O CEO que Eu Paguei
103 Uma Nova Casa para o Coração
Helena entrou primeiro, puxando Heitor pela mão. A casa ainda exalava aquele cheiro familiar de janta quentinha e limpador perfumado — o tipo de aroma que não se descreve, só se reconhece como lar.
Heitor veio logo atrás, calado, mas atento. Os olhos dele varriam o ambiente como se tentasse entender cada memória impregnada nas paredes. Sabia que ali havia mais do que fotos antigas e móveis de madeira. Ali morava a raiz da mulher que ele amava.
Dona Olívia estava na cozinha, de avental florido, cortando banana pro Totó, que rondava seus pés feito sombra.
— Vó, cheguei com o Heitor. — Helena chamou, a voz alguns tons abaixo do habitual.
A senhora ergueu os olhos por cima dos óculos e, ao ver o homem atrás da neta, soltou um sorrisinho no canto da boca.
— Olha só… o sequestrador de neta apareceu.
— O próprio, dona Olívia. — Heitor respondeu, já com o sotaque carioca escorrendo pelas palavras. — Mas se sequestrar é crime, minha pena é ser apaixonado.
Ela riu, daquelas risadas que só vêm quando a gente gosta de verdade.
Helena se aproximou da mesa, mas não se sentou. Apoiou os dedos sobre a madeira. Os ombros rígidos, a expressão contida.Dona Olívia percebeu na hora.
— Que foi, menina? Tá com essa cara de quem quebrou a asa da santa?— A gente… — Helena começou, mas respirou fundo antes de continuar. — A gente precisa conversar.
A avó tirou o avental com calma, colocou-o dobrado sobre o encosto da cadeira e sentou com a tranquilidade de quem já esperava por isso.
— Fala, Helena.
Helena olhou para Heitor. Ele apenas assentiu, deixando claro que ela conduzia.
— Eu vou pro Rio. — ela disse, direta. — A Monteiro tem projetos grandes acontecendo. E a Plano vai me levar junto pra uma parceria. Um projeto meu foi selecionado. Vou ficar um tempo lá. Algumas semanas, talvez um mês.
Dona Olívia ficou calada. Os olhos escuros, atentos, como se estivessem checando se a neta estava mesmo decidida.
— E você quer ir?
— Quero. — Helena respondeu. — Por mim. Pelo trabalho. E… por ele também.
A avó desviou o olhar por um instante, depois o voltou para Heitor.
— E você, rapaz? Vai cuidar dela lá?
Heitor se inclinou à frente, com aquele jeito firme que sempre carregava, mas sem arrogância. Apenas presença.
— Dona Olívia, a senhora me conhece. Eu não prometo que a vida vai ser fácil, mas eu prometo que ela vai ter tudo que precisa. Respeito. Amor. Segurança. O que for. Eu não entrei na vida dela pra brincar. Entrei pra ficar
.Ela não respondeu de imediato. Só ficou olhando. Depois se levantou com calma e disse:
— E eu? Vai me deixar aqui sozinha com esse cachorro com mania de carregar chinelo?
— De jeito nenhum. — Heitor respondeu, antes mesmo de Helena abrir a boca.. — A casa da minha família aqui na cidade tá vazia. Dona Cidinha cuida de tudo lá, tem jardim, varanda, sombra, paz… e companhia. A senhora não vai ficar sozinha. Vai ser nossa hóspede de honra.
— Hospedada em mansão agora? — ela levantou uma sobrancelha, mas o sorriso já se desenhava no rosto.
— É o mínimo pra quem criou a mulher mais incrível que eu conheço.Helena abaixou os olhos, mas não conseguiu segurar o sorriso tímido que veio junto com a pontada no peito.
A avó se aproximou. Colocou as mãos nos ombros dela e falou com a voz mais doce — aquela que só usa em momentos importantes:
— Não se preocupa comigo, minha filha. Eu sempre soube que você ia voar. Só não esquece de onde veio.
— Nunca. — Helena sussurrou, os olhos marejados.
O coração de Dona Olívia doía durante as batidas, ela queria ordenar para Helena se trancar no quarto e nunca mais pisar para fora de casa, expulsar Heitor às vassouradas, mas… ela não podia. Quando foi a vez dela, ela recusou, quando foi a vez do filho, ela foi contra. Agora, ela deveria agir diferente, acabar com a maldição que Afonso rogou à décadas atrás.
