O CEO que Eu Paguei
239 Uma Casa Grande Demais
— Dona Helena, não acho que essa seja uma boa ideia.
Helena nem precisou olhar pelo retrovisor para saber que Oséias estava com aquela expressão de desaprovação que ele fazia sempre que acreditava que ela estava prestes a fazer algo que não devia. Nos últimos vinte minutos ele já tinha repetido aquilo tantas vezes que ela quase conseguia completar a frase junto com ele.
Mesmo assim, manteve os olhos na estrada.
— É uma excelente ideia.
— Foi exatamente o que a senhora disse cinco minutos atrás.
— Porque continua sendo uma excelente ideia.
— Continua sendo uma péssima ideia.
Helena soltou um suspiro divertido, embora estivesse nervosa demais para realmente achar graça. Desde que assistiu ao vídeo do Augusto naquela manhã, não conseguiu pensar em mais nada. Nem no almoço. Nem nas mensagens que tinha para responder. Nem no monte de coisas que precisava resolver naquela semana.
Só naquele bebê.
No sorriso dele.
No jeito como balançava os bracinhos quando via James.
No fato de que parecia feliz demais para uma criança que ainda não tinha uma família.
Seu olhar desviou por um instante para o espelho interno.
Humberto dormia profundamente na cadeirinha. A boca levemente aberta, os cílios escuros descansando sobre as bochechas gordinhas. Era impossível olhar para o próprio filho e não pensar em Augusto.
Talvez fosse justamente esse o problema.
— Pensa no bebezinho. — insistiu Oséias. — E pensa no doutor Heitor também. Porque quando ele descobrir onde a senhora veio, eu não quero estar presente.
Helena revirou os olhos.
— O Heitor não precisa saber de tudo.
A frase saiu tão automática que até ela percebeu a mentira no mesmo instante. Porque sabia exatamente o que aconteceria. Primeiro ela contaria. Depois ele ficaria indignado. Depois faria um discurso de quinze minutos sobre como aquilo era uma péssima ideia. E por fim acabaria perguntando se ela estava bem.
Porque era sempre assim.
A simples lembrança arrancou um sorriso involuntário.
— Tá vendo? — disse Oséias. — A senhora já tá até nervosa.
— Eu não estou nervosa.
— Tá sim.
Helena balançou a cabeça, era inútil discutir.
Quando os portões da propriedade dos Fortenelle apareceram à frente, porém, o sorriso desapareceu sozinho. Seu estômago apertou.
Aquilo era ridículo.
Ela era adulta, mãe e noiva.
Tinha enfrentado situações muito piores. Mesmo assim, bastou enxergar a mansão para voltar a sentir a mesma tensão de meses atrás. Porque aquela família carregava memórias demais. Boas e ruins. Principalmente ruins.
O segurança saiu da guarita e fez sinal para que ela parasse.
Helena obedeceu. Enquanto abaixava o vidro, percebeu as próprias mãos úmidas sobre o volante. Talvez estivesse nervosa mesmo.
— Bom dia. Posso ajudá-la?
— Bom dia. Meu nome é Helena Ribeiro Campos. Gostaria de saber se a senhora Viviane está em casa.
O homem a reconheceu imediatamente. Ela percebeu. Todo mundo reconhecia. Aquela história tinha sido pública demais para alguém não reconhecer.
— A senhora tem horário marcado?
— Não.
— E qual seria o motivo da visita?
Helena abriu a boca para responder "assunto pessoal". Era a resposta mais simples. A mais conveniente, mas alguma coisa a impediu. Talvez porque, apesar de tudo, sentisse que devia honestidade àquela mulher. Ou talvez porque já estivesse cansada de meias verdades.
— Eu preciso da ajuda dela.
O segurança pareceu surpreso. Helena também teria ficado.
— Sei que não tenho direito de pedir nada. — continuou. — Mas ela é a única pessoa com quem consigo conversar sobre isso.
O homem observou seu rosto durante alguns segundos. Depois olhou para dentro do carro, viu Humberto e Oséias. Então se afastou para falar no rádio.
O silêncio que se instalou foi quase sufocante e foi justamente naquele silêncio que as lembranças vieram.
Porque era impossível estar ali sem lembrar. Lembrar da primeira vez que conheceu Viviane, da mulher elegante que a abraçou como se já a conhecesse havia anos, das inúmeras vezes em que tentou convencê-la a trabalhar na Fort Group, dos almoços, dos convites e dos elogios.
Viviane gostava dela.
Helena nunca tivera dúvidas sobre isso.
Chegou ao ponto de oferecer uma diretoria. Uma diretoria… Aquilo ainda parecia absurdo quando lembrava. Depois tudo foi destruído quando o Antônio inventou a mentira.
Viviane acreditou e a mulher que antes a recebia de braços abertos se transformou em uma das pessoas que mais machucaram sua reputação.
Até hoje existiam pessoas que acreditavam naquela história. Até hoje existiam pessoas que olhavam para Humberto e faziam contas. Até hoje isso a deixava furiosa.
— Dona Helena...
A voz de Oséias a trouxe de volta.
— Hum?
— Ainda dá tempo de ir embora.
Helena observou o portão fechado à sua frente. Depois olhou para o filho dormindo. Pensou em Augusto e balançou a cabeça.
— Não.
Porque algumas coisas precisavam ser feitas. Mesmo quando davam medo.
O guarda voltou alguns minutos depois. A expressão continuava séria, mas já não parecia tão hostil quanto antes.
— A senhora e o bebê podem entrar. O outro senhor não.
A resposta fez Oséias se endireitar imediatamente no banco de trás. O movimento foi tão rápido que Helena nem precisou olhar pelo retrovisor para imaginar a expressão dele.
— Se eu não entrar, ela também não entra. — A voz saiu grave e firme, daquele jeito que costumava fazer os outros pensarem duas vezes antes de discutir com ele.
O guarda cruzou os braços.
— Então podem dar meia-volta.
Helena fechou os olhos por um segundo, aquilo era exatamente o que ela estava tentando evitar.
