buzinas, risadas e música de caixas de som de rua preenchiam o ar. Era tudo movimento, cor e vida.

E, ainda assim, ela se sentia sozinha.

A cada passo, o silêncio dela gritava mais alto.

Até que um arrepio subiu-lhe a espinha. Uma sensação ruim.

Virou o rosto de leve. Um homem vinha a alguns metros atrás.

Alto. Máscara no rosto. Boné preto da The North Face. O mesmo que havia derrubado a vitamina em Antônio.

O coração de Helena disparou.

Apontou o olhar para frente e apertou o passo.

O homem fez o mesmo.

Agora a respiração dela era irregular. Os dedos coçavam para pegar o celular na bolsa, ligar para Heitor, para ele a proteger… mas antes que conseguisse puxar o aparelho, uma mão firme tocou seu braço.

Helena reagiu por instinto. O braço dela subiu e a mão se fechou, acertando um soco desajeitado no rosto mascarado.

— Sai de perto de mim! — arfou, a voz trêmula.

O homem parou, a poucos passos. E, para seu horror, riu.

Uma risada carregada, cheia, quase bonita demais para a situação.

— É assim que você se defende de um estranho? — a voz dele tinha um sotaque carioca carregado. — Que fracote. Nem senti nada. — completou gesticulando com as mãos.

A risada voltou, ecoando no ar como um deboche.

Helena recuou dois passos, incrédula, agarrando a alça da bolsa com força.

— O que você quer?

O homem ergueu as mãos como quem se rendia, mas em vez de recuar, começou a se despir de disfarces. Primeiro, tirou o boné, revelando cabelos castanhos claros, volumosos e ondulados, bagunçados pelo suor e calor. Depois removeu os óculos escuros, deixando à mostra olhos castanhos brilhantes e expressivos. Por fim, puxou a máscara, soltando um suspiro teatral, como quem finalmente respirava liberdade.

Helena manteve-se rígida. O coração batia alto demais para ser ignorado.

Ele passou a mão pelos cabelos, bagunçando-os ainda mais, e a encarou de frente. O olhar era de pura curiosidade, como se estivesse decifrando cada traço do rosto dela.

— O que você quer? — repetiu Helena, a voz embargada, mas firme.

O homem suspirou, um som baixo, quase íntimo. Ele apontou para o próprio rosto.

— Da onde você me conhece? — perguntou, como quem esperou a vida inteira por aquele momento.

— O quê? — Helena piscou, atônita.

Ele levou a mão ao queixo, circundando-a devagar, como um predador curioso. Helena girava o corpo para manter os olhos nele, o coração batendo contra as costelas.

— Já estivemos em alguma festa juntos? Algum evento? — insistiu.

— Não. Eu nunca te vi na vida.

Os olhos dele se estreitaram, quase ofendidos.

— Me ver, você já me viu. — murmurou, sério. — Eu preciso saber se a gente já se conhece.

Helena sentiu a garganta secar.

— Eu vou gritar se você não for embora.

— Calma. — ele ergueu as mãos, mas olhou em volta, preocupado. A voz agora era um sussurro tenso. — Só me responde… nós já transamos?

— O QUÊ?! — Helena gritou, incrédula, o rosto em choque.

Ele parecia genuinamente aflito. O suor escorria na têmpora, e os olhos castanhos queimavam em ansiedade.

— Essa sua expressão… — murmurou, a mão deslizando no próprio rosto. — Merda… a gente se conhece sim. A gente transou, não foi?

— NUNCA! — a raiva dela transbordou. — Eu NUNCA te vi na vida, seu maluco!

— Tem certeza? — a voz dele tremeu, como se implorasse absolvição. — Tipo… certeza absoluta? Você nunca viu meu pau, né?

— NÃO! — Helena berrou, o rosto corado de fúria. — Nunca vi! E se continuar atrás de mim, ninguém nunca mais vai ver!

Por um segundo, o homem fechou os olhos. Respirou fundo, como quem descarregava um peso.

— Graças a Deus… — murmurou, aliviado. Com uma mão apoiada no peito — Obrigado, Deus. De verdade.

Helena, ainda ofegante, encarou-o com ódio e incredulidade.

— Quem diabos é você?! — exigiu, a voz quebrada, mas firme.

Ele parecia ofendido de novo, como se tivesse levado um tapa.

— Como assim você não me conhece? — os olhos castanhos brilharam, cheios de incredulidade.

Helena permaneceu em silêncio, firme, o encarando como se pudesse decifrá-lo pela intensidade do olhar.

O estranho sorriu, inclinando a cabeça de lado, como se guardasse um segredo antigo.

— Eu sei tudo sobre você. Você se chama Helena. — a voz dele saiu com uma naturalidade inquietante.

Ela estreitou os olhos, sem ceder.

— E você nasceu no dia dois de fevereiro.

