O CEO que Eu Paguei
104 Eu só queria ouvir a sua voz
Helena acordou com a boca seca e o travesseiro frio.
A casa estava em silêncio. Dona Olívia dormia no quarto ao lado. Totó, em algum canto, enroscado no cobertor velho. Nem um latido. Nem um passo. Só o tipo de silêncio que pesa mais do que grito.
Ela olhou o celular: 2h17.
Suspirou. Rolou pro outro lado.
O corpo dela sentia falta. Mas não era só o corpo.
Era o calor da mão dele na cintura. A perna dela por cima da dele. O jeito como, mesmo dormindo, ele ainda puxava ela pra perto como se o subconsciente dele dissesse: vem cá, mulher minha.
Pegou o celular no criado.
Desbloqueou.
Fotos.
Fotos dele. Dos dois. A pasta se chama “Meu insuportável lindo”.
Na cachoeira, no espelho do shopping, com o roupão dela caindo e ele sorrindo como um bobo. Ele com cara de sono, fotos dos dois mostrando as alianças. No carro, com ele de óculos escuro e ela rindo como se o mundo fosse leve.
De repente, o peito apertou tanto que parecia que não tinha mais ar dentro do quarto. Ela sabia que estavam prestes a viver algo grande. Gigante. Ela ia apresentar o projeto dela para uma multinacional. Ia sair de casa. Ia conhecer a família dele. Ia pro Rio. Por ele. Mas também… por ela. Helena mordeu o lábio e, antes que pensasse demais, o dedo escorregou até o nome que ela mais tocava nos últimos dias:
Heitor 🥰💖
Chamando…Chamando…
— Alô? — a voz veio grave, meio rouca, carregada de sono e sotaque — Aconteceu alguma coisa?
— Não. — Helena respondeu, baixinho. — Eu só… queria ouvir sua voz.
Pausa.
O som de lençol amassando, ele se mexendo.
— Caralho, mulher… tu me liga duas da manhã e fala assim? Eu achei que o mundo tinha acabado. Já ia sair do quarto de cueca achando que o Totó tinha fugido com a tua avó. — ele resmungou, depois riu. — Mas, se for saudade, aí tudo bem.
Helena deu um risinho, envergonhada.
— Nem é saudade, não… — disse, tentando parecer firme. — É só que… o travesseiro tá gelado. E... ninguém tá roncando no meu ouvido.
— Quer que eu te mande um áudio meu só roncando? — ele perguntou com a voz preguiçosa e um sorrisinho bobo escancarado — Boto um gemido no meio pra tu sonhar gostoso. Faço trilha sonora personalizada. Quer?
— Idiota. — ela sussurrou, mas riu de novo, baixinho.
— Fala sério… tu queria ouvir minha voz mesmo ou queria que eu ajudasse tu a dormir melhor, hein? — ele provocou, a voz mais baixa, mais quente. — Tu sabe que eu durmo pelado, né?
— Heitor…
— E se eu estivesse aí agora? — ele continuou, descarado. — Tu acha que ia ficar só nessa de ouvir minha respiração? Sei não, Helê… eu conheço essa saudade tua. Ela começa no peito, mas desce rapidinho para essa bucetinha sua.
— Você não presta. — ela murmurou, mordendo o canto da boca, entre riso e suspiro.
— Não mesmo. — ele respondeu, quase cantando. — Mas tu gosta. E você me ligou. É uma safada mesmo, minha safada.
Helena virou o rosto no travesseiro, abafando o sorriso.
— Você mora no meu pensamento. Com endereço fixo.
— Duplex, varanda gourmet, sem pagar IPTU. — ele completou, rindo. — Eu sei. Tô aí dentro, jogado no sofá, sem roupa e com o pau mais duro que madeira.
— Você não presta. — ela murmurou, mordendo o canto da boca, entre riso e suspiro.
— Para… — ela tentou conter o riso, mas ele veio. Quente. Gostoso.
— Tô com saudade, Helê. Da tua voz, da tua mão me procurando de madrugada… do teu corpo colado no meu, revirando os olhos quando eu passo a mão na tua perna e falo “vem cá, não foge de mim não”.
Ela ficou em silêncio.
Mas ele ouviu o jeito como ela respirava.
E sorriu.
— Tu me liga só pra ouvir minha voz e acha que eu não vou perceber que o travesseiro que tu quer… sou eu.
— Você é impossível.
— Mas sou seu. — ele respondeu, agora com mais calma. — Você sabe disso, né? Que eu sou seu. Até quando tô longe.
Helena fechou os olhos. Sentiu os lábios tremerem com o que viria a seguir.
— Eu... não sou boa com isso. Mas, tipo… quando acontece algo bom, eu penso em te contar. Quando fico triste, penso em ouvir sua voz. Quando tô sozinha… é você que falta.
Silêncio. Um silêncio cheio de amor.
— Tu não precisa ser boa com isso. Eu entendo. — ele respondeu, baixinho. — Porque eu sou bom em entender tuas entrelinhas. Eu ouço até o que tu não fala. Porque eu sinto também. Tu me desmonta, Helê.
— Ele ficou quieto por um momento. Depois soltou um suspiro longo.
— E mesmo quando eu queria jogar a marra de homem vivido, eu só quero ouvir sua risada depois de uma zoeira minha. Só quero ver o seu sorriso, gatinha.
Ficaram em silêncio de novo.