— Ei, calma vocês dois. — Ela ergueu uma das mãos antes que aquilo virasse uma disputa de quem era mais teimoso. — Moço, eu não posso deixar ele aqui fora.
O guarda não respondeu.
— Ele pode esperar no carro. Lá na porta. Só isso.
O homem continuou em silêncio. Helena respirou fundo.
— Eu vou me sentir melhor assim, por favor. Ainda mais depois de tudo o que aconteceu... no hospital.
Aquilo pareceu surtir algum efeito. O guarda limpou a garganta e desviou o olhar por um instante, como se estivesse reconsiderando.
— Tudo bem. Só até a porta.
O alívio veio tão rápido que Helena abriu um sorriso sem perceber.
— Obrigada.
O homem apenas assentiu.
Quando ela voltou a olhar para o retrovisor, encontrou Oséias encarando o segurança com uma expressão tão fechada que parecia estar avaliando quantas formas diferentes existiam de estragar todo o esforço dela.
Antes que ele resolvesse dizer alguma coisa, Helena arrancou com o carro. Era melhor não testar a paciência de ninguém. O silêncio durou apenas alguns segundos. Logo o interior do veículo voltou a ser preenchido pelo som mais fofo do mundo.
As bolhinhas de saliva de Humberto.
Helena sorriu automaticamente.
O bebê ainda estava acordado. Pelo espelho, conseguiu vê-lo brincando sozinho com a própria chupeta, produzindo sons incompreensíveis e extremamente incríveis para ele.
Aquele menino realmente nunca ficava quieto.
— E o Humberto? Como está? — perguntou, tentando aliviar a tensão.
— Chateado com a senhora.
Helena soltou uma risada.
— Ah, é?
— É sim.
— E por quê?
— Porque ele não queria estar aqui.
— Oséias, você virou intérprete de bebê agora?
— Não preciso ser intérprete. Conheço o pequeno Monteiro.
Humberto escolheu aquele exato momento para emitir um som mais alto, a criação das bolhinhas estava realmente interessante.
— Tá vendo? — disse Oséias. — Acabou de concordar comigo.
Helena balançou a cabeça, rindo.
Às vezes esquecia que Oséias passava tanto tempo com ela, que Helena já o considerava um amigo.
— Vai ser rápido.
— A senhora disse isso quando resolveu passar "só cinco minutos" naquela feira de artesanato.
— E demorou quanto?
— Três horas e quarenta minutos.
Helena riu novamente.
Mas a risada desapareceu aos poucos quando o casarão começou a surgir entre as árvores.
O lugar era impressionante. A construção parecia saída de um filme antigo. Jardins perfeitamente cuidados, fontes de pedra, caminhos largos cercados por flores. Tudo elegante. Tudo impecável.
Tudo muito Fortenelle.
Sentiu o estômago apertar outra vez.
Talvez tivesse sido mais corajosa dentro de casa. Talvez tivesse sido mais corajosa enquanto dirigia. Mas agora que estava realmente chegando, a realidade parecia diferente.
— Dona Helena.
A voz de Oséias veio mais baixa desta vez.
Ela olhou pelo retrovisor. O guarda-costas já não parecia irritado e sim parecia preocupado.
— O que foi?
— Toma cuidado.
Aquilo fez Helena sorrir, porque ele falava como se ela estivesse prestes a entrar numa zona de guerra.
— Vou tomar.
— Estou falando sério.
— Eu sei.
Os olhos dele foram até Humberto. Depois voltaram para ela.
— Principalmente por causa do pequeno.
O sorriso de Helena diminuiu, porque ela sabia. Sabia exatamente por que Oséias estava tão resistente. Sabia exatamente por que Heitor teria surtado se soubesse que ela estava ali.
— Vai ficar tudo bem. — Ela falou com mais convicção do que realmente sentia. — E se acontecer alguma coisa… — abriu um sorriso. — Eu prometo que grito.
Oséias soltou o ar pelo nariz, claramente sem achar graça nenhuma.
— Dona Helena...
— Estou brincando.
— Não parece.
— Eu vou ficar bem.
Ele a observou por alguns segundos e por fim assentiu. Não porque acreditasse. Mas porque já conhecia Helena o suficiente para saber que, quando ela colocava alguma coisa na cabeça, era praticamente impossível fazê-la mudar de ideia.
Helena estacionou exatamente onde o funcionário indicou.
Desligou o carro e, pela primeira vez desde que saiu de casa, percebeu que suas mãos estavam geladas.
Ela pegou a bolsa no banco do passageiro e desceu do carro. O ar estava agradável, carregado pelo perfume das flores espalhadas pelos jardins da propriedade. Por um instante, ficou parada ao lado da porta, observando a imponência da mansão à sua frente. Mas não tinha ido até ali para admirar arquitetura.
Respirando fundo, caminhou até a porta traseira da Range Rover e abriu.
Assim que Humberto a viu, o rostinho inteiro se iluminou. Os olhinhos azuis se arregalaram, a boca abriu em um sorriso enorme e uma gargalhada gostosa escapou dele, como se reencontrar a mãe depois de alguns minutos fosse o acontecimento mais feliz da vida.
O coração de Helena derreteu na mesma hora.
— Oi, meu amor. — Ela sorriu, inclinando-se para limpar um fio de saliva no cantinho da boca dele. — Vamos dar um passeio?
— Aaaah! Guuu!
As perninhas começaram a chutar o ar imediatamente. Os bracinhos se agitavam com tanta animação que parecia que ele estava tentando contar alguma novidade que só ele sabia.
Helena riu.
— É mesmo? Tudo isso aconteceu?
Humberto respondeu com outro balbucio animado.
Era impossível não rir.
Ela o tirou da cadeirinha e o acomodou no colo. O bebê imediatamente agarrou uma mecha de seus cabelos enquanto ela enchia suas bochechas de beijos.
— Meu Deus, eu vou morrer de amor por você.
Humberto soltou uma gargalhada tão alta que até Oséias, que acabava de descer do carro, virou o rosto na direção deles.
— Vou ficar aqui esperando.
Helena riu e segurou uma das mãozinhas de Humberto.