— Não, eu não nasci. — rebateu seca, a raiva e o medo misturados.

Ele, no entanto, nem piscou. Continuou, como se não tivesse errado nada:

— Sua cor favorita é azul… porque é a cor dos olhos do seu namorado.

Helena arqueou as sobrancelhas.

— Minha cor favorita é verde. — respondeu dura, com frieza. — Mas quem diabos é você? O que quer comigo?

O sorriso dele se abriu, largo, quase infantil, mas com um brilho magnético que parecia iluminar a tensão.

— Helena… sou eu! O Jonas! — disse como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

— Quem? — ela estreitou os olhos, tentando puxar da memória.

— O JONAS! — ele ergueu os braços, teatral, quase rindo. — Sou amigo do Heitor!

E então a memória veio como um estalo. Helena se lembrava dele de uma chamada de vídeo rápida. Heitor o tratava como irmão mais novo, sempre com aquela confiança quase irritante. Jonas. Aquele Jonas.

— O que você tá fazendo aqui? — a voz dela veio carregada de indignação. — Heitor te mandou?

Jonas riu, coçando a nuca, o jeito despojado contrastando com a gravidade do momento.

— Claro que não. — disse, sincero demais para parecer mentira. — Eu fiquei sabendo que você tava na Fort Group… então vim falar com você. Longe do Heitor.

— Como assim? — Helena apertou ainda mais a bolsa contra o corpo.

Os olhos dele escureceram, a voz carregada de crítica.

— Eu fiquei sabendo da cena no restaurante. — acusou. — E que você veio parar justo na Fort Group.

Ele deu um passo à frente, o tom agora mais duro, a indignação estampada no rosto.

— Como você pôde fazer aquilo, Helena? Ainda mais com o Fortenelle. — a voz dele subiu, cortante. — E por quê estava de risinho e gracinha com ele?

A acusação bateu nela como um soco. O coração apertou.

— Eu não estava de gracinha com o Antônio! — disparou, firme, a voz alta demais.

Jonas estreitou os olhos e, de repente, sua expressão séria se desfez em deboche. Ele afinou a voz e soltou risadinhas forçadas, imitando-a:

— “Ahaha, Antôniooo, adoro tomar vitamina com você…” — disse, com uma cara de falso encanto. — Você tava sim, toda assim com ele, pô!

Helena ficou incrédula, a raiva subindo como fogo.

— Jonas, você não sabe de nada!

Ele abriu um sorriso malandro, charmoso e irritante na mesma medida. Pareceu ignorar o que ela dizia, como se precisasse falar tudo que passava em sua cabeça.

— Você realmente é muito gostosa pessoalmente. O estranho é que te olho e não sinto nada. Será que é porque você namora o meu irmão? — ele apertou o punho como se fosse um vencedor — Eu sempre soube que eu era um cara respeitoso, o problema é com o Isaac e as mulheres dele. Hoje eu quebro a maldição do talarico.

Jonas estreitou os olhos, o jeito displicente contrastando com a dureza da voz:

— Eu vou contar tudo pro Heitor. — disse como um bom dedo duro — Ele merece saber que você tá se prestando a esse papel ridículo.

Helena cruzou os braços de imediato, a postura defensiva.

— Papel ridículo? Eu tô trabalhando, Jonas. Você sabe o que é isso? Trabalho!

Ele deu uma risadinha debochada, inclinando a cabeça para o lado.

— Ah, trabalho… claro. Ficar de sorrisinho com o Fortenelle agora chama trabalho. Interessante, Helena.

— Eu não tava de sorrisinho com ninguém! — rebateu, a voz mais alta. O sangue queimava nas bochechas.

Jonas ergueu as sobrancelhas, como se o simples fato dela se irritar já fosse uma confissão.

— Tava sim. Eu vi. — encostou as mãos nos bolsos, a tranquilidade irritando ainda mais. — E olha… se você acha que dá pra brincar desse jeito, tá enganada.

— Brincar?! — Helena quase riu de raiva. — Você tá viajando. Eu não devo satisfação nenhuma pra você.

Jonas se aproximou um passo, o tom mais baixo, mas firme.

— Não deve, não. Mas deve pro Heitor.

Aquela frase ficou suspensa no ar como um golpe. Helena travou por um segundo, mas logo cerrou o maxilar.

— Não mistura as coisas. O Fortenelle é meu chefe nesse projeto, e eu não vou agir diferente só porque vocês dois se odeiam.

Jonas arqueou um sorriso torto, sem humor.

— Você não percebe, né? — o olhar dele brilhava, cortante. — Fortenelle não precisa nem de esforço. Você já tá na palma da mão dele.

Helena respirou fundo, os olhos faiscando.

— Cala a boca, Jonas. Você não sabe de nada.

Ele a encarou por mais alguns segundos, sério agora, sem ironia.