Não era fácil, mas ela criou Helena, ela, não Lorena. A filha era mais dela do que de qualquer outra. Se Helena queria ir viver um amor, que ela fosse. Não precisava mentir dizendo que tinha haver com o emprego.
Olhou para Heitor de um jeito profundo querendo ver o reflexo da alma do rapaz, ela não conseguia. Gostava dele, mas ele tinha aquele jeito de quem nunca se perdia, aquele jeito de olhar de quem tinha todas as certezas e nunca estaria errado. Isso ela odiava. Era culpa dela Helena estar presa a esse ciclo que se iniciou com ela.
Voltou a olhar para Helena, e a menina era tão Lorena que mal parecia ser dela. Como foi para aquela mulher, esse mundo era pequeno demais para ela. Doía o fato que Helena não era como Dona Olívia, não se contentava com pouco e nem com a ordem das coisas. Ela sempre foi como Lorena, queria mais, sempre mais, o emprego não era o bastante, o dinheiro não era o bastante, o homem não era o bastante, agora a família não era o bastante…
Ela viu tudo isso se repetir em Helena como foi com Lorena. Era parte da maldição daquele homem? Há muito tempo não pensava nele. E gostaria de após aquele dia nunca mais pensar. Mas as palavras que ele disse da última vez, voltaram à mente enquanto olhava o casal à sua frente.
Dona Olívia não via seu filho em Helena, fora sua cor e pequenos detalhes, ela era aquela mulher. E o que a matava por dentro era saber que amava Helena. Independente de sua aparência, do seu jeito ou da sua voz. Era a ferida que nunca iria se curar, que nunca perdoaria, que nunca esqueceria. Como Deus permitia que ela sentisse amor e ódio por praticamente a mesma pessoa?
Puxou a neta para um abraço. Um daqueles apertados, cheios de passado, pedido de desculpas, bênção e saudade antecipada. Depois, virou-se para Heitor.
— E você, escuta aqui… Se fizer essa menina chorar, eu busco a chinela. E não é de borracha. É de couro. Daquelas que cantam na pele.
Heitor soltou um riso sem graça, mas sincero.
— Com todo respeito, dona Olívia… Eu tenho mais medo da senhora do que da auditoria do conselho.
Ela soltou uma gargalhada.
— Bom menino.
Helena percebeu que sempre teria um lar para voltar.
E, principalmente agora, alguém para construir um novo.
A lua já escorria pelas telhas da casa de Dona Olívia quando Helena acompanhou Heitor até o portão.
Ele estava com uma mão entrelaçada na dela e a chave do carro balançando na outra. O cabelo um pouco bagunçado, os óculos escuros pendurados na gola da camisa e aquele jeito de quem queria ficar, mas já estava com um pé na estrada.
Helena ficou ali, tentando parecer firme, mas os olhos… já estavam pesando.
— Ah, e não esquece de passar na farmácia. — ela falou, ainda olhando o portão. A voz baixa, meio casual demais.
Heitor franziu o cenho, desconfiado.
— Farmácia?
— Uhum. — ela estalou a língua. — Comprar camisinha. Tô no período fértil essa semana. Melhor garantir, né?
Ele parou. Olhou pra ela. Depois pro chão. Depois pra ela de novo.
— Pô... tu me solta isso assim? Fria? No portão da tua avó? — levantou a mão como se fosse protestar oficialmente. — Além de ter que viajar, ficar longe da minha mulher, ainda vou perder o melhor da temporada?
Helena sorriu, mas o olhar vacilou.Ele percebeu na hora.
— Isso é sabotagem, sabia? — ele continuou, a voz ainda brincando, mas com aquele fundo de saudade prestes a doer. — Imagina: terça-feira, reunião com uns engravatado chato no centro do Rio, e tu me manda mensagem dizendo “tô com saudade da tua mão na minha cintura”. Como é que eu fico?
Ela deu um riso curto e desviou o olhar.
— Você que quis marcar a viagem logo agora.
— Se eu não for, meu pai me joga da cobertura da Monteiro direto no calçadão. — ele coçou a nuca. — Amanhã depois do almoço eu passo em BH, pego o voo pra tá no Rio quarta cedinho.
Silêncio.
Eles se olharam. E parecia que um milhão de palavras estavam engasgadas nos dois.
Helena foi a primeira a ceder.