— Então vamos dar tchau para o Oséias. — levantou a mãozinha do bebê e começou a balançá-la. — Tchau, Oséias.
— Gaaa!
— Isso mesmo. Tchauuu.
Humberto achou a brincadeira maravilhosa. Começou a rir, balançando os braços e as pernas como se aquilo fosse a coisa mais divertida do mundo.
Até Oséias acabou cedendo. Um sorriso pequeno apareceu em seu rosto enquanto ele acenava de volta.
— Tchau, pequeno.
Helena observou a cena por um instante.
Apesar de toda a pose séria, Humberto tinha conseguido conquistar Oséias, como conquistava praticamente todo mundo.
O bebê então voltou sua atenção para os jardins, fascinado pelas árvores, pelos pássaros e pelos movimentos ao redor. Os olhos acompanhavam tudo com uma curiosidade quase incansável.
Helena aproveitou para olhar novamente para a entrada da mansão.
O sorriso desapareceu um pouco, o nervosismo voltou. Engoliu em seco e sentiu o coração acelerar. Humberto percebeu alguma mudança porque voltou a olhar para ela.
Por alguns segundos, apenas a encarou. Depois abriu outro sorriso, daqueles enormes, daqueles que pareciam dizer que tudo ficaria bem.
Helena sorriu de volta.
— Vamos, filhinho.
Subiu o primeiro degrau, depois o segundo e então a enorme porta de madeira se abriu antes mesmo que ela alcançasse a campainha.
Uma funcionária apareceu do outro lado. Elegante, discreta e sorridente.
— Bom dia.
— Bom dia. — Helena respondeu automaticamente.
O sorriso educado da mulher ajudou a aliviar um pouco a tensão que sentia,porque no instante seguinte seus olhos ultrapassaram a funcionária e encontraram Viviane Fortenelle.
Ela estava parada alguns metros atrás, no centro do hall de entrada. Alta. Elegante. Perfeitamente alinhada como sempre. Os cabelos loiros impecáveis. O vestido sofisticado. A postura que parecia pertencer a alguém acostumada a ser observada.
Por um momento, o tempo pareceu desacelerar. Helena sentiu os músculos do corpo ficarem tensos. O coração bateu mais forte. Não de raiva. Não de medo. Talvez de expectativa. Talvez de tristeza. Talvez das duas coisas.
Porque, apesar de tudo que havia acontecido, apesar das mentiras, dos ataques e das feridas que ainda existiam, Helena não conseguia sentir ódio quando olhava para Viviane.
O que sentia era algo muito mais complicado. Muito mais doloroso.
Foi então que Humberto resolveu fazer o que fazia melhor. Quebrar completamente qualquer clima dramático.
O bebê olhou para frente. Viu a mulher loira parada no hall e abriu um sorriso gigantesco.
— Aaaah!
Logo em seguida veio uma gargalhada alta, feliz e espontânea. Como se tivesse acabado de encontrar uma velha amiga.
Helena piscou surpresa.
E, pelo brilho repentino nos olhos de Viviane, ela também. A expressão séria da mulher simplesmente desapareceu. Um sorriso bonito surgiu em seu rosto, daqueles genuínos, daqueles que não pareciam ensaiados.
Viviane se aproximou devagar, como se não quisesse assustar o bebê.
— Mas que gracinha… — parou a uma distância respeitosa. — Oi, fofuxinho.
Humberto respondeu imediatamente.
— Ahhhh! Hum! Gaaa!
As mãozinhas se agitaram no ar enquanto ele ria para ela. Viviane soltou uma pequena gargalhada. Por um instante, parecia que era uma avó encantada por um bebê.
Nada mais.
Então seus olhos verdes subiram até encontrar os de Helena e o sorriso diminuiu, tornando-se algo mais suave, mais sincero.
Havia tantas coisas não ditas entre elas que Helena nem saberia por onde começar.
Ainda assim, quando Viviane falou, sua voz saiu surpreendentemente gentil.
— Oi, Helena.
E, para a surpresa da própria Helena, ainda havia carinho ali. Um carinho antigo. Machucado, mas ainda vivo.
— Oi, Viviane.
A funcionária percebeu imediatamente que aquela conversa não precisava de plateia. Com um discreto "com licença", desapareceu pelo corredor, deixando as duas sozinhas no enorme hall da mansão.
Por alguns segundos, nenhuma delas falou. O silêncio parecia pesado demais. Viviane foi a primeira a se mover.
— Venha. Vamos nos sentar um pouco.
Ela indicou a sala com um gesto suave e começou a caminhar. Helena deu apenas dois passos antes de parar. Não tinha conseguido segurar.
— Por quê?
Viviane virou-se novamente.
— Como?
Helena sentiu a garganta apertar.
Tinha pensado em mil maneiras de começar aquela conversa. Mas, quando chegou a hora, aquela era a única pergunta que conseguia fazer.
— Por que você falou tantas mentiras sobre mim?
A voz saiu mais baixa do que pretendia. Mais magoada do que irritada.
Humberto se mexeu em seu colo, completamente alheio ao peso daquela conversa. As mãozinhas abriam e fechavam sobre a blusa dela enquanto ele observava tudo com curiosidade. Quando percebeu o olhar da mãe, abriu um sorriso tão bonito que Helena acabou sorrindo de volta, mesmo sem querer.
Viviane viu e aquilo pareceu machucá-la ainda mais. Os olhos verdes se encheram de lágrimas quase imediatamente.
— Porque eu achei que eram verdade. — a resposta veio sem defesa, sem desculpas e sem justificativas. Apenas tristeza. — Eu queria muito que fossem verdade.
Helena ficou imóvel. Viviane desviou os olhos por um instante, como se sentisse vergonha da própria confissão.
— Quando Antônio me contou... eu acreditei nele. — a voz dela falhou. — Eu queria acreditar.
Helena sentiu a indignação voltar.
— Eu precisei fazer um exame de DNA, Viviane. — aquelas palavras saíram mais duras. — Até hoje existem pessoas que acreditam que eu traí o Heitor.
Viviane fechou os olhos. Como alguém recebendo um golpe que sabia merecer.
— Eu sei.