— Eu sei o suficiente. — disse baixo. — E se você não parar com isso, eu mesmo vou abrir os olhos do Heitor.

Helena virou o rosto, mordendo a raiva junto com o orgulho. Queria gritar que não tinha feito nada. Mas, no fundo, aquela sombra de dúvida já a corroía: será que, sem perceber, tinha mesmo passado do limite?

Ela respirou fundo, o rosto ainda vermelho de indignação.

— Sabe qual é o problema? — disse, a voz firme apesar do cansaço que já escorria nas palavras. — É que vocês… um monte de homens ricos e brancos… acham que podem ditar a minha vida. O que eu devo fazer, com quem eu devo falar, onde eu devo trabalhar. Eu não sou propriedade de ninguém, Jonas. Nem do Heitor.

As últimas palavras saíram mais duras do que ela pretendia. O ar quente do Rio parecia pesar como chumbo em seus pulmões. Helena levou a mão à testa, sentindo o corpo fraquejar.

Jonas franziu o cenho na hora, a irritação cedendo espaço para preocupação genuína.

— Ei, o que foi? — ele deu um passo rápido em direção a ela.

— Tá tudo bem… — murmurou, afastando a mão dele com delicadeza, mas a pele já estava pálida, o suor escorria pela nuca.

Jonas não acreditou. O coração dele apertou forte no peito. Instintivamente, pousou a mão no ombro dela, firme, tentando sustentá-la.

— Você não tá bem, Helena. Vem, eu vou te levar pra sentar.

Ela assentiu, orgulhosa demais pra admitir que precisava de ajuda, e deu dois passos para frente. Foi quando Jonas percebeu.

Uma pequena mancha vermelha começava a se espalhar pelo tecido creme da calça dela. Sangue.

Ele engoliu seco, sentindo o rosto esquentar. O desconforto o atingiu como um soco — não pelo sangue em si, mas porque ela parecia alheia, vulnerável, sem perceber o que acontecia. Era algo natural das mulheres, ele sabia, mas nunca viu algo assim pessoalmente.

Jonas tirou o celular do bolso, a voz firme como ordem:

— Venham me buscar. Agora.

Guardou o aparelho e ergueu o olhar para ela, que respirava com dificuldade, insistindo:

— Eu só preciso me sentar um pouco. Vai passar.

Jonas cerrou o maxilar. Lembrou das palavras de Heitor — “ela é teimosa”. Agora entendia.

Suspirou fundo, controlando a mistura de raiva, preocupação e algo novo que não queria nomear.

— Você é terrível… — disse baixo, quase para si mesmo. Depois ergueu o olhar decidido. — Mas eu não vou te deixar assim. Vou te levar pra casa.

Helena o encarou, os olhos firmes apesar da palidez.

— Eu não preciso de babá.

— Precisa de alguém e para a sua sorte, esse alguém sou eu. — rebateu Jonas, seco, mas o tom traía a ternura escondida.

Um carro preto e luxuoso deslizou até o meio-fio, parando a poucos metros deles. Jonas abriu a porta sem dar chance para discussão.

— Vem. — disse firme, segurando-a pelo braço com cuidado, como se tivesse medo que ela desmoronasse a qualquer instante.

Por um segundo, Helena pensou em resistir. Mas o calor, o cansaço e o olhar firme de Jonas — tão parecido com o dela quando se preocupava com Heitor — a fizeram ceder.

Ela entrou no carro.

Jonas fechou a porta atrás dela e, antes de dar a volta para entrar também, lançou um último olhar para o céu abafado do Rio.

Ainda com raiva dela, ainda convicto de que não merecia o amigo, mas agora… com uma vontade inesperada de protegê-la.

Helena recostou a cabeça contra o banco, o corpo mole, como se toda a energia tivesse se esvaído com o sol.

— Liga o ar, por favor. — Jonas pediu ao motorista, a voz mais firme que o habitual.

O som frio começou a preencher o carro, um alívio imediato contra o calor sufocante. Jonas lançou um olhar preocupado para ela: pálida, o suor na testa, os dedos entrelaçados com força na bolsa que mantinha sobre o colo.

— Pra onde vamos? — Helena perguntou, a voz baixa, quase arrastada.

— Pra casa do meu pai. — respondeu Jonas sem hesitar. — Você precisa descansar.

Ela suspirou, desconfortável. Não gostava da ideia de depender de alguém, muito menos dele. Mas o corpo não colaborava para contestar.

Jonas pegou uma garrafa de vidro com água no compartimento da porta e a estendeu.

— Bebe.

Helena segurou com mãos trêmulas, tomou alguns goles, e apoiou o frasco no colo.

— Obrigada. — murmurou, sem olhá-lo.

O silêncio tomou conta por alguns instantes. Jonas observava a paisagem correr pela janela, mas o olhar sempre voltava para ela, como se quisesse garantir que não desabaria a qualquer segundo.