— Eu tô com medo. — ela disse, a voz mais baixa. — Medo desse tempo longe. Medo de… não sei.
— Eu também tô. — ele respondeu, sem hesitar. — Mas tu sabe que eu sou o cara que volta. Que cumpre o que fala. E... porra, Helena… eu queria que esse teu período fértil fosse comigo. Aqui. Agora. — sorriu de lado. — Mas se tiver que usar camisinha… eu uso. Triste. Chorando por dentro. Mas uso.
Ela deu uma risada abafada e sacudiu a cabeça.
— Drama.
— Realismo. — ele rebateu, chegando mais perto. — Eu queria era tá aí, ó — e apontou pro ventre dela, os olhos brilhando — plantando semente e te chamando de futura mamãe do meu moleque marrento. Mas não. Vou tá na ponte aérea, fingindo que não tô imaginando tu deitada na minha cama com aquela tua cara de safada querendo rebolar no meu pau a noite inteira.
Helena mordeu o lábio, tentando segurar o riso — e o calor que subiu até as bochechas.
— Heitor… — ela disse num tom mais baixo, desviando o olhar. — É cedo pra esse papo de filho, não acha?
Ele ergueu as sobrancelhas, ainda com aquele sorriso no canto da boca.
— Quando você quiser ou quando vier, eu tô pronto. Já te falei.
— Pelo amor de Deus… — ela riu, balançando a cabeça, mas claramente sem saber onde enfiar a cara. — Você não tem noção da gravidade do que tá falando.
— Não tem gravidade nenhuma. — ele rebateu, agora mais sério, mas sem perder a leveza da voz. — Ter um filho com a mulher que eu amo? Isso é sorte de verdade.
Helena respirou fundo, o coração batendo mais forte.
— Se você continuar falando de filho agora, Monteiro… — ela ameaçou, estreitando os olhos — eu juro que esqueço minha tabelinha, e a partir de hoje a gente usa camisinha em todas. Até pra beijo na bochecha.— Que isso, Helê…— ele arregalando os olhos indignado. — Não faz isso comigo não. Principalmente com meu pau.
— Então se comporta. Eu quero … pensar em ser mãe, mas só depois de me casar, ter uma estabilidade… Ainda estou nova e não estou pronta.— Isso quer dizer que eu devo te pedir em casamento?
Ela riu, um riso bonito que combinava com o brilho no olhar.
— Agora não. — encarava os detalhes no rosto dele — Vamos aproveitar o nosso namoro, cada momento no seu lugar.
— Então sem filhos agora né? — a expressão dele era de um cachorro com as orelhas baixas.
— Nada de filhos e nada de falar sobre filhos. Isso me dá até calafrios.
— Como quiser, minha namorada.
Helena não aguentou mais. Deu um passo à frente e o abraçou com força. Enterrou o rosto no peito dele e respirou fundo.
Aquele cheiro. Aquele calor. Aquela paz inquieta que só ele causava.
Heitor segurou ela com os dois braços, encaixando como se fosse pra manter no lugar tudo que ainda estava tentando entender.
— Vai ser só uns dias, amor. — ele murmurou no cabelo dela. — Eu vou cuidar de tudo. Da viagem, da tua avó, do Totó. E quando tu chegar lá… — afastou só um pouco o rosto pra olhar dentro dos olhos dela — eu te mostro o Rio e toda a saudade que estava de você.
Ela assentiu devagar. Depois sussurrou:
— Promete?— Prometo não. — ele disse, com a voz rouca. — Eu garanto.Helena respirou fundo. Quando se soltou do abraço, ele beijou o alto da testa dela, depois a boca, depois o queixo — como se cada parte fosse um lembrete.
— Cuida da sua avó. Cuida de ti.— E você compra a porra da camisinha. — ela retrucou, com um meio sorriso.
— Compro até de morango. Mas só vou usar se tu pedir com jeitinho. — ele foi falando com aquele tom safado.
Ela riu.
— Tchau, Heitor.
— Até logo, Helê.Ele entrou no carro. A buzina soou aquele toque curto que ela já reconhecia. Helena ficou parada no portão, os braços cruzados como escudo e os olhos marejados como denúncia.
O carro virou a esquina.
E ela continuou ali. Sozinha.O coração ainda doía como se ele estivesse indo embora pra sempre.
Mesmo sabendo que, dessa vez, ele voltaria.
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