O silêncio voltou, doloroso. Quando ela tornou a falar, sua voz estava mais baixa.
— Até o dia em que o Heitor colocou aquele exame na minha frente, eu ainda tinha esperança de que esse menino fosse meu neto.
Os olhos dela foram até Humberto e algo em sua expressão se transformou. Não era tristeza, era saudade de algo que nunca existiu.
— Mas olha para ele… — um sorriso triste apareceu. — Ele é tão parecido com o pai.
Helena baixou os olhos para o filho, aquilo era verdade. Cada vez mais.
— Deus faz as coisas de um jeito curioso. — Viviane sorriu sem humor. — Parece que fez questão de não deixar nenhuma dúvida.
Humberto continuava entretido com os próprios dedos. Como se aquela conversa não estivesse partindo corações ao redor dele. Viviane observou o bebê por alguns segundos antes de voltar a olhar para Helena.
— Eu sempre gostei de você. — aquilo surpreendeu Helena mais do que deveria. — Desde a primeira vez que entrou na Fort Group.
Um brilho distante surgiu nos olhos da empresária.
— Você era tão confiante. Tão determinada. Entrava nas reuniões sem medo de ninguém. — ela soltou uma pequena risada. — E discutia comigo como se eu não fosse a dona da empresa.
Helena quase sorriu.
— Eu admirava isso. — Viviane respirou fundo. — Eu admirava você.
A voz começou a falhar.
— E eu queria que você fosse minha nora. — as lágrimas finalmente escaparam. — Eu queria que você fosse a mãe dos meus netos.
Ela levou uma mão ao rosto, tentando recuperar a compostura, tentando ser a mulher forte que sempre fora. Mas algo dentro dela parecia quebrado havia muito tempo.
— Eu sei que machuquei você. — os olhos encontraram os de Helena. — E lamento isso todos os dias.
A voz saiu rouca.
— Porque nada disso deveria ter acontecido. — ela engoliu em seco. — Eu passei quase a vida inteira criando Antônio sozinha.
A vida inteira. A palavra ficou suspensa entre elas.
— Trabalhei como uma condenada. Construí empresas. Viajei. Fiz tudo o que podia para dar a ele uma vida boa e mesmo assim estar presente para ele.
As lágrimas escorriam livremente agora.
— E no final… — ela parou. Porque aquela frase parecia difícil demais. — No final eu não reconheci meu próprio filho.
Aquilo atingiu Helena como um soco. Porque pela primeira vez não estava vendo a poderosa Viviane Fortenelle.
Estava vendo apenas uma mãe. Uma mãe que tinha perdido o filho muito antes de deixar de falar com ele.
Viviane se aproximou devagar e parou diante dela.
— Não era para ser assim, Helena. — a voz tremia. — Principalmente o que aconteceu no hospital. — os olhos dela se fecharam por um instante. — Só Deus sabe o quanto aquilo me destruiu.
Quando os abriu novamente, estavam vermelhos.
— Eu nunca desejaria uma coisa daquelas para ninguém. — ela respirou fundo. — Muito menos para você.
Foi então que Humberto decidiu encerrar momentaneamente o drama. Com toda a autoridade de um bebê de três meses. Uma mãozinha disparou na direção dos cabelos loiros de Viviane e agarrou uma mecha inteira.
— Ah!
Viviane arregalou os olhos. Helena quase teve um infarto.
— Humberto!
O bebê soltou uma gargalhada. Como se aquilo fosse a coisa mais divertida do mundo.
— Não pode fazer isso, filho.
Helena tentou abrir os dedinhos dele. Sem sucesso.
— Meu Deus, ele é forte.
— Eu sei! — respondeu Helena, já lutando contra os dedos minúsculos. — Ninguém acredita quando eu falo.
— Acredito agora.
Viviane estava rindo pela primeira vez desde que a conversa começou. Uma risada genuína. Molhada pelas lágrimas. Mas verdadeira.
Depois de algum esforço, Humberto finalmente soltou o cabelo e ficou olhando para as duas com a expressão mais satisfeita do planeta. Como se tivesse resolvido um grande problema.
— Desculpa.
— Não precisa. — Viviane passou a mão pelos cabelos, colocando a mecha no lugar. — Eu que fui descuidada.
Então olhou novamente para Humberto e sorriu. Um sorriso tão triste quanto carinhoso.
— Além disso... eu já consigo entender por que todo mundo é apaixonado por ele.
— Ele é uma figura. — Helena sorriu antes de dar um beijo demorado na bochecha do filho. — Muito carinhoso, muito extrovertido. Se deixar, faz amizade até com uma árvore.
Viviane soltou uma risada baixa. O olhar dela continuava preso em Humberto com uma intensidade que fez Helena sentir um aperto estranho no peito.
— Eu posso segurá-lo?
A pergunta a pegou desprevenida. Por um instante, Helena apenas observou a mulher à sua frente.
Ainda existia muita mágoa ali. Talvez sempre existisse. Algumas coisas tinham acontecido entre elas que não poderiam simplesmente ser esquecidas. As acusações. As mentiras. O exame de DNA. As pessoas que até hoje cochichavam pelas costas. Nada disso desapareceria porque Viviane estava arrependida.
Mas Helena também não conseguia ignorar a forma como aquela mulher olhava para Humberto. Era um olhar triste, não de quem queria possuir algo, mas de quem tinha perdido alguma coisa.
— Claro. — respondeu por fim.
Com cuidado, passou o bebê para os braços dela. A reação de Humberto foi tão imediata que Helena quase riu.
O menino, que segundos antes distribuía sorrisos para todo mundo, fechou a expressão na mesma hora. Os olhinhos azuis se arregalaram e ele virou o rosto para procurar a mãe.
Quando a encontrou, ficou olhando fixamente para ela. O biquinho começou a surgir devagar.
Helena precisou morder a parte interna da bochecha. Era exatamente a mesma expressão que Heitor fazia quando estava contrariado.
— Oi, mocinho. — Viviane o acomodou melhor no colo. — Está tudo bem. Sua mamãe continua aqui.
Humberto não pareceu convencido. Continuou encarando Helena como se estivesse prestes a fazer uma denúncia sobre abandono materno.