Foi Helena quem quebrou o silêncio, a voz ainda fraca, mas carregada de firmeza:

— Eu sei o que você pensa de mim, Jonas. — respirou fundo. — Que eu sou uma ingrata, que eu não presto, que tô me vendendo pro Fortenelle.

Jonas virou o rosto devagar, os olhos estreitos, ouvindo.

— Mas você não entende. — ela continuou, encarando o horizonte além do vidro. — Eu lutei demais pra chegar até aqui. Eu não quero que um monte de homens ricos e mimados digam o que eu posso ou não fazer da minha vida. — fechou os olhos por um instante. — Eu amo o Heitor. Mais do que tudo. Mas eu também amo o que eu conquistei com o meu esforço. Eu não vou abrir mão disso.

Jonas apertou os lábios, como se quisesse retrucar, mas conteve a primeira resposta.

Helena virou o rosto pra ele, exausta mas com o brilho teimoso nos olhos castanhos:

— Você me julga sem saber, Jonas. Eu não tô me jogando nos braços do Fortenelle. Eu só… — hesitou, engolindo o orgulho. — Eu só quero mostrar que eu tenho valor. Que eu não sou só “a namorada do Heitor Monteiro”. Quero continuar sendo a Helena por quem ele se apaixonou. E que ele ama.

Ela voltou a recostar-se no banco, respirando fundo, deixando a confissão pender no ar como algo que pesava mais do que queria admitir.

Jonas a observou em silêncio por longos segundos. A mandíbula ainda cerrada, o peito fervendo de lealdade ao amigo, mas… havia ali uma fresta, um vislumbre de verdade.

— Vocês mulheres realmente pensam diferente — desabafou — É por isso que não namoro.

Ele pegou uma garrafa de vidro com água e abriu.

— Eu olho para o seu rosto e sinto que tenho que te dar um voto de confiança. — ele dá um gole e a olha com um olhar rendido — Com toda certeza nós conhecemos na outra vida. Porque tu é familiar demais.

— Não viaja garoto. É a primeira vez que nos vemos pessoalmente.

O observando melhor Jonas realmente parecia um garoto e não apenas isso, também parecia ser um bom amigo. Ela sorriu, ainda bem que Heitor tinha alguém assim.

— Eu amo o Heitor. — disse firme, a voz embargada. — E eu sinto muito pelo que fiz. Você pode não acreditar em mim, mas… ele é tudo pra mim.

Jonas ficou em silêncio por alguns segundos. Depois soltou um riso curto, balançando a cabeça.

— Você é brava demais pro seu próprio bem, sabia? — disse, o tom meio provocador, meio divertido. — Mas vou te contar… se fosse eu no lugar do Heitor, eu já tinha mandado você pastar faz tempo.

Helena ergueu os olhos para ele, incrédula.

— Que lindo, obrigada pelo apoio.

— Apoio eu dou pro meu irmão. — retrucou Jonas, mas o sorriso no canto da boca suavizava as palavras. — E é justamente por ele que eu tô aqui te aguentando.

Helena mordeu o lábio, tentando conter um sorriso que teimava em surgir.

— Você é mesmo um pivete.

— E você é uma teimosa. — rebateu Jonas, rápido. Depois completou, com um brilho nos olhos: — Mas eu não consigo te odiar. Isso é um problema.

Jonas a observou em silêncio por alguns segundos. Depois deu um leve tapa no encosto do banco da frente, como quem precisava aliviar a tensão.

— Não quero ser seu inimigo. — disse em um tom emburrado.

— Quer ser meu amigo? — ela perguntou com um sorriso de lado, como se falasse com uma criança.

—Talvez…

Helena esticou a mão em direção a ele.

— Eu quero ser amiga do irmão mais novo do meu namorado. — ela deu um sorriso bonito com os olhos — muito prazer em te conhecer, meu nome é Helena. Eu sou analista de riscos e namorada de Heitor Monteiro.

Jonas sentiu o rosto queimar de vergonha, ele podia jurar que já viu esse mesmo sorriso antes. E é um tipo de sorriso que aquece o peito dele. Não de um jeito romântico ou sexual, e sim de um jeito carinhoso, como se não importasse o que acontecesse, ela estaria ao lado dele.

Ele tentou controlar seus sentimentos, o que seria em vão, seu rosto vermelho destoava do resto. Que se foda. Ele se ajeitou e pegou a mão dela em um aperto.

— É um prazer conhecer a namorada do irmão mais velho — o sorriso dele era bonito de uma forma quase infantil — eu sou Jonas, filho mais velho do governador e o solteiro mais cobiçado atualmente — ele disse com bastante orgulho.

Helena riu, sentia seu corpo fraco, mas não conseguiu segurar uma risada sincera.