Então Helena perguntou, mais baixa ainda:
— Você pode vir me buscar?
— Tu me liga de madrugada, me deixa com saudade, me chama pra deitar no meu peito e ainda pergunta se eu posso te buscar? Já tô no carro, amor.
— Mentira.
— Tô de chinelo. De blusa do Fluminense. Sem juízo nenhum. Mas com saudade de sobra.
— Bobo.
— Mas cê me quer assim mesmo. — ele provocou, rindo. — Me espera com aquele moletom seu que eu adoro. E se quiser… pode vir sem calcinha.. vem bem a vontade.
— Se você continuar falando besteira, eu vou desligar.
— Se desligar, eu pulo o portão de novo. Só vamos torcer para sua vizinha não me denunciar de novo.
Helena suspirou.
— Vem logo. Antes que eu mude de ideia.
— Já tô chegando. Fica aí com esse sorrisinho safado que eu gosto. E tenta não me fazer perder o juízo logo na chegada.
Helena desligou.
O peito acelerado.
Não era só vontade.
Não era só saudade.
Naquela noite, com o coração mais quente do que o travesseiro ao lado, ela sabia:
Ele vinha.
Porque quando era ela… sempre vinha.
Ela se arrumou rápido. Sem sutiã, colocou o moletom que ele pediu, vestiu uma calça legging, prendeu o cabelo no alto — do jeito que ele gostava, bagunçado mesmo, com uns fios soltos caindo na testa. Pegou a mochila pequena e colocou algumas coisas. Nada demais. Só o essencial: escova de dente, uma blusa dele que ela “esqueceu” de devolver e o perfume que ele dizia que dava vontade de morder o ombro dela.
Na cozinha, escreveu um bilhete rápido:
“Vó, fui dormir com o Heitor.
Amanhã a gente se fala.
Não se preocupe.
Beijos — Helena.”
Totó seguiu até a porta com o focinho inquieto. Helena se abaixou, fez carinho atrás da orelha dele e sussurrou:
— Cuida da vó, hein? Vou demorar.
A lua cheia iluminava o quintal com uma luz branca e fria, mas ela nem sentia. As bochechas estavam geladas, o peito quente, o sorriso quase bobo no rosto. Era tarde. Era loucura. Mas era com ele. E isso bastava.
Dez minutos depois, o Audi A7 preto parou na porta. Os faróis baixos, a batida leve da música no carro, e o motorista com cara de safado encantado.
Helena abriu o portão devagar e entrou. Heitor estava com o cabelo amassado, sem camisa por baixo da jaqueta fina e o sorriso largo de quem achava graça da própria sorte.
Ela entrou e, sem pensar, se jogou num abraço. Beijou o rosto dele inteiro, o nariz, as bochechas, o queixo, rindo baixinho contra a pele dele.
— Que isso, mulher… que que tá fazendo? — ele perguntou, com a voz ainda rouca de sono e um sorriso escapando nos cantos da boca. — Tá querendo me mapear?
— Tô te beijando. É proibido agora?
Ela passou os dedos pelos fios pretos bagunçados do cabelo dele, rindo do jeitinho desarmado que ele ficava.
— Seu cabelo tá crescendo, sabia? Desde que a gente se conheceu. E tá bonito assim.
Heitor coçou o queixo, meio sem jeito.
— Tava pensando em cortar. Fazer aquele estilo lateral baixa, só um pouco mais alto em cima. Mas sem degradê igual antes, né. Tô velho pra essas porra.
Helena arqueou a sobrancelha, debochada:
— Vai virar boyzinho de novo agora? Vai andar de pochete no ombro também?
— Ué. tu não gosta de mim cheio de marra?
— Gosto de você de qualquer jeito. Até quando acorda com a boca seca e me chama de “minha mulher” sem nem escovar os dentes.
Ele ficou quieto. E quando ela parou de mexer no cabelo dele, ele soltou um murmúrio baixo:
— Continua. — disse, com aquele olhar dele. Quase um pedido. Quase um vício.
Helena sorriu, ajeitou o corpo no banco e voltou a mexer no cabelo dele, devagar, como quem sabe o quanto é bom ser tocado assim, no meio da madrugada, por alguém que ficou.
— Vai. Dirige. Eu continuo aqui.
— Vai me distraindo assim, e eu passo reto na entrada do condomínio.
— Se passar, eu deixo de carinho e te dou um tapa.
— Promessa?
— Heitor…
— Tô zoando. Mais ou menos.
Ela riu, o olhar agora mais calmo. Já estavam na rua, mas dentro do carro era só silêncio, calor e aquela conexão que nenhum dos dois sabia explicar.
Heitor parou no sinal e virou o rosto pra ela, a mão ainda entrelaçada à dela por cima do câmbio.
— Tu sabe que essa foi a melhor ligação que eu recebi esse ano, né?
— Eu liguei só pra ouvir sua voz.— Pois é. E agora eu tô levando sua voz pra dormir comigo.
Helena ficou em silêncio. Só olhou pra ele como quem olha pra casa.
E Heitor, com a voz ainda meio rouca, soltou:
— Hoje cê vai dormir com seu namorado pegajoso, safado e apaixonado. E amanhã... vai acordar do lado do homem que acorda melhor quando sente seu pé gelado procurando o dele debaixo do lençol.
— Bobo.
— Sua cara metade.
E dessa vez, ela não discordou.
Porque era.
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