— Tudo bem, filhinho. — Helena aproximou-se e fez carinho nos cabelinhos macios dele. — Eu não fui embora e nunca irei.
O biquinho tremeu. Mais alguns segundos e viria o choro. Helena já conhecia aquele rosto. Conhecia muito bem.
Rapidamente abriu a bolsa e começou a procurar alguma coisa.
— Calma. Eu sei exatamente o que vai resolver isso.
Encontrou o chocalho de macaquinho e o ergueu como quem apresenta uma solução diplomática para um conflito. Os olhos de Humberto brilharam e o biquinho desapareceu. Os bracinhos começaram a se mexer em pura empolgação.
— Ah, então era isso. — Helena riu. — Drama por nada.
Ela balançou o brinquedo uma vez. O som familiar pareceu apagar completamente a tragédia que o bebê acreditava estar vivendo. Assim que recebeu o macaquinho, levou-o diretamente à boca com a velocidade de um profissional.
— Está vendo? — disse Helena, divertindo-se. — Ele estava morrendo de saudade.
Viviane observava tudo com um sorriso cada vez mais suave.
— Gosta bastante desse, não é?
Humberto respondeu da forma mais eloquente possível para alguém da sua idade: uma gargalhada cheia de baba. Aquilo fez as duas mulheres rirem ao mesmo tempo.
— Ele é muito fofinho. — A voz de Viviane saiu mais baixa. Mais distante. — Me traz tantas lembranças...
Por um instante, Helena percebeu que ela já não estava olhando para Humberto. Estava olhando para alguma memória. Talvez para Antônio ainda bebê. Talvez para uma época em que sua vida era mais simples. Ou talvez para um futuro que ela imaginou e nunca existiu.
Viviane respirou fundo e voltou para o presente.
— Venham. Vamos nos sentar.
As duas seguiram para a sala principal. A luz da manhã entrava pelas grandes janelas, iluminando os tons claros dos móveis e o brilho discreto dos detalhes em madeira. Tudo era impecavelmente organizado.
Viviane indicou o sofá ao lado dela e Helena se sentou, observando-a acomodar Humberto no colo com uma naturalidade surpreendente.
Era estranho.
Muito estranho.
Se alguém tivesse contado meses atrás que ela estaria sentada na sala dos Fortenelle vendo Viviane brincar com seu filho, ela teria chamado essa pessoa de maluca.
Mas ali estavam.
E, por mais que tentasse negar, a cena despertava algo doloroso. Porque Helena conseguia enxergar o vazio. Conseguia enxergar a ausência. Conseguia enxergar o quanto aquela mulher estava sozinha. Talvez por isso seu coração não conseguisse sustentar a raiva que deveria sentir.
Viviane pegou uma manta dobrada sobre o braço do sofá e, sem qualquer cerimônia, escondeu o próprio rosto atrás do tecido.
— Cadê a Viviane?
Humberto arregalou os olhos. Olhou para um lado e depois para o outro. Confuso.
A manta baixou.
— Achou!
A gargalhada do bebê ecoou pela sala. Daquelas gargalhadas gostosas que faziam qualquer adulto rir junto.
Viviane repetiu a brincadeira.
Outra gargalhada.
Depois outra.
E outra.
Em poucos minutos, Humberto estava completamente encantado e Helena percebeu algo que a fez ficar em silêncio.
A cada risada do bebê, parecia que um pouco da tristeza desaparecia do rosto de Viviane.
Como se, por alguns instantes, ela esquecesse dos problemas da Fort Group, do escândalo envolvendo Antônio, dos meses sem falar com o filho e de todas as escolhas que a haviam levado até aquele ponto.
Naquele momento, ela não era uma empresária poderosa.
Não era uma Fortenelle.
Não era a mulher que havia machucado Helena.
Era apenas uma mãe cansada. Segurando um bebê no colo e sorrindo como alguém que não fazia isso de verdade havia muito tempo.
— Espero que o favor que você tenha vindo me pedir seja para eu ficar cuidando desse fofinho enquanto você trabalha.
Viviane falou aquilo com um sorriso que Helena não via havia muito tempo. Enquanto dizia, balançava distraidamente uma mecha dos próprios cabelos diante de Humberto. O bebê acompanhava o movimento com uma concentração quase cômica. Seus olhinhos azuis iam de um lado para o outro seguindo os fios loiros, enquanto uma das mãozinhas tentava alcançá-los sem muito sucesso. A coordenação ainda não era das melhores, então os movimentos saíam desajeitados e exagerados, o que parecia deixá-lo ainda mais determinado a capturar aquele prêmio tão importante.
A observação arrancou um sorriso de Helena. Por um instante, sua mente correu para outro problema que vinha evitando enfrentar. Faltava pouco tempo para o fim da licença maternidade. Só de pensar na possibilidade de passar tantas horas longe de Humberto, sentia um aperto desagradável no peito. Mas empurrou o pensamento para longe. Não tinha ido até ali para falar sobre trabalho. Nem sobre a licença. Nem sobre si mesma.
— Não. — respondeu com um meio sorriso e com simpatia. — Apesar de eu admitir que essa oferta parece tentadora.
Viviane soltou uma risada baixa.
— Eu teria aceitado sem pensar duas vezes.
O silêncio que veio depois não foi exatamente desconfortável. Apenas carregado. Havia coisas demais entre elas para que qualquer conversa pudesse permanecer leve por muito tempo.
Helena respirou fundo.
— Sabe, Viviane... depois de tudo o que aconteceu... infelizmente não existe mais espaço para sermos amigas.
Ela preferiu ser honesta.
O sorriso desapareceu devagar do rosto da empresária. Não houve indignação. Nem defesa. Nem tentativa de argumentar. Apenas uma tristeza silenciosa que pareceu envelhecê-la alguns anos.
— Eu entendo.
Viviane abaixou os olhos para Humberto e apertou de leve a pontinha do nariz dele, arrancando uma expressão indignada do bebê.
— Acho que eu também não gostaria muito de estar perto da família Monteiro.
A frase fez Helena erguer uma sobrancelha.
Viviane sustentou o olhar dela por alguns segundos antes de continuar.
— Afinal, eu perdi a empresa que meu avô deixou para mim. — a mágoa estava ali. Não escondida. Não maquiada. Crua. — Mesmo com as ações que o Heitor deixou comigo, eu não tenho mais voz. Não voto. Não decido. Não construí aquela empresa para assistir tudo de longe.
Helena não respondeu. Não queria falar da Fort Group. Não queria falar do Heitor. Muito menos discutir quem tinha razão, porque era óbvio que a razão era do seu noivo , depois de tudo que aconteceu, Heitor ainda foi muito generoso .
Por isso abriu a bolsa e retirou o pequeno álbum que havia levado consigo.
— Eu quero te mostrar uma coisa.
A mudança de assunto pareceu surpreender Viviane.
— O que é isso?
— Veja.
As duas trocaram o bebê e o álbum. Helena recebeu Humberto de volta nos braços enquanto Viviane segurava as fotografias.
— Vou pegar meus óculos. Minha visão não é mais a mesma.
A mulher levantou-se, caminhou até uma mesa lateral e voltou poucos segundos depois usando uma armação elegante. Quando se sentou novamente, abriu o álbum sem qualquer expectativa.
Mas a expressão dela mudou já na primeira página. Helena percebeu imediatamente.
Primeiro veio a dúvida.
Depois a surpresa.
Depois algo que ela não conseguiu identificar.
Viviane virou uma página.
Depois outra.
Depois outra.
Então fechou o álbum de repente.
Retirou os óculos e ficou olhando para Helena como se ela tivesse acabado de mostrar um fantasma.
— Como você conseguiu essa foto?
— Que foto?
— Helena… — a voz saiu tão baixa que quase pareceu um sussurro. — Esse bebê é idêntico ao Antônio quando era pequeno.
Por um instante, Helena achou que tinha ouvido errado.
— O quê?
— Idêntico. — Viviane voltou a abrir o álbum e apontou para uma das fotografias. — Eu não estou falando parecido. Estou falando idêntico.
Helena observou novamente a imagem de Augusto. Continuava vendo um bebê bonito. Mas não tinha enxergado aquela semelhança. Antes que pudesse responder, Viviane já estava de pé.
— Espere.
Ela atravessou a sala com passos rápidos e abriu um armário lateral. Voltou carregando um álbum antigo, daqueles grandes, pesados, com páginas grossas e bordas já amareladas pelo tempo.
Havia carinho na forma como o segurava.
Quase reverência.
— Olha. — sentou-se ao lado dela e abriu numa página específica. — Esse aqui é o Antônio.
Helena baixou os olhos para a fotografia e perdeu a fala.
O bebê da foto tinha as mesmas bochechas redondas. Os mesmos olhos grandes. O mesmo formato do rosto. Até a expressão curiosa parecia igual.
Augusto era um mais gordinho, mas a semelhança era impressionante.
— Meu Deus...
— Eu avisei.
Pela primeira vez desde que Helena chegara, um sorriso genuíno apareceu no rosto de Viviane. Era saudade.
— Nessa foto ele tinha acabado de aprender a andar. E essa senhora aqui… — o dedo dela pousou sobre outra pessoa na imagem. — Era minha mãe. — O sorriso vacilou. — Ela faleceu há três anos.
Helena observava as páginas enquanto Viviane as virava devagar. Não parecia mais uma empresária mostrando fotografias. Parecia uma mãe revisitando lembranças que não tocava havia muito tempo.
— O Antônio também nasceu com os olhos acinzentados. — comentou, aproximando uma foto da outra. — Todo mundo dizia que eles iam ficar azuis. Mas eu sabia que não.
Ela sorriu sozinha.
— Passei meses olhando para aqueles olhos todos os dias, esperando a mudança. Eles só ficaram verdes perto dos seis meses.
Os dedos dela deslizaram sobre a fotografia com uma delicadeza que fez Helena sentir um aperto estranho no peito.
— Então, como conseguiu essas fotos? — perguntou Viviane, ainda folheando o álbum. Seus dedos pararam sobre uma das imagens. — O Antônio te entregou? Se bem que eu não lembrava dele ter sido tão gordinho.
Helena sentiu o coração apertar.
Era agora.
Ela olhou para Humberto, que continuava em seu colo, completamente entretido com a própria mãozinha, como se as adultas ao redor não estivessem tendo uma conversa capaz de mudar uma vida.
Então respirou fundo.
— Na verdade... esse é o Augusto.
Viviane ergueu os olhos. O nome não significou nada para ela.
— Augusto? — ela repetiu a palavra tentando encontrar uma lembrança perdida — Quem é esse?. — franziu levemente a testa.
Helena sentiu o coração acelerar. Por um instante, quase desistiu.
Talvez Oséias estivesse certo. Talvez aquilo fosse uma péssima ideia. Mas então olhou para Humberto, tão pequeno, tão seguro, tão amado. E pensou no outro bebê do outro lado do continente.
Sozinho.
Sem ninguém.
— Augusto é o filho do Antônio.
A sala inteira pareceu silenciar.Até Humberto parou de mastigar a própria mão.
— O bebê da barriga de aluguel.
Foi como assistir uma porta se fechar.
A mudança no rosto de Viviane foi instantânea. A cor desapareceu de suas bochechas. Seus ombros ficaram rígidos e uma das mãos subiu até o peito num gesto automático.
Por alguns segundos, ela apenas encarou Helena. Depois estendeu o álbum de volta.
— Eu agradeço a visita, querida, mas acho que está na hora de encerrarmos.
Ela começou a se levantar. Helena foi mais rápida. Segurou de leve a perna dela.
— Viviane, por favor.
— Não. — a resposta de Viviane veio seca.
— Me escuta só um minuto.
— Não, Helena.
Viviane finalmente a encarou e havia dor demais naquele olhar.
— Não faça isso comigo.
— Ele é seu neto.
— Não.
A resposta veio tão rápido que parecia automática.
— Ele não é.
— É sangue do seu sangue.
— Não é.
— Viviane...
— Esse ser foi criado em laboratório. — a voz dela tremia. — E a prova está aí. — apontou para o álbum. — Parece um clone do Antônio.
Helena sentiu o peito apertar.
— Ele é um bebê.
— Não.
— É sim.
Helena ajustou Humberto no colo.
— Igual ao Humberto.
— Não compare os dois.
— Por quê?
Viviane desviou o olhar. Porque não tinha resposta, ou talvez tivesse. Mas não queria dizê-la.
— Porque o Humberto nasceu do amor.
Aquilo fez Helena ficar em silêncio por um segundo. Então ela falou mais baixo. Mais gentil.
— Você acha que o Augusto tem culpa disso?
A pergunta atingiu em cheio. Viviane fechou os olhos. Só por um instante.
— Não.
Foi a primeira rachadura. Pequena. Quase invisível.
— Então por que ele está pagando?
Viviane voltou a abrir os olhos. E, pela primeira vez, não tinha uma resposta pronta.
A sala ficou em silêncio.
Humberto escolheu exatamente aquele momento para balançar o chocalho que ainda segurava e soltar um balbucio feliz.
— Ahhh! Uhhh! Agoo!
As duas olharam para ele. O bebê sorriu, daquele jeito que só Humberto sabia sorrir.
Como se o mundo inteiro fosse maravilhoso. Como se não existissem mágoas. Nem ressentimentos. Nem histórias complicadas.
Viviane observou o menino por alguns segundos e Helena viu. Viu exatamente o que tinha ido procurar. O olhar dela mudou, ficou mais suave, mais vulnerável. Mais parecido com o olhar que havia lançado para Humberto desde que chegaram.
Foi então que Helena decidiu arriscar.
— Eu vi você brincando com o Humberto.
Viviane não respondeu.
— Vi você sorrindo.
Nada.
— Vi você esquecer de tudo por alguns minutos.
Os olhos verdes finalmente voltaram para ela.
— Não faça isso. — Viviane disse baixinho, uma voz extremamente cansada.
Mas Helena continuou.
— Você gostou dele.
— Gostei do Humberto.
— Porque ele é um bebê.
Viviane apertou os lábios.
— Não.
— Sim.
Helena sentiu o coração acelerar.
— E o Augusto também é.
A empresária desviou o olhar para as janelas da sala. Para o jardim. Para qualquer lugar. Menos para Helena.
— Ele está sozinho.
Nenhuma resposta.
— Em outro país.
Silêncio.
— Sem pai.
Silêncio.
— Sem mãe.
Silêncio.
— Sem a avó.
Aquilo a atingiu. Helena viu. Claramente.
Viu os olhos de Viviane vacilarem. Viu a respiração dela mudar. Viu a luta acontecendo.
— Então deixa que outra pessoa o adote.
A frase saiu mais fraca do que antes. Muito mais fraca.
— Não é tão simples.
— Por quê?
— Porque a Justiça americana quer que ele seja adotado por brasileiros.
Viviane soltou uma risada descrente. Mas já não parecia tão convicta.
— Nunca ouvi falar disso.
— Eu posso te mostrar toda a documentação depois.
Helena fez uma pausa. Então decidiu dizer a verdade.
— Mas não foi por causa de papéis que eu vim.
Viviane voltou a olhá-la.
— Eu vim porque vi você com o Humberto.
O silêncio voltou.
— E porque essa casa é grande demais para uma mulher tão cheia de amor viver sozinha.
Aquilo acertou o alvo. Dessa vez não havia dúvidas. Helena percebeu na mesma hora.
— Você passou a vida inteira cuidando de pessoas. — Helena falou com suavidade — Primeiro da empresa. Depois do Antônio. Depois de todo mundo.
Os olhos de Viviane começaram a brilhar.
— E agora está aqui.
Helena olhou ao redor para a mansão enorme, bonita, impecável e vazia. As palavras do Heitor nunca fizeram tanto sentido.
— Sozinha.
Uma lágrima finalmente escorreu pelo rosto de Viviane. A primeira.
— O Humberto é um amor. — respondeu Viviane por fim — Já o outro… — parou. Tentou continuar. Mas não conseguiu. Porque, pela primeira vez, aquela certeza absoluta já não parecia tão absoluta. — O outro não deveria existir. — mesmo assim disse. Como se precisasse repetir aquilo para si mesma.
Helena assentiu devagar.
— Talvez.
Viviane ergueu os olhos surpresa. Helena apertou a mãozinha de Humberto e respirou fundo.
— Eu vou ser muito sincera com você, Viviane.
A mulher ergueu os olhos.
— Eu não consigo passar pano para o Antônio. — aquelas palavras pairaram entre as duas. — Eu não consigo fingir que ele não fez coisas horríveis. Porque fez.
Helena sentiu a garganta apertar ao lembrar de tudo. Das mentiras. Das acusações. Da maternidade. Do medo.
— Seu filho me machucou muito. Machucou o Heitor. Colocou meu filho em risco. E eu provavelmente vou carregar algumas dessas marcas para o resto da vida.
Os olhos de Viviane se encheram de lágrimas. Mas Helena continuou.
— Só que eu também não consigo olhar para você e colocar tudo isso nas suas costas.
A empresária permaneceu em silêncio.
— Porque hoje eu vi você com o Humberto. — a voz de Helena suavizou. — Eu vi a forma como você olhou para ele.
Ela sorriu de leve ao lembrar.
— Vi você brincando com ele. Vi você sorrindo para ele. Vi você esquecendo de todos os problemas por alguns minutos porque estava ocupada demais tentando fazer um bebê rir.
A lágrima escorreu pelo rosto de Viviane.
— E aquilo não foi fingimento. — Helena balançou a cabeça. — Aquilo foi amor.
O cômodo ficou alguns segundos em silêncio.
— Eu não acho que você seja responsável pelas escolhas do Antônio. — a voz de Helena saiu firme. — Porque uma pessoa que ama um bebê daquele jeito não pode ser a mulher horrível que eu imaginei que fosse depois de tudo que aconteceu.
Viviane abaixou os olhos.
— Helena...
— Eu estou falando sério.
Helena segurou melhor Humberto.
— E é justamente por isso que eu estou aqui.
Os olhos verdes voltaram para ela.
— Não porque o Augusto é um Fortenelle. Não porque ele tem o sangue da sua família.
Helena fez uma pausa.
— Eu estou aqui porque vi uma mulher que ainda tem muito amor para dar.
A expressão de Viviane vacilou.
— E vi um bebê que precisa desesperadamente receber esse amor.
Nesse momento Humberto resolveu participar novamente.
— Agoo! Ahhh! Uhhh!
As duas olharam para ele.
O bebê gesticulava energicamente, como se estivesse fazendo um discurso importantíssimo.
E, contra toda lógica, Viviane sorriu, foi um sorriso pequeno, mas verdadeiro.
Depois passou a mão pelos olhos. Respirou fundo e finalmente disse:
— Eu vou pensar.
Helena sentiu o peso sair dos ombros.
Não era um sim. Nem perto disso. Mas já não era um não. E, naquele momento, era tudo o que ela tinha ido buscar.
— Tem só mais uma coisa.
Ela pegou o celular, desbloqueou a tela e encaminhou o vídeo que James havia enviado para Heitor naquela manhã.
— Eu te mandei um vídeo.
Viviane suspirou.
— Helena...
— Assiste quando puder.
— Eu não quero.
— Não precisa assistir agora. — Helena guardou o celular. — Mas eu vou te mandar tudo sobre o processo. E tudo sobre o Augusto.
Viviane fechou os olhos por um instante e soltou o ar lentamente. Parecia cansada. Não apenas daquela conversa, mas de tudo o que havia acontecido nos últimos meses. Ajustou os óculos sobre o nariz, lançou um olhar para o relógio de pulso e, quando voltou a encarar Helena, havia um brilho diferente em seus olhos.
— Agora é a minha vez de fazer um pedido.
Helena estreitou os olhos imediatamente.
— Que tipo de pedido?
O canto da boca de Viviane se ergueu em um sorriso discreto, daqueles que sempre faziam parecer que ela estava prestes a propor um negócio.
— Gostaria que você almoçasse comigo hoje.
Helena piscou surpresa.
— Almoçar?
— Sim. — Viviane apoiou os braços nos joelhos. — Como você mesma disse, esta casa é grande demais para uma pessoa só.
A sinceridade da frase pegou Helena desprevenida.
Por um segundo, ela enxergou além da empresária poderosa, da mulher que comandou a Fort Group durante décadas. Viu apenas alguém que estava cansada de ouvir o eco dos próprios passos pelos corredores da casa.
Helena acabou sorrindo.
— Bom... um amigo meu está lá fora me esperando.
— O guarda-costas?
— O Oséias.
Viviane arqueou uma sobrancelha.
— Claro que é o Oséias.
— Eu posso ficar, mas só se ele puder almoçar com a gente.
A expressão de Viviane denunciou exatamente o que ela achava daquilo.
— Acho que não tenho muita escolha, tenho?
Helena soltou uma risada.
— Não.
— Imaginei.
Pouco tempo depois, Helena foi buscar Oséias. Como esperado, ele recusou imediatamente.
Recusou uma vez.
Depois duas.
Depois três.
E, mesmo assim, acabou entrando.
O resultado foi uma situação que certamente não estava nos planos de Viviane quando fizera o convite.
Ali estavam os três sentados à mesma mesa: Viviane Fortenelle, Helena e Oséias.
O guarda-costas passou os primeiros cinco minutos repetindo que não precisava servi-lo, que ele podia comer em pé na cozinha, que podia esperar no carro e que aquilo tudo era um absurdo.
Quando percebeu que ninguém lhe daria atenção, apenas se acomodou na cadeira e anunciou:
— Finjam que eu não estou aqui.
O comentário arrancou uma gargalhada de Helena e até um sorriso de Viviane.
A conversa acabou fluindo melhor do que qualquer uma das duas imaginava.
Falaram sobre maternidade.
Sobre trabalho.
Sobre a dificuldade de equilibrar carreira e família.
Viviane contou algumas histórias dos primeiros anos frls da Fort Group, quando passava madrugadas inteiras trabalhando e ainda precisava encontrar energia para cuidar de Antônio. Helena ouviu com atenção genuína, e, por mais estranho que parecesse, percebeu que estava se sentindo confortável.
Confortável na companhia de uma mulher que, há alguns meses, ela jurava que nunca mais gostaria de ver.
Em determinado momento, a conversa acabou indo para o fim da licença-maternidade. Helena confessou algumas das preocupações que vinha carregando em silêncio, e Viviane, com uma sinceridade surpreendente, conseguiu tranquilizá-la mais do que várias pessoas haviam conseguido nos últimos meses.
Talvez porque falasse por experiência. Talvez porque entendesse exatamente aquele medo. Ou talvez porque, naquele assunto específico, as duas fossem apenas mães.
No meio da refeição, Humberto começou a resmungar. Primeiro foi um som baixo e depois outro. Em seguida, uma reclamação mais longa.
Helena reconheceu imediatamente. Não era fome. Não era sono. Muito menos algum desconforto. Era pura manha.
— Ah, não... — murmurou ela, já sorrindo.
Assim que o pegou no colo, Humberto se acomodou contra seu peito, mas continuou reclamando baixinho, como se ainda estivesse faltando algo.
— Você está vendo? — disse Helena, balançando-o devagar. — Nem ele sabe o que quer.
Humberto respondeu com um resmungo indignado.
— Exatamente esse tom.
Viviane observava a cena com um sorriso discreto.
— Ele faz isso sempre?
— Todos os dias.
— E por que está reclamando?
— Porque quer colo.
— Mas ele já está no colo.
— Pois é.
Viviane soltou uma risada.
Helena abriu a boca para falar alguma coisa, mas Humberto escolheu aquele exato momento para afundar o rostinho em seu pescoço e emitir outro resmungo exageradamente sofrido.
Os três ficaram em silêncio por um segundo.
Então até Oséias começou a rir.
E Humberto, satisfeito por finalmente ter atraído a atenção de todos, abriu um sorriso enorme.
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